O Livre Mercado venceu na ciência

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Em época de pandemia a ciência se torna a bola da vez. Jargão como: “Ciência melhora nosso padrão de vida, quanto mais temos ciência a nossa disposição mais nossa economia crescerá.” é cada vez mais visto. Sim, isso é verdade, quanto mais tecnologia a disposição maior será a produtividade, o problema se encontra quando essa frase se torna motivo para que a ciência tenha dinheiro ilimitado do governo, que bilhões ou trilhões dos impostos devem ser repassados para cientistas por isso.

Com a narrativa de que tudo feito pela ciência é para o nosso bem, cobrar mais impostos nem parece tão ruim para a sociedade. Os estudantes da Escola Austríaca já estão anestesiados quanto a isso, pois como todo libertário já sabe o livre mercado produz a melhor e mais eficaz tecnologia para o bem-estar humano, vamos aos fatos.

Durante a Era de Ouro da Agricultura Britânica, séculos XVIII e XIX, diversas melhorias em maquinários, fertilizantes e tecnologias agrícolas foram feitas sem a interferência de governos ou políticos, somente se baseando numa economia laissez-faire. O máximo que o governo criou foi um Conselho de Agricultura (que durou pouco tempo) e tudo que fizeram foi patrocinar palestras em química agrícola, pois ficaram impressionados com tamanha evolução e inovação criados pelo financiamento privado. Alguns argumentam que financiamento pelo governo poderia ter trazido maiores resultados, mas a França seguiu exatamente esse caminho e mesmo assim quem liderou a Revolução Agrícola foi a Grã-Bretanha com seu laissez-faire.

Os maiores avanços na fabricação de aço no século XIX vieram da Grã-Bretanha com o processo industrial inventado por Bressemer, o forno a céu aberto de Siemens e com o processo de extração de minérios fosfóricos criado por Thomas, conhecido como “processo Thomas básico”. E tudo isso tem uma razão de ter acontecido na Grã-Bretanha, embora não possuísse laboratórios com vários cientistas vestidos de branco e financiados pelo governo, esses homens estavam perto do mercado, eles tinham em comum encontrar necessidades de mercado, e nada melhor que um mercado mais livre, sem controle estatal e carteis como da Grã-Bretanha na época.

O motor a vapor veio de pessoas com pé no chão de fábrica, pessoas simples e obstinadas, como James Watt que tinha somente curso técnico e trabalhava como técnico em uma universidade e mesmo assim fez melhorias no motor a vapor. No entanto, o grande avanço na área veio de um homem pouco alfabetizado que se chamava Richard Trevithick. Mesmo iletrado, seu motor era 2 vezes mais eficientes que os de Watt e também mais leve.

Enquanto na França do século XIX toda a ciência era subsidiada pelo governo com altos impostos, na Grã Bretanha existia um livre mercado onde o financiamento para pesquisas vinha basicamente por hobby de alguns fazendeiros, ciência industrial, ciência universitária mantido pelas indústrias, ciência universitária privada e ciência financiada por uma taxa dos alunos. O crescimento científico britânico foi fantástico, não à toa foram pioneiros na revolução industrial. A França até teve resultados bons com seus cientistas, mas longe de ter todo sucesso dos britânicos e a razão é que sem uma economia livre é impossível saber onde está o mal investimento[1].

Como um pássaro voa a ciência nos explica, mas para construir um avião existe uma limitação econômica, onde somente um empresário investindo na produção será capaz de fazer o avião sair do papel. Indiretamente a ciência nos leva a um crescimento econômico, com tecnologias que aumentam a produtividade, consequentemente maior produtividade leva a um crescimento econômico e padrão de vida mais elevado, desde que essa tecnologia esteja diretamente ligada a aumentar produtividade. Uma máquina de coletar rochas da lua tem menos impactos do que converter água do mar em água potável, por exemplo.

Mas como prever quais tecnologias terão um benefício maior em determinado momento? Quando determinar que coletar rochas da lua é mais importante do que converter água do mar em água potável? Isso é simplesmente impossível e é por isso que o livre mercado se torna naturalmente o melhor meio para satisfazer as necessidades humanas, por utilizar como guia o sistema de preços. Se as pessoas querem eletrônicos se torna mais rentável produzir agora, estimulando os empresários a investirem em determinado setor. Mas burocratas ignoram os sinais de mercado, bombas são construídas ao invés de pontes, desperdiçando e destruindo capital. Segundo Rothbard, a melhor decisão sempre é o livre mercado:

“Este fato da realidade, então, deve ser enfrentado: se houver mais cientistas ou mais pesquisa científica, deve haver menos pessoas e menos recursos disponíveis para produzir todos os outros bens e serviços da economia. A questão crucial, então, é: quanto? Quantas pessoas e quanto capital devem ser canalizados para cada uma das várias ocupações, incluindo ciência e tecnologia? Um dos grandes, embora muitas vezes desconhecido, méritos da economia de empresas livres é que somente ela pode garantir uma distribuição e alocação racional de recursos produtivos. Por meio do sistema livre de preços, os consumidores sinalizam aos trabalhadores, capitalistas e empresários quais são as ocupações mais urgentemente necessárias, e o funcionamento intrínseco e automático do sistema de preços transmite essas mensagens a todos, criando, assim, uma economia eficiente e sem problemas.”[2]

