Teoria e História

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Capítulo 16. As Tendências Atuais e o Futuro

1. A Inversão da Tendência rumo à Liberdade

 

A PARTIR DO SÉCULO XVII, os filósofos que lidavam com o conteúdo essencial da história começaram a enfatizar os problemas da liberdade e da servidão. Seus conceitos sobre ambos eram um tanto vagos, emprestados da filosofia política da Grécia Antiga e influenciados pela interpretação vigente sobre as condições das tribos germânicas cujas invasões haviam destruído o império ocidental de Roma. Do ponto de vista destes pensadores, a liberdade era o estado original da humanidade, e o governo dos reis havia surgido apenas no curso da história posterior. Eles encontravam a confirmação de sua doutrina no relato das Escrituras sobre a inauguração do reinado de Saul, bem como uma descrição um tanto desfavorável sobre os traços característicos de um governo real.[1] Concluíram que a evolução histórica havia privado o homem de seu direito inalienável à liberdade.

Os filósofos do Iluminismo foram quase unânimes em rejeitar as reivindicações de realeza hereditária e em recomendar a forma republicana de governo. A patrulha real forçou-os a serem cautelosos ao expressar suas ideias, mas o público conseguia ler nas entrelinhas. Às vésperas das revoluções Americana e Francesa, a monarquia havia perdido sua antiga influência sobre a mente das pessoas. O enorme prestígio tido pela Inglaterra, nação mais rica e poderosa do mundo na época, sugeria o compromisso entre os dois princípios incompatíveis de governo, que haviam funcionado de maneira satisfatória no Reino Unido. Mas as antigas dinastias nativas da Europa continental não estavam preparadas para aceitar tacitamente a sua redução a uma posição meramente cerimonial, como a dinastia estrangeira da Grã-Bretanha havia finalmente aceitado, embora somente após alguma resistência. Eles perderam suas coroas porque desdenharam do papel daquele que o Conde de Chambord havia chamado de “o legítimo rei da revolução”.

No auge do liberalismo, a opinião predominante era de que a tendência rumo ao governo do povo era inexorável. Até mesmo os conservadores, que advogavam um retorno ao absolutismo monárquico, dos privilégios de classe para a nobreza e da censura estavam mais ou menos convencidos de que estavam lutando por uma causa perdida. Hegel, o defensor do absolutismo prussiano, achou conveniente expressar de maneira pouco sincera sua lealdade à doutrina aceita universalmente definindo a história como “progresso na consciência da liberdade”.

Mas então surgiu uma nova geração que rejeitou todas as ideias do movimento liberal sem esconder, como Hegel, suas reais intenções por trás de uma reverência hipócrita à palavra liberdade. A despeito de sua simpatia pelos princípios dos autodenominados reformistas sociais, John Stuart Mill não teve como não chamar os seus projetos — e, especialmente, os de Auguste Comte — de liberticidas.[2] Aos olhos destes novos radicais, os inimigos mais depravados da humanidade não eram os déspotas, mas sim os “burgueses” que os haviam desalojado. A burguesia, diziam eles, havia enganado as pessoas ao proclamar slogans falsos de liberdade, igualdade perante a lei, e governo representativo. O que os burgueses de fato tencionavam era a exploração da imensa maioria dos homens honestos. A democracia era, na realidade, uma plutodemocracia, uma cortina para esconder a ditadura ilimitada dos capitalistas. O que as massas precisavam não era de liberdade e de uma participação na administração das questões governamentais, mas da onipotência dos “verdadeiros amigos” do povo, da “vanguarda” do proletariado ou do Führer carismático. Ninguém que leu os livros e panfletos do socialismo revolucionário tinha como deixar de perceber que seus autores não buscavam a liberdade, mas sim um despotismo totalitário ilimitado. No entanto, enquanto os socialistas não tivessem obtido o poder, eles precisavam desesperadamente, para a sua propaganda, das instituições e das declarações de direitos do liberalismo “plutocrático”. Como partido de oposição, eles não podiam abrir mão da publicidade que o fórum parlamentar lhes oferecia, nem tampouco da liberdade de expressão, de consciência e de imprensa. Assim, a contragosto, tiveram que incluir temporariamente em seu programa as liberdades e direitos civis que eles estavam firmemente determinados a abolir assim que assumissem o poder. Pois, como declarou Bukharin após a conquista da Rússia pelos bolcheviques, seria ridículo exigir dos capitalistas liberdade para o movimento dos trabalhadores de qualquer outra maneira que não fosse exigindo liberdade para todos.[3]

Nos primeiros anos do seu regime, os soviéticos não se preocuparam em esconder sua ojeriza ao governo popular e às liberdades civis, e louvaram abertamente seus métodos ditatoriais. No entanto, no final da década de 1930 eles perceberam que um programa indisfarçado contra a liberdade era impopular na Europa Ocidental e na América do Norte. Como eles queriam estabelecer relações amistosas com o Ocidente, assustados com o rearmamento da Alemanha, eles mudaram repentinamente a sua atitude em relação aos termos (não às ideias) democracia, governo constitucional e liberdades civis. Proclamaram o slogan da “frente popular” e estabeleceram uma aliança com as facções socialistas rivais que, até então, haviam considerado como traidores sociais. A Rússia obteve uma constituição, que foi louvada em todo o mundo por escrevinhadores servis como o mais perfeito documento da história, a despeito de ser baseada no princípio do partido único, a negação de todas as liberdades cívicas. A partir daquele momento o mais bárbaro e despótico dos governos começou a reivindicar para si o título de “democracia popular”.

A história dos séculos XIX e XX desacreditou as esperanças e prognósticos dos filósofos do Iluminismo. Os povos não seguiram trilhando o caminho rumo à liberdade, governo constitucional, direitos civis, livre comércio, paz e boa vontade entre as nações. Em vez disso, a tendência é o totalitarismo, o socialismo. E, mais uma vez, existem pessoas que afirmam que essa tendência é a fase derradeira da história, e que ela jamais dará lugar para qualquer outra tendência.

 

2. A Ascensão da Ideologia da Igualdade de Riqueza e Renda

 

Desde tempos imemoriais a filosofia viva do homem comum aceitou sem questionar o fato das diferenças de classe, assim como a necessidade da subordinação àqueles que estão no poder. A necessidade primordial do homem é a proteção contra os ataques malévolos por parte de outros homens e grupos de homens. Somente quando está seguro destes ataques hostis é que o homem pode coletar alimentos, construir uma casa, criar uma família, em suma, sobreviver. A vida é o bem primordial, e nenhum preço pago pela sua preservação parecia ser alto demais para os povos assolados pelas incursões predatórias. Permanecer vivo como um escravo, segundo eles, ainda era melhor do que ser morto. Afortunados aqueles que gozavam da proteção de um senhor benevolente, mas até mesmo um amo cruel era preferível a nenhuma proteção. Os homens nascem desiguais. Alguns são mais fortes e mais inteligentes, outros são mais fracos e ineptos. Estes últimos não tinham outra escolha além de se submeter aos primeiros e associar seu próprio destino ao de um suserano poderoso. Deus assim havia ordenado, declararam os sacerdotes.

