O Caminho da Servidão

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CAPÍTULO I – O CAMINHO ABANDONADO

Quando o curso da civilização toma um rumo inesperado quando, ao invés do progresso contínuo que nos habituamos a esperar, vemo-nos ameaçados por males que associamos à barbárie do passado – naturalmente atribuímos a culpa a tudo, exceto a nós mesmos. Não temos todos nos esforçado ao máximo? Não têm muitos dos espíritos mais esclarecidos desenvolvido um trabalho incansável para tornar este mundo melhor? Não estiveram nossos esforços e esperanças voltados para maior liberdade, justiça e prosperidade? Se o resultado diverge tanto dos objetivos se ao invés de liberdade e prosperidade, servidão e miséria surgem-nos à frente – não é óbvio que forças sinistras frustraram nossas intenções e somos vítimas de algum poder maligno que é preciso dominar antes de retomarmos o caminho para um mundo melhor? Por mais que possamos discordar quanto à causa desta situação – o capitalista perverso ou o espírito malévolo desta ou daquela nação, a estupidez de nossos pais ou um sistema social que ainda não foi derrubado por completo, apesar de meio século de lutas – todos estamos certos de uma coisa, ou pelo menos estávamos, até recentemente: as ideias que ao longo da geração passada foram seguidas pela maioria dos homens de boa vontade e determinaram grandes mudanças em nossa vida social não podiam estar erradas. Estamos dispostos a aceitar quase todas as explicações para a presente crise da nossa civilização, exceto que ela resulte de um erro de nossa parte, e que a busca de alguns dos nossos mais caros ideais tenha produzido efeitos tão diferentes dos esperados.

Enquanto concentramos todas as nossas energias em vencer esta guerra, é-nos às vezes difícil lembrar que mesmo antes da guerra os valores pelos quais hoje lutamos estavam ameaçados em nosso próprio país, e destruídos em outros. Embora neste momento os ideais diferentes sejam representados por nações antagônicas que lutam para preservá-los, não devemos esquecer que o atual conflito surgiu de um embate de ideias no seio do qual, não há muito, havia uma única civilização europeia; tampouco devemos esquecer que as tendências que culminaram com a criação dos sistemas totalitários não estavam limitadas aos países que a elas sucumbiram. Conquanto a primeira tarefa seja agora vencer a guerra, a vitória nos proporcionará apenas outra oportunidade para enfrentar os problemas básicos e encontrar um meio de evitar o destino que atingiu civilizações congêneres.

Não deixa de ser difícil pensar na Alemanha, na Itália ou na Rússia, não como mundos diferentes, mas como produtos de uma evolução de ideias da qual nós mesmos participamos. É mais fácil e mais cômodo, pelo menos no tocante aos nossos inimigos, pensar que eles são inteiramente diferentes de nós e que aqui não pode acontecer o que lá aconteceu. Contudo, a história desses países nos anos anteriores ao surgimento do sistema totalitário apresentava poucos aspectos estranhos à nossa. O conflito externo é o resultado de uma transformação do pensamento europeu que se acelerou mais entre alguns povos, levando-os a uma divergência irreconciliável com os nossos ideais, transformação que, no entanto, não deixou de nos atingir.

O fato de uma mudança das ideias e a força de vontade humana terem tornado o mundo o que ele é agora, embora os próprios homens não previssem esses resultados, e de nenhuma mudança espontânea nos fatos nos ter obrigado a adaptar a isso nosso pensamento é talvez algo que os ingleses tenham particular dificuldade de compreender, justamente porque, para sua felicidade, eles tardaram a acompanhar a modificação do pensamento verificada entre a maior parte dos povos europeus. Ainda julgamos que os ideais pelos quais nos pautamos, e que nortearam a geração passada, só se realizarão no futuro, e não percebemos o quanto, nestes últimos vinte e cinco anos, eles já transformaram não apenas o mundo mas também este país. Ainda acreditamos que até época recente éramos governados pelo que se definia de modo vago como as ideias do século XIX, ou o princípio do laissez-faire. Em relação a alguns países, e do ponto de vista dos que estão impacientes por acelerar tais mudanças, talvez essa convicção se justifique em parte. Mas embora até 1931 a Inglaterra tenha avançado muito lentamente no caminho trilhado por outros países, estava tão adiantada nessa ocasião que só aqueles cuja memória alcança os anos anteriores à Primeira Guerra Mundial sabem o que era um mundo liberal.1

