O custo do Iluminismo

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[Palestra proferida na Austrian Economics Research Conference em Auburn, realizada em 23 de março de 2019. Veja o vídeo aqui.]

É amplamente aceito que o pensamento iluminista originou muitos dos “bens” de nossa sociedade: bens econômicos, políticos e sociais. Bens que vão desde a riqueza material e a tecnologia que desfrutamos até o liberalismo clássico e o libertarianismo. É este último que será meu foco.

Para esta audiência não se faz necessária uma exaustiva discussão sobre a conexão do pensamento iluminista com o Liberalismo Clássico e o Libertarianismo, então vou resumir: razão, o indivíduo, igualdade, direitos de propriedade, a separação entre igreja e estado, e ciência e política livres de dogmas religiosos. Estes pilares fundamentam o liberalismo clássico que muitos destacam e exclamam: aqui finalmente encontramos liberdade! E se, ao contrário, isso nos custou nossa liberdade?

O que é Iluminismo? Immanuel Kant deu sua resposta:

O Iluminismo é a saída do homem da sua imaturidade da qual ele próprio é culpado. A imaturidade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. … “Tenha a coragem de te servires do teu próprio entendimento!” Eis a palavra de ordem do iluminismo.

Há a Enciclopédia de Diderot, considerada uma das maiores realizações culturais e intelectuais do Iluminismo; um modelo feito pelo homem de 20 milhões de palavras para a criação de uma sociedade racional melhorada e implementada.

A teologia se curva, subordinada a razão. Diderot explicou: “Nos países iluminados pela luz da razão e da filosofia … o padre nunca esquece que ele é um homem, súdito e cidadão.” Ou como Steven Pinker proclama: O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo. Em outras palavras, contra a tradição e a religião – e por “religião”, leia-se “Cristianismo”.

Porém, quem pode negar o progresso? É fácil identificar os muitos “bens” atribuídos ao pensamento iluminista – a intensificação do comércio e as melhorias drásticas no padrão de vida econômico. Conceitos políticos como o liberalismo clássico são desenvolvidos e, consequentemente – cremos – nossas liberdades.

Talvez. Como Hans Hoppe coloca, “De acordo com os proponentes desta teoria,” que ele menciona de Francis Fukuyama e Steven Pinker, “o que torna a presente época tão maravilhosa e a coloca como a melhor de todos os tempos é a combinação de dois fatores.” Hoppe diz primeiro, nunca antes na história da humanidade a tecnologia e as ciências naturais alcançaram um nível de desenvolvimento tão alto – coisa que ele não contesta; e segundo, o maior nível de liberdade humana já alcançado – coisa que Hoppe considera “um mito histórico”.

N.T. Wright coloca: “Qualquer movimento que nos dá a guilhotina como um de seus primeiros frutos… e o gulag como um de seus melhores não pode simplesmente ser considerado bom por princípio”.

Os “males” do Iluminismo não são reconhecidos pelos seus proponentes assim tão prontamente: comunismo, eugenia, pureza racial, seleção artificial, Nacional Socialismo, Fabianismo, Progressivismo, fascismo, igualitarismo, democracia moderna, ausência de toda instituição intermediaria de governança, a ineficaz separação de igreja e estado, a Revolução Americana, a Revolução Francesa.

Com relação às duas revoluções: Os EUA que surgiram a partir da Revolução é descrito por Ralph Raico como “… a nação liberal modelo, e, depois da Inglaterra, o exemplo de liberalismo para o mundo.” Este “exemplo de liberalismo” não durou nem 87 anos, terminando em 1861 – e se você preferir dizer que terminou em 1846 ou até em 1812, eu não vou me importar.  Seja lá o que acreditam que seja o liberalismo, com certeza ‘permanência no poder’ não pode ser considerado um de seus pontos fortes.

Mas este exemplo é muito melhor do que o que veio logo depois: de sua obra prima, Da alvorada à decadência, Jacques Barzun coloca: “… a Revolução Francesa de 1789 deve ser chamada de Revolução Liberal.” O que Barzun quer dizer com “liberal”? Ele apresenta como um exemplo uma lei aprovada dois anos depois da revolta: não deve haver nenhum interesse que não sejam os do indivíduo e o interesse geral de todos; nenhum interesse intermediário é permitido.