Esta foi a ideologia que incitou a organização social que Ferguson, Saint-Simon e Herbert Spencer chamaram de militarística, e que os autores americanos dos dias de hoje chamam de feudal. Seu prestígio começou a entrar em declínio quando os guerreiros que combatiam as batalhas do líder militar perceberam que a manutenção do poder de seu chefe dependia de sua própria bravura, e, ao ganhar autoconfiança após esta constatação, passou a pedir por uma parcela na conduta das questões de estado. Os conflitos resultantes desta exigência dos aristocratas engendraram ideias que inevitavelmente fizeram com que a doutrina da necessidade social de distinções de casta e classe fosse questionada e, por fim, demolida. Por que, perguntaram os homens do povo, os nobres gozam de privilégios e direitos que nos são negados? Por acaso a florescência da nação não depende de nossa labuta e de nosso esforço? As questões de estado dizem respeito apenas aos reis e barões, e não à grande maioria de nós? Pagamos os impostos e nossos filhos sangram nos campos de batalha, mas não temos voz nas assembleias nas quais o rei e os representantes da nobreza determinam nosso destino.

Nenhum argumento convincente pode ser contraposto a estas pretensões do tiers état. Era anacronístico preservar privilégios de classe que haviam sido originados num tipo de organização militar abandonado há muito tempo. A discriminação praticada contra os plebeus pelas cortes principescas e pela “boa sociedade” não passava de um aborrecimento. Mas o tratamento desdenhoso, nos exércitos e no serviço diplomático e civil, daqueles que não tinham linhagem nobre, provocava desastres. Liderados por tolos aristocráticos, os exércitos reais franceses foram derrotados; no entanto, ainda existiam muitos plebeus na França que, posteriormente, provaram seu valor nos exércitos da Revolução e do Império. As conquistas diplomáticas, militares e navais da Inglaterra deveram-se em parte, evidentemente, ao fato de que aquele país havia aberto, virtualmente, todas as carreiras a todos os cidadãos. A demolição da Bastilha e a abolição dos privilégios da nobreza francesa foram aclamados no mundo inteiro pela elite; na Alemanha, por Kant, Goethe, Schiller, entre outros. Na Viena imperial Beethoven compôs uma sinfonia para homenagear o comandante dos exércitos da Revolução que havia derrotado as tropas austríacas, e ficou profundamente sentido quando recebeu a notícia de que o seu herói havia derrubado o governo republicano. Os princípios da liberdade, igualdade de todos os homens perante a lei, e governo constitucional foram aprovados com pouca oposição pela opinião pública de todos os países ocidentais. Guiados por estes princípios, acreditava-se, a humanidade estava marchando adiante rumo a uma nova era de justiça e prosperidade.

Não havia, no entanto, unanimidade na interpretação do conceito de igualdade. Para todos os seus defensores ele significava a abolição dos privilégios de classe e castas e das desvantagens legais das camadas “mais baixas”, e, especialmente, da escravidão e da servidão. Mas existiam aqueles que advogavam o nivelamento das diferenças de riqueza e renda.

Para se compreender a origem e o poder desta ideologia igualitária deve-se ter em mente que ela foi estimulada pela retomada de uma ideia que, por milhares de anos, em todo o mundo, inspirou movimentos reformistas, bem como os escritos meramente acadêmicos de autores utópicos: a ideia da distribuição igualitária da terra. Todos os males que assolaram a humanidade foram atribuídos ao fato de que algumas pessoas se apropriaram de mais terra do que eles precisavam para sustentar suas famílias. O corolário da abundância do senhor da casa-grande era a penúria dos sem-terra. Esta iniquidade era vista como a causa do crime, dos assaltos, dos conflitos e dos derramamentos de sangue. Todos estes males desapareceriam numa sociedade que consistisse exclusivamente de fazendeiros que pudessem produzir em suas próprias propriedades aquilo que eles precisariam para sustentar suas famílias, nem mais nem menos. Neste estado de riqueza comum não existiriam tentações, e nem indivíduos, nem nações cobiçariam aquilo que pertencesse a outros por direito. Não existiriam nem tiranos nem conquistadores, pois nem a agressão nem a conquista compensariam. Haveria a paz eterna.

A distribuição igualitária da terra foi o programa que motivou os Graco na Roma Antiga, as revoltas camponesas que volta e meia criaram distúrbios em todos os países europeus, as reformas agrárias que diversas seitas protestantes e os jesuítas na organização de sua célebre comunidade indígena no atual Paraguai tiveram como meta. O fascínio desta utopia cativou muitas das mentes mais nobres, entre elas Thomas Jefferson. Ela influenciou o programa dos Revolucionários Sociais, o partido que recrutou a imensa maioria das pessoas na Rússia imperial. Atualmente é o programa de centenas de milhões na Ásia, África e América Latina, cujos esforços contam, paradoxalmente, com o apoio da política externa dos Estados Unidos.

No entanto, a ideia da distribuição igualitária da terra é uma ilusão perniciosa. Sua execução mergulharia a humanidade na miséria e na fome, e acabaria por varrer do mapa a própria civilização.

Não há espaço, no contexto deste programa, para qualquer tipo de divisão de trabalho, a não ser a especialização regional de acordo com as condições geográficas específicas nos diferentes territórios. Este esquema, quando levado de maneira consistente às suas últimas consequências, não é capaz de sustentar sequer médicos e ferreiros. Ele deixa de levar em conta o fato de que o estado atual da produtividade da terra nos países desenvolvidos economicamente é resultado da divisão de trabalho, que fornece ferramentas e máquinas, fertilizadores, correntes elétricas, gasolina e muitas outras coisas que multiplicam a quantidade e melhoram a qualidade do que é produzido. Sob o sistema da divisão de trabalho, o fazendeiro não cultiva o que ele pode utilizar diretamente para si e para sua família, mas se concentra nas colheitas que seu pedaço de terra lhe oferece e que lhe proporcionam, comparativamente, as oportunidades mais favoráveis. Ele vende no mercado o que ele produz, e compra no mercado o que ele e sua família precisam. O tamanho ideal de uma fazenda não tem mais qualquer relação com o tamanho da família do fazendeiro; ele é determinado por considerações tecnológicas: a maior produção possível por unidade de insumo. Assim como outros empreendedores, o fazendeiro produz para obter lucro, isto é, ele cultiva aquilo que cada membro da sociedade necessita com maior urgência para seu próprio uso. No entanto, aqueles que desejam uma distribuição igualitária da terra se recusam teimosamente a levar em conta todos estes resultados de uma evolução de milhares de anos, e sonham em retornar a um estado de utilização da terra há muito já obsoleto. Eles desfariam toda a história econômica, independentemente das consequências; não levam em conta o fato de que, sob os métodos primitivos da ocupação de terras que eles recomendam, nosso planeta não poderia suportar mais do que uma pequena fração da população que o habita nos dias de hoje, e que até mesmo essa fração teria um padrão de vida muito inferior.

