Desemprego e política monetária

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TERCEIRA PARTE – DESEMPREGO: CONSEQUÊNCIA INEVITÁVEL DA INFLAÇÃO

O primeiro dever de qualquer economista que mereça este nome parece-me ser o de acentuar, em todas as oportunidades, o fato de que o desemprego de hoje é a consequência direta e inevitável das chamadas políticas de pleno emprego que, nos últimos vinte e cinco anos, vêm sendo seguidas.  Muita gente ainda acredita equivocadamente que um aumento da demanda agregada eliminará, por algum tempo, o desemprego.  Esta solução para o desemprego, muito embora, no mais das vezes, seja bastante eficiente a curto prazo, longe de ter efeitos positivos, vai gerar, mais tarde, um desemprego muito maior.  E só a compreensão deste fato pode impedir o público de exercer uma pressão irresistível para retomar a inflação assim que o desemprego for aumentando consideravelmente.Compreender essa verdade básica significa reconhecer que a maioria dos economistas — cujos conselhos, durante este período, têm sido seguidos por governos em toda parte, na Grã-Bretanha e no resto do mundo ocidental — caíram no mais completo descrédito e deveriam mesmo penitenciar-se de todas as maneiras pelo que fizeram.  Aquilo que foi, durante quase trinta anos, uma ortodoxia praticamente inquestionável, passou hoje, a ser uma teoria completamente desacreditada.  A crise econômica constituiu-se em amarga derrota também para a economia, no que concerne à sua autoridade — ou pelo menos assinala o colapso, que há muito tempo já deveria ter ocorrido, do modismo da doutrina keynesiana, que dominou a opinião de toda uma geração.  Não tenho dúvidas de que, para podermos ter esperanças de voltar a uma estabilidade razoável — para não dizer a uma prosperidade duradoura —, temos que exorcizar o “demônio” keynesiano.  Não me refiro tanto ao que John Maynard Keynes, ele mesmo, pensou — porque em Keynes, como em Marx, se pode encontrar quase tudo —, mas aos ensinamentos daqueles keynesianos que, conforme a Professora Joan Robinson escreveu recentemente “algumas vezes tiveram dificuldade em fazer com que Maynard percebesse qual era, na verdade, o ponto crucial da sua própria revolução” [1].

 

Keynes confirmou a crença do setor empresarial na demanda elevada

A conquista das opiniões pela doutrina keynesiana decorre, principalmente, do fato de o seu argumento se coadunar com a velha crença dos homens de negócio de que a prosperidade depende da demanda do consumidor.  Essa conclusão, plausível mas errônea, emanou da experiência vivida pelo próprio Keynes no setor empresarial: a prosperidade geral poderia ser preservada com a manutenção de um alto nível de demanda geral.  Esse conceito, que vinha sendo, durante gerações, rejeitado pela teoria econômica, tornou-se; graças a Keynes, subitamente respeitado outra vez.  Assim, desde os anos 1930 toda uma geração de economistas formados a partir dos ensinamentos da escola keynesiana veem esta ideia como uma demonstração de óbvio bom senso.  Consequentemente, por um quarto de século, todos os métodos disponíveis capazes de provocar a expansão dos gastos monetários vêm sendo sistematicamente empregados.  Isto, a curto prazo, gera emprego adicional, mas provoca, simultaneamente, um mau direcionamento da mão de obra e, em última instância, o amplo desemprego.

 

“Depressão secundária” e medidas monetárias compensatórias

Essa relação fundamental entre inflação e desemprego não é clara porque — embora a demanda insuficientenão seja normalmente a causa primária do desemprego, a não ser durante uma real deflação, ou seja, quando há um decréscimo da quantidade de dinheiro — o desemprego pode, ele próprio, tornar-se a causa de um encolhimento total da demanda agregada.  Isso, por sua vez, pode levar a um posterior aumento do desemprego, culminando assim, num processo cumulativo de retração no qual o desemprego se alimenta do desemprego.  Esta “depressão secundária” causada por deflação induzida deveria, logicamente, ser evitada, através de medidas monetárias compensatórias apropriadas.  O grande problema — de que apenas posso falar rapidamente aqui — está em saber como isso pode ser feito, sem produzir mais efeitos negativos em termos de alocação de mão de obra.  Neste momento, porém, a nossa tarefa principal é ainda a de evitar que se recorra a um novo surto inflacionário, num esforço para combater o desemprego que o mau direcionamento da mão de obra tornou inevitável.  Esse curso de acontecimentos, além de agravar os problemas de alocação, traria, certamente, a longo prazo, consequências ainda piores.

