Sustentabilidade – um assalto à ciência econômica

0
Tempo estimado de leitura: 7 minutos

sustentabilidade1Ah, os verdes.  Houve um tempo em que eles eram apenas adoradores de árvores.  Depois eles passaram a nos intimidar com mais veemência, nos obrigando a reciclar, a comer soja, a não acender a luz, a dirigir menos, a andar de ônibus e a fazer milhares de outras “ações locais”.  Agora eles estão mascateando mais uma modernidade, dessa vez na tela grande: o filme “No Impact Man” – sobre um homem que obriga sua mulher consumista e suas duas filhas a viverem primitivamente durante um ano – promete ser o seu guia em uma viagem expiatória até a terra ecologicamente prometida.

Apesar da enorme popularidade de sua causa, não creio que eles estejam satisfeitos.  Eles querem nos controlar e dominar por completo.  Se não ficarmos espertos, essas pessoas impulsivamente determinadas a salvar o planeta irão acabar controlando os mínimos detalhes das nossas vidas diárias.

A própria ideia de sustentabilidade soa bastante benigna – ela meramente sugere que as pessoas devem pensar no futuro e ser prudentes e frugais no uso de recursos econômicos.  Nada contra essa ideia básica – superficialmente, parece ser uma sabedoria elementar, algo em comum acordo com valores similarmente afáveis e benevolentes, como responsabilidade e generosidade.

Porém, bem internamente, há algo perturbador e inquietante no que concerne a premissa básica da sustentabilidade.  Os defensores da sustentabilidade – vamos chamá-los de “sustentabilistas” – são condenatórios em seu fervor, segurança e retórica.  Sua ideologia está impregnada daquela afetação de superioridade que diz que as coisas são insustentáveis do jeito que estão atualmente.  Há neles um senso de alarmismo que, em sua essência, alega que “há uma crise e a culpa é toda sua por ser ignorante, irracional e ganancioso.  Você deve seguir nossas ordens para que possamos corrigir isso, ou todos nós iremos morrer.”

Essa cruzada alarmista, que é a base do movimento sustentabilista, deveria irritar as pessoas que possuem algum conhecimento econômico sobre o mundo.  Um princípio básico da economia é que os mercados são sistemáticos, ordeiros e autocorretores; os preços indicam a escassez dos recursos e guiam as pessoas a utilizá-los de maneira econômica.  Os preços mudam de acordo com as alterações que ocorrem nas condições de oferta e demanda, induzindo ajustes apropriados nos padrões de produção e consumo.  O sistema de preços direciona a busca pelo lucro – um aspecto natural da condição humana – para atividades produtivas e inovadores.  Em resumo, o sistema de preços funciona.

Os sustentabilistas ou são ignorantes ou se recusam a aceitar essa lição básica.  Em ambos os casos, nós economistas temos muito trabalho a ser feito.

O lamento dos sustentabilistas

A essência do problema, como os sustentabilistas o veem, é que as pessoas estão utilizando recursos irresponsavelmente – exaurindo-os muito rápido, utilizando-os em excesso, ou utilizando-os de uma maneira que terá desdobramentos negativos no longo prazo.  Ou seja, os sustentabilistas desaprovam as ações de quaisquer outras pessoas – e estão tomando medidas para corrigir esses seus irmãos impertinentes e perversos.

E como esses outros devastadores, seja por ignorância, preguiça ou teimosia, não irão se aprumar e adotar voluntariamente práticas sustentáveis, os sustentabilistas veem a necessidade da implementação de medidas – campanhas organizadas, viagens ecológicas que trazem sentimento de culpa, e, sim, até mesmo a criação de leis – para corrigir essa exploração de recursos.  Precisamos mudar nosso padrão de ação, dizem eles; precisamos de uma força motivacional que esteja além do mero “autointeresse econômico” (por exemplo, a busca por lucros).  A sustentabilidade, portanto, tornou-se uma cruzada inflexível para “salvar o planeta” – e se você não é parte da solução, então certamente é parte do problema.