É compreensível que miseráveis ignorantes em países atrasados não possam conceber qualquer outra maneira para melhorar suas condições do que a aquisição de um pedaço de terra. Mas é imperdoável que eles tenham suas ilusões confirmadas por representantes de nações desenvolvidas que se dizem especialistas e deveriam muito bem saber que tipo de agricultura é necessário para fazer um povo prosperar. A pobreza dos países atrasados só pode ser erradicada através da industrialização e de seu corolário agrícola, a substituição da utilização da terra para o benefício direto da família do fazendeiro pela utilização da terra para abastecer o mercado.

O apoio solidário que os esquemas para a distribuição de terras recebem hoje em dia, e receberam no passado de pessoas que gozam de todas as vantagens da vida sob o sistema de divisão de trabalho nunca se baseou em qualquer preocupação realista com o estado natural das coisas. É, em vez disso, o resultado de ilusões românticas. A sociedade corrupta da Roma decadente, privada de qualquer participação na conduta das questões públicas, entediada e frustrada, caiu em devaneios sobre a suposta felicidade da vida simples dos fazendeiros e pastores autossuficientes. Os aristocratas ainda mais ociosos, corruptos e entediados doancien régime na França encontraram prazer num passatempo que chamavam de produção de laticínios. Os milionários americanos dos dias de hoje procuram a agricultura como um hobby, que tem a vantagem adicional no fato de que seus custos reduzem a quantidade de imposto de renda que eles têm de pagar. Estas pessoas veem a agricultura mais como uma distração que um ramo da produção.

Um apelo aparentemente plausível pela expropriação das propriedades de terra da aristocracia podia ser feito na época em que os privilégios civis da nobreza foram revogados. As propriedades feudais eram presentes dos príncipes aos ancestrais destes aristocratas como forma de compensar os serviços militares prestados no passado e a serem prestados no futuro. Eles forneciam os meios para sustentar a comitiva armada do rei, e o tamanho de sua propriedade designada a cada um dos vassalos era determinado por seu posto e sua posição nas tropas. Mas, como as condições militares mudaram, e os exércitos deixaram de ser formados por vassalos convocados, o sistema predominante de distribuição de terra se tornou anacronístico. Não parecia mais haver motivo para deixar que os nobres continuassem a receber uma renda que lhes havia sido concedida como compensação por serviços que eles não mais prestavam. Tornou-se justificável retomar os feudos.

Estes argumentos não podem ser refutados do ponto de vista da doutrina a qual os próprios aristocratas recorriam em defesa dos seus privilégios de classe. Eles insistiam em seus direitos tradicionais, apontando o valor dos serviços que seus antepassados tinham prestado à nação. Mas, como era óbvio que eles próprios não prestavam mais estes serviços indispensáveis, era correto inferir que todos os benefícios recebidos como recompensa por estes serviços deveriam ser cancelados. Isso incluía a revogação das concessões de terra.

Do ponto de vista dos economistas liberais, no entanto, este confisco parecia uma disrupção desnecessária e perigosa da continuidade da evolução econômica. Era necessária a abolição de todas aquelas instituições legais que protegiam o proprietário ineficiente contra a competição de pessoas mais eficientes, que pudessem utilizar o solo para produzir mais e de modo mais barato. As leis que removeram as propriedades dos nobres do mercado e da supremacia dos consumidores — tais como morgadios e a proibição legal dos plebeus de adquirir estas propriedades — é que deveriam ter sido revogadas. Aí então a supremacia do mercado teria passado o controle da terra para as mãos daqueles que sabem como fornecer aos consumidores, da maneira mais eficiente, aquilo que eles desejam com maior urgência.

Indiferentes aos sonhos dos utopistas, os economistas viam o solo como um fator de produção. Os interesses corretamente entendidos de todas as pessoas exigiam que o solo, como todos os fatores materiais de produção, fosse controlado pelos empreendedores mais eficientes. Os economistas não tinham uma preferência arbitrária por qualquer tamanho específico de fazenda; o melhor tamanho é o que garante a utilização mais eficiente. Eles não se deixaram enganar pelo mito de que interessava à nação ter o maior número possível de seus cidadãos empregados na agricultura. Pelo contrário, tinham plena consciência de que o mais benéfico, não só para o resto da nação, mas também para aqueles empregados na agricultura, seria evitar o desperdício de mão-de-obra, tanto nesse quanto em todos os outros ramos da produção. O aumento no bem-estar material se deveu ao fato de que, graças ao progresso tecnológico, uma porcentagem cada vez menor da população total era suficiente para produzir todos os produtos agrícolas necessários. Tentativas de interferir com essa evolução secular, que reduzia cada vez mais a proporção da população empregada na agricultura, em comparação com a proporção dos que não trabalham nesse setor, estavam fadadas a abaixar o padrão de vida médio. A humanidade é mais próspera quanto menor for a porcentagem de seus membros que precisa trabalhar para produzir a quantidade de alimento e matéria prima de que ela necessita. Se é que se pode atribuir algum sentido ao termo “reacionário”, então certamente os esforços para se preservar, através de medidas especiais, aquelas fazendas de pequeno porte que não conseguem se sustentar diante da competição do mercado, devem ser chamados de reacionários. Eles tendem a substituir um grau maior de divisão de trabalho por outro menor, diminuindo o ritmo das melhorias econômicas, ou até mesmo interrompendo-as totalmente. Deixemos os consumidores determinarem que tamanho de fazenda é mais apropriado aos seus interesses.

A crítica feita pelos economistas à utopia agrária foi extremamente impopular. Ainda assim, o peso de seus argumentos conseguiu pôr um freio, por algum tempo, no zelo dos reformistas. Somente após o fim da Primeira Guerra Mundial é que o ideal de uma agricultura predominantemente — ou até mesmo exclusivamente — operada por pequenos fazendeiros voltou a atingir novamente a importância que ela tem na política mundial dos dias de hoje.