Um ataque não somente a autoridade tirânica, mas também as guildas, associações, universidades, e especialmente ao Cristianismo – toda instituição intermediária que proporcionava descentralização na governança e contrapunha a autoridade monopolista de um estado centralizado; toda instituição intermediaria que Robert Nisbet sugere oferecia abrigo e proteção às liberdades do indivíduo.

Simon Schama coloca que tal ataque as instituições intermediárias foi bem recebido pela elite; o povo – impotente sem estas instituições intermediarias ou sem o rei para poder recorrer – já não teve a mesma opinião.

Nem todos os pensadores iluministas queriam a guilhotina ou o gulag, com certeza; muitos tinham uma visão sincera da liberdade do homem. John Gray coloca que a verdade universal declarada da ligação entre Iluminismo e valores liberais é ténue; era mais forte nos iluministas monoteístas e mais fraca nos pensadores hostis ao monoteísmo.

Todavia, um “monoteísmo” genérico não oferecia nenhuma base sustentável. Nossas liberdades nasceram bem antes do Iluminismo em uma tradição religiosa e cultural específica; aqueles que viveram e desenvolveram esta tradição não iriam se consideram simples “monoteístas”.

Vamos ver o que diz a história. Barzun coloca:

A verdade é que durante os mil anos antes de 1500 uma nova civilização cresceu a partir de sua posição inicial que era excepcionalmente difícil…. mostrando ao mundo duas renascenças antes daquela que monopolizou o nome. ..os invasores germânicos trouxeram um tipo de direito costumeiro que alguns pensadores posteriores creditaram a ideia de liberdade individual…. nenhuma lei era considerada válida se não fosse aprovada pelos que eram afetados por ela. … Direito anglo-saxão. .. definia crime literalmente como a ruptura da paz.

Esta era surgiu após a queda de Roma; tribos germânicas misturadas com Cristianismo criando uma cultura que valorizava a ética cristã e a honra germânica, resultando naquilo que Fritz Kern descreve como a boa e antiga lei; lei dos costumes e boa tradição. O juramento de um homem fazia sua lei. O regime de direito mais libertário que já existiu por um longo período no ocidente – e no mundo.

Nem a Igreja e nem o rei mantiveram a soberania. Se algo se manteve “soberano”, foi a lei. Reis e Igreja competiam entre si, em círculo diferentes, porém sobrepostos; com um ou o outro assumindo um papel principal ou secundário no decorrer dos anos. No espaço entre Igreja e rei, a liberdade floresceu; no espaço entre Igreja e rei, numerosas e importantes instituições de governança intermediárias se consolidaram, proporcionando ao indivíduo o lugar e os meios para exercer sua liberdade.

Era um tempo em que a Igreja podia repreender o rei apesar de não possuir exército e nenhum meio fisicamente coercivo além do fornecido pelo próprio rei. Os libertários aprovam o uso do boicote ao lidar com transgressões não violentas. Bem, que tal o boicote eterno da excomunhão.

No Eclesiastes lemos sobre a falta de sentido da vida quando comparada a eternidade que Deus colocou no coração dos homens. Na Europa da Idade Média, o nobre estava preocupado com sua vida eterna e com o reino eterno de Deus e esta preocupação moldava seu comportamento; este não é mais o caso desde o Iluminismo. O lema comum da atual “nobreza” iluminada é “quem morrer com mais brinquedos vence”. Isto se reflete em nossos tempos: corrupção, luxúria e cobiça definem a nova nobreza.

Durante grande parte da Idade Média, havia uma separação significativa e funcional entre Igreja e rei, cada um superior em seu domínio, nenhum com autoridade poder soberano. Cada um oferecendo um canal para apelação se alguém sentisse que suas liberdades estivessem sendo injustamente comprometidas pelo outro.

Hoje temos a subordinação da igreja ao estado. Lembre-se a troca entre os sacerdotes judeus e Pilatos a respeito do destino de Jesus. Pilatos perguntou: “Devo crucificar vosso rei?”, e em resposta os sacerdotes gritaram “Não temos rei, senão César.” Parece uma típica manhã de domingo em nosso país.

Com o Iluminismo a ideia de se basear na tradição e nos costumes foi jogada fora. A tradição mais importante a ser descartada era o Cristianismo. Não necessariamente sua ética, apenas a história sobrenatural, a teologia, e a igreja – como se a ética pudesse sobreviver sem Deus e uma instituição por trás. Barzun coloca, “A Bíblia deve ser mostrada como um conjunto de fábulas inventadas por povos ignorantes”.

