Preâmbulo

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Parabéns! Você tem em suas mãos uma das melhores coleções de ensaios de um dos mais vitais e desafiadores pensadores do planeta. Este livro é um compêndio, uma amostragem dos melhores trabalhos do professor Hans-Hermann Hoppe ao longo de várias décadas, organizado em um único e acessível volume. Foi publicado originalmente pela Laissez Faire Books em 2012, mas timidamente, sem alcançar o público que merecia. Este volume rejuvenesce o trabalho anterior com nada menos que seis novos capítulos e mais de cem novas páginas não encontradas na versão passada, juntamente com alguma, porém tão necessária, publicidade e promoção.

Os acadêmicos e cientistas sociais de hoje tendem a uma hiperespecialização, mas o Dr. Hoppe não comete este erro. Nesta abordagem, ele se une a uma longa linha de importantes pensadores que não se limitaram a uma limitada disciplina acadêmica e não se importaram em “ficar no seu quadrado”. Esquecemos que muitos economistas do século XX, por exemplo, habilmente aplicaram conhecimentos em história, filosofia, lógica, antropologia, sociologia, epistemologia, política e ética a seu trabalho – incluindo Ludwig von Mises, inspiração de Hoppe, e Murray N. Rothbard, seu mentor. Nesse importante sentido, Hoppe os sucede, baseando-se no trabalho de ambos.

Se você é um novato na obra de Hoppe, esta é uma excelente introdução às suas sínteses de história, antropologia, propriedade, ética e Estado. Se você já conhece e gosta de seu trabalho, encontrará aqui uma “compilação hoppeana”: muitos de seus melhores e mais representativos artigos, sobre uma gama de tópicos, em um único volume acessível. Considere-o quase como um guia de referência, a partir do qual os leitores podem se orientar em seus longos livros e artigos. Mas este livro tem algo para todos, desde suas implicações rigorosas, mas frequentemente negligenciadas, do capitalismo e do socialismo, até seu lado amplo contra a democracia, com base nos direitos de propriedade. Até mesmo o leitor novo ou ocasional terá uma excelente compreensão do trabalho de Hoppe e da sua visão do mundo.

O título, naturalmente, vem de Claude-Frédéric Bastiat, o grande liberal e jornalista econômico francês do século XIX. Bastiat nos deu “A Grande Ficção” para descrever os mecanismos governamentais pelos quais as pessoas tentam viver à custa dos outros. O Estado está sempre presente no trabalho de Hoppe, seja em posição central ou à espreita, em segundo plano. O subtítulo, Propriedade, Economia, Sociedade e a Política do Declínio, dá uma pista pouco clara sobre o que os leitores devem esperar: uma acusação condenatória do mundo político e de seus superestados do século XXI. No mundo de Hoppe, o Estado é uma instituição totalmente descivilizadora: um predador, não um protetor; uma ameaça à propriedade e à paz. Mercados e empresários produzem bens, governos produzem “males”: tributação (roubo), regulamentação (semi-propriedade, portanto semi-socialismo), dinheiro depreciado (bancos centrais), guerra (defesa), injustiça (tribunais estatais e polícia), e os efeitos ruinosos da alta preferência temporal (democracia). Assim como Bastiat, Hoppe não tem paciência para obscurecer ou amenizar as realidades de nosso mundo político.

A primeira parte do livro trata do desenvolvimento da sociedade humana e da concomitante ascensão de duas forças muitas vezes opostas, a saber, a propriedade e os Estados. Aqui, Hoppe explica a ascensão da civilização sobre um entorno de maior produtividade, possibilitada pela mudança dolorosamente lenta da vida nômade para a vida agrária. Uma vez que calorias suficientes puderam ser produzidas a partir da terra, os conceitos de família e propriedade adquiriram maior importância. O Iluminismo e a Revolução Industrial criaram cada vez mais prosperidade, uma proto classe média, enquanto os arranjos feudais e monárquicos enfrentaram a pressão dos sujeitos de maior nível de riqueza e alfabetização. Esta pressão explodiu no século XIX, à medida que grupos de reinos, principados, territórios e cidades-estado, em grande parte descentralizados, viram-se sob o domínio total das fronteiras nacionais e dos governos. O século XX inaugurou a era do governo democrático pleno no Ocidente: a Grande Guerra lavou os últimos vestígios da Velha Europa, enquanto o poder econômico e militar crescente colocou os Estados Unidos no comando da ordem internacional.

Hoppe, é claro, não aceita de modo inquestionável a noção do século XX ser “liberal” e, de fato, encara grande parte dele como iliberal. Um dos meus favoritos da primeira parte do livro é um capítulo de Democracia: O deus que falhou, intitulado “Sobre Democracia, Redistribuição e a Destruição da Propriedade”. Este ensaio engloba maravilhosamente todas as suas críticas fundamentais à moderna democracia de massa, ou seja, sua capacidade de produzir maus políticos, míopes, que não se importam com o capital de sua nação; maus eleitores, míopes, que não se importam com as gerações futuras; más políticas econômicas e externas expansionistas; e dinheiro ruim, proveniente do banco central, para pagar por tudo isso. Os cidadãos, ao contrário dos súditos de antigamente, desfrutam da ilusão de que o governo somos “nós”. Mas é tudo mesmo uma ilusão, e Hoppe gosta de questionar o inquestionável.