A grande importância histórica e política da ideia da distribuição igualitária de terra pode ser vista no fato de que ela abriu caminho para a aceitação do socialismo e do comunismo. Os socialistas marxistas eram academicamente contrários a ela, e advogavam a nacionalização da agricultura; mas utilizaram o slogan “distribuição igualitária da propriedade da terra” como uma alavanca para impulsionar as massas nos países economicamente subdesenvolvidos. Para a população rural analfabeta destas nações, a panaceia “socialização das empresas” não fazia qualquer sentido. Mas todos os seus instintos de inveja e ódio eram despertados quando os políticos lhes prometiam as terras dos kulaks e dos grandes latifundiários. Quando, durante a administração de F. D. Roosevelt, os pró-comunistas no governo dos Estados Unidos e na imprensa americana afirmaram que os “esquerdistas” chineses não eram comunistas, mas “apenas reformadores agrários”, eles tinham razão, na medida em que os agentes chineses dos soviéticos haviam adotado a tática engenhosa de Lenin de dar início à revolução socialista recorrendo aos slogans mais populares e escondendo as suas intenções reais. Hoje podemos ver como, em todos os países economicamente subdesenvolvidos, o esquema do confisco e redistribuição de terras foi a propaganda mais eficaz para os soviéticos.

Este esquema é manifestamente inaplicável aos países da civilização ocidental. A população urbana de uma nação industrializada não pode ser atraída pela perspectiva de tal reforma agrária. Seu efeito sinistro sobre o pensamento das massas nos países capitalistas consiste em tornar palatável o programa de desigualdade de riqueza e renda, tornando assim populares medidas intervencionistas que levam, inevitavelmente, ao socialismo integral. Enfatizar este fato não quer dizer que qualquer regime socialista ou comunista conseguiria de fato obter uma igualdade de renda; serve apenas para indicar que o que torna o socialismo e o comunismo populares não é só a crença ilusória de que eles trarão riquezas imensas a todos, mas a expectativa não menos ilusória de que ninguém ganhará mais que qualquer outra pessoa. A inveja é, afinal, um dos sentimentos humanos mais profundos.

Os “progressistas” americanos que estão incitando a inveja e o ódio em seus compatriotas, bem como em todos os estrangeiros, e estão clamando com veemência pela igualdade de riqueza e renda, não veem como estas ideias são interpretadas pelo resto do mundo. As nações estrangeiras enxergam todos os americanos, incluindo os trabalhadores, com a mesma inveja e hostilidade que o típico sindicalista americano enxerga aqueles cujo salário seja maior que o seu. Aos olhos dos estrangeiros, os pagadores de impostos americanos têm sido motivados unicamente pela consciência pesada e pelo medo, quando gastam bilhões para melhoras as condições de outros países. A opinião pública na Ásia, África, América Latina e diversos países europeus vê este sistema de ajuda externa da mesma forma que os agitadores socialistas veem o dinheiro que os ricos doam para a caridade: uma esmola destinada a subornar os pobres e evitar que eles tomem o que lhes pertence por direito. Estadistas e autores que recomendam que suas nações se aliem aos Estados Unidos contra a Rússia não são menos populares, entre seus compatriotas, do que aqueles poucos americanos que têm a coragem de defender o capitalismo e rejeitar o socialismo são entre seus concidadãos. Na peça Die Weber, de Gerhard Hauptmann, uma das obras mais eficazes da literatura anticapitalista alemã, a esposa de um homem de negócios fica estarrecida quando ela descobre que as pessoas se comportam como se ser rico fosse um crime. Hoje em dia, com a exceção de uma minoria insignificante, todos aceitam esta condenação da riqueza sem qualquer questionamento. Esta mentalidade significa o fracasso da política externa americana; os Estados Unidos são condenados e odiados porque são prósperos.

O triunfo quase inconteste da ideologia igualitária eliminou inteiramente todos os outros ideais políticos. As massas, movidas pela inveja, não se preocupam nem um pouco com o que os demagogos chamam de preocupação “burguesa” com a liberdade de consciência, de pensamento, de imprensa, com o habeas corpus, julgamento pelo júri, e tudo o mais. Anseiam pelo paraíso terreno que os líderes socialistas lhes prometem. Como estes líderes, estão convictos de que a “eliminação dos burgueses” lhes levará de volta ao Jardim do Éden. A ironia é que, hoje em dia, chamam de “liberal” este programa.

 

3. A Quimera de um Estado Perfeito da Humanidade

 

Todas as doutrinas que tentaram descobrir alguma tendência específica na sequência de mudanças do curso da história humana discordaram, ao se referir ao passado, com os fatos estabelecidos historicamente, e sempre que tentaram prever o futuro os eventos posteriores provaram-nos espetacularmente errados.

A maioria destas doutrinas caracterizou-se pela referência a um estado de perfeição nos assuntos humanos. Colocaram este estado perfeito ou no começo ou no fim da história, ou tanto em seu fim quanto em seu começo. Consequentemente, a história parecia ser, em sua interpretação, uma deterioração progressiva ou uma melhoria progressiva, ou um período de deterioração progressiva seguido por um de melhoria progressiva. Em algumas destas doutrinas, a ideia de um estado perfeito estava arraigada em dogmas e crenças religiosas. No entanto, não cabe à ciência secular fazer uma análise dos aspectos teológicos desta questão.

É óbvio que, num estado perfeito dos assuntos humanos, não pode existir história. A história é o registro das mudanças. O próprio conceito de perfeição, no entanto, implica a ausência de qualquer mudança, já que um estado perfeito só pode ser transformado num estado menos perfeito, isto é, só pode ser prejudicado por qualquer alteração. Quando alguém situa o estado de perfeição apenas neste suposto início da história, está afirmando que a era da história foi precedida por uma era na qual não havia história, e que, um dia, alguns acontecimentos perturbaram a perfeição desta era original, inaugurando assim a era da história. Ao se presumir que a história tende à realização de um estado perfeito, se está afirmando que a história chegará, um dia, ao seu fim.

É da natureza humana procurar incessantemente substituir condições menos satisfatórias por condições mais satisfatórias. Esta motivação estimula suas energias mentais e o instiga a agir. A vida numa estrutura perfeita reduziria o homem a uma existência meramente vegetativa.

A história não se iniciou com uma Era de Ouro. As condições em que o homem primitivo vivia parecem bastante insatisfatórias para os observadores de épocas posteriores. Ele estava cercado por inúmeros perigos, que, para o homem civilizado, não mais representam uma ameaça — ou pelo menos não na mesma escala. Comparado a gerações posteriores, ele era extremamente pobre e bárbaro. Teria ficado encantado caso tivesse a oportunidade de aproveitar qualquer uma das conquistas de nossos tempos, como, por exemplo, os métodos para tratar de ferimentos.