O que era uma crença amplamente aceita no Cristianismo por toda a população começou a se dissolver no século XVIII. N.T. Wright destaca o terremoto de Lisboa no Dia de Todos os Santos em 1755 como o acontecimento chave neste sentido. Um terremoto intenso e a calamidade que se seguiu abalaram completamente o Cristianismo; a razão humana não conseguia aceitar que um Deus bom e sábio permitiria uma tragédia tão terrível.

Abandonem os rituais e as orações, ignorem os padres e os monges. “Erradiquem a desgraça!” Voltaire disse sobre a Igreja Católica Romana. Voltaire – “o Iluminismo iluminado” de acordo com Schama – fez sua parte para tornar as coisas assim através de uma série de panfletos de quatro e cinco páginas, consolidados no Dicionário Filosófico. Quem precisa de 1700 anos de erudição e tradição para moldar sua filosofia quando você pode ter um pequeno dicionário?

Chega deste Deus da Bíblia; o deísmo se tornou a religião dos homens “sensatos”. Deus criou o universo, mas a história do Genesis é uma fábula. Deus criou as regras – as leis da ciência; Ele não tem motivo nenhum para interferir depois disso. Jesus? Claro, Ele era um homem sábio e bom; mas sem essa de Nascimento Virginal e Ressureição.

O caminho do deísmo passou por uma retomada do epicurismo e terminou no infame “Deus está morto” de Nietzsche, encontrado em “Parábola do homem louco”, publicada no fim do século XIX. Afinal, o quão grande é o salto do “relojoeiro” do deísmo para o deus não se importa do epicurismo até o “Deus está morto”?

“Onde está Deus?” [o homem louco de Nietzsche] clama. “Devo lhe dizer. Nós o matamos – você e eu. Nós somos os assassinos dele. … Para onde vamos agora? … Não entramos em uma decadência perpétua? Para traz, para os lados, para frente, em todas as direções? Ainda resta algum para cima ou para baixo? Não estamos vagando pelo vazio infinito?

O louco descobriu que ninguém iria escutar; ele lamentou ter chegado muito cedo. A Grande Guerra, o suicídio do Ocidente, ainda demoraria alguns anos.

O que Nietzsche considera como substitutos de Deus e Sua lei moral? A ética feita pelo homem estaria no topo da pirâmide; a elite iluminista consentia alegremente. Eles seriam os “super-homens”, estabelecendo um “novo ethos”: padrões novos de certo e errado, substituindo as virtudes cristãs.

Cada um de nós usando a própria razão, sendo sua própria bússola, criando sua própria definição do sentido da verdade. Não se pode nem reivindicar o “princípio da não agressão” neste ambiente. Baseando-se em que?

Bem, nós temos o Hoppe e sua ética argumentativa. Mas não tão depressa! Em sua transmissão de rádio durante a Segunda Guerra Mundial, CS Lewis coloca que duas pessoas só tem condições de discutir tendo como base algum padrão. Frank van Dun fez um comentário similar na conferência da Property and Freedom Society ano passado. Para resumir: a ética argumentativa é um apelo constante à consciência da outra pessoa – as coisas que já compartilhamos; literalmente, o conhecimento geral.

Mas as ideias do Iluminismo – Liberdade, Igualdade, o indivíduo, patriotismo, e Progresso – são todas ideias abstratas, baldes grandes que podem ser enchidos com uma grande variedade de conteúdo. Reclamamos que estes termos não possuem o significado que gostaríamos, ou o significado originalmente pretendido – do mesmo modo que os socialistas reclamam a mesma coisa.

Quem deve dizer como e com o que esses baldes devem ser enchidos? Baseado em quais fundamentos? Baseado na razão de quem? Sem uma consciência comum, quem – ou o que – vai decidir? Voltaire disse “senso comum não é tão comum”. Bem, sem um senso que seja comum, em que se baseia nossa convivência pacífica – em um estado de sociabilidade, como coloca van Dun?

Não podemos, e já provamos isso. Barzun descreve a Grande Guerra como “o golpe que lançou o mundo moderno em seu curso de autodestruição.” Todavia este golpe atingiu o ocidente em um período que considerávamos ser o mais iluminado, pacífico e livre. As décadas anteriores ao início da guerra são conhecidos como La Belle Époque: “a bela era”.