Vamos interpretar isso pela lente da economia.  Os argumentos sustentabilistas caem em uma das duas amplas categorias a seguir: (1) o argumento dos recursos não renováveis: a oferta de certos recursos importantes está encolhendo.  Quando as pessoas se derem conta disso, será “tarde demais” – a escassez de recursos irá deformar as economias capitalistas até seu ponto de ruptura; (2) o argumento da mudança climática: há várias, ainda que atrasadas, externalidades negativas inerentes aos padrões atuais de utilização dos recursos.[1]

Não importa de qual tipo seja, os argumentos sustentabilistas invocam falhas de mercado.  Com efeito, as próprias práticas citadas como insustentáveis surgem no livre mercado.  Assim, alguma medida externa corretiva – seja por meio de uma agressiva persuasão moral ou por meio de mais regulação econômica – é necessária para impedir a iminente catástrofe do uso insustentável dos recursos.

O sistema de preços não é suficiente?

Não quero me estender nas particularidades do movimento sustentabilista.  Há inúmeros tipos de manifestações, desde ‘construções verdes’ até agricultura orgânica, passando por reciclagem obrigatória e descarbonização – com efeito, o carro-chefe do movimento sustentável (que obviamente é pintado de verde e propulsionado por energia renovável) parece ser infinitamente expansível a ponto de aceitar em seu interior todos os tipos de indústrias e grupos de interesse.  Ao invés disso, quero falar sobre as implicações essenciais do movimento sustentável.

O movimento sustentável é um ataque à ciência econômica.  Em seu núcleo, ele alega que os preços não operam ao longo do tempo de modo a coordenar as decisões de produção e consumo de uma maneira sustentável.  Uma lição em economia básica deveria ser suficiente para delinear uma defesa contra o ataque dos sustentabilistas.

Os preços surgem na economia de mercado como uma baliza para trocas que são mutuamente benéficas.  As pessoas querem coisas que melhorem suas vidas – chamamos isso de valorizar.  Algumas coisas valorosas são mais escassas do que outras; peguemos o caso clássico da água e dos diamantes.  Em termos absolutos, a água é mais valorosa que diamantes: você não precisa de diamantes para viver.  Entretanto a água é muito mais barata que o diamante.  Por quê?  Embora seja valorosa, a água também é relativamente abundante; em muitas partes do mundo, ela literalmente cai do céu.

O preço de qualquer bem reflete sua combinação de valor e escassez.  Estamos dispostos a pagar mais por coisas valorosas à medida que elas vão se tornando escassas (por exemplo, petróleo); e não precisamos pagar tanto por coisas valorosas à medida que elas se tornam mais abundantes (por exemplo, cereais).

Da mesma forma, à medida que as coisas escassas perdem seu valor, as pessoas ficam menos dispostas a pagar por elas (por exemplo, máquinas de escrever).  Inversamente, as pessoas precisam pagar mais por coisas escassas que repentinamente se tornam muito procuradas (como, por exemplo, os discos clássicos e antigos de Michael Jackson).  O que é impressionante a respeito dos preços é que eles perfeita e continuamente transmitem essa combinação de fatos sobre o valor (a demanda) de um item e sua escassez (oferta).  Os preços, é claro, estão sujeitos a mudanças – os preços de certos bens flutuam diariamente.  Mas isso é algo bom; tendências discerníveis nos preços ao longo de um período de tempo indicam mudanças relativas nos “fundamentos de mercado” – isto é, da oferta e da demanda.

Nesse sentido, os preços guiam confiavelmente os indivíduos, tanto os consumidores quanto os produtores, em direção a um uso mais racional dos recursos.  Consumidores astutos seguem o sinal enviado pelos preços; preços ascendentes indicam que eles devem diminuir o consumo daquele item em particular, e preços em queda significa que eles podem ir em frente e consumir um pouco mais daquele recurso.  Essa mesma lógica básica do lado do consumidor se aplica para o lado do produtor.

Empreendedores à procura de lucro são como cães de caça que, justamente por estarem continuamente buscando oportunidades de lucro (oportunidade de lucro = chances de se criar valor por meio das trocas voluntárias), farejam e detectam as tendências do comportamento dos preços.  Se o preço de um bem apresenta uma forte tendência ascendente (o que indica que ele se tornou mais escasso e/ou mais valoroso), os empreendedores correm para encontrar substitutos mais baratos.  Quanto mais baratos os substitutos, maiores os lucros esperados, principalmente se você for o primeiro no mercado.  Se os preços apresentam tendência de queda (indicando que o recurso está se tornando mais abundante em relação à sua utilidade), os empreendedores irão aplicar seus esforços em outras áreas.

