Uma sociedade conformada

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Desde março de 2020 (ou 1984?) estamos acompanhando um “novo normal” sendo instaurado. Alguns ficaram atônitos com o estado de conformidade e submissão verificável nas pessoas. Existe alguma explicação a este fato ou ele é mero fruto do acaso? Neste texto eu pretendo defender que a explicação para o estado atual é a normalização da violência no meio social, e como ela é rastreável durante toda etapa da vida humana.

A primeira manifestação da violência ocorre já na infância. Algumas crianças são espancadas por seus pais, de modo que elas aceitam como normal o uso da força dês do começo de suas vidas, justamente na fase da vida em que o padrão de justiça (o que é certo e o que é errado) está sendo formado na mente do indivíduo. Não raro, crianças que são tratadas dessa forma acabam se tornando pessoas agressivas no futuro.

Passado um tempo, as crianças são submetidas ao sistema educacional compulsório, por meio do qual o estado controla o que elas vão aprender, seja diretamente (quando o próprio governo administra as escolas), seja indiretamente (quando o governo ordena o que vai ser ensinado e o currículo dos docentes). A ferramenta da educação compulsória, surgida na Prússia do séc. XVIII, tem sido muito bem utilizada pelo governo para impor seus ensinamentos e narrar os acontecimentos socias de acordo com sua ideologia, bem como para cortar pela raiz toda forma de dissidência sobre a instituição do governo e a sua historiografia oficial. Os pais, a comunidade e as igrejas não têm direito de educar as crianças. Assim como em Esparta, os filhos não estão sujeitos aos seus pais, mas sujeitos ao estado.

Além do mais, as crianças e os adolescentes são obrigados a frequentar a escola. Dessa forma, alunos inteligentes, educados e interessados em aprender são forçados a conviver e estudar com alunos idiotas, desrespeitosos e desinteressados em aprender. Estes últimos perturbam a aula e tornam a experiência escolar um verdadeiro inferno. Se a frequência escolar fosse voluntária, certamente não haveria este problema ou ele seria reduzido, uma vez que apenas os bons alunos estariam presentes na escola. Adicionalmente, se fosse permitido o trabalho infantil, crianças e adolescentes que não possuem vocação escolar poderiam deslocar sua energia da desordem escolar para atividades produtivas no mercado de trabalho, e também iriam adquirir a responsabilidade que a vida adulta exige.

Chegada a maioridade, os homens são submetidos ao alistamento militar obrigatório. Noutras palavras, o governo arroga a si o direito de escravizar e, em caso de guerra, sequestrar e assassinar os rapazes que estão servindo ao exército. Em última instância, os jovens não têm direito aos seus próprios corpos. O governo o tem.

Na vida adulta as pessoas adquirem responsabilidades e amadurecem, mas a constância e a intensidade da violência em suas vidas só se agravam. Ao adquirir propriedades e auferir renda, os adultos são roubados pelo governo por meio do sistema tributário.  Especialmente no caso do imposto de renda, o governo trata as pessoas como escravas, pois elas não têm direito sobre o produto de seu trabalho, mas apenas sobre uma parte dele. Da mesma forma, o governo usa da violência para moldar comportamentos. Quando dois adultos se envolvem em transações voluntárias (contratos) sem nenhum tipo de coação ou agressão e cujo objeto seja algo que o governo arbitrariamente considere “ilícito” (como, p.ex., drogas, apostas e prostituição), o aparato governamental estará disposto a prender e, em último caso, assassinar pessoas que aderirem a estes contratos, mesmo que elas não cometam nenhum crime real (o que fere a pessoa e a propriedade alheias). Em outras ocasiões, o governo se torna o segurador contra riscos imaginários: para o bem de todos, ele aponta a sua arma para as pessoas e as protege de dirigir embriagadas, sem cinto ou capacete, de ser contaminadas pela covid-19 etc. Além do mais, o “bondoso” governo, agindo como o policial do pensamento, proíbe crimes de pensamento que supostamente expressem “racismo”, “homofobia” ou outra forma de pensamento que ele considere “intolerante”, ou seja: ele usa da violência até mesmo para tratar a falta de educação.

Por fim, ao chegar na 3ª idade, alguns idosos que se tornaram indesejáveis aos seus entes queridos são internados por estes em asilos, de forma involuntária e com permissão do estado.

Diante dos exemplos que foram expostos, é nítido que o atual enredo conformista e subalterno visível na sociedade é produto da normalização do uso da violência nos relacionamentos sociais. Note que ela está presente em cada etapa da vida de todos (com exceção, talvez, do internamento involuntário no asilo e do espancamento infantil), e é perpetrada – direta ou indiretamente – pelo governo.

Tem de ser ressaltado, contudo, que há um papel para violência na vida em sociedade: ela pode ser usada para fins defensivos e retaliativos (portanto o governo não tem o direito de estabelecer restrições ao armamento civil e impossibilitar o exercício da defesa pessoal). Desse modo, o problema não está relacionado com a violência em si, mas na iniciação da violência. Talvez seja esse reconhecimento que distinga um libertário de um pacifista.

Com a violência normalizada, fica fácil para os governantes imporem lockdowns forçados, máscaras de uso obrigatório e estabelecer um apartheid com base no status vacinal dos indivíduos, entre outras violações aos direitos humanos decorrentes da noção de propriedade privada. Um povo acostumado com a violência vai aceitar decretos draconianos ou, no máximo, descontentar-se de forma passiva. Este sentimento de impotência frente ao governo é sintetizado no ditado popular segundo o qual as únicas coisas certas da vida são “morte e impostos”. Não é surpresa encontrarmos aceitação ou conformidade em nossos parentes, amigos e colegas, que agem com indiferença ao constatar o crescimento indômito do poder estatal.

Se quisermos uma sociedade livre e pacífica, devemos limitar o uso da violência aos fins defensivos e retaliativos. Um bom passo inaugural seria abolir a instituição que tem perpetrado a violência de forma sistêmica: o estado, ou, na impossibilidade desta hipótese, nulificar o leviatã de nossas vidas.

 

 

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