A humanidade tampouco poderá alcançar algum dia um estado de perfeição. A ideia de que um estado de indiferença e falta de rumo é desejável, e a condição mais feliz que a humanidade poderá atingir, permeia a literatura utópica. Os autores destes projetos descrevem uma sociedade na qual nenhuma alteração é necessária, porque tudo já atingiu a melhor forma possível. Na Utopia não haverá mais motivo para a busca por melhorias, porque tudo já é perfeito. A partir deste ponto, todas as pessoas serão inteiramente felizes.[4] Nunca ocorreu a estes autores que aqueles que eles tanto queriam beneficiar através da reforma pudessem ter opiniões diferentes acerca do que lhes é desejável e o que não é.

Uma nova e sofisticada versão da imagem da sociedade perfeita surgiu recentemente a partir de uma interpretação crassa do procedimento da economia. Para lidar com os efeitos das mudanças na situação do mercado, os esforços para ajustar a produção a estas mudanças, e os fenômenos de lucro e perda, o economista constrói a imagem de um estado de coisas hipotético e inatingível, na qual a produção está sempre ajustada aos desejos realizáveis dos consumidores e nenhuma outra mudança ocorre. Neste mundo imaginário o amanhã não é diferente de hoje, nenhum desajuste pode surgir, e não há a necessidade de qualquer ação empresarial. A conduta dos negócios não exige qualquer iniciativa; ela é um processo automático executado inconscientemente por autômatos impelidos por quase instintos misteriosos. Para economistas (e, também, para leigos discutindo questões econômicas), não existe outra maneira de conceber o que está acontecendo no mundo real, em constante alteração, do que contrastá-lo desta maneira com um mundo fictício de estabilidade e ausência de mudanças. Mas os economistas têm plena consciência que a elaboração desta imagem de uma economia uniformemente circular é apenas uma ferramenta mental, que não tem equivalente no mundo real onde o homem vive e é obrigado a agir. Eles nem sequer suspeitam que alguém possa deixar de perceber o caráter meramente hipotético e auxiliar deste seu conceito.

No entanto, algumas pessoas interpretam erroneamente o significado e a importância desta ferramenta mental. Numa metáfora emprestada da teoria da mecânica, os economistas matemáticos chamam a economia uniformemente circular de estado estático, as condições que nela predominam de equilíbrio, e qualquer desvio deste equilíbrio de desequilíbrio. Esta forma de expressar sugere que há algo de incorreto no próprio fato de que sempre há desequilíbrio na economia real, e que o estado de equilíbrio nunca ocorre de fato. O estado hipotético meramente imaginado do equilíbrio imperturbado é retratado como o estado mais desejável da realidade. Neste sentido, alguns autores chamam a concorrência, tal como prevalece na economia mutável, de concorrência imperfeita. A verdade é que a concorrência só pode existir numa economia mutável. Sua função é exatamente eliminar o desequilíbrio e gerar uma tendência em direção à obtenção do equilíbrio. Não pode existir concorrência num estado de equilíbrio estático porque neste estado não existe um ponto no qual um concorrente pode interferir de modo a executar algo que satisfaça mais os consumidores do que o que já é feito. A própria definição de equilíbrio implica que não existe qualquer desajuste no sistema econômico, e, consequentemente, não há a necessidade de se tomar qualquer atitude para acabar com estes desajustes, de qualquer atividade empresarial, de lucros e perdas empresariais. É precisamente esta ausência de lucros que faz com que os economistas matemáticos considerem o estado do equilíbrio inalterado um estado ideal, pois são influenciados pelo preconceito de que os empresários seriam parasitas inúteis, e o lucro um ganho injusto.

Os entusiastas do equilíbrio também são iludidos pelas conotações timológicas ambíguas do termo “equilíbrio”, que, obviamente, não se refere à maneira na qual a economia emprega a construção imaginária de um estado de equilíbrio. A noção popular de equilíbrio mental de um homem é vaga e não pode ser particularizada sem incluir julgamentos de valor arbitrários. Tudo o que pode ser dito a respeito deste estado de equilíbrio mental ou moral é que ele não pode impelir o homem a qualquer ação, pois uma ação pressupõe a sensação de algum tipo de desconforto, já que sua única meta é a remoção do desconforto. A analogia com o estado de perfeição é óbvia. O indivíduo plenamente satisfeito não tem propósito, não age, não tem incentivo para pensar, passa seus dias gozando tranquilamente a vida. Se essa existência digna de um conto de fadas é algo desejável é algo a ser determinado. O que é certo é que os homens de carne e osso jamais podem obter este estado de perfeição e equilíbrio. E não é menos certo que, após sofrerem com as agruras das imperfeições da vida real, as pessoas sonharão com esta realização plena de todos os seus desejos. Isto explica as origens deste elogio emocional ao equilíbrio e a condenação ao desequilíbrio.

Os economistas, no entanto, não devem confundir esta noção timológica de equilíbrio com a utilização do constructo imaginário de uma economia estática. O único serviço a que este constructo imaginário se presta é provocar um grande alívio à busca incessante dos homens que vivem e agem pela maior melhoria possível de suas condições. Para o observador científico imparcial não há nada de questionável em sua descrição do desequilíbrio. É apenas o zelo pró-socialista apaixonado dos pseudo-economistas matemáticos que transforma uma ferramenta puramente analítica da economia lógica numa imagem utópica de um estado das coisas bom e desejável.

 

4. A Suposta Tendência Contínua rumo ao Progresso

 

Uma interpretação filosófica realista da história deve-se abster de qualquer referência à noção quimérica de um estado perfeito da condição humana. A única base a partir da qual se pode dar início a uma interpretação realista é o fato de que o homem, como todos os outros seres vivos, é movido pelo impulso de preservar sua própria existência e eliminar, na medida do possível, qualquer desconforto que ele venha a sentir. É a partir desse ponto de vista que a imensa maioria das pessoas louva as condições sob as quais elas têm de viver. Seria errado desprezar sua atitude como materialismo, na conotação ética do termo. A busca por todas estas metas nobres que os moralistas contrastam com o que eles desprezam como satisfações meramente materialistas pressupõe um certo grau de bem-estar material.

A controvérsia acerca da origem monogenética ou poligenética do Homo sapiens tem, como já foi mencionado anteriormente,[5] pouca importância para a história. Ainda que admitíssemos que todos os homens são descendentes de um único grupo de primatas, que acabou por dar origem à espécie humana, temos que levar em conta o fato de que desde muito cedo a dispersão por toda a superfície do globo terrestre fragmentou esta unidade original em partes mais ou menos isoladas. Por milhares de anos cada uma dessas partes viveu sua própria vida, com pouca ou nenhuma interação com qualquer uma das outras partes. Foi apenas o desenvolvimento dos métodos modernos de comércio e transporte que pôs um fim ao isolamento dos diversos grupos de homens.