O resultado geral desse processo econômico é capturado pelo enunciado “preços coordenam”.[2]  Em outras palavras, o sistema de preços age como uma “mão invisível” que guia as pessoas – consumidores e produtores – em suas ações econômicas.  A verdadeira beleza desse sistema de preços de livre mercado é que ele produz seu próprio tipo de sustentabilidade.

Peguemos, por exemplo, uma transição ocorrida livremente no mercado: a iluminação interior.  Velas de sebo foram substituídas por lampiões a óleo de baleia, que foram substituídos por lâmpadas a querosene, que foram substituídas por bulbos incandescentes alimentados por eletricidade.  Não foi necessária nenhuma pressão social ou política para efetuar essa evolução; não houve movimento contrário à utilização do óleo de baleia, não houve conservacionistas do querosene e nem qualquer tipo de cruzadas sustentabilistas.  Foi necessário apenas um sistema de preços funcional combinado a uma constante busca empreendedorial por lucros – tudo operando sob a ordem concorrencial do livre mercado.

Da mesma forma, na época atual, enquanto os sustentabilistas e outros pessimistas crônicos nos atormentam com o discurso do esgotamento dos recursos, o sistema de preços continua funcionando, direcionando serena e seguramente os indivíduos a economizarem recursos, a buscarem substitutos lucrativos e a anteciparem tendências futuras.  Tudo isso ocorre sem pregações, sem cruzadas e sem ativismo.

A cruzada sustentabilista é sustentável?

Por quanto tempo os sustentabilistas continuarão promovendo entusiasticamente sua causa, trombeteando sua imagem de “somos mais verdes que você” e tentando, com variados graus de coerção, fazer com que o resto de nós aja “sustentavelmente” também?  Com o alarmismo do aquecimento global perdendo credibilidade a cada dia, a probabilidade dos sustentabilistas serem capazes de proclamar até mesmo uma vitória moral está se esvanecendo.  A menos que a terra derreta como consequência de um pouquinho de fumaça, não estou muito preocupado com a hipótese de os sustentabilistas terem algum impacto de longo prazo.

A linha-dura dos sustentabilistas exige mudanças que irão destruir radicalmente a ordem natural da economia de livre mercado.  Eles querem que abramos mão da nossa riqueza e abracemos todos os tipos de privação em nome da causa deles.[3] Embora os cidadãos das democracias ocidentais tenham aparentemente se tornado pessoas ingenuamente crédulas em tudo o que se diz “verde”, esse é o máximo que irão em termos de “salvar o planeta”, principalmente quando se tornar aparente que a sustentabilidade requer uma marcha rumo à pobreza e uma sociedade profundamente regulada e arregimentada (e, afinal, o planeta realmente não está em perigo).

Também, e talvez mais importante, as pessoas nos países em desenvolvimento ficarão progressivamente repelidas pelas exigências de mais sacrifícios impostas pelos sustentabilistas.  Após terem atingido o alto padrão de vida que só o desenvolvimento capitalista de longo prazo permite, é de se esperar que elas ignorem friamente a ideia de reverter esse seu enriquecimento.

O atual ressurgimento da tradição liberal clássica na economia também irá reduzir o apelo da sustentabilidade.  A ideia da sustentabilidade imposta ou centralmente planejada irá se esfacelar perante a percepção de que a ordem espontânea trazida pela mão invisível do sistema de preços do livre mercado é surpreendentemente sustentável per se.  Acrescente a isso as privações trazidas pela atual recessão, e não vai demorar muito para que várias pessoas, mesmo os aguerridos cruzados sustentabilistas, voltem rastejando, pires na mão, para a economia de livre mercado.

___________________________________________________________

Notas

[1] O movimento “peak oil” é um exemplo do primeiro argumento.

[2] Esse é um tema constante nos trabalhos de F.A. Hayek; veja, por exemplo, seu ensaio clássico, “O Uso do Conhecimento na Sociedade“.

[3] Para exemplos de sacrifícios econômicos que a linha-dura dos sustentabilistas quer impor, ver aqui, aqui eaqui.