Posfácio – Libertarianismo e democracia.

Nossa crítica à democracia foi escrita a partir de uma perspectiva libertária. Libertarianismo é uma filosofia política baseada na auto propriedade, ou seja, no direito de cada indivíduo ao seu próprio corpo e à sua própria vida e, consequentemente, aos frutos de seu trabalho. A alternativa ao autogoverno é ter algumas pessoas a governarem a vida e o trabalho de outras pessoas (ou — mas isso é altamente irrealista — que todos governem todos). De acordo com o libertarianismo, tal situação é injusta. O libertarianismo é baseado no princípio de que os indivíduos não têm obrigação de se sacrificarem ao coletivo, como é o caso do fascismo, do socialismo e da democracia.Para os libertários, a liberdade individual (auto propriedade) não significa o ‘direito’ ao trabalho, educação, saúde, habitação ou algum outro bem, uma vez que tais ‘direitos’ implicam o dever dos outros de proporcionarem esses benefícios. Se uma pessoa é forçada a se sacrificar pelos outros, isso não é liberdade, mas escravidão. Liberdade significa que todo mundo tem o direito de fazer o que quiser com suas vidas e propriedades, desde que não interfiram com as vidas e os bens dos outros. Em suma, os libertários são contra a iniciação de força física.

O objetivo principal do sistema de justiça libertária é proteger o indivíduo contra todas as formas de uso da força. Os libertários são a favor de todas as liberdades que seguem o princípio do autogoverno. Por exemplo, defendemos a liberdade de religião, liberdade de eutanásia, legalização das drogas, a liberdade de expressão e assim por diante. Somos também pelo direito de as pessoas se associarem, cooperarem e comercializarem livremente, ou seja, por um mercado livre.

Nós acreditamos que os indivíduos e grupos têm o direito de fazer as suas próprias regras sobre o uso de suas propriedades. Tal como todo mundo está autorizado a decidir quem convida para a sua casa, o dono de um bar deve ser autorizado a decidir se é permitido fumar em seu bar e um empregador deve ser autorizado a decidir sobre o código de vestimenta dentro de sua empresa. Qualquer pessoa é livre para não frequentar um bar ou não trabalhar para uma empresa, se eles não gostarem das regras.

Por esta razão, o libertarianismo é contra leis antidiscriminação. Tais leis são incompatíveis com o princípio da livre associação. O governo decreta: Se associem! Quer você goste ou não. Em contraste, o libertarianismo se baseia na liberdade de escolha; todas as relações e transações devem ser voluntárias.

Discriminação significa: tratar de forma diferente. É claro que é ridículo não desejar associação com gays, judeus, alemães ou quem quer que seja, mas o princípio da liberdade significa que ninguém tem que justificar suas escolhas, não importa o quão ridículas possam parecer. Você não precisa de uma boa razão para não fazer algo. O libertarianismo defende o direito das pessoas de fazerem as coisas ou não fazerem as coisas, que podem ser desagradáveis ??para os outros. Assim como a liberdade de expressão significa que as pessoas têm o direito de expressarem uma opinião sobre a qual outros discordam. A obrigação das pessoas é apenas a de se absterem de iniciar força sobre os outros.

As leis antidiscriminação são, na verdade, elas próprias uma forma de força, uma vez que forçam as pessoas a se associarem com outras contra a sua vontade. Devemos forçar senhoras de idade a entrarem em becos escuros que jovens violentos costumam frequentar? Devemos obrigar as pessoas a sair com alguém que elas acham pouco atraente? Claro que não. Mas, então, com que direito o governo força empregadores a empregarem pessoas que estes não querem empregar? E com que direito o governo força os proprietários de clubes noturnos a aceitarem clientes que estes não querem aceitar? Como libertários, acreditamos que tais formas não estão apenas erradas mas são também contraproducentes. Elas levam ao ódio e aos conflitos, em vez de levarem à tolerância e à harmonia.

O libertarianismo não é nem ‘de esquerda’ nem ‘de direita’, nem progressivo nem conservador. Os progressistas favorecem a interferência do governo na economia, mas estão dispostos (por vezes) a permitir um razoável grau de liberdade pessoal. Os conservadores favorecem a interferência do governo nas escolhas pessoais, mas estão dispostos (por vezes) a permitir um razoável grau de liberdade econômica. Mas ambos têm em comum o fato de considerarem o indivíduo como um assunto de estado, do coletivo. O libertarianismo é a única filosofia política que defende que o coletivo não tem o direito de governar o indivíduo. O libertarianismo é a única filosofia política que é contra o princípio da iniciação da força, isto é, contra qualquer uso da força, salvo em legítima defesa. Com base neste princípio, o libertarianismo também é contra o colonialismo, o imperialismo e as intervenções estrangeiras.

O libertarianismo não é uma nova filosofia que está na moda; é baseado em uma antiga tradição. As ideias dos grandes pensadores liberais do século XVII e XVIII estavam muito perto do ideal libertário. Hoje em dia designamos sua filosofia como ‘liberal clássica’ para a distinguir do ‘liberalismo’ atual que é, na realidade, uma variante da socialdemocracia, em vez de uma filosofia da liberdade. No século XIX, o libertarianismo foi defendido tanto por um número de ‘anarco-capitalistas’ e um grupo de economistas liberais clássicos, principalmente da Áustria. Um centro acadêmico atual do libertarianismo nos EUA é o Instituto Mises, batizado em homenagem ao economista de mercado livre austríaco Ludwig von Mises. Em 1974, Friedrich Hayek, um estudante de Mises, recebeu o prêmio Nobel de Economia. O mais famoso pensador libertário do século XX foi outro aluno de Mises, o economista e intelectual completo americano Murray Rothbard. Seu livro For a New Liberty (Por uma Nova Liberdade) é ainda, provavelmente, a melhor introdução ao libertarianismo disponível.

No entanto, Mises e Rothbard nunca produziram uma análise rigorosa do fenômeno da democracia. O primeiro pensador libertário a fazer isso foi o economista alemão Hans-Hermann Hoppe. Seu livro Democracy — The God That Failed (Democracia, o Deus que Falhou – 2001) é, por enquanto, o trabalho padrão libertário nesta área.

Nos últimos anos, em parte graças ao trabalho de Hoppe, a ideia da democracia tem tido, cada vez mais, a atenção de escritores libertários, mas a maioria de suas críticas são encontradas apenas, em artigos publicados em diversas revistas e em sites libertários, como o mises.org. e o mises.org.br. Tanto quanto sabemos, nenhuma crítica completa, popular e libertária da democracia foi anteriormente publicada. Esperamos ter preenchido essa lacuna com este livro.

Para mais informações sobre este livro, consulte o nosso site www.beyonddemocracy.net. Na Holanda, mais informações sobre o libertarianismo podem ser encontradas no site de língua holandesa de Frank Karsten,www.meervrijheid.nl.

Imprimir