 

É difícil identificar a mão de obra mal direcionada durante a “longa prosperidade”

Há um outro sério problema que não é justo tratar — pela complexidade dos fatos nele envolvidos — de maneira muito superficial: na sequência prosperidades-depressões, do passado, as más alocações de mão de obra eram identificadas com relativa facilidade, uma vez que a expansão de crédito durante o auge da prosperidade beneficiava quase que exclusivamente o investimento industrial.  Durante o longo período de prosperidade do pós-guerra, prosperidade esta mantida através da remoção dos vetos automáticos à inflação continuada (o padrão-ouro, as taxas de câmbio fixas, por exemplo), graças ao fato de os países deficitários terem sido liberados da necessidade de restringirem sua base monetária, e de haver provisão extra de liquidez internacional, a demanda adicional financiada pela inflação foi muito mais dispersa, o que torna extremamente difícil a identificação de sua origem.  O efeito desta demanda adicional sobre a alocação de recursos, de um modo geral, e da mão de obra, de modo particular, teria de ser analisado separadamente para cada país e em cada fase do período.  Parece-me impossível discernir com clareza onde os mais importantes superdesenvolvimentos poderiam estar localizados.  Os lugares onde os trabalhadores mal alocados — e agora, consequentemente deslocados — poderiam achar emprego duradouro, virão à tona apenas com a livre atuação do mercado.

 

A recuperação deve resultar da revitalização de investimentos lucrativos

De um modo geral, não deixa de ser verdadeira a afirmativa de que seria possível chegar bem perto de uma situação temporária de “pleno emprego” se o fato de se suprir o emprego através de obras públicas (situação da qual os trabalhadores desejarão sair, tão logo consigam outras ocupações mais bem remuneradas) viesse a impedir a queda substancial da demanda por parte dos consumidores.  Estimular investimentos e gastos similares de forma direta, porém, apenas pode conduzir trabalhadores para empregos que — por mais que estes trabalhadores esperem e desejem que sejam permanentes — desaparecerão tão logo cessem estes investimentos e gastos.

Devemos, sem dúvida, esperar que a recuperação decorra de uma revitalização do investimento.  No entanto, só podemos desejar o investimento que se prove rentável e que possa ter continuidade quando uma nova situação de estabilidade satisfatória e de alto nível de emprego for atingida.  Não se deve esperar que se chegue a essa situação através de subsídios ao investimento ou de taxas de juros artificialmente baixas.  E muito menos ainda se pode esperar que o tipo desejável, ou seja, estável, de investimento se materialize através de estímulo à demanda do consumidor.

Faz parte da mesma difundida falácia — que sempre agrada ao homem de negócios — a crença no sentido de que é preciso que a demanda do consumidor cresça para que o novo investimento seja rentável.  Isto é verdade apenas nos casos em que o investimento é destinado a aumentar a produção através do uso dasmesmas técnicas até então empregadas.  Deixa de sê-lo quando se trata do tipo de investimento que pode aumentar a produtividade “per capita” através do emprego de capital em mais equipamentos que serão utilizados pelos trabalhadores.  Este maior emprego de capital não é estimulado quando os produtos são de alto custo: na verdade, somente com os bens de consumo de custos relativamente baixos — que o tornam necessário para economizar nos gastos com pessoal — ele se mostra interessante.  Esta é uma das mais elementares relações entre salários e investimentos que, no entanto, é totalmente desprezada na economia keynesiana.

 

O monetarismo e a (macro) teoria quantitativa mecânica

Normalmente é caracterizado como “monetarista” o argumento de que a política monetária governamental é totalmente responsável pelo aumento excessivo na quantidade de dinheiro, bem como pelo consequente aumento geral dos preços observado nos países do mundo ocidental.  Considerá-lo assim, a partir desta colocação genérica, parece-me uma posição indiscutível, muito embora também seja verdade que os governos foram levados àquela política principalmente por causa da atividade de sindicatos e de outras organizações monopolísticas (o cartel do petróleo, por exemplo).  Num sentido mais restrito, a expressão “monetarista” é hoje, entretanto, frequentemente usada para identificar a posição dos expoentes de uma versão algo mecânica da teoria quantitativa do valor do dinheiro, versão esta que, a meu ver, tende a simplificar exageradamente o argumento teórico.

A principal objeção que faço a essa teoria reside no fato de que ela, por sua própria condição de “macroteoria”, dá atenção apenas ao efeito das variações da quantidade de dinheiro sobre o nível geral de preços, deixando de lado os efeitos destas variações sobre a estrutura de preços relativos.  Assim, ela não leva em conta o fato que, para mim, representa os efeitos mais nocivos da inflação: a má alocação de recursos e o desemprego que, em última instância, é gerado por esta distorção.

