O Green New Deal e a obscura aposta de 100 trilhões de dólares

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Para dar início ao presente texto, começaremos com uma singela pergunta que poucos já se fizeram: O que você compraria com um trilhão de dólares?

Para fins de exemplificação, na atualidade você poderia escolher entre comprar todos os bitcoins existentes, ou todas as empresas do índice Bovespa, ou 66% de toda a prata do mundo.

A maioria de nós, meros mortais, sequer sonha em possuir tal riqueza. De fato, até mesmo os mais abastados adquirem quando muito, uma ou duas centenas de bilhões de dólares, o que também não deixa de ser uma estrondosa quantia.

Mas na mesa de negociações de Joe Biden, um trilhão não chega nem perto de satisfazer seus projetos mais ambiciosos.

Nos seus primeiros meses de mandato, os cheques que o mandatário americano está disposto a assinar já somam seis trilhões de dólares, e a tendência é só aumentar.

Esse gasto inclui o chamado plano para as famílias americanas de 1,8 tri, o plano emergencial da pandemia (outros 1,9tri) e seu ambicioso plano de infraestrutura, que deverá consumir mais 2,3 trilhões de dólares.

O quadro é sem precedentes, e deixa no chinelo até mesmo as intervenções estatais da histórica crise de 29, onde o New Deal de Franklin Roosevelt consumiu cerca de 650 bilhões de dólares em valores atualizados.

Mas afinal, o que Joe Biden, o grande reset, a agenda 2030, a teoria monetária moderna e o Green New Deal tem a ver com isso? Infelizmente, tudo e mais um pouco.

Eu não estranharia se você estivesse cético. Inclusive, suponho que você deva estar pensando que não há motivos para pânico, e que essa rodada de impressão de dinheiro é uma intervenção pontual para um momento de crise. Porém, os entusiastas do Green New Deal não pensam assim.

Segundo cálculos do American Action Forum, que contabilizou toda a abrangência do GND em matéria de energia limpa, infraestrutura,     programas empregatícios, saúde universal, programas habitacionais e segurança alimentar, o Green New Deal não custaria menos de 93 trilhões de dólares, podendo chegar a números ainda maiores.

E se você supõe que esse orçamento foi propositalmente enviesado para desacreditar o GND, então melhor pensar de novo. O American Action Forum é expressamente a favor do GND, inclusive declarando que os custos serão compensados pelos benefícios.

O GND combina duas famosas pautas adotadas pelos socialistas, o ambientalismo e o welfare state.

Uma vez que os social democratas poderiam desenvolver qualquer atividade aleatória, conquanto que empregos fossem criados, o que o GND faz é direcionar esses empregos para as demandas ambientalistas.

Muito diferente de qualquer programa pontual de governo que já foi visto anteriormente, o que o GND pretende é basicamente a refundação da economia e da própria vida.

Aqui vão alguns fatos aterradores:

Logo que tomou posse Biden declarou 27 de janeiro o dia do clima. Até aí, nada de especial. O problema é que a data convergiu com a assinatura de três ordens executivas para combater as mudanças climáticas, que incluem, dentre outras coisas, meio milhão de estações de recarga de carros elétricos e a oferta de energia 100% livre de poluição de carbono até 2035.

Biden também declarou sua intenção de construir 1,5 milhão de novas casas com baixo consumo de energia, além de criar 250000 empregos só para tampar os milhões de poços de petróleo e gás abandonados.

O engraçado é pensar que até hoje, muitos julgavam que essa ideia de pagar pessoas só pra cobrir buracos não era mais que uma anedota austríaca contra as ideias de Lorde Keynes…

Outro alvo preferencial dos ambientalistas são as viagens aéreas, consideradas por eles as vilãs máximas do efeito estufa.

Os ambientalistas sabidamente preferem as viagens de trem, e Biden já arregaçou as mangas para dar aos ambientalistas o que eles pediram, anunciando diversos investimentos no setor.

Só que nunca é demais lembrar que tais projetos ecossocialistas tem problemas já bem conhecidos.

Em Carbon Shift, um livro de 2009 de David Hughes, o autor nos fala da assombrosa quantidade de recursos utilizados na construção de moinhos e outras tecnologias que não usam carvão.

Na prática, a questão de Hughes é a seguinte: por quanto tempo um moinho de vento deve gerar energia antes de criar mais energia do que o necessário para construí-lo? em um local ruim, o retorno da energia pode ser nula. Ou seja, um moinho de vento poderia girar até se desintegrar e nunca gerar tanta energia quanto foi investida em sua construção.