O aspecto crucial de que o nosso povo ainda tão pouco se apercebe, contudo, não é apenas a magnitude das transformações ocorridas durante a geração passada, mas o fato de que elas significam um completo desvio da evolução de nossas ideias e da ordem social. Durante pelo menos vinte e cinco anos antes de o espectro do totalitarismo se tornar uma ameaça real, fomos nos afastando progressivamente das ideias básicas sobre as quais se erguera a civilização ocidental. O fato de que este novo rumo tomado com tanta esperança e ambição nos fizesse deparar com o horror do totalitarismo representou um profundo choque para esta geração, que se recusa ainda a relacionar uma coisa à outra. Contudo, este desdobramento apenas confirma as advertências dos fundadores da filosofia liberal que ainda professamos. Fomos aos poucos abandonando aquela liberdade de ação econômica sem a qual a liberdade política e social jamais existiu no passado. Embora alguns dos maiores pensadores políticos do século XIX, como de Tocqueville e lord Acton, nos advertissem de que socialismo significa escravidão, fomos continuamente avançando em direção ao socialismo. E agora, tendo visto uma nova forma de escravidão manifestar-se diante de nós, já esquecemos de tal modo essa advertência que mal nos damos conta da possível relação entre as duas coisas2.

A tendência moderna ao socialismo não implica apenas um rompimento definitivo com o passado recente, mas com toda a evolução da civilização ocidental, e isso se torna claro quando o consideramos não só em relação ao século XIX, mas numa perspectiva histórica mais ampla. Estamos rapidamente abandonando não só as ideias de Cobden e Bright, de Adam Smith e Hume, ou mesmo de Locke e Milton, mas também uma das características mais importantes da civilização ocidental que evoluiu a partir dos fundamentos lançados pelo cristianismo e pelos gregos e romanos. Renunciamos progressivamente não só ao liberalismo dos séculos XVIII e XIX, mas ao individualismo essencial que herdamos de Erasmo e Montagne, de Cícero e Tácito, de Péricles e Tucídides. O líder nazista que definiu a revolução nacional-socialista como uma contra-Renascença estava mais próximo da verdade do que provavelmente imaginava. Ela representou a etapa final da destruição da civilização construída pelo homem moderno a partir da Renascença e que era, acima de tudo, uma civilização individualista. O individualismo tem hoje uma conotação negativa e passou a ser associado ao egoísmo. Mas o individualismo a que nos referimos, em oposição a socialismo e a todas as outras formas de coletivismo, não está necessariamente relacionado a tal acepção. Só de maneira gradual, no decorrer deste livro, é que poderemos esclarecer a distinção entre os dois princípios opostos. Por enquanto podemos dizer que o individualismo, que a partir de elementos fornecidos pelo cristianismo e pela filosofia da antiguidade clássica pôde desenvolver-se pela primeira vez em sua forma plena durante a Renascença e desde então evoluiu e penetrou na chamada civilização ocidental, tem como características essenciais o respeito pelo indivíduo como ser humano, isto é, o reconhecimento da supremacia de suas preferências e opiniões na esfera individual, por mais limitada que esta possa ser, e a convicção de que é desejável que os indivíduos desenvolvam dotes e inclinações pessoais. “Liberdade” é agora uma palavra tão desgastada que devemos hesitar em empregá-la para expressar os ideais por ela representados durante aquele período. Talvez “tolerância” seja o único termo que ainda expresse o pleno significado do princípio que predominou durante esse período, e apenas em tempos recentes voltou a declinar, desaparecendo de todo com o advento do estado totalitário.

A transformação gradual de um sistema hierárquico organizado em moldes rígidos num sistema em que os homens podiam pelo menos tentar dirigir a própria vida, tendo a oportunidade de conhecer e escolher diferentes formas de existência, está intimamente ligada ao desenvolvimento do comércio. Das cidades comerciais do norte da Itália, a nova concepção de vida irradiou-se, graças ao comércio, para o oeste e o norte da Europa e chegou, através da França e do sudoeste da Alemanha, aos Países Baixos e às Ilhas Britânicas, consolidando-se onde quer que não fosse sufocada pelo despotismo político. Nos Países Baixos e na Grã-Bretanha, conheceu por longo tempo a sua mais plena expansão, e pôde, pela primeira vez, evoluir livremente, tornando-se a base da vida política e social nesses países. E foi deles que, em fins do século XVII e durante o século XVIII essa concepção voltou a difundir-se, agora melhor desenvolvida, para oeste e leste, para o Novo Mundo e para a Europa Central, onde guerras devastadoras e a opressão política haviam em grande parte asfixiado os primórdios de uma evolução semelhante ocorrida em séculos anteriores3.

