Os primeiros e os próximos 25 anos

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[Esse discurso foi feito no 250 aniversário do Mises Institute, em 13 de Outubro de 2007, na cidade de Nova York.]

Há apenas duas situações nas quais a imprensa se interessa pelas opiniões dos economistas: quando a economia está mal, ou quando há uma eleição presidencial. E lamentavelmente, na maioria dessas opiniões percebemos ou a pretensão da omnisciência ou simplesmente a bajulação pura ao poder do governo.

Parece incrível que nos séculos XVIII e XIX, ser um economista significava, acima de tudo, ser uma pedra no sapato daqueles que estavam no poder. Um economista era uma pessoa que avisava que o governo não podia melhorar a sociedade, e que qualquer tentativa de fazê-lo apenas criaria mais problemas.

Esse é o tipo de economista que Mises era, e esse é o tipo de economista que o Mises Institute começou a cultivar há 25 anos, com o sucesso que vemos hoje. Mas o Mises Institute se tornou muito mais do que isso.

O Mises Institute cumpriu não só aquilo a que se pretendeu cumprir — isto é, ser um sustentáculo das idéias de Mises; ele lançou uma revolução no aprendizado, e está liderando o caminho para um futuro de liberdade.

Todos aqueles que tiveram participação nesse empreendimento merecem nossa gratidão: nossos benfeitores, professores, alunos e leitores ao redor do mundo.

Ironicamente, conforme aprendi com Guido Hülsmann [1], foi o próprio Mises que sonhou com o que aconteceu nos últimos 25 anos. Perto do fim de sua vida, ele escreveu um memorando em que pedia com urgência a fundação de um centro para estudo e promoção da liberdade, tendo a economia como seu núcleo. Ele deve ter falado com Margit von Mises sobre isso, pois ela estava realmente entusiasmada quando lhe apresentei a idéia de um Mises Institute, aqui na cidade de Nova York.

O memorando de seu marido era fruto de décadas de frustração com o papel crescente do estado na educação, e a cumplicidade das universidades no papel de degradá-la e levá-la ao completo estatismo. Uma nova instituição para ensinar e promover as idéias da liberdade era sua resposta para dar um fim nessa propaganda oficial do estado.

Observem que essa instituição não era para ser um think tank [2], no tradicional significado do termo. Think tanks são um produto da era dos partidos políticos, funcionando como um latrinário para políticos sem mandato e um depósito de esquemas que asseguram poder aos partidários. Nesse modelo, que começou na Alemanha e foi aperfeiçoado na Inglaterra, o think tank era um aliado particular do estado, sempre pronto para aplaudir seus líderes — ou ser a oposição leal, dependendo do momento.

Isso não era o que Mises tinha em mente. Ele queria uma instituição intelectualmente ativa que seria dedicada a ensinar, pesquisar, publicar, preservar e promover idéias e, acima de tudo, fazer o que ele acreditava que tinha que ser feito: convencer as pessoas dos méritos que há em uma sociedade totalmente livre.

Por que precisamos de instituições que promovam e apóiem determinadas idéias? Se uma idéia é boa, por que ela precisaria de um aparato por trás dela?

Com o advento e o avanço do estado moderno, a liberdade de pensar ficou cada vez mais proibitiva. E então o estado tomou o controle da educação.

Depois da I Guerra Mundial, por exemplo, Mises alertou que ter escolas públicas em territórios multilíngues criaria um problema cultural intratável. Poucas questões levam mais pessoas a extremos do que a tentativa de impor a elas um idioma estrangeiro. Esse fato cria conflitos que o estado não pode resolver. Se se ensina em um idioma, irrita-se as pessoas que falam outro idioma. O idioma dominante torna-se um símbolo do poder político dominante, o que aumenta o ressentimento da minoria. Só há realmente uma única solução para esse problema, segundo Mises: a educação deve ser privada, se é que se quer preservar a paz entre os grupos.

Mas é claro que esse ponto de Mises pode ser expandido a todos os assuntos que concernem o intelecto humano. O partido no poder está em posição de controlar o debate, de punir aqueles que se recusam a aceitar a linha partidária, de doutrinar a juventude, de incitar apóio fervoroso aos projetos do regime, e de contratar e despedir intelectuais. No caso do Comunismo e do Nazismo, isso significou liquidar inimigos políticos. No caso da democracia, isso significa negar uma existência acadêmica e demonizar aqueles que pensam diferentemente.

Nos Estados Unidos, nossa primeira crise real ocorreu porque o poder dominante quis restringir a liberdade de expressão com o Alien and Sediction Act [3]. O resultado foi a primeira controvérsia envolvendo uma anulação, o que quase levou a um rompimento entre os estados — o que teria realmente acontecido se [Thomas] Jefferson não tivesse sido eleito em 1800. Mas a lição não foi aprendida. Pessoas foram presas durante a Guerra Civil e durante a I Guerra Mundial simplesmente por expressarem pontos de vista que o governo não gostava — e essa tradição continua nos dias atuais.

As idéias de liberdade precisam de uma margem para respirar. Elas são quase sempre expressas em oposição ao regime. O futuro é sempre incerto, e a liberdade é sempre frágil quando o estado está à solta.

