Caso Silk Road: Usando Mises de forma eficiente

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O mitologista americano Joseph Campbell, no seu Hero of a Thousand Faces, identificou um padrão na jornada do herói encontrado em diversas narrativas mitológicas, ao que ele chamou de monomito. 

Dos vários estágios monomíticos de Campbell, alguns deles caracterizam a jornada do herói libertário Ross Ulbricht, fundador da Silk Road, uma espécie de E-Bay de produtos proibidos pela gangue estatal, tais como armas e drogas. Seu site foi fechado e ele foi capturado e condenado à prisão perpétua pelo governo estadunidense, mas seu exemplo de coragem lega ao mundo uma sopro de esperança agorista que nos eleva acima das areias movediças da resignação. 

Em um dos estágios do monomito de Campbell, o herói retorna trazendo benefícios aos seus conterrâneos. No périplo de Ulbricht, isto se concretiza em cada civil inocente que conseguiu uma arma para defender sua família contra bandidos comuns e governamentais, em cada satoshi sonegado que permaneceu em honestas mãos privadas, em cada grama de cocaína ou maconha comprado de um traficante honesto e não de um cartel perigoso e violento que o governo alimenta ao proibir as drogas. 

Infelizmente, o último estágio não se realizou. Campbell o chama de “freedom to live”. Nele, o herói vence o medo da morte e se torna livre para viver plenamente. Ou talvez tenha se realizado. Ulbricht está preso mas sua mente se libertou das amarras ideológicas do sistema qual o filósofo platônico que sai da caverna, e nenhum governo no mundo pode mudar este fato. De forma oposta aos fariseus que Nosso Senhor Jesus Cristo repreende em Mateus 6, Ulbricht fez a coisa certa pelo motivo certo: sua defesa moral da liberdade respaldada pelo conhecimento econômico da tradição austríaca. Como diz a letra da canção Windmills, de Blackmore’s Night:

He fights the good fight for good reason

A star that refuses to fade

O contra-azimute de Ulbricht, um libertador liberto, um prático da liberdade, é Rodrigo Constantino, um escravizador escravo, um teórico da tirania. Em um de seus artigos mais abjetos, o neoliberal critica o radicalismo heroico de Ulbricht e faz uma vergonhosa apologia à coerção estatal contra indivíduos inocentes. Não seria tão grave caso se tratasse de um membro do PSTU escrevendo para a Revista Piauí. Mas trata-se de um suposto conhecedor de Escola Austríaca que se diz capitalista, caracterizando assim uma traição. Seu texto nefasto entorpece o espírito anarquista daqueles que ainda caminham pelas trevas liberais antes de enxergar o farol brilhante do anarcocapitalismo conservador. 

No seu ataque contra os anarcocapitalistas, únicos opositores incondicionais da tirania, Constantino defende o desarmamento civil (para o deleite de Hitler e Stalin) e o controle de preços no mercado de adoção de crianças, causa de abandono que resulta em morte. Para o liberalóide, o cidadão não pode ser livre para portar um armamento anti-carro como a bazuca, ficando vulnerável a unidades blindadas do governo. 

Constantino, na sua sanha totalitária, classifica a venda de meios de autodefesa, de drogas recreativas e de transações monetárias seguras como monstruosidade; mas faz uma defesa da mais terrível das atrocidades institucionais, a democracia, citando a equivocada teoria política misesiana. O que vou dizer agora pode ser chocante para idólatras neoliberais, mas Mises, que chegou defender até mesmo o crime de tributação, não é o Messias e seu Ação Humana não goza da infalibilidade Bíblica. 

O trecho citado no deplorável artigo alega que a democracia é um meio para evitar guerras civis e revoluções, fornecendo um método pacífico para ajustar o governo à vontade da maioria. Em primeiro lugar, não há nada de pacífico em violar propriedade privada através do clamor da turba respaldado pelo braço armado do estado. Como nos lembra James Ostrowski, Lincoln praticou seu genocídio contra o Sul para preservar princípios democráticos, o que revela a natureza de bullying da democracia. Isto ocorre o tempo inteiro no nível individual. Poderíamos ainda discorrer sobre o fato de que governos não representam a vontade da maioria, mas a manipulação dela por uma elite de engenheiros sociais. Mas basta nos atermos à ética para percebemos a imoralidade intrínseca a dois lobos e uma ovelha elegendo o prato do jantar, para usar a famosa analogia de James Bovard. 