Durante todo esse período moderno da história europeia, a tendência geral do desenvolvimento social era libertar o indivíduo das restrições que o mantinham sujeito a padrões determinados pelo costume ou pela autoridade no que dizia respeito a suas atividades ordinárias. A constatação de que os esforços empreendidos pelos indivíduos de modo espontâneo e não dirigido pela autoridade eram capazes de produzir uma complexa ordem de atividades econômicas só poderia ocorrer depois que esse processo de desenvolvimento tivesse avançado até certo ponto. A elaboração de uma tese coerente de defesa da liberdade econômica resultou do livre desenvolvimento das atividades econômicas que tinham sido um subproduto imprevisto e não planejado da liberdade política.

O resultado mais importante da liberação das energias individuais foi talvez o maravilhoso desenvolvimento da ciência que acompanhou o avanço da liberdade individual da Itália à Inglaterra e mais além. O fato de que a criatividade do homem não fora menor em épocas anteriores é demonstrado por numerosos brinquedos automáticos muitíssimo engenhosos e por outros instrumentos mecânicos construídos quando a técnica industrial ainda permanecia estacionária, bem como pelo desenvolvimento de alguns setores da economia que, como a indústria extrativa ou a relojoaria, não estavam sujeitos a controles restritivos. Mas as poucas tentativas no sentido de uma aplicação industrial mais ampla dos inventos mecânicos, alguns deles extraordinariamente avançados, foram de pronto suprimidas, e o desejo de conhecimentos sufocado, na medida em que a submissão às ideias dominantes era considerada imperiosa: as opiniões da grande maioria sobre o que era certo e conveniente foram fechando o caminho ao indivíduo inovador. Só depois que a liberdade industrial permitiu a livre utilização dos novos conhecimentos, depois que se tornou possível qualquer experimentação – desde que alguém se dispusesse a financiá-la, e, cumpre acrescentar, isto ocorria, na maioria das vezes, fora do âmbito das autoridades oficialmente encarregadas do cultivo do saber – só então é que a ciência deu os grandes passos que nos últimos cento e cinquenta anos mudaram a face do mundo.

Como tantas vezes acontece, a natureza de nossa civilização foi percebida com maior clareza por seus adversários do que pela maioria de seus defensores: “a eterna doença do Ocidente, a revolta do indivíduo contra a espécie”, conforme a chamou Augusto Comte, aquele totalitário do século XIX, foi, na realidade, a força que construiu nossa civilização. A contribuição do século XIX ao individualismo do período precedente foi apenas trazer a todas as classes a consciência da liberdade, desenvolver sistemática e continuamente o que surgira de modo aleatório e fragmentário, e disseminá-lo da Inglaterra e Holanda para a maior parte do continente europeu.

As consequências desse processo de crescimento superaram as expectativas. Onde quer que fossem suprimidos os obstáculos ao livre exercício do engenho humano, o homem logo se tornava capaz de satisfazer o seu crescente número de desejos. E se, por um lado, a elevação do padrão de vida em breve levava à descoberta de grandes mazelas na sociedade que os homens não mais estavam dispostos a tolerar, por outro lado, provavelmente, não houve classe que não se tenha beneficiado de modo substancial com o progresso geral. Não poderemos fazer justiça a esse crescimento estarrecedor se o medirmos pelos padrões contemporâneos, que dele decorrem e que agora tornam evidentes tantos defeitos antes não percebidos. O que tal progresso significou para os seus protagonistas deve ser avaliado pelas esperanças e os desejos que os homens tinham quando ele começou; e não cabe a menor dúvida de que seu êxito ultrapassou os sonhos mais ousados. Em princípios do século XX, o trabalhador do mundo ocidental havia alcançado um grau de conforto material, segurança e independência que pareceria impossível um século antes.

