Socialismo, cálculo econômico e função empresarial

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PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO

O presente livro é o resultado de um longo processo pessoal de formação intelectual que se iniciou há quase 20 anos, no outono de 1973, época em que comecei a assistir, por influência do meu pai, Jesu´s Huerta Ballester, e graças também à boa influência de Jose´ Ramo´n Canosa Penaba, ao seminário semanal sobre Economia Austríaca que era ministrado todas as quintas-feiras à tarde em Madri pelos irmãos Joaquín e Luis Reig Albiol, na residência deste último. O entusiasmo e o inesgotável apoio que sempre recebi de Luis Reig, juntamente com a preparação e assistência decorrentes da participação nas sessões semanais deste seminário ao longo da década de 1970, constituíram para mim não só uma extraordinária experiência intelectual de incalculável valor na minha etapa de formação como economista, bem como a oportunidade de chegar à convicção de que só seguindo o paradigma da Escola Austríaca se poderia fornecer resposta às interrogações e resolver as inconsistências de outros paradigmas alternativos, como o keynesiano e o da Escola de Chicago, que, a princípio, me pareceram equivocadamente sedutores.

Mais tarde, em 1980, e graças a uma recomendação do já Prémio Nobel de Economia Friedrich A. Hayek e a uma bolsa do Banco da Espanha para a realização de estudos de ensino superior de Economia Política na Universidade de Stanford, pude dedicar dois cursos acadêmicos completos para aprofundar os meus conhecimentos sobre a Escola Austríaca em geral, e, em particular, sobre a sua teoria do capital e dos processos de mercado. Devo reconhecer a grande ajuda que recebi durante este período de Leonard Liggio e de Walter Grinder, do Institute for Humane Studies, então situado em Menlo Park, precisamente ao lado da Universidade, os quais tornaram possível a grande experiência intelectual que para mim constituiu conhecer Murray N. Rothbard, um dos mais brilhantes alunos de Ludwig von Mises e membro proeminente da atual Escola Austríaca, e com ele discutir alguns dos temas mais polêmicos e interessantes da Ciência Econômica.

De volta à Espanha em 1983, e depois da satisfação de receber das mãos de sua majestade o rei Dom Juan Carlos I o Prêmio internacional de Economia que leva o seu nome, pelos meus estudos sobre os planos privados de pensões e a privatização da segurança social, fui convidado por Gustavo Villapalos Salas, atual reitor da Universidade Complutense de Madri, a integrar o corpo docente da referida Universidade, na qual atualmente dou aulas de Economia Política como professor titular. Devo agradecer profundamente aos meus alunos de Economia Política, tanto dos cursos de graduação quanto de doutorado, o esforço, o entusiasmo e a dedicação que colocam na aprendizagem e no aprofundamento dos princípios essenciais da Economia Política, em geral, e da Escola Austríaca, em particular. O seu elevado número — a uma média de 300 alunos por ano, entre o doutorado e a graduação, já superam, sete anos depois, os 2.000 alunos — me impede, por razões óbvias de espaço, e não de merecimento, de citar expressamente todos aqueles que se destacaram com mais brilhantismo. No entanto, dentre todos eles não posso deixar de mencionar Esteban Ga´ndara Trueba, Eugenio Illana Rodri´guez, Miguel Angel Ferrero Andre´s, Sara Gonza´lez Pe´rez e Carlos de Miguel pelo valor acadêmico, colaboração e apoio.

Durante os últimos anos da minha atividade docente fui ficando cada vez mais convencido de que era necessário elaborar uma teoria do socialismo que, encontrando-se profundamente enraizada na metodologia subjetivista da Escola Austríaca, se baseasse nas teorias da ação humana e da função empresarial tal como foram desenvolvidas primeiro por Ludwig von Mises e depois, sobretudo, por Israel M. Kirzner. Cheguei também à conclusão de que é preciso adotar uma nova definição de socialismo, muito mais produtiva e muito mais capaz de explicar os problemas reais, que permita tratar uniformemente os diferentes tipos de socialismo que existem ou existiram na história, e ainda que possa promover o desenvolvimento futuro da Ciência Econômica. A partir do enfoque proposto, penso que esta pode e deve se converter em toda uma teoria sobre os efeitos da coerção institucional.

