Salvando Vidas

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2020 não foi um ano nada bom para os dogmáticos. Sem dúvidas, aqueles religiosos que tradicionalmente se apegam a mantras em detrimento do pragmatismo sofreram duros golpes neste ano. Os obscurantistas foram publicamente expostos e suas opiniões, ridicularizadas no ambiente vexatório da internet.

De anti-vacinas à terraplanistas, todos aqueles que apostaram na heterodoxia para explicação da natureza foram ridicularizados nas matérias jornalísticas, posts de redes sociais, programas de TV, podcasts e toda sorte de mídia que se possa produzir em larga escala.

2020 foi o ano da Ciência, com C maiúsculo, aquela que ficou encarregada de livrar a humanidade de si mesma após a derrota que os iluministas impuseram à religião. “Nossa, mas o mundo ainda é extremamente religioso”, diz o tolo que caiu no problema de Lucrécio, filósofo e poeta latino que escreveu que o tolo acredita que a montanha mais alta do mundo será igual à mais alta já observada por ele. Apesar de a sociedade em geral ser religiosa, sua elite comandante é composta por cientificistas que nutrem um certo desprezo pelos incautos que creem em pastores carismáticos e padres conservadores. A Ciência, com “C” maiúsculo é a Verdade, o que passar disso, vem do maligno.

Como eu disse, 2020 foi o ano da Ciência, portanto, nada de escutar o que o seu pastor, padre, amigo, primo ou qualquer outra pessoa tem a dizer sobre a eminente doença em voga, só a palavra da Ciência vale. Se você for alguém inteligente, apenas obedeça, sem questionar muito o que diz a Ciência, seu excesso de perguntas pode acabar atrasando o trabalho mais importante: salvar vidas.

A velha religião, geralmente focava seus esforços nos meios, dava ao homem uma moral pesada demais para carregar. Um código enorme de regras de conduta que não deveria ser quebrado, ainda que por uma boa causa.

A Ciência por sua vez, mais fluida, flexível e leve, não se ocupa de regras feitas por sabe-se lá quem há milhares de anos atrás, tampouco com os infindáveis axiomas e dogmas medievais. Se queremos o progresso, tratemos de focar nos fins, os meios, que se danem para chegar lá. No caso do coronavírus, o que a ciência, com “C” maiúsculo disse foi que deveríamos salvar vidas a qualquer custo. Essa conversa ética e moralista acerca de liberdades individuais, propriedade privada, direito natural, isso é coisa de dogmático que vai nos atrasar na chegada ao Fim (com F maiúsculo), salvar vidas.

Ocorre que não há limites para a criatividade dos utilitaristas. Qual é o problema em matar milhões, para salvar bilhões? O que vale é salvar bilhões. Desde o fechamento de empresas aleatórias, passando pela proibição de sair às ruas e a cobertura forçada dos rostos, chegando até à limitação do uso do banheiro de cada casa pelas visitas natalinas promulgada pelo governo belga, os utilitaristas da ciência não cessaram de fazer valer seu direito ao uso dos meios, para atingir o fim desejado por todos. Salvar vidas. Vida longa aos fins, danem-se os meios.

O mais triste dos fatos é que nós, meros humanos, não temos controle algum sobre os fins. A mera observação histórica desinteressada nos levará a crer que somos, muito mais fruto de alguma experiência fatalista da natureza, do que um projeto bem-sucedido de sociedade planejada. A câmara de gás não era um fim para o bigodinho, era apenas um meio de se chegar à uma humanidade mais pura. Da mesma forma, os gulags não eram um fim para o estalinho, eram apenas um meio de eliminar aqueles que teimavam em atrasar a glória da revolução.

As quarentenas e lockdowns, da mesma forma, não são um fim, o desejo máximo dos nossos caros governantes. Antes, são apenas meios para livrar a humanidade da auto-aniquilação. O egoísmo individual, se deixado às soltas, certamente aniquilaria a humanidade, portanto, nossos caros governantes precisam se valer dos meios para, salvar vidas.

O segundo mais triste dos fatos é que não existe essa coisa de ciência com C maiúsculo e que, não existe essa tal oposição entre ciência e religião (exceto nas cabeças dos reais obscurantistas e é claro, dos cientificistas). A ciência, a verdadeira, com C minúsculo mesmo, não se preocupa em mudar, melhorar, avançar o mundo. Pelo contrário, quer apenas conhece-lo, desinteressadamente.