Provavelmente, o que no futuro será considerado o efeito mais significativo e abrangente desse êxito é a nova consciência de poder sobre o próprio destino, a convicção das infinitas possibilidades de melhorar a própria sorte, adquiridas pelo homem em virtude do sucesso já alcançado. Com o sucesso nasceu a ambição – e o homem tem todo o direito de ser ambicioso. O que tinha sido uma promessa animadora já não parecia suficiente, e o ritmo do progresso afigurava-se demasiado lento. Os princípios que haviam possibilitado esse avanço no passado começaram a ser considerados obstáculos à rapidez do progresso, a serem eliminados imediatamente, e não mais as condições para a preservação e o desenvolvimento do que já fora conquistado.

Os princípios básicos do liberalismo não contêm nenhum elemento que o faça um credo estacionário, nenhuma regra fixa e imutável. O princípio fundamental segundo o qual devemos utilizar ao máximo as forças espontâneas da sociedade e recorrer o menos possível à coerção pode ter uma infinita variedade de aplicações. Há, em particular, enorme diferença entre criar deliberadamente um sistema no qual a concorrência produza os maiores benefícios possíveis, e aceitar passivamente as instituições tais como elas são. Talvez nada tenha sido mais prejudicial à causa liberal do que a obstinada insistência de alguns liberais em certas regras gerais primitivas, sobretudo o princípio do laissez-faire. Contudo, de certa maneira, essa insistência era necessária e inevitável. Diante dos inumeráveis interesses a demonstrar que certas medidas trariam benefícios óbvios e imediatos a alguns, ao passo que o mal por elas causado era muito mais indireto e difícil de perceber, apenas regras fixas e imutáveis teriam sido eficazes. E como se firmara uma forte convicção de que era imprescindível haver liberdade na área industrial, a tentação de apresentá-la como uma regra sem exceções foi grande demais para ser evitada.

No entanto, essa atitude assumida por muitos vulgarizadores da doutrina liberal tornava quase inevitável que, uma vez abalados alguns de seus pontos, logo toda ela desmoronasse. Tal posição enfraqueceu-se ainda mais devido ao progresso necessariamente lento de uma política que visava à gradativa melhoria do arcabouço institucional de uma sociedade livre. Esse progresso dependia da nossa maior compreensão das forças sociais e das condições mais favoráveis ao seu bom funcionamento. Como a tarefa era auxiliar e, onde fosse preciso, suplementar a ação de tais forças, o primeiro requisito era compreendê-las. A atitude do liberal para com a sociedade é semelhante à do jardineiro que cuida de uma planta e que, a fim de criar as condições mais favoráveis ao seu crescimento, deve conhecer tudo o que for possível a respeito da estrutura e das funções dessa planta.

Nenhum espírito sensato teria duvidado de que as regras primitivas nas quais foram expressos os princípios da política econômica do século XIX eram apenas o começo, de que ainda tínhamos muito a aprender e de que havia ainda imensas possibilidades de progresso no caminho que vínhamos seguindo. Mas esse progresso só seria alcançado à medida que conquistássemos um crescente domínio intelectual das forças que teríamos de empregar. Muitas eram as tarefas evidentes, como o aperfeiçoamento do sistema monetário e a prevenção ou o controle do monopólio, e eram ainda mais numerosas as tarefas menores, mas nem por isso menos importantes, em outros campos em que o governo sem dúvida possuía enormes poderes para o bem e para o mal; tudo levava a esperar que, com uma melhor compreensão dos problemas, algum dia teríamos condições de empregar com êxito esses poderes.

Mas se o avanço rumo ao que costumamos chamar ação “positiva” não podia deixar de ser lento, e se, para aperfeiçoar-se de imediato, o liberalismo tinha de valer-se em grande parte do aumento gradual da riqueza trazida pela liberdade, precisaria por outro lado combater constantemente as propostas políticas antiliberais que ameaçavam esse avanço. O liberalismo veio a ser considerado uma filosofia “negativa” porque não podia oferecer a cada indivíduo mais do que uma participação no progresso comum – progresso cada vez mais considerado natural e inevitável e não mais encarado como decorrente da política de liberdade. Pode-se mesmo dizer que o próprio sucesso do liberalismo tornou-se a causa do seu declínio. Devido ao êxito já alcançado, o homem se foi mostrando cada vez menos disposto a tolerar os males ainda existentes, que a essa altura lhe pareciam insuportáveis e desnecessários.