Era uma época de otimismo, iniciada depois do fim da guerra Franco-prussiana em 1871. Paz regional, estabilidade política, viagens sem necessidade de passaporte, prosperidade material, inovações tecnológicas e científicas, literatura e música. O auge do que podemos considerar liberalismo clássico e liberdade.

Certamente havia paz regional na Europa. Mas havia muita violência entre e no meio destes mesmos atores (e contra as populações nativas) nas batalhas por colônias ao redor do mundo. A arte da violência era praticada e aperfeiçoada; exércitos eram desenvolvidos para assegurar vitórias. Esta arte em breve seria interiorizada.

A Grande Guerra – talvez solitária entre todos os conflitos humanos substanciais – permanece praticamente inexplicável. Por que e como tal coisa pôde ocorrer quando e onde ocorreu – nesta “bela era”, entre as pessoas iluminadas? Aleksandr Solzhenitsyn ofereceu uma resposta: “Os homens se esqueceram de Deus”. O homem louco de Nietzsche concordaria.

Ao despertar da Grande Guerra, a sociedade e a cultura ocidental foram transformadas tão rápido e em tamanha magnitude talvez sem precedentes na história:  vida familiar despedaçada, carreiras terminadas, auxílio governamental onde antes havia trabalho produtivo, e uma maré de igualitarismo; em outras palavras, o terreno cultural perfeito para a expansão do poder estatal monopolista.

A guerra se tornou guerra total, em grande parte impulsionada por outro legado do Iluminismo, a democracia moderna. Enquanto Lincoln estabeleceu o precedente cinquenta anos antes, foi finalmente na Grande Guerra que a guerra de todos contra todos foi amplamente aceita por toda a Europa, um evento da nação e não somente dos combatentes – um “Avanço ao Barbarismo”, como colocado por FJP Veale. Gás venenoso, ataques aéreos contra populações civis, submarinos destruindo navios independente de suas bandeiras ou propósitos, o bloqueio de alimentos e suprimentos civis, nem mesmo a paz sendo capaz de aliviar a situação.

E torres de igrejas sendo usadas como postos de observação, causando suas destruições; ilustram o custo do Iluminismo bem melhor do que minhas milhares de palavras.

A guerra destroçou as visões utópicas destes estudantes do Iluminismo, levando a mudança do que hoje chamamos de Liberalismo Clássico a sua encarnação moderna. Barzun descreve esta transição como a Grande Virada; uma virada da ideia de que o melhor governo é o que governa menos para o melhor governo é o que nos dá liberdade, por bem ou por mal. Os “deploráveis” são incapazes de lidar com a liberdade; ela deve ser imposta a eles.

Na época, a transição passou praticamente desapercebida, exceto por autores como Chesterton e Belloc.

Este novo liberal agora não tinha nada entre ele e o indivíduo – todas as instituições intermediárias, especialmente o Cristianismo e a Igreja, foram despojadas de qualquer papel significativo. Cada indivíduo havia sido deixado como veio ao mundo, nu, para ser moldado como argila pelos intelectuais progressistas iluministas “sensatos”. A legislação resolveria todos os problemas. Todas as necessidades e desejos seriam atendidos, tudo concedido via generosidade do governo.

Barzun descreve estes indivíduos nus como impotentes: os recebedores de benefícios, vítimas, sem espaço para respirarem, oprimidos por seus colegas e também pelo estado. Este indivíduo nu agora só tinha um objetivo: uma vida sem restrições – emancipação das realidades do mundo; nada obstruindo a realização de todos os desejos; não ser contrariado. A vida sem restrições; tudo é permitido, e ninguém pode me impedir. Meu prazer é a minha principal prioridade; o principal objetivo na vida é ser feliz.

O homem iluminado, assim como seus antepassados após o dilúvio que tentaram construir uma torre até Céu para serem como Deus, descobriram – como Paul Vander Klay diz – que quando se tenta trazer o Céu para baixo, leva-se o inferno para cima. Não precisamos nem falar dos “ismos” do período entre guerras da Rússia, Itália ou Alemanha para exemplos disto; basta citar os justiceiros sociais e os currículos de estudos de ressentimentos no nosso país atualmente.