Lembrem-se de que Mises nunca teve um emprego assalariado como professor titular na Universidade de Viena, e as razões disso estão detalhadas na nova biografia escrita por Guido Hülsmann: suas políticas liberais o impediram. Mas mesmo assim ele conseguiu cavar para si um nicho dando expedientes como professor voluntário. Seu seminário particular em Viena, que ele lecionou enquanto mantinha um emprego estressante na Câmara de Comércio, gerou vasta influência.

Mas quando ele percebeu que o crescente poder Nacional Socialista significava que Viena estava se tornando perigosa para ele, Mises fugiu para Genebra, onde uma instituição que lhe valorizava, em um país neutro, deu-lhe espaço e liberdade para trabalhar, e o protegeu do estado. O resultado foi a edição no idioma alemão de Ação Humana, um livro que é um clássico da idade moderna. Mas aí a guerra significava que ele tinha que partir novamente, dessa vez para a América, onde empresários e filantropistas solidários a ele o apoiaram.

Então faz muito sentido dizer que a experiência de Mises sublinha a necessidade de instituições politicamente independentes que guardem e preservem o direito de pensar criativamente, particularmente quando esse pensamento leva à direções que o regime desaprova.

Na sociedade altamente politizada de hoje, independência do estado é algo ainda mais importante. Isso é precisamente o que o Mises Institute proporciona, e em vários níveis: para professores e estudantes, e para todos aqueles interessados em economia austríaca e no estudo do libertarianismo.

Quando o Mises Institute foi fundado em 1982, Mises estava morto havia nove anos. Sua viúva Margit estava trabalhando duro para manter seus livros sendo impressos, e eu ajudei nesse trabalho como editor na Arlington House Publishers, com Theory and History, dentre outros trabalhos. Conheci Mises apenas uma vez, mas lembro-me de cada momento como se estivesse assistindo a um filme quadro a quadro.

Quando me aproximei de Margit, havia mais interesse em economia austríaca do que na época da morte de seu marido, mas havia uma deficiência que havia sido notada por Murray Rothbard: as próprias contribuições de Mises estavam sendo negligenciadas, até mesmo descartadas. Ele era tratado como alguém que realmente advogava com competência a livre iniciativa, mas seu trabalho científico e sua arrebatadora perspectiva sociológica estavam sendo ignorados.

Então a primeira tarefa do Mises Institute era fornecer um lar para as idéias de Mises, para grandes livros e também para seus melhores e mais produtivos estudantes — estivessem eles fisicamente conosco ou não. O mais notável dentre eles era, é claro, Murray Rothbard, que concordou em se juntar ao esforço nascente como vice-presidente acadêmico. A fundação do Mises Institute levantou seu espírito, e ele deu ao trabalho do Mises Institute asas para voar.

A própria carreira acadêmica de Rothbard seguiu um caminho que era estranhamente similar ao de Mises. Ele tinha todas as credenciais. Ele tinha escrito trabalhos pioneiros. Ele tinha atingido grandes avanços no seu esforço de impulsionar o pensamento político e econômico. E por isso ele era recompensado pela academia com um posto mal pago em um ambiente academicamente isolado — apesar de que Rothbard nunca reclamou. Ele tinha bons alunos em Nova York, mas nenhum com quem ele pudesse trabalhar formalmente até a pós-graduação.

Esses também eram tempos politicamente difíceis para Rothbard. Ele era um brilhante libertário, o que significava que ele não era nem um partidário de Reagan (Reaganite) nem de Carter (Carterite). Ele tinha dúvidas quanto à supply-side economics (economia do lado da oferta). Ele não apoiava guerras. Na verdade, ele desaprovou e se afastou do partido belicista que outrora gostava de alguns de seus trabalhos econômicos. Ele apoiava corte de impostos e corte de gastos, o que certamente o isolou. Ele era respeitado por alunos jovens, mas era completamente evitado pela corrente dominante, seja na academia, seja na imprensa.

Ele tinha se saído bem ao transformar sua sala de estar em um salão de exposição. E ele tinha atingido alguma fama ao publicar com editoras que não eram do establishment. Mas o que ele precisava era de um apoio de uma instituição que não estava trabalhando para nenhum partido político. O Mises Institute deu a Rothbard especificamente isso. Primeiro havia nossa nova edição do novamente negligenciado trabalho de Mises, Theory and History, para o qual Rothbard escreveu o prefácio. Depois havia um novo jornal acadêmico para ele editar, o qual se tornou a base para o renascimento misesiano na academia.

Assim que o instituto começou a desenvolver uma base de apoio financeiro — e não há nada que eu possa dizer aqui, especialmente aos patrocinadores nesta sala, que poderia de alguma maneira fazer jus ao papel central dessa generosidade — sempre houve progressos constantes. Finalmente, veio o arranjo de salas de aula, e aquilo que depois ficou conhecido como a Mises University.