Afirmar que a evolução da humanidade, a partir de suas condições originais até o estado atual, seguiu uma linha específica é distorcer os fatos históricos. Não houve nem uniformidade nem continuidade na sucessão dos eventos históricos. É ainda menos admissível aplicar às mudanças históricas os termos crescimento e decadência, progresso e retrocesso, melhoria e deterioração, se o historiador ou filósofo não estiverem tentando saber, de maneira arbitrária, qual deve ser a finalidade dos esforços humanos. Não existe unanimidade entre as pessoas acerca de um padrão através do qual as conquistas da civilização possam ser classificadas como boas ou más, melhores ou piores.

A humanidade é quase unânime em seu elogio às conquistas materiais da civilização capitalista moderna. A sua imensa maioria considera altamente desejável o padrão superior de vida que esta civilização proporciona ao homem comum. Seria difícil encontrar, fora dos grupos reduzidos e cada vez menores de ascetas consistentes, pessoas que não queiram para si e para suas famílias e amigos os benefícios da parafernália material do capitalismo ocidental. Se, a partir deste ponto de vista, as pessoas afirmarem que “nós” progredimos além das condições de épocas passadas, seu julgamento de valor está de acordo com o da maioria. No entanto, se eles acreditarem que o que chamamos de progresso é um fenômeno necessário, e que no curso dos acontecimentos prevalece uma lei que faz com o que o progresso, neste sentido do termo, continue para sempre, eles estarão redondamente enganados.

Para se refutar esta doutrina de uma tendência inerente, que opera de maneira automática, por assim dizer, rumo ao progresso, não é necessário mencionar aquelas antigas civilizações nas quais períodos de melhoria nas condições materiais foram seguidos por períodos de decadência material ou de estagnação. Não existe qualquer motivo para se pressupor que uma lei de evolução histórica funciona necessariamente rumo à melhoria das condições materiais, ou que tendências que vêm prevalecendo no passado recente também prevalecerão no futuro. O que se chama de progresso econômico é o efeito de um acúmulo de bens de capital que excedem o aumento populacional. Se esta tendência der lugar a uma estagnação no acúmulo de capital, ou à desacumulação de capital, não existirá mais qualquer progresso neste sentido do termo.

Todos, com exceção dos socialistas mais parciais, concordam que a melhoria sem precedentes nas condições econômicas ocorrida nos últimos duzentos anos é uma conquista do capitalismo. É, para dizer o mínimo, prematuro afirmar que a tendência rumo a uma melhoria econômica progressiva continuará sob uma organização econômica diferente da sociedade. Os defensores do socialismo rejeitam tudo aquilo que a economia expôs para mostrar que um sistema socialista, ao ser incapaz de estabelecer qualquer tipo de cálculo econômico, destruiria totalmente o sistema de produção, como sendo imprudente e equivocado. Ainda que os socialistas estivessem certos ao desconsiderar a análise econômica do socialismo, isto não serviria para provar que a tendência rumo à melhora econômica continuaria, ou poderia continuar, sob um regime socialista.

 

5. A Supressão da Liberdade “Econômica”

 

Uma civilização é fruto de uma visão de mundo específica, e a sua filosofia se manifesta em cada uma de suas conquistas. Os artefatos produzidos pelos homens podem ser chamados de materiais, mas os métodos aos quais se recorreu para a organização das atividades de produção são mentais, resultam das ideias que determinam o que deve ser feito e como. Todos os ramos de uma civilização são movidos pelo espírito que permeia a sua ideologia.

A filosofia que é o traço característico do Ocidente e cuja elaboração consistente transformou, nos últimos séculos, todas as instituições sociais, tem sido chamada de individualismo. Ela sustenta que as ideias, tanto as boas quanto as más, têm sua origem na mente do indivíduo. Apenas alguns poucos homens são dotados com a capacidade de conceber novas ideias. No entanto, como ideias políticas só podem funcionar quando são aceitas pela sociedade, cabe à multidão daqueles que são incapazes de desenvolver novas maneiras de pensar aprovar ou rejeitar as inovações dos pioneiros. Não existe qualquer garantia de que estas massas de seguidores e autômatos utilizarão sabiamente o poder que lhes foi investido. Eles podem rejeitar as boas ideias, aquelas cuja adoção lhes seria benéfica, e adotar ideias más, que lhes prejudicariam seriamente. Mas, se escolherem aquelas que são piores, a culpa não será só sua; os pioneiros não têm menos culpa, na medida em que não conseguiram expor seus pensamentos de uma maneira mais convincente. A evolução favorável da condição humana depende, em última instância, na capacidade da raça humana de gerar não só autores, mas também arautos e disseminadores da ideias benéficas.

Pode-se lamentar o fato de que o destino da humanidade é determinado — certamente não de maneira infalível — pelas mentes dos homens. Mas este lamento não pode mudar a realidade. Na verdade, a eminência do homem pode ser vista em seu poder de escolher entre o bem e o mal. É exatamente isto que os teólogos tinham em mente quando louvavam Deus por ter concedido ao homem a capacidade de escolher entre a virtude e o vício.

Os perigos inerentes à incompetência das massas não são eliminados através da transferência da autoridade de se tomar as decisões finais para a ditadura de um ou alguns poucos homens, por melhores que eles sejam. É uma ilusão esperar que o despotismo sempre esteja do lado das boas causas. O despotismo caracteriza-se por tentar colocar obstáculos diante dos esforços dos pioneiros em melhorar a sorte dos outros homens. A principal meta do governo despótico é evitar quaisquer inovações que possam colocar em perigo sua própria supremacia. A sua natureza o empurra rumo ao conservadorismo extremado, à tendência de manter o que é, não importando o quão desejável uma mudança possa ser para o bem-estar das pessoas. Ele se opõe a novas ideias e a qualquer espontaneidade por parte daqueles que lhe são subordinados.

No longo prazo, até mesmo os governos mais despóticos, com toda a sua brutalidade e crueldade, não são páreo para as ideias. A ideologia que conquistou o apoio da maioria prevalecerá, ao fim, e acabará por derrubar o tirano; aí então a massa de oprimidos se rebelará e derrubará seus senhores. No entanto, isso pode demorar para acontecer, e, neste meio-tempo, um dano irreparável pode ser infligido sobre o bem-estar comum. Além disso, uma revolução significa necessariamente uma disrupção violenta da cooperação social, produz ódios e abismos irreconciliáveis entre os cidadãos, e pode gerar amarguras que nem mesmo séculos podem apagar. O principal mérito e valor daquelas que são chamadas de instituições constitucionais, democracia e governo do povo pode ser visto no fato de que elas tornam possíveis as mudanças nos métodos e nas pessoas que formam o governo. Onde quer que haja um governo representativo, nenhuma revolução ou guerra civil é necessária para se remover do poder um governante impopular e seu sistema. Se os homens que ocupam os cargos ou seus métodos de conduzir as questões públicas não agradarem mais à maioria da nação, serão substituídos na próxima eleição por outros homens e outro sistema.