A segunda parte destaca a relação extremamente importante, mas muitas vezes negligenciada, entre a moeda e o Estado. Enquanto reis e soberanos uma vez desfrutaram da degradação da moeda para encher seus bolsos, os bancos centrais modernos transformam a senhoriagem em algo muito mais sistêmico e prejudicial. A moeda fiduciária permite aos políticos financiar guerras e programas de bem-estar social inimagináveis para as gerações anteriores, aumentando o poder do Estado a cada vez, bem como distorcendo praticamente todas as decisões econômicas tomadas na sociedade, resultando em ineficiência grosseira e distorções dos investimentos realizados. A sociedade sofre, o poder de compra é erodido, mas uma imerecida classe banqueira, ligada ao Estado, se beneficia de todo o novo dinheiro. A quintessencial explicação hoppeana para este processo sórdido, também denominado “poder”, é devidamente apresentada no capítulo 10, ” Por que o estado exige o poder de controlar a moeda”.

A terceira parte trata da teoria econômica do Dr. Hoppe, particularmente da área do método. Muito do que consideramos constituir a economia moderna está errado, em particular, por subverter o papel da teoria com empirismo, estatística, matemática e modelagem. Os agentes humanos aplicam valores profundamente subjetivos a todos os bens econômicos, valores que mudam quase que constantemente. Eles não são átomos ou vetores a serem estudados testando hipóteses com dados, mas seres volitivos aos quais devemos aplicar o raciocínio axiomático dedutivo. Hoppe dá aos leitores um “intensivão” em certeza, incerteza e probabilidade, para mostrar seus usos e, mais importante, suas limitações em economia.

A quarta parte considera o importante tema da história intelectual no contexto do amplo movimento austrolibertário, e inclui um discurso verdadeiramente sincero de Hoppe sobre seu amigo e colega Rothbard que certamente o comoverá. Também inclui uma crítica tipicamente hoppeana da teoria política de Friedrich von Hayek, que, na opinião de Hoppe, é muito inferior ao seu trabalho em política monetária e no problema do conhecimento. Esta seção termina com o texto da palestra de Hoppe intitulada “A busca libertária por uma narrativa histórica global”, uma magnífica narrativa sobre onde estávamos e para onde podemos estar indo.

Finalmente, a quinta parte é uma coleção de entrevistas com o Dr. Hoppe e ensaios autobiográficos, incluindo uma entrevista realizada por mim. Estas entrevistas proporcionam um melhor entendimento de Hoppe como pensador e como pessoa, e uma maior percepção de seu desenvolvimento tanto pessoal quanto profissional. Os leitores encontrarão aqui muita “munição” intelectual, juntamente com respostas a muitos dos desafios simplistas colocados à concepção idealizada de Hoppe de uma sociedade de direito privado.

Ler Hans-Hermann Hoppe é sempre um prazer e nunca um labor, porque tanto os assuntos quanto o comando do Dr. Hoppe sobre eles rapidamente conquistam a atenção e até mesmo a admiração do leitor. A maioria dos textos acadêmicos é praticamente insuportável; e como aludido anteriormente, concebida para atrair apenas um pequeno grupo de doutores que trabalham em uma área ou subcampo muito limitado. Hoppe, ao contrário, produz tratamentos acadêmicos de questões muito mais amplas e fundacionais que conseguem atrair um público leigo inteligente. As notas de rodapé, a lógica dedutiva diamantífera, as referências a trabalhos anteriores e pensadores – todas as marcas dos periódicos acadêmicos estão lá – mas sem o tédio e a arrogância.

Hoppe é o raro intelectual que nunca se vangloria ou nos aborrece, e nunca perde o rumo. Ele mantém as coisas no limite da provocação, pode-se dizer: não muito dispersas, mas nunca floreadas ou supérfluas. Não há rodeios de vinte páginas em algum tópico pouco relacionado apenas por aparência, um hábito ao qual até mesmo os melhores acadêmicos às vezes incorrem. Não o Dr. Hoppe. Seu trabalho inevitavelmente elimina o não essencial e chega à raiz do assunto em questão. Às vezes, esse foco essencial e não adulterado corresponde com sentimentos e pensamentos populares; muitas vezes, não. Daí sua reputação controversa em certos círculos emotivos. Mas Hoppe, como qualquer bom cientista social, tem a obrigação de buscar a verdade e nos ajudar a entender o mundo. Assim, ele nunca apela para as pretensões ou preconceitos do leitor, mas, em vez disso, sempre exige que sigamos o caminho praxeológico de entender os agentes humanos como realmente são.

Em outras palavras, a verdade – incômoda e sem adornos – é o objetivo final de qualquer bom cientista social. Assim, o Dr. Hoppe é um defensor inabalável da realidade e da lógica, e alguém que não se pode ignorar.

 

Jeff Deist

Auburn, janeiro de 2021