É verdade que, para a maioria das finalidades práticas, essa versão simples da teoria quantitativa se mostra como um guia efetivamente útil: não podemos esquecer que, de fato, as grandes inflações do passado — especialmente as que tiveram lugar na Alemanha no início dos anos 1920 e final dos 1940 — foram estancadas por homens que agiram com base nessa forma um tanto tosca da teoria quantitativa [2].  Muito embora essa visão supersimplificada dos fatos me pareça inadequada para explicar alguns dos efeitos deletérios das variações da quantidade de dinheiro, há quase quarenta anos, quando tentava remediar seus defeitos, eu já afirmava enfaticamente que “uma das piores coisas que nos poderia ocorrer seria que as pessoas, de um modo geral, novamente deixassem de acreditar nas sugestões elementares da teoria quantitativa” [3], teoria esta que, na época, tinha como principais representantes os economistas Irving Fisher e Gustav Cassel.  E foi exatamente o que aconteceu, graças ao poder de persuasão de Lorde Keynes, cujas propostas para combater a depressão dos anos 1930 haviam sido bloqueadas pelo pensamento tradicional.

 

Cantillon e Keynes

Os efeitos daquele tipo de abordagem que acabou se tornando a abordagem tradicional já haviam sido apontados há 200 anos, quando Richard Cantillon criticou a versão similar da teoria quantitativa mecânica proposta por John Locke.  Segundo Cantillon, Locke “embora soubesse que o excesso de dinheiro torna tudo mais caro, não fez uma análise de como isso ocorre.  E a grande dificuldade desta análise está justamente em descobrir por que caminhos e em que proporção o aumento de dinheiro eleva o preço das coisas.” [4].

Cantillon foi o primeiro a tentar essa análise.  O exame de como um influxo de dinheiro adicional altera a demanda relativa dos diferentes bens e serviços levou-o à explicação de como a inflação gera a má alocação de recursos — especialmente da mão de obra —, recursos estes que se tornam “redundantes” tão logo a inflação abrande ou mesmo deixe de se acelerar.  Mas essa promissora corrente de pensamento foi ofuscada pela onda keynesiana, que causou um sério retrocesso na economia e abriu as portas para erros de política governamental que envergonhariam os nossos avós.

 

Os governos agiram de acordo com maus conselhos

A atual inflação foi deliberadamente gerada por governos que agiram com base em conselhos recebidos de economistas.  Já em 1957, o Partido Trabalhista inglês, em sua proposta de um fundo nacional de aposentadoria e pensões, tratou do problema de futuras alterações de preços, pois supunha que os preços seriam duplicados entre 1960 e 1980 [5] — perspectiva que, para a época, era alarmante, mas que já está, é claro, amplamente superada.  Já em 1948, um manual de economia de muito prestígio sustentava que um aumento dos preços da ordem de 5% ao ano (o que significaria dobrá-los em menos de treze anos) era inócuo [6].  Esses economistas, como tantos outros, não levaram em consideração o fato de suas metas exigirem uma inflação em aceleração.  E qualquer inflação em aceleração mais cedo ou mais tarde se torna insuportável.  Uma taxa de inflação em ritmo constante, por sua vez, passa a ser, muito em breve antecipada nas transações normais de mercado, o que, por um lado, simplesmente não traz qualquer benefício, e, por outro, apenas prejudica os que recebem rendas contratualmente fixas.

 

“Inflação”: certo e errado

Má muita confusão nas discussões atuais, em função do uso frequentemente inadequado da palavra “inflação”.  Seu significado original e adequado é este: um aumento excessivo da quantidade de dinheiro que, por sua vez, determina um aumento de preços.  Um aumento geral de preços, porém, causado, por exemplo, por uma escassez de alimentos decorrente de más colheitas não é inflação.  Tampouco poderíamos apropriadamente chamar de “inflação” a uma alta generalizada de preços causada por uma escassez de petróleo, ou de outras fontes de energia, que determinasse uma redução absoluta de consumo, a menos que essa carência se transformasse em pretexto para um aumento adicional da quantidade de dinheiro.  Pode haver também inflação que prejudique consideravelmente o funcionamento do mercado, sem causar qualquer aumento de preços: isto acontece quando o aumento é evitado através de controle.  De fato, esse tipo de inflação “reprimida” tende a desorganizar as atividades econômicas ainda mais do que a inflação aberta.  Além de não oferecer quaisquer benefícios, mesmo a curto prazo (exceto para as pessoas que recebem o dinheiro adicional), leva diretamente ao dirigismo econômico.

 

Não há possibilidade de escolha entre inflação e desemprego

A inflação tem, obviamente, muitos outros efeitos nocivos, muito mais graves e dolorosos, aliás, do que podem supor as pessoas que não vivenciaram um processo inflacionário severo.  Mas o efeito, mais devastador, e ao mesmo tempo o menos compreendido, é que a inflação, a longo prazo, inevitavelmente leva ao desemprego em grande escala.  Simplesmente não é verdade, ao contrário do que alguns economistas dizem, que, enquanto durar o desemprego, o aumento da demanda agregada vai fazer apenas o bem, e não o mal.  Isto pode ser verdade a curto, mas não a longo prazo, não há a escolha entre inflação e desemprego, da mesma forma que não é possível escolher entre comer demais e indigestão: a glutoneria pode ser muito agradável enquanto está em processo, mas o dia do ajuste de contas — o dia da indigestão — seguramente virá.