Foi desta forma que a filosofia do individualismo conseguiu destruir a doutrina do absolutismo, que atribuía desígnios celestiais aos príncipes e tiranos. Ao suposto direito divino dos reis ungidos ela contrapunha os direitos inalienáveis concedidos ao homem por seu Criador. Da mesma maneira, à pretensão do estado de pôr em prática a ortodoxia e eliminar aquilo que ele considerava heresia, ela proclamava a liberdade de consciência. Ela apelou à razão, contra a preservação inflexível das antigas instituições, que se tornavam odiosas com o passar do tempo, inaugurando, assim, uma era de liberdade e progresso rumo à prosperidade.

Não ocorreu aos filósofos liberais do século XVIII e do início do século XIX que surgiria uma nova ideologia que rejeitaria com convicção todos os princípios de liberdade e individualismo, e proclamaria a sujeição total do indivíduo à tutela de uma autoridade paterna como a meta mais desejável da ação política, o fim mais nobre da história e a consumação de todos os planos que Deus tinha em mente quando criou o homem. Não só Hume, Condorcet e Bentham, mas até mesmo Hegel e John Stuart Mill teriam se recusado a acreditar se alguns de seus contemporâneos tivessem previsto que, no século XX, a maioria dos escritores e cientistas da França e das nações anglo-saxãs mostrariam tamanho entusiasmo por um sistema de governo que ofusca todas as tiranias do passado em termos de perseguição impiedosa de seus dissidentes e nos esforços para privar o indivíduo de qualquer oportunidade de uma atividade espontânea. Eles teriam considerado lunático o homem que lhes contasse que a abolição da liberdade, de todos os direitos civis e do governo, com base no consentimento dos governados, seria chamada de liberação. No entanto, tudo isso aconteceu.

O historiador pode compreender e dar explicações timológicas para esta mudança radical e repentina na ideologia. Mas esta interpretação não refuta em absoluto a análise e a crítica feita pelos filósofos e economistas das doutrinas falsas que engendraram estes movimentos.

A pedra angular da civilização ocidental é o âmbito de ação espontânea que ela assegura ao indivíduo. Sempre existiram tentativas de se colocar empecilhos diante da iniciativa do indivíduo, porém o poder dos perseguidores e inquisidores nunca foi absoluto; ele não pôde evitar a ascensão da filosofia grega e de sua ramificação romana, ou do desenvolvimento da ciência e da filosofia modernas. Motivados por seu gênio inato, os pioneiros realizaram suas obras a despeito de toda hostilidade e oposição. O inovador não precisou esperar pelo convite ou pela ordem de qualquer um; ele pôde dar um passo adiante, por livre e espontânea vontade, e desafiar os ensinamentos tradicionais. Na órbita das ideias, o Ocidente sempre gozou das bênçãos da liberdade.

Veio então a emancipação do indivíduo, uma conquista daquele novo ramo da filosofia, a economia. O empreendedor que sabia como enriquecer os seus semelhantes através da melhoria dos métodos de produção recebeu carta branca; uma cornucópia de abundância foi despejada sobre os homens comuns pelo princípio econômico capitalista da produção em massa para a satisfação das necessidades das massas.

Para avaliar de maneira justa os efeitos da ideia ocidental de liberdade, devemos comparar o Ocidente com as condições que vigoram naquelas partes do mundo que nunca conseguiram compreender o significado da liberdade.

Alguns povos orientais desenvolveram a ciência e a filosofia muito antes que os ancestrais dos representantes da civilização ocidental moderna saíssem de seu barbarismo primitivo. Existem bons motivos para se presumir que a astronomia e a matemática grega obtiveram seu primeiro impulso a partir da familiaridade que tinham com o que havia sido realizado no Oriente. Quando, posteriormente, os árabes adquiriram um conhecimento da literatura grega nas nações que haviam conquistado, uma cultura muçulmana notável começou a florescer na Pérsia, Mesopotâmia e Espanha. Até o século XIII, o conhecimento dos árabes não era inferior às conquistas contemporâneas do Ocidente. Mas então a ortodoxia religiosa impôs uma conformidade inabalável e pôs um fim a toda atividade intelectual e pensamento independente nos países muçulmanos, como havia acontecido antes na China, na Índia, e no âmbito do cristianismo oriental. As forças da ortodoxia e a perseguição dos dissidentes, por outro lado, não puderam silenciar as vozes da ciência e da filosofia ocidentais, pois o espírito de liberdade e individualismo já era suficientemente forte no Ocidente para sobreviver a qualquer perseguição. A partir do século XIII todas as inovações intelectuais, políticas e econômicas se originaram no Ocidente. Até que o Oriente fosse fertilizado pelo contato com o Ocidente, algumas décadas atrás, a história, ao registrar os grandes nomes da filosofia, ciência, literatura, tecnologia, governo e negócios, dificilmente mencionava qualquer oriental. Havia uma estagnação e um conservadorismo rígido no Oriente até que ele começasse a tomar contato com as ideias ocidentais. Para os próprios orientais, ideias como escravidão, servidão, a existência de castas de “intocáveis”, costumes como o sati ou a deformação dos pés das meninas, punições bárbaras, miséria em massa, ignorância, superstição e o desprezo pela higiene não causavam qualquer tipo de ofensa. Incapazes de compreender o significado de liberdade e individualismo, hoje em dia eles estão fascinados com o programa do coletivismo.

Embora estes fatos sejam bem conhecidos, atualmente milhões apoiam entusiasmadamente políticas que têm como meta a substituição do planejamento autônomo feito por cada indivíduo por um planejamento feito por uma autoridade. Anseiam pela escravidão.

