Não, governos autoritários não superam “sociedades abertas” em uma crise

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Existem alguns clamores bastante perturbadores por “soluções” urgentes, após o relato de como os países lidaram e não lidaram com o COVID-19. Não se trata de quão contagioso ou perigoso o vírus realmente é, tema que não é a minha especialidade, mas a incompreensão típica e perigosa da suposta eficiência da hierarquia e, portanto, a eficácia das sociedades de controle, do regime autoritário e dos regimes ditatoriais.

Simplificando, a alegação é de que a China “lidou direito”, foi capaz de fazer algo agindo com rapidez e força e, por implicação, que as sociedades abertas são impotentes a ameaças e fundamentalmente frágeis. Mas isso está completamente errado. Esse equívoco surge de uma incompreensão comum, mas fundamental, da organização social (como sociedade, mercados, etc.). E, curiosamente, é feito por pessoas que definitivamente deveriam saber disso, incluindo investidores e empresários influentes do Vale do Silício.

Existe certa razão no argumento de que um poder centralizado pode agir com mais rapidez e força (ou seja, brutalmente e sem respeito por indivíduos ou grupos de pessoas), mas é baseado em suposições vergonhosamente ignorantes. Para que fosse verdade, exigiria que o regime, os que estão no poder, possuíssem as informações corretas e agissem de acordo com os interesses da sociedade. Essas não são suposições apenas exageradas, são totalmente irreais.

Não vou especular se isso deriva do mito de que um rei é um déspota iluminado, até designado por um deus, coisa que nos foi dita séculos por aqueles que se beneficiam dessa mentira. O que importa é que, embora a hierarquia possa de fato agir rapidamente, ela sempre age com informações incorretas. E, do ponto de vista da sociedade em geral, age com objetivos errados, colocando a vontade da liderança acima da vontade das pessoas em geral. Em uma hierarquia de controle como a da China, informações precisas não fluem livremente e certamente não sobem até os tomadores de decisão.

O mesmo acontece, embora com menores pressões, em qualquer burocracia governamental (e corporativa).

Os fragmentos das informações locais também não são reunidos e condensados ​​adequadamente. Ninguém nessas hierarquias tem um incentivo para fazer “a coisa certa”, especialmente para as pessoas comuns. O incentivo é cuidar dos seus próprios umbigos. Como em todas as burocracias, especialmente as políticas, a prioridade número um é evitar ser responsabilizado por algo que dá errado. Mantenha a cabeça baixa e siga as regras; certifique-se de que os superiores estejam satisfeitos, por qualquer motivo, e mantenha seus subordinados sob controle. Se você não fizer só o arroz com feijão, será sacrificado na fogueira se algo der errado.

Aqueles que pedem uma ação rápida e apontam para as cidades multimilionárias da China em quarentena como uma “receita de sucesso” para impedir o contágio devem acreditar que a hierarquia transmite adequadamente as informações corretas e filtra dados irrelevantes (o que é simplesmente impossível) ou que informações não importam (a opinião tenebrosa do “temos que fazer algo”, que será mais mortal que o vírus).

É verdade, como Danielle Pletka argumenta, que as ditaduras apenas pioram as pandemias. A ação rápida e vigorosa baseando-se em informações *erradas*, ou sem respeito pela vida e pelas liberdades humanas, é e não pode deixar de ser nada além de desastrosa. A história está repleta de exemplos de tais regimes, e seu histórico é, sem exceção, abominável.

Pode parecer contra-intuitivo, mas a verdade é que os sistemas descentralizados de tomada de decisão e ao estilo do mercado livre sempre superam a centralização e o poder – porque agregam e condensam informações de maneira muito mais apropriada e porque permitem ações mais apropriadas às condições locais. Entendo que o medo, alimentado pelo alarmismo, pode levar ao pânico e a um julgamento ruim. Mas o apelo ao autoritarismo como solução, independentemente da ameaça, é muito pior que um julgamento ruim.

Não é apenas a ignorância de como as hierarquias funcionam, mas um tipo de ignorância que sempre termina historicamente em assassinatos em massa. Se isso soa como uma solução rápida, fique longe. Pode ser rápido, mas não é uma solução. Cabe-nos não ouvir os falsos profetas e resistir à tentação de acreditar em promessas impossíveis.

A centralização é uma dessas promessas que sempre foi oferecida como solução, mas nunca cumprida. A não ser que você seja alguém que busca e lhe seja concedido o poder, como os reis da antiguidade. E o denominador comum deles não era servir altruisticamente pessoas comuns. Como em qualquer momento de crise, o melhor curso de ação é manter a cabeça fria e não entrar em pânico.

O apelo ao autoritarismo, ignorantemente apresentado como uma solução rápida, é, na melhor das hipóteses, irresponsável. Mas poderia ser muito, muito pior.

 

Artigo original aqui.

2 COMENTÁRIOS

  1. O estado liberal clássico geral um dos piores leviatas da historia q é os EUA. É muito simples perceber q quando VC coloca o poder de decisão ultima na mão de um grupo de pessoas, a tendencia logica é o aumento dessa estrutura em favor dos intgrantes do estado, até q ele se torne um estado máximo. Esse tipo de afirmação é tipica de quem nunca refletiu sobre os mecanismos econômicos e sociais e sequer estudou um pouco de historia q já revela o erro desse tipo de pensamento.
    A única vantagem de sociedades autoritárias é atingir o objetivo de déspotas q queiram impor a sua visão de mundo pro resto da sociedade q ele controla, isso de forma alguma é vantajoso do ponto de vista das pessoas q compõe essa sociedade e estão fora do estado. Caso como epidemias só podem ser tratado com eficiência levando em considerações as circunstancias de caca região, e decisões q partam de forma hierárquica, como dita no texto, n são capazes de cobrir rapidez e dinamismo, as mudanças de informações e desejos das pessoas, uma sociedade livre baseada em propriedade privada é o meio pelo qual relaçoes humanas, q compõe a sociedade, podem ser articuladas da melhor forma possível do ponto de Vitas dos indivíduos q compõe o todo dessa sociedaxd

  2. Sociedades como a China sempre terão vantagems quando existe um objetivo claro. O que não pode ser justificado de forma alguma. A grande dificuldade da utopia liberal é ser capaz de se defender desse inimigo, que, a minha opinião, seja impossível. Por isso acredito que, apesar de todos seus problemas, arbitrariedades e dificuldades para controlar o estado o liberalismo clássico é o único arranjo de sociedade almejavel.