A Ciência que quer salvar o mundo, pincela cuidadosamente o trabalho da ciência desinteressada, com o objetivo de buscar fatos que comprovem suas conclusões já pré-estabelecidas. Das mais brandas às mais absurdas medidas de lockdown, é possível provar tudo Cientificamente, basta ter um pouco de paciência e um computador com acesso ao Google. No caso dos nossos caros governantes, aplicação de multas e ameaças de prisão também ajudam muito o trabalho de se provar Cientificamente correto.

Alguns seguidores da ciência com c minúsculo, os pesquisadores Andy Marc, Juliana Antero e Quentin De Larochelembert do instituto de pesquisa em biomedicina e epidemiologia de Paris, Eric Le Bourg do centro de pesquisa de cognição animal de Tolouse e Jean-Fraiçois Toussaint do Hospital de Paris, conduziram a maior e mais extensa pesquisa sobre a mortalidade da COVID-19 feita até o momento. O trabalhou pesquisou os números de nada menos que 160 países e sua conclusão expõe a canalhice (ou burrice) dos justificadores de meios pelos fins.

O trabalho basicamente buscou isolar uma série de variáveis e, em seguida, buscar correlação positiva entre sua intensidade e os índices de mortalidade da COVID-19 em cada país. Antes que se chame o trabalho de anticientífico, saiba, caro leitor, que o mesmo (ao contrário das manifestações pró-enclausuramento de certas universidades públicas brasileiras), foi publicado em revista especializada e revisado por pares. Caso você queira ler o trabalho na íntegra, o nome da pesquisa é COVID-19 Mortality: A Matter of Vulnerability Among Nations Facing Limited Margins of Adaptation.

Algumas das variáveis que não apresentaram correlação significativa foram: longitude, tamanho da população, humidade média. Já dentre as que apresentaram correlação positiva, temos: expectativa de vida (como é de se esperar, já que o coronavírus é mais letal para idosos que para jovens), Latitude (algo que pode indicar que lugares mais frios sofrem mais), PIB (o que faz sentido, pois em geral, países mais ricos possuem mais idosos), Índice de ajuda econômica, Índice de obesidade e sedentarismo (que surpresa, pessoas obesas e sedentárias morrem mais que pessoas magras e ativas).

Dentre as variáveis com correlação negativa (ou seja, quanto maior forem tais variáveis, menor é a taxa de mortalidade) temos: Taxa de morte por doenças infecciosas (que curioso, quanto mais mortes por doenças infecciosas, menos morte pela COVID-19, a doença de fato tem o poder de curar as outras doenças) temperatura (novamente, temperaturas mais altas parecem atrapalhar o trabalho do vírus) e, exposição a raios UV.

Agora, o mais interessante de tudo é: os pesquisadores criaram um índice chamado Severity Index, que mede o grau de severidade das medidas implementadas pelos governos, partindo das mais brandas, como exigência de uso de álcool gel, passando pelas médias, como limitação de pessoas por m² e chegando às mais severas, como toque de recolher, fechamento do comércio, suspensão de aulas, etc.

O resultado é que não há correlação significativa entre as ações de governos e a taxa de mortalidade. Numa linguagem popular, a conclusão é que nada, nenhuma, zero das ações que aquele seu prefeito ou governador aspirantes à bigodinho empreenderam fez qualquer diferença na taxa de mortalidade pela COVID-19.

O estudo não deve ser comparado com aqueles usados em nome da ciência com C maiúsculo lá no início dos trancamentos, aqueles eram modelos, que tentaram prever o futuro e falharam feio. O estudo atual não é um modelo, ele é uma análise dos dados extraídos dos eventos que de fato ocorreram, ele não afirma e não propõe nada, apenas expõe, em linguagem matemática, a relação de cada variável analisada com a taxa de mortalidade pela COVID-19.

Por fim, ao que parece, a ciência com c minúsculo vem mostrando que os seguidores da Ciência com C maiúsculo estão mais para religiosos dogmáticos que aqueles religiosos dogmáticos que eles tanto criticam. Estes novos dogmáticos escolheram seus sacerdotes e suas verdades inquestionáveis, não ouse os interromper, não ouse atrapalhar seus planos de usar os mais heterodoxos meios para atingir seus nobres fins: salvar vidas.

 

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