Barzun conclui sua obra prima com uma lista de decadências encontradas no ocidente durante o último século; a libertação do homem de todas as normas, tradições e costumes; nada foi deixado para fornecer governança a não ser o estado – e um estado feliz em compelir.

O que aconteceu com a promessa do Iluminismo? Consideramos o indivíduo e a razão como nascidos no Iluminismo serem a chave fundamental da liberdade. Como o significado destes conceitos foram dissociados de Deus, eles na verdade trouxeram a derrocada da liberdade. Sem Deus, a liberdade do Iluminismo é uma casa construída na areia.

O indivíduo sem Deus: O indivíduo não foi descoberto no iluminismo e nem mesmo na Renascença. Anselmo de Cantuária nos ofereceu o indivíduo no século XI, com suas raízes podendo ser encontradas em séculos anteriores. O indivíduo de Anselmo tinha um senso de auto-conscientização e identidade pessoal; um indivíduo com responsabilidade moral; um indivíduo que exige espiritualidade.

Este era um indivíduo que encontrou liberdade dentro do contexto cultural e religioso de sua época, livre para viver de acordo com esta tradição. O indivíduo encontrou e foi capaz de manter sua liberdade através de muitas instituições intermediárias de seu tempo – mais notadamente a Igreja, que podia ir contra o rei.

A guilhotina do Iluminismo matou todas as instituições intermediárias, matando assim a liberdade deste indivíduo. Agora temos um indivíduo liberto de fardos incômodos como verdade, justiça e compaixão; um indivíduo liberto de qualquer responsabilidade moral; um indivíduo nu e impotente frente ao estado; um indivíduo vivendo livre… em um gulag.

Enquanto isso, o estado promove mais divisões – indivíduos cada vez mais individualizados. O estado fomenta e subsidia comportamentos culturalmente destrutivos, com a ausência da governança fornecida pelo costume e tradição, a governança será fornecida pelo estado.

A razão sem Deus: Com o Iluminismo libertando nossa razão da revelação e da tradição, o resultado não deveria ser surpresa nenhuma. Só porque sua razão foi libertada isso não quer dizer que a razão do homem mais forte irá te deixar em paz, ou que sua razão irá convence-lo. Como a razão dele não está mais limitada por nada além de sua própria razão, não vai ser a sua razão que irá governar, e sim a dele. Para qual autoridade superior você pode apelar? Não existe autoridade maior que a razão do homem, e a razão do homem mais forte possui mais armas que a sua razão.

Reconhecendo esta razão do “homem mais forte”, John Gray coloca:

E se o futuro do Iluminismo não for o ocidente liberal, hoje praticamente ingovernável como resultado da cultura de guerras na qual está atolado, mas sim a China de Xi Jinping, onde uma raça totalmente mais dura de racionalistas está no comando? É uma possibilidade que Voltaire, Jeremy Bentham e outros expoentes do despotismo iluminista receberiam com prazer.

Talvez Deus soubesse o que estava fazendo quando advertiu Adão sobre a árvore do conhecimento do bem e do mal, com a morte como consequência da razão do homem sem Deus.

O Instituto Hoover de Peter Berkowitz faz um desafio de cinco partes ao recente livro de Patrick Deneen “Por que o Liberalismo fracassou”. Enquanto insinua que Deneen foi longe demais e atribuiu exagerada culpa aos conceitos do Iluminismo, na parte quatro ele reconhece as características danosas da sociedade contemporânea:

… o menosprezo da sabedoria hereditária, o rebaixamento do dever em favor da preferência pessoal, e a obsessão por bens materiais e diversões superficiais as custas da cidadania, amizade e amor – promovidas pelo individualismo e pelo estatismo que surgiram ao se levar os princípios da liberdade e da igualdade ao extremo.

Jordan Peterson pergunta sobre os pós-modernistas: O que do Iluminismo você joga pela janela antes das coisas ficarem feias? Jonathan Goodwin propõe que esta é a pergunta errada se o objetivo é a liberdade. A pergunta deveria ser: o que é preciso para ser restabelecido do que o Iluminismo destruiu?

Na parte cinco de sua crítica ao livro de Deneen, Berkowitz visa responder esta pergunta. Para isso, ele cita Edmund Burke. Do Reflexões sobre a Revolução na França, escrito em 1790:

A história consiste, em grande medida, de misérias causadas ao mundo pelo orgulho, ambição, avareza, vingança, luxúria, sedição, hipocrisia, zelo desgovernado e todo séquito de apetites desordenados… Estes vícios são a causa destas tempestades. Religião, moral, leis, prerrogativas, privilégios, direitos dos homens, são os pretextos.

