Como cegos guiados por cegos

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Quantas vezes não acompanhamos estranhas discussões sobre inflação no noticiário econômico. Gráficos apresentados juntos com siglas esotéricas, longas explicações do porquê um determinado número deve ser alcançado, ultrapassado ou, quem sabe, calculado novamente. E, se você suspeita que a maioria dos comentaristas não faz ideia do que está falando, provavelmente você tem razão.

Originalmente, o termo inflação era usado para designar tão somente o aumento da quantidade de dinheiro em circulação num dado momento e numa determinada região. O aumento dos preços dos bens e serviços era apenas uma das consequências desse aumento de dinheiro em circulação. Entretanto, ocorreu uma transferência de nomes. Os efeitos, agora, são conhecidos pelo nome da causa. E essa não é uma inofensiva alteração de vocabulário. Como nos aponta Robert Murphy, em seu livro, Choice: Cooperation, Enterprise, and Human Action, aqueles encarregados de combater as consequências inevitáveis da inflação, o aumento dos preços, estão, na verdade, atacando os sintomas ao invés das causas. E, uma política criada para lidar com efeitos como se fossem as causas acabará necessariamente tornando as coisas piores no longo prazo, já que a raiz do mal permanecerá intocada no processo[1].

Infelizmente, essa nova acepção da palavra inflação, para designar o aumento dos preços médios numa economia e não mais o descontrole monetário dos governos, se tornou tão corrente que tentar restaurar o seu significado original não é uma tarefa fácil. Então, para distinguir o que, em nossos dias, se convencionou chamar de inflação daquilo que realmente a inflação é, usarei a expressão “inflação de preços” para o que os jornais costumam chamar de inflação e, assim, diferenciar da verdadeira inflação, a “inflação monetária”.

E, não só o alvo das políticas de controle da inflação estão no lugar errado, os instrumentos usados para orientar essas políticas também são inerentemente defeituosos. As intervenções governamentais na economia se orientam, hoje, quase exclusivamente, por índices de preços médios. Esses índices, porém, possuem uma série de problemas incontornáveis. Eles são incapazes de medir mudanças de qualidade dos produtos, por exemplo. Também não dizem nada sobre alterações de preferências dos consumidores ou como elas se refletem nos processos produtivos. Tão pouco são capazes de transmitir qualquer informação sobre a importância subjetiva que cada consumidor dá às diferentes categorias de bens e serviços disponíveis no mercado. E, como se não bastasse, índices econométricos se baseiam em filtros de médias. E, uma vez que temos diferentes maneiras de se calcular médias, cada metodologia adotada irá gerar resultados diferentes. E não existe nenhuma forma definitiva para se justificar a escolha de uma metodologia em lugar de outra[2].

Tomemos o IPCA, o Índice de Preço ao Consumidor Amplo, fornecido pelo IBGE. Esse é o indicador de inflação de preços oficial de país e, por isso mesmo, um dos mais importantes guias da política econômica. O IPCA reúne um conjunto de produtos considerados representativos do consumo do brasileiro médio. Esses produtos são divididos em alguns grandes grupos, como alimentação e bebidas, transportes, vestuário, saúde, educação e assim por diante. Esses grupos, por sua vez, possuem ainda outros subgrupos. No final, o IPCA é constituído por quase 500 agrupamentos diferentes. Cada item que compõe esse universo possui um peso específico na equação que gera o índice. Esse peso é decidido conforme a fatia do orçamento que as pessoas gastam com determinados produtos. O grupo alimentação e bebidas, por exemplo, representa 19% do índice, enquanto educação apenas 6%. Além disso, cada região em que os dados são recolhidos também têm um peso diferente dependendo da renda média dos seus habitantes.

Seja como for, independente da complexidade desse cálculo, o resultado será sempre enviesado. Vejamos, para começar, a distribuição da representatividade percentual entre os diferentes itens da cesta. O esquema de atribuição de peso pretende corresponder às decisões de consumo dos indivíduos. Entretanto, decisões de consumo mudam com o tempo. E mudam, em parte, justamente porque o preço dos bens se alteram de forma diferente uns em relação aos outros. Aqueles produtos cujos preços sobem mais rápido tendem a ser substituídos por equivalentes que aumentem de preço mais devagar. Portanto, seria necessário um reajuste constante da representatividade dos produtos que compõem a cesta. Porém, para o IPCA, a distribuição dos pesos de cada produto é reajustada conforme o POF, Pesquisa de Orçamento Familiar, também realizada pelo IBGE. Essa pesquisa possui intervalos de alguns anos entre seus levantamentos.

