Sobre a relação entre queda no preço do petróleo e o aumento de sua demanda

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0119_biggest-oil-fields_485x340São vários os jornalistas econômicos dizendo que a atual queda no preço do petróleo será rapidamente contrabalançada por um aumento em sua demanda, o que fará com que o preço retorne ao seu “valor normal”.

Vamos deixar algo bem claro.  Há uma diferença econômica — ou seja, uma distinção analítica — entre essas duas frases: (1) aumento da demanda; (2) aumento da quantidade demandada (isto é, disponível para ser comprada).

Ambas parecem iguais, mas são analiticamente diferentes.

Abaixo, um gráfico convencional de oferta (S) e demanda (D).  Tal gráfico está presente em praticamente todos os manuais de economia.

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O eixo X representa a quantidade (Q) de um bem.  O objetivo do gráfico é transmitir a seguinte ideia: há um preço de equilíbrio (P).  Todos os indivíduos que quiserem vender o bem em questão ao preço P irão conseguir vendê-lo.  E todos os indivíduos que quiserem comprar o bem em questão ao preço P irão conseguir comprá-lo.  Nenhum comprador e nenhum vendedor estão excluídos do mercado.  Trata-se de um gráfico estático, que não leva em consideração uma passagem de tempo.

Já o gráfico abaixo representa um conceito distinto: há um aumento da demanda durante um intervalo de tempo.  Esse aumento da demanda não foi causado por uma redução no preço.  Ao contrário: o aumento da demanda gerou um aumento de preço.  O aumento da demanda foi a causa do aumento de preço.  Portanto, a demanda é uma causa, e não um efeito.

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Trata-se de um gráfico dinâmico.  D1 se move para D2 durante um intervalo de tempo.

O preço do petróleo em 2015

O preço do petróleo despencou na segunda metade de 2014.  Por quê?  Aumento da oferta?  Queda da demanda?  Uma combinação de ambos?

Comecemos por uma redução da demanda.  Boa parte do mundo parece estar entrando em recessão.  Sendo assim, os mercados esperam que haja uma queda na demanda por petróleo.  Essa expectativa derrubou o preço do petróleo.  Essa é uma explicação bastante comum.

Mas também sabemos que houve um aumento da oferta de petróleo.  E não há como armazenar grandes volumes de petróleo, exceto no subsolo.  Tão logo alguém extrai petróleo, ele tem de vendê-lo.  E a OPEP ainda está vendendo petróleo, e não armazenando-o no subsolo.  Os produtores de óleo de xisto também ainda estão vendendo.  Houve, portanto, um aumento da oferta de petróleo na margem.  E os preços são determinados na margem (e não pelo estoque total existente no mundo).  O petróleo continua fluindo.  E como ele tem de ser vendido para uso imediato — e não tem como ser armazenado —, o preço caiu.

Esse gráfico #3 mostra bem essa situação. (A linha verde representa a oferta inicial de petróleo; a linha roxa representa a nova oferta de petróleo, maior; a linha vermelha representa a demanda).

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A curva da oferta se moveu para a direita, que é como economistas ilustram um aumento da oferta.  O preço, consequentemente, caiu.  O mercado se equilibrou em um novo valor de P e Q.  Observe que, nesse gráfico, a quantidade demandada aumentou.  Esse é um gráfico dinâmico, que leva em consideração um intervalo de tempo.  A oferta antiga se moveu para uma oferta nova (e maior).  Consequentemente, a quantidade demandada aumentou de Q1 para Q2 (maior).

Mas há um problema com essa explicação: o preço do petróleo caiu acentuadamente na segunda metade de 2014.  E a oferta não aumentou tão significativamente assim desde junho.  Logo, creio que uma queda na demanda foi a principal causa.

Eis um gráfico que representa melhor esse fenômeno: “oferta inelástica” (o que significa que a oferta não é sensível a alterações de preço) e demanda em queda.  Com essa combinação, o preço cai.