A primeira vez que tive a oportunidade de submeter a minha nova concepção de socialismo à discussão pública foi no seminário que organizei para a Liberty Fund no Real Colegio Universitario Mari´a Cristina de San Lorenzo de El Escorial, de 30 de outubro a 1º de novembro de 1988, cujo o tema era «Economic Calculation, Economic Planning and Economic Liberty». Neste seminário, tiveram participação brilhante, entre outros,[1]Gerald P. O’Driscoll e Don A. Lavoie. Este último, um dos melhores especialistas do debate em torno da impossibilidade do cálculo econômico no socialismo, me fez ver a importância de aprofundar o referido debate, bem como a necessidade de fazer uma revisão e reavaliação global do tema do ponto de vista da nova concepção do socialismo que eu propunha.

Assim começou a redação do manuscrito daquela que, sob o título geral de Análise Crítica do Socialismo: Teórica, Histórica e Ética, pretende ser uma obra que analise de forma integrada, e com a necessária extensão e profundidade, o fenômeno socialista nas suas facetas mais importantes e que, sistematizando e partindo do já realizado por outros teóricos neste campo, permita dar um conjunto significativo de passos para a compreensão, explicação e prevenção do socialismo. A finalidade de apresentar os capítulos que vão sendo elaborados, não apenas para evitar um desnecessário atraso na publicação, que seria inevitável dada a extensão do programa empreendido, juntamente com a necessidade prática de municiar os meus alunos com materiais de estudo novos e atualizados, motivaram a publicação da primeira parte do meu trabalho, aquela que corresponde basicamente ao tratamento teórico da análise crítica do socialismo, com o título deSocialismo, Cálculo Econômico e Função Empresarial. Deixamos para uma futura publicação a aplicação da análise teórica proposta no presente livro, tanto à interpretação histórica dos casos reais de socialismo, como ao estudo da sua admissibilidade ética e ao desenvolvimento de uma teoria sobre a sua prevenção e o seu desmantelamento.

Leram o manuscrito do presente livro, contribuindo com vários comentários críticos e sugestões, os professores Israel M. Kirzner, da Universidade de Nova Iorque, Lucas Beltra´n Flo´rez, José Luis Pe´rez de Ayala e Lo´pez de Ayala, José T. Raga Gil, Francisco Cabrillo Rodri´guez e Carlos Rodri´guez Braun, todos eles da Universidade Complutense de Madri; Pedro Schwartz Giro´n da Universidade Autônoma de Madri; Santos Pastor Prieto da Universidade Carlos III de Madri; Joaqui´n Trigo Portela da Universidade Central de Barcelona; e Javier Paredes Alonso da Universidade de Alcala´ de Henares. A todos eles dedico o meu mais profundo e sincero agradecimento, eximindo-os, como é óbvio, de qualquer responsabilidade sobre o conteúdo final da obra. Foi apresentada uma versão inglesa do Capítulo III na reunião regional da sociedade Mont Pèlerin que aconteceu em Praga no início de novembro de 1991, sendo mais tarde apresentada, de forma muito mais aprofundada e discutida, na First European Conference on Austrian Economics realizada  na Universidade de Maastrich de 9 a 11 de abril de 1992, sob a direção de Israel M. Kirzner.[2]

Quero ainda agradecer o esforço das minhas colaboradoras Carmen Galiana, Sandra Moyano e Ann Lewis, que redigiram e corrigiram as diferentes versões do manuscrito. Agradeço também à minha esposa, colaboradora e aluna Sonsoles Huarte Gime´nez o esforço, a paciência e a dedicação com que suportou as minhas longas horas de estudo e trabalho, em detrimento de um tempo precioso que, em muitas ocasiões e em circunstâncias normais, deveria ter dedicado à minha família. A todos eles expresso o meu agradecimento.

Señori´o de Sarría, 7 de julho de 1992

JESU´S HUERTA DE SOTO


[1] Participaram neste seminário do Liberty Fund, além dos professores mencionados no texto, os seguintes: Karl H. Paque´, do Instituto de Economia de Kiel; Charles King, do Liberty Fund; Norman P. Barry, da Universidade de Buckingham; Carlos Rodri´guez Braun, José T. Raga Gil, Francisco Cabrillo Rodri´guez, Santos Pastor Prieto, Lucas Beltra´n Flo´rez e Pedro Schwartz Giro´n, todos eles à época da Universidade Complutense de Madri; Antonio Argandon~a, da Universidade Central de Barcelona; Henri Le´page, do Institut de l’Entreprise de Paris; e Luis Reig Albiol de Madri.

[2] Publicada com o título de «The Economic Analysis of Socialism», cap. 14 de New Perspectives on Austrian Economics, Gerrit Meijer (ed.), Routledge, Londres e Nova Iorque, 1995.