Ilustremos esse ponto com um exemplo simples. Um índice de preços de cervejas. Nesse nosso índice, temos apenas dois representantes: a cerveja Brahma e a cerveja Itaipava. Cada uma delas possui um peso de 50%, já que, conforme verificado no levantamento anterior, a população gasta, em média, aproximadamente o mesmo com cada uma das marcas. Consideremos que, durante um dado período, a Itaipava tenha aumentado 5% e a Brahma, apenas 1%. Se a distribuição da representatividade entre as duas cervejas permanecer como está, teremos uma inflação de preços de 3% no período.

Porém, seria ilusório esperar que o comportamento do consumidor permaneça o mesmo durante o período. Por exemplo, os consumidores podem passar a gastar 4 vezes mais em Brahma do que em Itaipava, devido justamente a diferença na taxa de aumento de preços entre as marcas. Nesse caso, a representatividade das cervejas teriam que ser reajustadas para 80% para Brahma e 20% para a Itaipava. A inflação de preços do período seria, portanto, 1,8% e não 3%. Ou seja, um atraso do reajuste da distribuição de representatividade dos itens que fazem parte nosso índice teria levado ao superdimensionamento da inflação de preços do período.

Consideremos, agora, um índice formado por dois grupos não relacionados diretamente. Por exemplo, transporte de passageiros e alimentação. E, de novo, cada um deles representando metade do índice. Imaginemos, agora, uma queda brusca de consumo de passagens aéreas, ônibus, táxis e uber. Tudo devido a, quem sabe, uma imposição arbitrária de confinamento coletivo. Assim, o grupo transporte de passageiros teve uma redução média de 5% nos preços durante o período. Já, em relação ao grupo alimentação, vamos supor um aumento de 10% nos preços no mesmo período. Novamente, se a representatividade dos grupos permanecer a mesma, teremos uma inflação de preços de 2,5%. Mas, como a queda de preços no setor de transporte foi ocasionada por uma restrição de consumo, sua representatividade no índice não poderia continuar a mesma. Digamos que o consumo no setor de transportes tenha caído pela metade. Dessa forma, o grupo transporte de passageiros representaria, na verdade, 25% do índice e alimentação, 75%. A inflação do período deveria ser 6,5% e não 2,5%. Nesse segundo caso, sem um reajuste dos pesos de representatividade, teríamos um subdimensionamento da inflação de preços.

Portanto, um índice que tenha por objetivo medir movimentos de preços médios acabará por esconder os movimentos de preços relativos e, consequentemente, como essas alterações afetam o comportamento do consumidor, que é o que realmente importa.

Não imaginemos, porém, que um ajuste mais frequente da representatividade de cada item da cesta de referência evitaria distorções. Nos nossos exemplos, a mudança de comportamento dos consumidores não foi decorrente de uma mudança de preferências de consumo. E, preferências de consumo é o fenômeno que mais importa numa economia. O que ocorreu, na verdade, foi um impedimento de acesso aos bens que, de fato, eram desejados. Impedimento criado ou por uma mudança de preços, no caso das cervejas, ou por um obstáculo legal, no caso dos transportes. De qualquer maneira, esse impedimento representa uma queda subjetiva de qualidade de vida. É essa percepção subjetiva de que a situação atual é inferior que a anterior nada mais é do que o empobrecimento relativo da população. Não é possível, porém, representar esse dado num índice de preços médio.

E não é só o comportamento dos consumidores e a corrosão de sua qualidade de vida que o IPCA é incapaz de revelar. A maneira como as mudanças de qualidade dos produtos em função dos preços afetam o comportamento do consumidor também são ignoradas pelo índice.

Consideremos um período sem mudanças de preços, porém com um aumento de qualidade crescente e constante dos produtos. Não importa se a percepção de aumento de qualidade é apenas subjetiva ou um dado concreto dos componentes dos produtos. O que interessa é que os consumidores consideram que estão obtendo mais qualidade pela mesma quantidade de dinheiro. Dessa forma, tudo mais continuando o mesmo, houve uma deflação de preços. Porém, o IPCA não registraria alterações no período, o que seria, obviamente, falso.

Para tentar contornar o problema da mudança de qualidade existe o chamado “ajuste hedônico”. Esse ajuste consiste basicamente em tentar calcular ganhos de satisfação decorrentes de inovações tecnológicas. Porém, como nos mostra Karl-Friedrich Israel, em seu artigo “Why Official Inflation Measures Don’t Work” há dois problemas graves com a ideia de ajustes de índice de preços por mudanças de qualidade.