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A oferta é inelástica?  Bastante.  O líder do ministério do petróleo da Arábia Saudita afirmou que seu país continuará vendendo petróleo mesmo se o preço do barril cair a US$20.  Dado que todos os outros exportadores precisam de dinheiro, eles não podem se dar ao luxo de interromper sua produção e parar de vender.  E eles não têm o poder de afetar o preço por meio de uma redução na oferta.  A Arábia Saudita é o gorila de 2.000kg que dita as regras.  Se o país se recusar a reduzir a oferta, o preço irá cair.  Sendo assim, todos os outros são obrigados a continuar extraindo petróleo.  Eles precisam do dinheiro.  Isso define uma “oferta inelástica”.

Alguns economistas estão argumentando o seguinte: o preço do petróleo está baixo hoje, e, como consequência, haverá um aumento da demanda por petróleo.  Esse argumento é analiticamente incorreto.  Ele parte do princípio que o mercado irá sair do gráfico #1 (gráfico estático, que não leva em consideração uma passagem de tempo) e irá para o gráfico #2 (gráfico dinâmico).  Pode até haver algum aumento da demanda, pois a economia mundial pode melhorar nesse ínterim.  Mas qual a evidência de que isso irá acontecer?  Ainda não há nenhuma.

A queda no preço do petróleo em 2014, qualquer que seja seu motivo, é um fato.  Isso significa que, por causa do aumento da produção, haverá uma maior quantidade de petróleo sendo demandada (isto é, disponível para ser comprada) a esse novo preço, pois um aumento na produção gerou essa maior quantidade a ser demandada.  Por outro lado, uma redução na demanda por petróleo levou a uma queda no preço, e sem que essa queda gerasse um aumento na quantidade de petróleo comprada: oferta inelástica.

Sei que a linguagem é semelhante e gera confusão: a palavra “demanda” parece ser sinônima de “demandada”.  Porém, conceitualmente falando, as duas frases acima são diferentes.  Causa e efeito são distintos.

Se o preço do petróleo caiu por causa de um aumento da produção, então a quantidade de petróleo demandada (isto é, disponível para ser comprada) irá aumentar.  Todos aqueles que quiserem vender petróleo a esse preço conseguirão fazê-lo, e todos aqueles que quiserem comprar petróleo a esse preços conseguirão fazê-lo.

Mas isso não é o mesmo que dizer que haverá um aumento na demanda por petróleo em 2015.  Um aumento na demanda indicaria que algum novo elemento foi acrescentado às condições econômicas atuais.

Não vejo hoje nenhum motivo forte para acreditar que haverá um grande aumento na demanda por petróleo em 2015, significando um deslocamento para a direita em toda a curva da demanda.  Creio ser muito mais provável que a demanda por petróleo irá cair por causa das recessões no Japão e na Europa Ocidental, e também por causa de uma desaceleração econômica na China.

Qualquer argumento sobre um eventual aumento futuro no preço do petróleo tem de ser mais robusto do que simplesmente dizer que “o atual preço baixo do petróleo irá aumentar a demanda por petróleo”.  Isso pode acontecer apenas se o preço baixo do petróleo estimular a economia mundial o suficiente para contrabalançar a recessão.  Porém, até o momento, não há sinais disso.

Se você quer argumentar que haverá um aumento no preço do petróleo, você tem de argumentar que a demanda por petróleo irá aumentar por conta própria.  Em outras palavras, a curva demanda irá se deslocar para a direita.  É isso o que mostra o segundo gráfico.  Algo de fundamental irá ocorrer e irá alterar a demanda por petróleo, e essa alteração irá deslocar toda a curva da demanda para a direita.  Qualquer pessoa que argumentar nesses termos terá de explicar por que a demanda por petróleo irá aumentar.  Ela tem de explicar por que toda aquela curva irá se deslocar para a direita.  E, no gráfico, a alteração da demanda altera os preços.  Nesse caso, a demanda é uma causa, e não um efeito.

Analiticamente, um aumento na demanda não é a mesma coisa que um aumento na quantidade demandada (isto é, disponível para ser comprada).  Sei que a linguagem confunde muita gente.  Se você pretende especular com o preço do petróleo, é crucial que você não confunda esses dois conceitos.