É claro que os defensores do totalitarismo objetam, dizendo que querem abolir “apenas a liberdade econômica”, e que todas as “outras liberdades” permanecerão intocadas. Mas a liberdade é indivisível. A distinção entre uma esfera econômica da vida e atividade humana e uma esfera não-econômica é a pior de suas falácias. A partir do momento que uma autoridade onipotente tem o poder de atribuir a cada indivíduo as tarefas que ele deve executar, nada mais que possa ser chamado de liberdade e autonomia lhe resta. Ele passa a ter apenas a escolha entre a obediência rigorosa e a morte por inanição.[6]

Comitês de especialistas podem ser convocados para aconselhar a autoridade planejadora se um jovem deve ou não receber a oportunidade de se preparar para trabalhar e, posteriormente, trabalhar num campo artístico ou intelectual. Mas este tipo de sistema só pode gerar discípulos comprometidos a repetir como papagaios as ideias da geração que os antecedeu; impediria o surgimento de inovadores que discordem das maneiras de pensar aceitas. Nenhuma inovação jamais seria obtida se aquele que a originou precisasse da autorização daqueles cujas doutrinas e métodos ele quer se distanciar. Hegel não teria ordenado Schopenhauer ou Feuerbach, nem o professor Rau teria ordenado Marx ou Carl Menger. Se este comitê planejador supremo fosse responsável por determinar que livros deveriam ser impressos, quem deveria realizar experimentos em laboratórios, quem deveria pintar ou esculpir e que alterações devem ser feitas nos métodos tecnológicos, não haveria nem melhoria nem progresso. O indivíduo se tornaria um peão nas mãos dos governantes, que, em sua “engenharia social”, o tratariam como os engenheiros tratam as coisas que utilizam para construir prédios, pontes e máquinas. Em toda esfera da atividade humana uma inovação é um desafio, não só para os autômatos, especialistas e aqueles que praticam os métodos tradicionais, mas, acima de tudo, para aqueles que no passado foram, eles próprios, inovadores. A inovação encontra, em seu começo, uma oposição acima de tudo teimosa. Estes obstáculos só podem ser superados numa sociedade em que exista liberdade econômica. São intransponíveis num sistema socialista.

A essência da liberdade de um indivíduo é a oportunidade de se distanciar das maneiras tradicionais de se pensar e fazer as coisas. O planejamento por parte de uma autoridade estabelecida impede o planejamento por parte dos indivíduos.

 

6. A Incerteza do Futuro

 

A característica principal da história é que ela é uma sucessão de eventos que ninguém previu antes que eles tivessem ocorrido. O que os homens de negócio e estadistas mais visionários conseguem adivinhar é, no máximo, as condições que serão desenvolvidas num futuro próximo, num período em que, no geral, nenhuma mudança radical ocorrerá nas ideologias e nas condições gerais. Os filósofos britânicos e franceses cujos escritos impulsionaram a Revolução Francesa, e os poetas e pensadores de todas as nações ocidentais que saudaram entusiasticamente os primeiros passos dados nessa grande transformação, não previram nem o reino de terror nem a maneira com a qual Babeuf e seus seguidores interpretariam logo em seguida o princípio da igualdade. Nenhum dos economistas cujas teorias demoliram os métodos pré-capitalistas da restrição da liberdade econômica e nenhum dos homens de negócio cujas operações inauguraram a Revolução Industrial antecipou as conquistas da livre empresa ou a hostilidade com a qual aqueles que mais se beneficiaram do capitalismo reagiriam a ele. Aqueles idealistas que saudaram como uma panaceia a política do presidente Wilson de “tornar o mundo seguro para a democracia” não previram quais seriam os seus efeitos.

A falácia inerente à previsão do curso da história é que os profetas presumem que nenhuma ideia além daquelas que eles já conhecem jamais poderá tomar conta das mentes dos homens. Hegel, Comte e Marx, para citar apenas alguns dos mais populares desses adivinhos, nunca duvidaram de sua própria onisciência; cada um deles estava plenamente convicto de ser o homem que havia sido eleito pelos poderes misteriosos que regem de maneira providencial todas as questões humanas para consumar a evolução da mudança história. A partir de então nada mais de importante poderia acontecer; não era mais necessário que as pessoas pensassem. Restava apenas uma tarefa para as gerações futuras — ordenar tudo de acordo com os preceitos elaborados pelo mensageiro da Providência. Neste ponto, não havia diferença entre Maomé e Marx, entre os inquisidores e Auguste Comte.

Até agora, no Ocidente, nenhum dos apóstolos da estabilização e da petrificação obteve sucesso na eliminação da disposição inata do indivíduo em pensar e aplicar a todos os problemas o critério da razão. Somente isso, e mais nada, pode ser afirmado pela história e pela filosofia quando lidam com doutrinas que alegam saber exatamente o que o futuro tem guardado para a humanidade.



[1] I Samuel 8; 11-18.

[2] Carta a Harriet Mill, 15 de janeiro de 1855. F. A. Hayek, John Stuart Mill and Harriet Taylor (Chicago, University of Chicago Press, 1951), p. 216.

[3] Bukharin, Programme of the Communists (Bolsheviks), editado pelo Group of English Speaking Communists in Russia (1919), p. 28-9.

[4] Neste sentido, Karl Marx também deve ser descrito como utópico; ele também tinha como meta um estado das coisas na qual a história teria seu curso interrompido. Pois a história é, no esquema de Marx, a história das lutas de classe. Uma vez que as classes e luta de classes fossem abolidas, a história já não mais poderia existir. É verdade que o Manifesto Comunista apenas declara que a história de toda a sociedade que existiu até então, ou, como Engels acrescentou posteriormente, com maior precisão, a história após a dissolução da era de ouro do comunismo primevo, é a história das lutas de classe e, logo, não exclui a interpretação de que após o estabelecimento do milênio socialista algum novo conteúdo histórico possa surgir. Mas os outros escritos de Marx, Engels e seus discípulos não dão qualquer indicação de que um novo tipo de mudança histórica, radicalmente diferente, em natureza, daqueles das eras anteriores de lutas de classes, poderia vir a surgir. Que outras mudanças podem ser esperadas, uma vez que a fase mais elevada do comunismo, na qual todos conseguem tudo aquilo que precisam, for atingida? – A distinção que Marx fez entre o seu próprio socialismo “científico” e os projetos socialistas dos autores que o antecederam, a quem ele chamou de utópicos, não se referia apenas à natureza e à organização da comunidade socialista, mas também à maneira em que essa comunidade deveria entrar em existência. Aqueles que Marx desacreditou como utopistas construíram o projeto de um paraíso socialista, e tentaram convencer as pessoas de que a sua realização é altamente desejável. Marx rejeitou este procedimento. Ele alegou ter descoberto a lei de evolução histórica segundo a qual a vinda do socialismo era inevitável; viu os defeitos dos socialistas utópicos, seu caráter utopista, no fato de que esperavam que o socialismo viria a partir da vontade do povo, isto é, de sua ação consciente, enquanto seu próprio socialismo científico afirmava que o socialismo viria, independentemente da vontade dos homens, da evolução das forças materiais produtivas.

[5] Ver acima, p.xx.

[6] Hayek, The Road to Serfdom (Londres, 1944), p. 66ss; Mises, Socialism, p. 589.