Da Produção de Segurança

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VI – A Monopolização e a Coletivização da Indústria da Segurança

O que acaba de ser dito sobre sal não é aplicável à segurança? Não é essa a história das monarquias e repúblicas?

Em todos os lugares, a produção de segurança começou sendo organizada como um monopólio, e em todos os lugares, hoje em dia, ela tende a ser organizada comunisticamente.

Aqui está o motivo.

Entre as mercadorias tangíveis e intangíveis necessárias ao homem, nenhuma, com a possível exceção do trigo, é mais indispensável e, portanto, nenhuma pode suportar um imposto monopolístico tão grande.

E nenhuma também é tão propícia à monopolização.

Qual, com efeito, é a situação dos homens que precisam de segurança? É a fraqueza. Qual é a situação daqueles que assumem a responsabilidade de provê-los essa necessária segurança? É a força. Se fosse de outra forma, se os consumidores de segurança fossem mais fortes que os produtores, eles obviamente dispensariam as assistências deles.

E se os produtores de segurança são originalmente mais fortes que os consumidores, não será mais fácil para os primeiros imporem um monopólio sobre os últimos?

Em todos os lugares, quando se originam as sociedades, nós vemos as classes mais fortes, mais beligerantes, tomarem para si o governo exclusivo da sociedade. Em todos os lugares, vemos essas classes assumindo o monopólio da segurança sobre fronteiras mais ou menos extensas, dependendo de seus números e forças.

E esse monopólio sendo, por sua própria natureza, extraordinariamente lucrativo, em todos os lugares nós vemos as classes investidas do monopólio da segurança dedicando-se a amargas lutas para aumentar o alcance de seus mercados e conseguir um maior número de consumidores forçados e, assim, aumentar seus ganhos.

A guerra tem sido a consequência necessária e inevitável do estabelecimento do monopólio na segurança.

Outra consequência inevitável foi que esse monopólio gerou todos os outros monopólios.

Vendo a situação dos monopolistas de segurança, os produtores de outras mercadorias não puderam deixar de notar que nada no mundo é mais vantajoso que o monopólio. Eles, assim, foram tentados a somar aos ganhos de suas próprias indústrias pelo mesmo processo. Mas do que eles precisavam para monopolizar, em detrimento dos consumidores, as mercadorias que produziam? Eles requeriam a força. Contudo, eles não possuíam a força necessária para superar a resistência dos consumidores em questão. O que eles fizeram? Eles a pediram emprestado, por uma certa consideração, àqueles que a possuíam. Eles solicitaram e obtiveram, ao preço de uma taxa acordada, um privilégio exclusivo de exercer suas indústrias dentro de certos limites determinados.

Uma vez que as taxas para esses privilégios proviam aos produtores de segurança uma boa soma em dinheiro, o mundo logo estava coberto de monopólios. O trabalho e o comércio estavam em todos os lugares algemados, acorrentados, e a condição das massas permaneceu tão miserável quanto possível.

Contudo, depois de séculos de sofrimento, quando o esclarecimento se espalhou pelo mundo pouco a pouco, as massas, que estavam sufocadas sob essas cadeias de privilégios, começaram a se rebelar contra os privilegiados e a exigir a liberdade, isto é, a supressão dos monopólios.

Esse processo tomou várias formas. O que aconteceu na Inglaterra, por exemplo? Originalmente, a classe que governava o país e que era militarmente organizada (a aristocracia), tendo como cabeça um líder hereditário (o rei) e um conselho administrativo igualmente hereditário (a Câmara dos Lordes), estabelecia o preço da segurança, a qual ela havia monopolizado, ao nível que lhe aprouvesse. Não havia negociação entre os produtores de segurança e os consumidores. Esse era o domínio do absolutismo. Mas com o passar do tempo, os consumidores, tendo tomado consciência do seu número e de sua força, se rebelaram contra o regime puramente arbitrário e obtiveram o direito de negociar com os produtores o preço das mercadorias. Para este propósito, eles mandaram delegados para a Câmara dos Comuns para discutir o nível de impostos, o preço da segurança. Eles assim foram capazes de melhorar suas condições de certa forma. Contudo, os produtores de segurança ainda podiam opinar diretamente sobre a nomeação dos membros da Câmara dos Comuns, de forma que o debate não era totalmente aberto, e o preço da mercadoria permaneceu acima de seu valor natural. Um dia os consumidores explorados se insurgiram contra os produtores e os tiraram da indústria deles. Eles então assumiram a responsabilidade de continuar essa indústria por si mesmos e escolheram para esse propósito um diretor de operações assistido por um conselho. Assim o comunismo substituiu o monopólio. Porém o arranjo não funcionou, e vinte anos depois o monopólio anterior havia sido restabelecido. Somente nesse momento os monopolistas foram sábios o suficiente para não restaurar o absolutismo; eles aceitaram o livre debate sobre os impostos, cuidando, enquanto isso, incessantemente para corromper os delegados do partido de oposição. Eles deram a esses delegados o controle de vários postos da administração da segurança, e eles até mesmo chegaram ao ponto de dar acesso aos mais influentes ao núcleo de seu conselho superior. Nada poderia ter sido mais inteligente que essa atitude. Contudo, os consumidores de segurança finalmente tomaram consciência de seus abusos e exigiram a reforma do parlamento. Essa reforma desde muito contestada foi finalmente conseguida, e, desde aquele tempo, os consumidores ganharam significante esclarecimento de seus fardos.

Na França, o monopólio da segurança, depois de ter similarmente atravessado frequentes vicissitudes e várias modificações, acabou de ser derrubado pela segunda vez. [N.T.: Molinari escrevia um ano depois das revoluções de 1848.] Como aconteceu na Inglaterra, o monopólio para o benefício de uma casta, e então no nome de uma certa classe da sociedade, foi finalmente substituído pela produção comunal. Os consumidores, como um todo, se comportando como acionistas, nomearam um diretor responsável por supervisionar as ações do diretor e de sua administração.

Nos contentaremos em fazer uma simples observação quanto ao novo regime.

Assim como o monopólio da segurança logicamente engendrou um monopólio universal, a segurança comunista deve logicamente engendrar o comunismo universal.

Com efeito, temos que escolher uma das duas alternativas:

Ou a produção comunista é superior à produção livre, ou não é.

Se for, então ela precisa ser para todas as coisas, não apenas para segurança.

Se não, o progresso requer que ela seja substituída pela livre produção.

Comunismo completo ou liberdade completa: esta é a escolha!