Isto não vale nada: nenhum dos vícios identificados por Burke viola o princípio de não agressão – exceto talvez a vingança, dependendo do quão frio o prato estará quando for servido. Porém, talvez, reconhecer estes vícios como ameaças à liberdade – e incorporar este reconhecimento em suas obras – seja uma tarefa apropriada para os pensadores libertários de amanhã. Continuando com Berkowitz:

[Burke] repreendeu os revolucionários franceses por pressuporem que “os direitos dos homens” autorizavam o repúdio total da fé hereditária, o regime estabelecido, e as leis sedimentadas do país e a substituição por novos modos de julgamentos morais e ordens políticas derivados da puramente da razão.

Considerando que este repúdio custou a liberdade, talvez os pensadores libertários devessem incorporar algo da tradição e fé hereditária quando considerassem a liberdade como objetivo.

Além disso, Alexandr Solzhenitsyn, de seu discurso inaugural em Harvard em 1978. Tendo vivido sob um regime comunista por toda sua vida, ele entendeu que uma sociedade sem uma escala legal objetiva é terrível, mas uma sociedade com uma escala legal objetiva também é. Em uma sociedade assim, o homem recebeu a liberdade para o bem e o mal – e esta sociedade não possui defesas contra o abismo decadente.

Ele propõe que por mil anos o homem teve liberdade dentro da estrutura de sua responsabilidade religiosa, mas hoje em dia nenhuma responsabilidade como esta existe mais. Solzhenitsyn coloca:

Isto significa que o erro deve estar na raiz, na própria base do pensamento humano dos últimos séculos. Me refiro à visão prevalecente no Ocidente de um mundo que surgiu primeiro na Renascença e encontrou sua expressão política no período do Iluminismo. …a proclamada e imposta autonomia do homem de qualquer força superior acima dele.

Nietzsche apresentou as consequências de se matar Deus em Crepúsculo dos Ídolos: apesar dos desejos de muitos pensadores iluministas – os “cabeça-chatas ingleses” como ele os descreve – quando se desiste da fé cristã, também se perde o direito à moralidade cristã.

O que é este “direito” da moral cristã se não, no mínimo, o princípio de não agressão? É isto que o homem abriu mão no Iluminismo. Trocamos a moralidade cristã – e consequentemente nossa liberdade – pelo direito da razão do super-homem iluminado decidir o que é moral.

O libertarianismo aponta para diversos pensadores iluministas e suas teorias e conceitos que libertaram o indivíduo e deram poder a razão; conceitos que acreditamos oferecer os fundamentos para a liberdade. Mas sabíamos tudo isso antes da chamada idade da razão; não precisamos do Iluminismo para nos tornar iluminados.

Hans Hoppe fez com que fosse possível, ao menos nestes grupos, citar como fundamental para a liberdade o decálogo – certamente a parte dele relacionada a relação do homem com o homem: honrar pai e mãe; não matar, não cometer adultério, roubo ou levantar falso testemunho; não cobiçar a mulher do próximo e suas posses.

Como Hoppe coloca, “Alguns libertários podem argumentar que nem todos esses mandamentos possuem o mesmo status ou importância.” Isto é bem verdade. Em alguns casos não temos transgressões não violentas. A questão para o libertário enquanto libertário: a violação chega ao ponto de requerer punição física formal?

Jesus respondeu essa questão. Lemos em João 8 sobre os fariseus levando para Jesus uma mulher adúltera – com certeza não é uma infração que os libertários consideram chegar ao ponto de merecer punição física. A lei ordenava apedrejamento por esta infração. Os fariseus perguntaram a Jesus o que deveria ser feito com esta mulher.

Ele respondeu: Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra. Sim, se tratava de um pecado; mas não era uma violação digna de punição física. Um a um, os acusadores foram embora. Jesus então admoestou a mulher, “vai-te, e não peques mais.” Orientação e aconselhamento, não punição, é o exemplo que Jesus nos deu em relação ao que podemos descrever como infração não violenta.