Desde que o governo começou a apoiar pesquisas científicas pesquisadores passaram a cada vez pedir mais e mais financiamento, argumentando que mais pesquisas científicas inspirariam mais tecnologias e promoveriam crescimento econômico. Charles Babbage em 1833 conseguiu convencer o governo de investir em seu projeto, uma invenção de um dispositivo de computação mecânica. Charles Babbage foi financiado em 17 mil dólares e não conseguiu entregar o que prometeu, o governo vendo que não sairia nada produtivo abandonou seu projeto e lhe negou mais dinheiro, ele então acusou o governo de indiferença com a ciência.[3]

Homens faziam incêndio antes que as leis de termodinâmica fossem entendidas, ciência é mais fundamental que tecnologia, mas isso não significa que proceda a tecnologia. Geralmente uma tecnologia é desenvolvida por engenheiros com base nas atuais tecnologias e descobertas científicas vem depois para explicar o que os engenheiros fizeram. A ciência ajuda com informações aos engenheiros, mas a contribuição é relativamente menor. Promover novas e melhores tecnologias concentrando os esforços somente com a ciência não será eficaz.

Economias tecnologicamente avançadas crescem relativamente lentas, comparadas a economias subdesenvolvidas que crescem mais rápido. Isso se deve ao fato de que economias avançadas maximizam o seu potencial com a tecnologia atual, enquanto as economias subdesenvolvidas obtém ganhos enormes sem fazer nada, apenas copiando a tecnologia de economias avançadas. Mas esse crescimento terá uma estagnação quando alcançarem as economias mais avançadas, onde o melhor seria se juntarem para maximizar o progresso.

O Japão é um grande exemplo de como a cópia melhora a produtividade de uma sociedade, depois da Restauração Meiji e abertura do país para o capitalismo eles viveram uma época de crescimento bem alto para uma sociedade que era bem pobre. A produtividade do Japão chegou a ser a maior de todos os países durante algum tempo, tudo isso promovido por uma economia laissez-faire. A França que ficou para trás em crescimento econômico mesmo com o governo investindo pesado em ciência estava longe dos britânicos, mas viu o país crescer muito mais do que a Grã Bretanha no século XX, mesmo a Grã Bretanha gastando 4 vezes mais em ciência, fazendo como o Japão: copiando. Quanto mais rico um país, mais ciência produz e melhor a sua ciência, mas a taxa de crescimento é bem baixa comparado com países mais pobres, pois inovar é muito mais difícil do que copiar e os países pobres só precisam copiar.

Economias menos avançadas precisam de menos pesquisa ou nenhuma, já economias mais avançadas tem um alto limite na quantidade de pesquisas que será útil para melhorar a vida da sociedade. Mais dinheiro não necessariamente vai acelerar o desenvolvimento tecnológico ou aumentará o crescimento, somente desviará de usos mais importantes, e pessoas de economias subdesenvolvidas tem preocupações maiores do que ficar pedindo maior investimento em ciência.

Como nem toda ciência é útil esses desvios podem ir para setores nada produtivos, o financiamento privado normalmente vai para necessidades como pesquisas do câncer, novas tecnologias de computadores e financiamento corporativo, satisfazendo demandas do mercado. Financiamento privado responde a demanda de consumidores com tecnologias que facilitam trabalhos, pois para sobreviver no livre mercado é preciso agradar consumidores. Quando empresas chegam ao pico da sofisticação técnica concluem que precisam fazer pesquisa científica básica.

Enquanto no livre mercado a ciência segue tendência de mercado, na centralização de poder é totalmente o contrário. Um bom exemplo é a URSS que mesmo tendo um quarto de todos os cientistas do mundo e metade dos engenheiros, um orçamento gigante e pagarem muito bem todos que faziam ciência, foi um investimento totalmente desperdiçado. Eles ignoraram a demanda e olharam somente para a oferta, desprezavam o livre mercado e seus sinais, sem acesso ao cálculo econômico o caos está anunciado, é impossível saber qual área está ganhando ou perdendo. Se uma área fica sem pesquisa o progresso é estagnado e se uma área recebe mais pesquisas do que realmente precisa outras áreas serão afetadas, ou seja, o resultado seria melhor se eles tivessem apenas copiado os países capitalistas.

Além do problema de alocação de recursos, temos também as inibições com regulamentações, propriedade intelectual e proibição direta de pesquisa, o que causa incentivo de trabalhos politicamente corretos ao invés do cientificamente importante. E todo o gasto para financiar projetos ao governo custa mais do que custaria no setor privado.

Um grande exemplo de como o livre mercado pode trazer benefícios são os Laboratórios Cavendish, em Cambridge, maior detentor de prêmios Nobel. O laissez-faire funciona, as evidências históricas mostram que quanto mais livre o mercado e menores os impostos, mais rico o país é. O problema do laissez-faire é falhar em satisfazer algumas necessidades humanas, fracassa na necessidade do político e seu desejo de poder, falha para o socialista que quer impor a força igualdade aos outros, falha no empresário que quer segurança na sua empresa com subsídios governamentais e falha com gananciosos e ociosos, que desejam um sistema político que lhes permita viver com a renda de outros.

 

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Notas

[1] The Economic Laws of Scientific Research – Terence Kealey

[2] Science, Technology, and Government. Rothbard.

[3] A History of the Royal Society, with Memoris of the Presidents, Volume 2, pag 387.

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