O modelo de Ruanda

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Alguns anos antes do genocídio eu estive em Ruanda. Me impressionou o quão bem organizado, para os padrões africanos, o país era. Só era preciso olhar além de suas fronteiras com o Congo – ou Zaire, como era chamado na época – para ver a diferença. De um lado caos e confusão, do outro ordem e organização. E essa não era apenas a minha impressão; o país era chamado de Suíça da África.

Competência administrativa é a última coisa que você quer que exista durante um genocídio, mas mesmo sabendo dos conflitos étnicos e massacres anteriores que ocorreram tanto em Ruanda quanto e seu vizinho ao sul, Burundi – geralmente um igual o outro – nunca imaginei que um dia ela seria usada para efetivar o genocídio mais eficiente da história.

Ruanda era um país altamente populoso, onde as mulheres tinham em média nove filhos cada uma. Uma vez que a maioria das pessoas ainda era de fazendeiros, a pressão sobre a terra foi uma das razões dadas posteriormente para explicar o genocídio. Porém, o impulso para o genocídio veio dos que eram menos dependentes de terras; e muitas terras pertencentes as vítimas assassinadas durante o genocídio não foram ocupadas imediatamente depois do ocorrido, mas foram autorizadas a continuar sendo cultivadas. A propriedade dos tutsi não foi tão desapropriada quanto destruída. Era preciso algo mais para explicar isto.

O quão distante genealogicamente e etnicamente os dois principais grupos – os hutus e os tutsis – eram, ainda é tema de controvérsias. Quando eu estava lá, um velho trabalhador belgo-ruandês me contou sobre os altos e magros (os tutsis) e o baixos e fortes (os hutus), os primeiros proprietários e criadores de gado, os últimos agricultores. Os hutus supostamente eram bantos e os tutsis tinham origem nilótica; mas sendo isto verdade ou não (havias muitos casamentos inter-raciais entre eles, eles falavam a mesma língua, as pessoas podiam mudar suas etnias), o fato é que a lealdade da população era profundamente dividida. 15% era tutsi e 85% hutu; os tutsis, tradicionalmente dominantes, estavam excluídos do poder político, mas eram considerados – ao menos pelos hutus – dominantes em educação e economicamente, do mesmo modo que eram nos tempos do domínio belga. (Os belgas, em geral, preferiam os tutsis aos hutus, os considerando muito mais inteligentes.) Cotas foram impostas pelo governo hutu para tentar limitar a proeminência dos tutsis e eliminar a desigualdade em nome da justiça. Por incrível que pareça, nenhuma quantidade de discriminação positiva a favor dos hutus, ou negativa contra os tutsis (os dois, claro, eram semelhantes), pode aplacar o sentimento dos hutus de que eles estavam em uma posição de inferioridade em relação aos tutsis.

Logicamente, um grande número de livros, praticamente com todos os pontos de vista, foram escritos sobre o genocídio. Eu não sou um especialista – meu interesse no país se limita ao de alguém que passou alguns dias viajando por ele – mas leio dois ou três livros sobre o assunto por ano. O mais recente foi Le génocide des Tutsi du Rwanda de Florent Piton, um acadêmico francês. Mais uma vez me impressionou a beleza do idioma ruandês, Kinyarwanda, e os adoráveis nomes dos ruandesos: Déogratias Mbandiwimfura, por exemplo, ou Dismas Nsengiyaremye, ou Faustin Twagiramungu. Um dos piores progenitores do genocídio foi Théoneste Bagosora. Como Juliet perguta, o que contém um nome?

No livro de Piton eu li um extrato de um panfleto intitulado “A revolução antirracial de Ruanda”, do ministro da justiça do país independente, Anastase Makuza. Até este ponto, eu não havia percebido o quão adiantada do resto do mundo – ao menos do Ocidente – Ruanda estava.

O programa de governo da primeira legislatura deve suprimir os imensuráveis obstáculos discriminatórios de uma natureza social, política ou legal…. em todas as organizações, na cultura, na vida privada e pública da sociedade ruandesa, mas também estimular e assistir todas as classes sociais que foram suas vítimas, para eleva-las ao nível das classes privilegiadas.

Além disso:

As autoridades da República preferem optar por uma política igualitária, baseada em uma total democratização de todos os valores da nação de acordo com o que primeiramente todo indivíduo, então todo grupo humano, possa se beneficiar de seu mérito pessoal e sua utilidade para toda a coletividade e não de acordo com suas origens ou raça, etnia ou religião…

Outro dia recebi um convite para me candidatar para um importante cargo na administração pública, com ótimas oportunidades e salário. Claro que sou muito velho para ficar me candidatando a estes cargos, mas se eu fosse mais jovem provavelmente seria seduzido por essa oferta.

A organização empregadora dizia que suas políticas de contratação eram não discriminatórias em relação a raça, religião, orientação sexual, deficiências, etc. Obviamente isto era uma mentira, pois um dos critérios para a vaga era alta capacidade intelectual, o que, por definição, os mentalmente incapazes não possuem. Mas vamos deixar essa passar. Pobre do candidato que mencionar isto!

Entretanto, a política de emprego não discriminatória “aprecia particularmente inscrições de mulheres, minorias raciais e pessoas com deficiências.” Isto, com certeza, só podia ser a fim de discriminar a favor destes, caso contrário esta política de apreciação não passaria de uma piada de mau gosto. Temos aqui enfim uma discriminação anti-discriminatória.

Que alívio foi descobrir que um país ocidental finalmente alcançou os avanços de Ruanda de 1963! Talvez dentro de mais 31 anos (que foi o período entre a revolução anti-racial e o genocídio) nós também possamos ter um genocídio, ou na verdade diversos genocídios, à medida que nossa população estará dividida em muito mais grupos genociáveis do que a sociedade ruandesa jamais esteve.

O genocídio é, logicamente, uma instituição fundamentalmente igualitária. Ele equaliza as diferenças entre grupos de uma sociedade, de uma maneira drástica. O comunismo não conseguiu trazer a igualdade, mas é claro que tem quem diga que ele fracassou porque não teve tempo suficiente, apesar das milhões de mortes contabilizadas. Será que não é chegada a hora de darmos uma chance para o modelo de Ruanda?

 

Tradução de Fernando Chiocca

Artigo original aqui.

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