A impaciência crescente em face do lento progresso da política liberal, a justa irritação com aqueles que empregavam a fraseologia liberal em defesa de privilégios antissociais, e a ilimitada ambição aparentemente justificada pela melhoria material já conquistada fizeram com que, ao aproximar-se o final do século, a crença nos princípios básicos do liberalismo fosse aos poucos abandonada. Tudo o que fora conquistado passou a ser considerado um bem estável, indestrutível e definitivo. Os olhos do povo fixaram-se em novas reivindicações, cuja rápida satisfação parecia obstada pelo apego aos velhos princípios. Passou-se a acreditar cada vez mais que não se poderia esperar maior progresso dentro das velhas diretrizes e da estrutura geral que permitira os avanços anteriores, mas apenas mediante uma completa reestruturação da sociedade. Já não se tratava de ampliar ou melhorar o mecanismo existente, mas de descartá-lo e substituí-lo por outro. E à medida que as esperanças da nova geração se voltavam para algo inteiramente novo, a compreensão e o interesse pelo funcionamento da sociedade existente sofreram brusco declínio. Com esse declínio, declinou também a nossa consciência de tudo o que dependia da existência do sistema liberal.

Não cabe aqui discutir como essa mudança de perspectiva foi estimulada pela irrefletida aplicação, aos problemas sociais, da estrutura de pensamento resultante da preocupação com problemas tecnológicos (a estrutura de pensamento do engenheiro e do especialista em ciências físicas e naturais), e como, ao mesmo tempo, esse hábito mental tendia a desacreditar os resultados dos estudos anteriores sobre a sociedade que não se ajustavam aos seus preconceitos, e a impor ideais organizacionais a uma esfera em que estes não são próprios4. Tudo o que pretendemos demonstrar é que nossa atitude para com a sociedade mudou totalmente, embora de maneira gradual e a passos quase imperceptíveis. Aquilo que em cada fase desse processo de transformação parecia apenas ligeira mudança, provocou, por efeito cumulativo, uma diferença fundamental entre a velha atitude liberal para com a sociedade e a atual abordagem dos problemas sociais. Disso resultou uma completa inversão de rumo, um completo abandono da tradição individualista que criou a civilização ocidental. Segundo as ideias hoje dominantes, o problema já não está mais em saber qual a melhor maneira de utilizarmos as forças espontâneas encontradas numa sociedade livre.

De fato, decidimos prescindir das forças que produziram resultados imprevistos e substituir o mecanismo anônimo e impessoal do mercado pela condução coletiva e “consciente” de todas as forças sociais em direção a objetivos deliberadamente escolhidos. A diferença não poderia ser melhor ilustrada do que pela posição radical assumida numa obra muito elogiada, cujo programa, denominado pelo autor “planejamento para a liberdade”, comentaremos mais de uma vez.

Jamais tivemos de instituir e dirigir todo o sistema da natureza como hoje somos obrigados a fazer com a sociedade [escreve o dr. Karl Mannheim]. …A humanidade tende cada vez mais a controlar toda a sua vida social, embora nunca haja tentado criar uma segunda natureza5.

É significativo que essa mudança no rumo das ideias tenha coincidido com uma inversão da trajetória que elas vinham seguindo no espaço. Durante mais de duzentos anos, o pensamento inglês irradiou-se para leste. O regime de liberdade ao qual se chegara na Inglaterra parecia destinado a difundir-se por todo o mundo. Por volta de 1870, as ideias liberais haviam atingido provavelmente seu ponto máximo de expansão para leste. Daí por diante, porém, começaram a retroceder, e um ideário diferente, que não era novo, mas na realidade muito antigo, passou a avançar de leste para oeste. A Inglaterra perdeu a liderança intelectual na esfera social e política e passou a importar ideias. Nos sessenta anos seguintes, a Alemanha converteu-se no centro de onde as ideias destinadas a governar o mundo no século XX se propagaram para leste e oeste. Hegel ou Marx, List ou Schmoller, Sombart ou Mannheim, o socialismo em sua forma mais radical ou apenas a “organização” ou a “planificação” de natureza menos radical – o pensamento alemão foi pronta e amplamente importado, e as instituições alemãs imitadas.