Erik von Kuehnelt-Leddihn desmonta o mito da paz democrática e prova que as guerras entre democracias são mais destrutivas que qualquer outro tipo de conflito. Já Murray Rothbard, no seu antológico artigo Votos e Balas, demonstra a falácia do argumento de que o voto substitui o tiroteio. O resultado do voto não simula o resultado do combate, já que o voto de um jovem commando fanático tem o mesmo peso que o de uma idosa politicamente apática. Desta constatação concluo que a democracia repousa em dois pilares nefandos: a ameaça constante e latente de uso da força contra inocentes e a lavagem cerebral dos cidadãos por ela escravizados. Já dizia Joseph Sobran que, uma vez desacreditada a escravidão escancarada, a democracia é o único argumento remanescente para a compulsão estatal que as massas ainda aceitam. 

Pois é, liberalecos. Não existe apenas Mises e o esquerdista Hayek. Apesar disso, Constantino prossegue na sua defesa da “variante light do comunismo”. Citando o livro Socialismo de Mises, ele defende que a democracia é anti-revolucionária e por isso seria oposta ao marxismo.

O que temos aqui não é um argumento a favor da democracia, mas a prova de que o liberalismo democrático promove o conformismo moral requerido para implantar uma tirania sustentável através de uma revolução interna no homem, algo que as baionetas bolsheviques nunca conseguiriam. 

O liberalismo é a melhor estratégia do marxismo. Parecendo-lhe oposto, promove a ferramenta qualificada por Marx como a estrada para o socialismo. Trata-se da democracia, definida praxeologicamente como o controle de todas as propriedades por não proprietários. Segundo Karl Krauss, trata-se da oportunidade de sermos escravos de todo mundo.

Longe de promover a paz, a democracia cria contradições e conflitos artificiais provocando feridas profundas no tecido social. Pessoas que nunca se viram agridem-se mutua e indiretamente através do aparato coercitivo do estado democrático, causando não uma, mas mil revoluções por dia. A revolução se dá no coração do homem e perverte a Lei Natural, aquela que, conforme nos recorda Santo Ambrósio, submete todo homem existente. Como resultado, tudo aquilo que nos pareceria intolerável há meses atrás passa a ser aceitável quando visto pelas lentes pervertidas do processo democrático. Se a inflação é o ópio material do povo, a democracia é o ópio moral. 

Constantino parafraseia Mises acrescentando que “o liberalismo entende que não pode manter-se contra a vontade da maioria”. Eis a covardia liberal. Eis a negação da moralidade e de tudo o que nos torna humanos. 

Neste execrável trecho, Mises simplesmente descarta a necessidade do direito e toma como dada a lei do mais forte por superioridade numérica enquanto apela para dois atributos inexistentes na turba: a moralidade e a racionalidade. Jogando fora milênios de jusfilosofia, o autor liberal esquece que o objetivo do direito consiste justamente em blindar o indivíduo contra forças maiores, principalmente contra os volúveis caprichos da massa e de seus manipuladores. Eis o que Rudolf von Ihering fala sobre o tema em A Luta pelo Direito:

“Aquele que for atacado em seu direito deve resistir; — é um dever para consigo mesmo.

A conservação da existência é a suprema lei da criação animada, por quanto ela se manifesta instintivamente em todas as criaturas; porém a vida material não constitui toda a vida do homem; tem ainda que defender sua existência moral que tem por condição necessária o direito: é, pois, a condição de tal existência que ele possui e defende com o direito. (…) Temos, pois, o dever de defender nosso direito, porque nossa existência moral está direta e essencialmente ligada à sua conservação; desistir completamente da defesa, o que atualmente não é muito prático, porém que poderia ter lugar, equivaleria a um suicídio moral.”

O suicídio moral promovido pelo liberalismo, que acontece no momento em que ele rejeita a soberania individual com a desculpa esfarrapada da inevitabilidade da lei da turba, é o pavimento da estrada para o socialismo ao qual se referia Marx.

Apenas juntem as peças. Lord Acton constatou que a medida da liberdade de uma sociedade é a segurança gozada pelas minorias. E até a estatista Ayn Rand, com toda a sua torpeza moral, muito bem afirmou que a menor minoria do mundo é o indivíduo. Qual a segurança do indivíduo em uma democracia, regime no qual toda a beleza de sua unicidade é reduzida um voto dentre milhões?

De fato, Rand acerta mais uma vez quando define civilização como o processo de libertar o homem de outros homens. Ora, o contrário disso é a selvageria. Conseguimos escapar da selvageria primeva, mas como escapar da selvageria institucionalizada quando ela é propagandeada por uma corja de pseudo-intelectuais apologistas da barbárie, como Rodrigo Constantino, travestidos de cidadãos razoáveis?