As ditas tecnologias limpas também não passam no teste da resiliência. Isso é muito bem ilustrado pelo problema recente de blecautes e congelamentos enfrentados pelo Texas, um estado muito dependente de tecnologias politicamente corretas, já que muitas das usinas de carvão e energia nuclear foram aposentadas por não poderem competir com a energia verde subsidiada pelo governo.

Mas no fim das contas, talvez os planejadores centrais até prefiram que suas instalações de energia verde vivam com problemas. Se as turbinas eólicas quebrarem, eles criam um novo emprego pra que alguém vá até lá consertar, independente de quantos já congelaram esperando pela chegada do funcionário público.

Como o governo não se orienta por um sistema de custos e benefícios, não há qualquer evidência de que de fato os americanos farão uso dos trens ao invés dos aviões, ou das estações de recarga de carros elétricos, ou qualquer dos projetos faraônicos arquitetados por Joe Biden.

Estamos falando de uma imensa quantidade de material e trabalho humano que (apesar dos custos econômicos e energéticos) nem se sabe se resultarão em algum benefício mínimo para o povo americano.

Todo esse estrago vem na esteira da adoção massiva da teoria monetária moderna, que vem convencendo a classe política de que não há problema que uma boa impressora não resolva.

Na lógica desvairada da TMN, os impostos não são a fonte de sustento do governo. Nessa teoria, os impostos não fariam mais do que enxugar eventual excesso de dinheiro que exista na economia.

Assim, políticos e burocratas se veem autorizados a imprimir e gastar como se não houvesse amanhã, pois amanhã estaremos todos mortos.

A TMN já é febre entre alguns figurões do partido democrata, como Stephanie Kelton, conselheira de Bernie Sanders e autora do livro “o mito do déficit”.

Outra estridente defensora da teoria é Alexandria Ocasio-Cortez.

Em um podcast que participou com Stephanie Kelton em 2020, a parlamentar fez questão de proclamar o triunfo da TMN, dizendo:

“Assim como não há ateus num avião caindo, também não há libertarianismo no meio de uma pandemia!”

Ela ainda acrescentou que até os republicanos estão receptivos a sua plataforma, e que hoje todos são socialistas.

O ganhador do Nobel Paul Krugman declarou que a proposta de Ocasio-Cortez tem o apoio de muitas pesquisas econômicas sérias”, e que há muitos economistas que consideram razoável elevar a taxação nos EUA para mais de 80%;

Por isso, já não é de se estranhar que as entrevistas de Cortez falem em trilhões da mesma forma que eu e você falamos do troco do pão.

Para a TMN, todas as opções estão na mesa, desde impressão de dinheiro, impostos esmagadores e até mesmo gastos deficitários. Tudo isso para que os cheques do governo continuem chegando, possibilitando a gastança sem exigir que você produza um único parafuso.

Com esse quadro, empresas norte-americanas já estão fechando porque não conseguem encontrar ninguém para trabalhar.

Hoje 34% da renda familiar na América vem do governo. Porém, o governo não produz nada. Ele apenas transfere dinheiro de um grupo para outro.

Mas sem trabalho e produção real, muito desse dinheiro nem está sendo transferido. Ele está sendo impresso do nada.

E as consequências já se dão a conhecer. Diversos dos itens básicos do consumo americano já começam a sofrer com uma inflação acima da média.

Robert Kaplan, uma autoridade do Federal Reserve, alertou sobre “desequilíbrios excessivos” nos mercados financeiros e sobre preços de ações “historicamente” elevados.

E os EUA não estão sozinhos nessa canoa furada. Segundo o FMI, 90% dos países desenvolvidos estão mais endividados agora do que na última recessão global que estourou em 2008.

E dado esse quadro, é difícil apontar um país em que a impressora não se tornou protagonista na economia.

Vale lembrar que em 2008 observamos um crash da bolsa causado justamente por estímulos governamentais keynesianos.

Infelizmente, sob o pretexto de combate a uma certa doença, os americanos e o mundo hoje estão buscando soluções socialistas, cuja ideologia matou no século XX muito mais do que quaisquer dos mais terríveis patógenos.

Tal como um deus, a elite globalista almeja recriar o mundo à sua própria imagem e semelhança. E ela está conseguindo.

Para finalizar, cabe a pergunta: você está preparado para o que ainda virá?

Até ontem nada disso seria levado a sério. Nem a promessa de que em 2030 você não teria propriedades, nem aquelas propostas ecoterroristas sobre incluir farinha de baratas na dieta.

Mas agora que o mundo permitiu que o Leviatã tomasse gosto pela imposição de medidas ditatoriais, algumas possibilidades já nem soam tanto como teoria da conspiração.

Você está preparado?