O primeiro problema é que produtores tendem a ressaltar qualidades e melhorias de seus próprios produtos. Um processador de computador mais veloz. Um motor mais eficiente por litro de combustível. Produtores irão sempre comunicar abertamente ao mercado informações que aumentem a atratividade do que vendem. Assim, há sempre presente no mercado um esforço informativo constante para que melhorias de qualidade sejam transparentes e compreensíveis para os consumidores.

Entretanto, os mesmo produtores também têm incentivos óbvios para esconder informações sobre defeitos ou quedas de qualidade de seus produtos. Um novo modelo de smartphone terá as melhorias no processamento, o tamanho da tela, a resolução ou as câmeras ressaltadas por seus fabricantes. Outras características contudo, onde não houve um ganho de qualidade em comparação a versão anterior ou, quem sabe, até uma deterioração, não serão mencionadas abertamente. Por exemplo, componentes de metal substituídos por plástico menos durável não serão alardeados ao público. Detectar diminuições de qualidade, portanto, não é uma tarefa fácil.

Mais uma vez, não devemos imaginar que se trata apenas de um problema técnico. Melhorias de qualidade não são passíveis de serem quantificadas numericamente, já que são avaliações puramente subjetivas. Uma pessoa prefere em primeiro lugar uma característica específica de um produto qualquer, como, digamos, a cor. Em segundo lugar, a durabilidade. Em terceiro, o tamanho e assim por diante. Nem mesmo se toda sorte de especialista avaliasse cada um dos produtos que integram a cesta do IPCA seria possível evitar a distorção.

Digamos que Rebeca, dona de um belo chapéu, tenha como ordem de preferências dos atributos desse seu chapéu a seguinte hierarquia: a cor acima da textura do tecido, a textura acima do tamanho e o tamanho acima do corte. Já, sua amiga Janine prefere o corte acima da textura do tecido, a textura acima do tamanho e seja indiferente quanto à cor. Como quantificar o ganho ou perda de satisfação em função da textura do chapéu? Dizer que Janine e Rebeca possuem uma equivalência de preferência em relação a textura, pois essa característica do chapéu figura na mesma posição em ambas avaliações seria desconsiderar um fator importante: a posição de um item numa escala de preferências só possui significado em relação a ordenação de todos os demais itens desta escala. Mesmo que se peça para que Rebeca atribua um valor a textura, digamos um valor numérico numa faixa de um a cinco, isso não quer dizer que esse número tenha qualquer significado para Janine. Qualquer atribuição de valor numérico para representar ganhos subjetivos de qualidade será sempre arbitrária.

E, ainda que utilizemos valores monetários para converter uma ordinalidade de preferências numa uma cardinalidade de valores, não seria possível estabelecer qual a porção do preço negociado equivale a um ganho de satisfação subjetiva em função da qualidade de um atributo do bem.

Por exemplo, digamos, agora, que, na escala de preferências de Rebeca, o chapéu dela esteja abaixo de qualquer valor superior a cinquenta reais. Já, para Janine, o chapéu de sua amiga está acima de qualquer valor inferior a cem reais. Nesse caso, podemos dizer que o valor do chapéu de Rebeca nessa relação está em algum lugar entre cinquenta e cem reais. Se uma troca entre as duas for realizada, o preço pago pelo chapéu representa uma a atribuição de um valor cardinal a preferência de ambas as partes. O preço, entretanto, não diz nada a respeito do valor objetivo do chapéu. Não é possível deduzir, a partir do preço pelo qual uma troca foi realizada, um valor monetário representativo do ganho de satisfação das partes envolvidas.

O valor acordado numa troca não pode coincidir com o valor dado ao próprio bem negociado, caso contrário não haveria motivo para que a troca fosse realizada. Vamos supor que a troca tenha sido estabelecida em 65 reais. Isso significa dizer que Janine considera que o chapéu de Rebeca se encontra numa posição superior, na sua hierarquia de preferências, a que se encontram os 65 reais cedidos. Já, para Rebeca, o oposto é verdadeiro, o bem cedido se encontra numa posição inferior à quantidade de reais recebida. Tentar determinar o quanto desses 65 reais trocados pelo chapéu representa o corte ou a textura do tecido é não entender que atributos individuais não são avaliados independentemente do conjunto de atributos que constitui um bem. A própria troca, aliás, é, ela própria, uma ação que se realiza no horizonte de preferências em relação a todos os demais usos alternativos para os quais os bens trocados poderiam ser utilizados pelos seus donos originais. Em suma, a teia de preferências e custos de oportunidade com que cada decisão de consumo se relaciona, em cada momento específico, para cada consumidor em particular, não é um dado que caiba numa equação.