O blogueiro acusa os defensores do verdadeiro livre comércio de fanatismo. Para ele, se você defende o vendedor de uma erva proibida por um grupo de sociopatas, você é um fanático. Como qualificar alguém que defende o encarceramento perpétuo deste mesmo vendedor simplesmente porque um bandido engravatado qualquer rabiscou um pedaço de papel ordenando seu sequestro e o chamou de “Lei?”

A fanática e descabida defesa do crime estatal prossegue no artigo de Constantino, que alega que a defesa e a segurança devam ser monopólios estatais. Cita Mises e despreza autores como Molinari, Hoppe, Block e Murphy. Ora, se uma agência monopoliza o setor de aplicação da violência, o que a impede de regular todos os outros setores? E quem nos fornecerá proteção contra este mesmo agente? Segurança, juntamente com educação, é o pior setor possível para ficar nas mãos do governo, cujo objetivo é sempre, já dizia Max Stirner, subjugar e domesticar o indivíduo.

Apesar dos erros de Mises, o grande economista austríaco permanece muito a frente dos liberalecos que insistem em usar seu nome para defender estados gigantes e totalitários. Constantino, convenientemente, omitiu dois dos trechos mais sensatos da obra misesiana, encontrado em “Liberalismo – Segundo a Tradição Clássica”. Ei-los:

“O direito à autodeterminação de que falamos não é o direito à autodeterminação das nações, mas, antes, o direito à autodeterminação dos habitantes de todo o território que tenha tamanho suficiente para formar uma unidade administrativa independente.  Se, de algum modo, fosse possível conceder esse direito de autodeterminação a toda pessoa individualmente, isso teria de ser feito.”

“A circunstância de se ver obrigado a pertencer a um estado, contra a própria vontade, por meio de uma votação, não é menos penosa do que a circunstância de se ver obrigado a pertencer a esse estado em razão de uma conquista militar”

A possibilidade referida por Mises no primeiro trecho deve ser julgada individualmente, configurando uma limitação técnica a ser pesada por um agente individual e soberano e não por políticos. É nítido o espírito anarquista nas entrelinhas, alicerçados em conceitos de secessão e jusnaturalismo que socialistas como Constantino insistem em sublimar. 

É verdade que Mises critica os anarquistas, mas o teor de seu ataque dirige-se não a anarcocapitalistas e sim a ideais anarcopacifistas encontrados em autores como Tolstoy. De fato o pacifismo deve ser desprezado, mas o legalismo defendido por Constantino não é outra coisa senão um pacifismo em relação ao agressor estatal. 

Discordo de Mises quando ele diz que ideias são mais poderosas que exércitos. Ideias precisam ser realizadas na prática para que seu efeito real lhes confira utilidade na sua concepção. Realizar implica em vivê-las através dos atos, fazendo-as permear nossos afetos e nossa vontade, ainda que fracassem em batalha. Se, ao contrário, divorciamos nosso intelecto da realidade prática que experimentamos, nos afastamos da verdade, algo que São Tomás de Aquino deixa claro ao escrever que “Veritas logica est adaequatio intellectus et rei” (A verdade é a adequação do intelecto à coisa). 

Assim sendo, um indivíduo que não vive na prática a liberdade que diz defender na teoria, não apenas discorda da veracidade das próprias ideias como também se afasta da própria busca da verdade devido à sua incoerência. É o caso de Constantino, que classifica como crime o ato legítimo de um agorista empreendendo no mercado negro. Não é o caso de Ulbricht, que ao dar uso prático à teoria econômica austríaca em prol da liberdade, fez mais por ela que qualquer blogueiro estatista papagaiando frases fora de contexto. Ele usou Mises de forma eficiente.

Ser livre para fazer o que o governo permite não é ser livre, mas obediente. E os obedientes (ao falso deus estado) serão escravos, nos lembra Thoreau. O ideal de liberdade apregoado pelos liberais é falso. Trata-se da liberdade como concessão estatal, em uma forma homogênea e progressista que nada tem a ver com o verdadeiro objetivo da liberdade, que é o crescimento do indivíduo nas virtudes. O Venerável Fulton Sheen, arcebispo da Igreja Católica, afirmou:

O homem deve ser livre não apenas para ser livre, mas deve sê-lo para realizar um propósito ou atingir um objetivo. É preciso saber o que fazer com a liberdade.

Ulbricht a usou para dar mais liberdade a seus semelhantes. Cabe a nós usá-la para ao menos defendê-lo moral e intelectualmente. 

5 COMENTÁRIOS

  1. Kogos, você muitas vezes menciona “como explica fulano de tal…”, mas não coloca referência sobre isso. Seria mais interessante disponibilizar cada uma para que se possa ler mais sobre o assunto, em vez de uma pequena menção.