Devemos parar de usar o termo “balança comercial”

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O antigo debate sobre comércio exterior ressurgiu com a guerra tarifária de Trump. Para ser honesto, por um bom tempo eu não via sentido nisso. A balança comercial parece uma estatística que significa muitas coisas diferentes para muitas pessoas diferentes, e o debate parece oscilar entre a visão estatista de “déficit é ruim, superávit é bom” e visões libertárias de “talvez déficit seja bom ou pelo menos não seja ruim?”

Quando me aproximo de um evento econômico que não consigo entender, tento voltar à praxeologia. Os humanos agem de forma intencional em prol de seus objetivos. Isso basicamente significa olhar para princípios básicos e para o que está acontecendo na realidade para o indivíduo. Essa é a pergunta que ninguém parece estar fazendo. O que exatamente é a balança comercial e ela descreve ou se relaciona a uma situação real existente?

Definição

A balança comercial é definida em termos leigos como exportações menos importações em um país durante um determinado período. Se as exportações são maiores que as importações, temos superávit; por outro lado, se o comércio é “negativo”, então temos déficit. Superficialmente, isso parece aceitável, mas aprofundando um pouco mais podemos começar a ver muitos problemas com essa estatística.

Cálculo

Como a balança comercial é calculada? Parece que é um mosaico de dados de diferentes fontes, com muitas lacunas preenchidas por estimativas. É uma estatística inventada que pode ser manipulada para se encaixar em uma narrativa específica, mas esse não é seu principal problema.

Valor Monetário

Outro problema é que estamos comparando os preços de mercado dos bens exportados com os preços dos bens importados. Mas em qual mercado? E em que moeda? A que horas? Se o número já for calculado a partir de dados muito pouco confiáveis da quantidade dos bens, isso piora ao estimar quais são esses preços para os bens chegarem a um valor monetário total. Qualquer pessoa já deveria ficar com o pé atrás com essa estatística. No entanto, essa questão não é importante.

Moeda

Há quem argumente que um déficit comercial é realmente bom porque é assim que os países estrangeiros obtêm, por exemplo, dólares para comprar produtos dos EUA, facilitando assim as exportações. Mas isso é real? O saldo comercial supostamente acompanha bens e serviços, e se você somar movimentos de capital, então obtém o balanço de pagamentos. Mas isso não significa que bens e serviços dos EUA sejam exportados em dólares ou importados em dólares.

Lembro de ter comprado um escalador de ultrassom em uma fábrica chinesa por meio de uma plataforma online. Paguei com euros. Nunca vi um yuan, e estou convencido de que a fábrica recebeu yuans e não euros. O que acontece na vida real é que as moedas são trocadas durante a negociação, no meu caso vendendo euros e comprando yuans. Isso tem algum efeito nas taxas de câmbio, mas o principal motor das taxas de câmbio é a inflação monetária. Se isso muda algo, é o contrário: mudanças nas taxas de câmbio entre moedas afetam o valor negociado entre fronteiras. Esse problema não é o motivo pelo qual a balança comercial não é útil.

Troca

Ao levar em conta apenas os bens que cruzam a fronteira, a balança comercial ignora completamente que todo comércio é uma troca. Dizer que entro em um “déficit comercial” com minha cafeteria local quando compro um café confunde o argumento. Para conseguir esse café, eu troco dinheiro que valorizo menos pelo café que valorizo mais. A cafeteria faz o mesmo, troca cafés que valorizam menos por dinheiro que valorizam mais. Portanto, contar apenas o movimento de mercadorias não faz sentido. Ignora metade do que está acontecendo. No entanto, esse não é o problema.

Comércio

Além de sua precisão muito duvidosa, a balança comercial também deturpa completamente o que está acontecendo durante as exportações e importações. Quando uma empresa exporta um carro, ela não obtém todo o valor monetário desse bem. Muito disso já foi gasto. Uma grande parte do preço será destinada aos custos de produção do carro. O que é efetivamente negociado é apenas a parte do lucro. E isso é completamente diferente dependendo do que é negociado. Algumas indústrias são muito intensivas em capital, como carros, enquanto outras têm uma intensidade de capital muito baixa, como software. Contar o valor monetário total de um bem mistura carros com laranjas, aço com software, e não faz sentido. Estruturas de capital são diferentes, margens de lucro são diferentes, estruturas de trabalho também diferem. Independentemente disso, esse não é o problema da balança comercial.

Realidade

Voltando à praxeologia, as pessoas frequentemente esquecem que os países não comercializam, os indivíduos sim, e que eles negociam com um propósito. Esse é o principal problema da balança comercial e da balança de pagamentos. Elas não descrevem nada que acontece na realidade. Então, o que realmente acontece durante o comércio internacional?

Normalmente, um importador compra um bem estrangeiro com seu investimento e revende o bem nacionalmente com o objetivo de obter lucro. Um exportador fará o mesmo — comprará um bem nacional e o venderá no exterior para obter lucro. Isso foi descrito de forma mais elegante por Bastiat. Isso significa que o comércio internacional, assim como qualquer outro comércio, é uma troca mutuamente benéfica, caso contrário não aconteceria. As exportações criam valor e, portanto, beneficiam os indivíduos envolvidos e a comunidade em geral, mas, mais importante, as importações fazem o mesmo.

Então, na verdade, não existe “balança comercial”, pois você não pode realisticamente subtrair lucro por lucro, muito menos juntar diferentes operações feitas por pessoas diferentes em momentos diferentes e dizer “isso é uma entrada” e formar outro grupo e dizer “isso é uma saída”, subtrair uma da outra e chegar a um número significativo. O comércio honesto voluntário é sempre benéfico.

Conclusão

Sempre que a balança comercial é mencionada, nossa resposta deve ser apontar que se trata de uma estatística sem sentido. Isso é importante porque é ela usada para justificar coisas muito negativas que realmente produzem déficit: impostos na forma de tarifas, subsídios que retiram recursos dos produtivos para os improdutivos, e regulamentações que destroem recursos. Todas essas coisas causam resultados negativos. Não devemos dar crédito a uma estatística que foi inventada apenas para promover intervenções governamentais.

Isso já é conhecido há muito tempo. Devemos parar de usar termos como “superávit comercial” ou “déficit comercial”. O comércio é sempre um superávit e o único déficit vem das intervenções do governo.

 

 

 

 

Artigo original aqui

Leia também:

Sobre as origens mercantilistas e monárquicas do conceito de ‘balança comercial’

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