A ideia de que seja possível uma ciência econômica baseada em variáveis independentes é absurda. Fenômenos econômicos são sempre aspectos de um cadeia de relações sociais mais ampla. Não é possível se compreender problemas econômicos a partir de uma separação artificial de suas variáveis dos demais aspectos envolvidos no conjunto das ações humanas[3].

De qualquer forma, ainda que deixemos de lado o aspecto subjetivo do problema, teremos uma distorção sistemática dos resultados. Por um lado, como dissemos, melhorias são sempre divulgadas abertamente pelos fabricantes. Os preços dos produtos, através do ajuste hedônico, serão reduzidos para descontar esse aumento de satisfação decorrentes dos ganhos de qualidade. Mas, por outro lado, as quedas de qualidade, como vimos, não são facilmente identificadas. Assim, as estatísticas oficiais tenderão a desconsiderar um acréscimo nos preços relativo a queda da qualidade objetiva do bem. Isso resultará, portanto, numa inflação de preços inferior do que de realmente é.

Mas, consideremos a possibilidade de que, de alguma forma, fosse possível identificar e quantificar, com absoluta precisão, todas as avaliações subjetivas, assim como os ganhos e as perdas objetivos de qualidade dos componentes de um bem. Mesmo nesse caso, a distorção persistiria. A razão é simples. O aumento de qualidade de um produto já cria, por si só, uma pressão deflacionária de preços nos produtos competidores. Nas palavras de Karl-Friedrich Israel:

“Quando a Apple lançou o primeiro smartphone no mercado, o IPhone, houve uma pressão deflacionária sobre o preço dos telefones celulares convencionais. Isso porque a Apple abocanhou uma grande fatia do mercado dos seus concorrentes. Esses concorrentes, por isso, se viram obrigados a baixar o preço de seus celulares, o que não fariam se o IPhone não tivesse surgido. Somente através de um preço consideravelmente menor, consumidores poderiam ser levados a trocar seu dinheiro por um produto com uma tecnologia que passou a ser percebida como inferior.”[4]

Essa pressão negativa sobre o preço de bens concorrentes, devido às inovações tecnológicas, já implica numa redução do valor do resultado final do índice. Em outras palavras, a percepção de melhorias de qualidade por parte dos consumidores são refletidas na queda de preços de outros bens diretamente relacionados. Se houver um ajuste hedônico em cima do ajuste que já ocorreu naturalmente no mercado, a inflação de preços será, mais uma vez, subestimada nos números do IPCA.

Em resumo, índices de preço médio são incapazes de transmitir qualquer informação sobre o aumento ou diminuição dos custos reais de vida. Em primeiro lugar, não existe forma objetiva de atribuir representatividade de importância aos diversos itens que compõem o índice. E, ainda que se pudesse, não seria possível avaliar como uma mudança de comportamento do consumidor se relaciona com a importância subjetiva atribuída a um item. Depois, vimos que os efeitos das alterações de qualidade dos bens, que possam modificar a percepção de satisfação dos consumidores, não são passíveis de matematização e, ainda que o fossem, não haveria como saber se os ajustes de preço já não ocorreram naturalmente no mercado.

O grave de tudo isso, porém, não é que uma métrica tão falha como o IPCA seja vendida por nossos especialistas em economia para o público em geral como um retrato da realidade. A tragédia, na verdade, é são os responsáveis pelas políticas econômicas conduzirem suas decisões em função de índices de inflação de preços. Qualquer política econômica que tenha como meta atingir resultados expressos em valores de medidos em índices de preços médios significa que estamos nas mãos de cegos guiados por cegos. “E, se um cego conduzir outro cego, ambos cairão no buraco.” (Mateus 15:14)

 

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Notas

[1] Murphy, Robert P. 1976. Choice: Cooperation, Enterprise, and Human Action. Oakland, California: Independent Institute, pg. 198

[2] North, Gary. 2012. Mises on Money. Auburn, Alabama:Mises Institute, pg. 65

[3] Austrians share the scholastic belief that there is no such thing as an economic science dealing with autonomous variables.” Hülsmann, Jörg G. 2008. The Ethics of Money Production. Auburn, Alabama: Mises Institute.

[4] Why Official Inflation Measures Don’t Work

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