Libertários lamentam nossa incapacidade de converter as massas. “Como alguém pode discordar da lógica e da pureza do princípio da não agressão?” reclamamos, enquanto jogamos cinzas em nossas cabeças. Talvez devêssemos considerar esta ausência de uma consciência comum; talvez devêssemos considerar que para nós avançarmos, esta tradição cultural e religiosa deva ser a fundação.

Recentemente Goodwin questionou: só o libertarianismo é suficiente para a liberdade? O nosso objetivo é purificar a teoria libertária, ou é encontrar a liberdade? Talvez devêssemos considerar o que significou a perda do direito à moralidade cristã no que tange ao caminho em direção à liberdade. Se nosso objetivo é a liberdade, talvez devêssemos considerar a necessidade de recuperar este direito perdido.

Paulo apresentou as consequências do desprezo do conhecimento de Deus pelos iluminados de sua geração em Romanos 1, começando com o versículo 18 até o fim do capítulo. É sobre a ira de Deus contra aqueles que suprimiam a verdade pelas suas perversidades. De Paulo:

“…E assim como eles rejeitaram o conhecimento de Deus, Deus, por sua vez, os entregou a um sentimento depravado, para fazerem coisas que não convêm. …Embora conheçam o justo decreto de Deus, de que as pessoas que praticam tais coisas merecem a morte, não somente continuam a praticá-las, mas também aprovam aqueles que as praticam.”

Paulo poderia estar falando de nossa geração. Da sétima parte de sua Palestras Gifford, Wright coloca: “Possuir a imagem é mais do que apenas comportamento; caso contrário colocamos o conhecimento do bem e do mal acima do conhecimento de Deus.”

Ao não mantermos o conhecimento de Deus acima da razão individual, o bem não tem chances contra o mal. Com o bem perdendo para o mal, certamente perdemos nossa liberdade: Este, fundamentalmente, é o custo do Iluminismo.

 

Tradução Fernando Fiori Chiocca

Artigo original aqui.

4 COMENTÁRIOS

  1. O iluminismo transforma o homem em uma máquina biológica comandada pelo estado (uma ferramenta). A razão individualista por si só, pode ser tranquilamente deturpada, convencida ou viciada, visto que não há necessariamente uma moral arraigada a ética dentro de todo “cérebro”, principalmente hoje, pelo vício da educação pública. Tudo pela sabedoria, nem tudo, existe precedentes, coisa que na alemanha nazista ou o Japão imperial, foi esquecida e a consequencia foi o cientificismo, com seus experimentos em humanos. A ciência, é diferente do cientificismo. A ciência trata a ética como princípio, por isso tanta influência do cristianismo, grandes cientistas conhecidos hoje são católicos, inclusive padres, Mendel, Gauss, Galilei… O libertarianismo sozinho, poderia criar uma sociedade pacífica, muito melhor que uma sociedade estatizada, em razão do respeito a propriedade, no entanto sem uma cultura local forte, não existe coesão entre as pessoas, logo num possível ataque, seja militar ou de “ideias estatizantes”, por ser uma “sociedade” individualizada, a formação de defesa é muito lenta e difícil de se formar.

  2. Novamente vejo o erro comum de dar a ética argumentativa a função de julgar o valor moral de uma ação. Ela nunca se propôs a isso, sua intenção é descrever o que é um crime e não o que é errado.
    Há tbm o erro de atribuir a liberdade como o princípio do libertarianismo, a liberdade é um colorário da propriedade. O direito a propriedade é o que guia o pensamento ético.
    A avaliação moral de algo é subjetiva ao indivíduo, mesmo se utilizar a moral cristã como base ela continua sendo subjetiva ao indivíduo.

  3. Creio que muito do Iluminismo não foi jamais pensado quanto as consequências desastrosas desde a Revolução Francesa de 1789 pois como diria Voltaire e outros ” revolução no espirito humano ” e não no que deu. Ou como Isaiah Berlin lembrou ” Os pensadores no seu século ou no seu tempo e entendimento, não poderiam prever o que de mal aconteceu desde então.” Defendo isso baseado nos escritos dos respectivos autores do século XVIII e alguns autores posteros.

  4. A resposta para todas as questões citadas aqui estão na ação humana,. O homem busca e na busca age e na ação transforma, sua intenção é melhora seu padrão de vida. Os conceitos tradicionais não foram mudados por conceitos novos. Foi a tecnologia quem transformou a sociedade, claro, que por trás da tecnologia tem idéias.