Embora a maioria das novas ideias, e em particular o socialismo, não se tivesse originado na Alemanha, foi na Alemanha que se aperfeiçoou e alcançou, durante o último quarto do século XIX e o primeiro do século XX, o seu mais completo desenvolvimento. Esquecemos agora muitas vezes como foi considerável a liderança mantida pela Alemanha durante esse período no que concerne à teoria e à prática do socialismo. Esquecemos também que, uma geração antes de o socialismo se tornar uma séria questão na Inglaterra, a Alemanha tinha um numeroso partido socialista no parlamento, e que, até data recente, o desenvolvimento da doutrina socialista ocorria quase inteiramente na Alemanha e na Áustria, de sorte que mesmo hoje os russos partem do ponto em que os alemães se detiveram. A maioria dos socialistas ingleses ainda não se deu conta de que quase todos os problemas que começam agora a descobrir foram há muito tempo exaustivamente debatidos pelos socialistas alemães.

A influência intelectual que os pensadores alemães exerceram durante esse período em todo o mundo baseava-se não apenas no grande progresso material da Alemanha, mas sobretudo no extraordinário prestígio que os cientistas e pensadores alemães haviam conquistado nos cem anos precedentes, quando a Alemanha se tornara, mais uma vez, membro integrante e mesmo preeminente da civilização europeia. Mas em breve essa influência serviria para difundir, a partir da Alemanha, ideias que visavam a abalar os alicerces dessa civilização. Os próprios alemães – ou pelo menos os divulgadores de tais ideias – tinham inteira consciência do conflito: a herança comum da civilização europeia tornara-se para eles, muito antes do nazismo, a civilização “ocidental” – e a palavra “ocidental” não tinha mais a acepção comum de Ocidente, mas passara a significar o mundo a oeste do Reno. “Ocidental”, neste sentido, era sinônimo de liberalismo e democracia, capitalismo e individualismo, livre comércio e toda forma de internacionalismo ou amor à paz.

Mas apesar do desprezo mal disfarçado que um número sempre crescente de alemães votava aos ideais “superficiais” do Ocidente, ou talvez por essa razão, os povos desse mesmo Ocidente continuaram importando ideias alemães. E foram induzidos a acreditar que suas convicções anteriores não passavam de pretextos para justificar interesses egoísticos, que o livre comércio era uma doutrina inventada para defender interesses ingleses, e que os ideais políticos que a Inglaterra legara ao mundo estavam irremediavelmente ultrapassados e constituíam motivo de vergonha.

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NOTAS AO CAPÍTULO 1

1 – Já nesse ano o Relatório Macmillan falava em “mudança de atitude do governo deste país nos últimos tempos, e sua crescente preocupação com a gestão da vida do povo independentemente do partido que esteja no poder”, e acrescentava que “o parlamento encontra-se cada vez mais empenhado em criar uma legislação cujo objetivo consciente seja controlar as atividades cotidianas da comunidade e intervém hoje em questões outrora consideradas fora de seu âmbito”. E fazia esta afirmação antes que a Inglaterra, nesse mesmo ano, mudasse decisivamente o curso de sua política governamental e, no curto e inglório período que vai de 1931 a 1939, transformasse por completo o seu sistema econômico, tornando-o irreconhecível.

2 – Mesmo advertências muito mais recentes, que se revelaram terrivelmente justificadas, foram quase de todo esquecidas. Não faz trinta anos que Hilaire Belloc, num livro que explica o que ocorreu na Alemanha melhor do que a maioria das obras escritas após os acontecimentos, diz: “A aplicação da doutrina socialista à sociedade capitalista produz um terceiro fenômeno diferente daqueles que o geraram, a saber: O Estado Servir. (The Servile State, 1913, 3.ª ed., 1927. p. XIV.)

3 – O mais fatídico desses acontecimentos, de consequências até hoje visíveis, foi a subjugação e parcial destruição da burguesia alemã pelos príncipes territoriais nos séculos XV e XV.

4- O autor procurou esboçar as origens desse processo em duas séries de artigos sobre “Scientism and the Study of Society”e “The Counter-Revolution of Science”, publicados em Econômica, 1941-1944.

5 – Man and Society in an Age of Reconstruction, 1940, p. 175.