Como eu me lembro bem daqueles dias nos quais Murray chefiava os professores. Lá estava ele, correndo de uma aula para outra, lecionando com sua lendária exuberância,, conversando com todos os estudantes entre as aulas, e então permanecendo acordado até tarde da noite, rodeado pelo seu núcleo fiel. Ele lecionava até 2, 3 e até 4 horas da manhã. Os alunos chegariam novamente na manhã seguinte para a aula das 8h. A equipe estaria lá com ele também, e ao fim da semana, todos parecíamos mortalmente esgotados — exceto Murray, é claro, que ainda estava firme e forte.

Quando eu penso naqueles dias, vários grandes eventos se destacam. Lembro-me olhando para o Review of Austrian Economics, do Murray, assim que o periódico saiu da impressora. Lembro-me dos rostos de todos aqueles jovens estudantes. E lembro-me de estar recebendo a notícia de que o defensor do livre mercado havia ganhado uma cadeira de economia na University of Nevada, em Las Vegas — e os amigos do instituto queriam que Murray a aceitasse. Ele teria agora um emprego que pagava bem em uma boa universidade. Ele teria alunos os quais ele poderia aperfeiçoar. Ele estaria seguro e livre para ensinar e escrever. Era algo extraordinário. Ele seria poupado do destino de Mises e Hayek, que nunca tiveram um emprego de professor titular na América. Agora estávamos cercados pela evidência: o trabalho do instituto poderia fazer diferença.

Durante os últimos 25 anos, todos esses programas floresceram além de nossos mais indômitos sonhos. Tivemos o grande prazer de trabalhar com notáveis como F.A. Hayek, Henry Hazlitt, Hans Sennholz e outros tantos. Temos trabalhado estreitamente com o maior estadista de nossa época: Ron Paul, cuja generosidade foi essencial para nosso rápido sucesso. Nós nos beneficiamos da generosidade de doadores como os falecidos Parthenia de Muralt, O.P. Alford III, Lawrence Fertig, Henry Hazlitt, and Margaret Rowley.

Temos visto tantos estudiosos aparecerem e nos aturdirem com seus escritos, suas aulas e suas contribuições. A Mises University tem formado praticamente cada austríaco em ação hoje, ao redor do mundo. Nossas publicações se expandiram para filmes e audiobooks. Nossa biblioteca, originada nas coleções de Murray Rothbard e Robert LeFevre, se expandiu em mil direções com o objetivo de preservar aquilo que outras bibliotecas cuidadosamente ou maliciosamente deixam de lado. Nós não simplesmente mantemos esses livros para nossos professores e alunos. Nós disponibilizamos centenas de livros online. Vastas quantias de materiais incríveis, os quais não viam a luz do dia havia décadas, estão agora a apenas um clique.

E se acontecer de você estar em um campus universitário e ver alguns garotos andando com camisetas com imagens estampadas de Mises, Menger, Rothbard, ou Bastiat, saiba que a fonte é o Mises Institute.

Ainda temos uma equipe pequena, mas todos trabalhamos feito loucos naquilo que amamos: tornar disponível o ensino da liberdade na tradição misesiana, e encorajar seu estudo e progresso. Queremos imprimir novamente toda a biblioteca austríaca e libertária. Apenas esse ano, isso inclui os livros deHazlitt, Heilperin, Chodorov, Fetter, Garrett, Hutt, Machlup, Nock,Flynn, e tantos outros.

Na verdade, o Mises Institute se tornou a força impulsionadora da velha teoria liberal pelo mundo afora.

E ainda assim a realidade levanta uma questão que podemos ser tentados a descartar, mas é uma com a qual penso que deveríamos nos comprometer. A questão é: ao fazer o que fazemos, não estaríamos de alguma maneira distorcendo o mercado de idéias, inclinando o grande debate intelectual em nosso favor? E seria certo entrar nesse rarefeito mundo acadêmico com uma agenda que é científica, moral e política? Em resumo, se a liberdade é uma idéia tão boa, e se a tradição misesiana é tão atraente, por que ela precisa de nossa ajuda?

Por séculos, intelectuais da velha tendência liberal, como Mises, acreditavam que apenas a educação seria suficiente para guiar as pessoas ao benefício da liberdade. Jefferson é um caso clássico disso. À medida que as pessoas fossem ficando mais prósperas um ambiente de liberdade — dizia a teoria —, elas iriam dedicar mais recursos pessoais à educação. Às crianças, que não precisariam trabalhar, seriam ensinadas literariamente todos os assuntos importantes. Os alunos mais promissores dentre eles continuariam sua educação até eventualmente se tornarem líderes na sociedade em todos os níveis.

Na vida cívica, procurava-se apenas um fim: a proteção, preservação e promoção da liberdade humana. A cidade do homem, baseada na liberdade, era pra ser promovida através da ferramenta única da educação. Eles viam a educação e a liberdade como um projeto unificado, um projeto que não seria realmente separável em teoria ou fato. Eles acreditavam que as bênçãos da liberdade seriam tão visíveis que todas as formas de aprendizado ajudariam no grande objetivo de engrandecer a compreensão cultural da liberdade.

Tampouco eles imaginavam a possibilidade de falha, muito menos a destruição dos valores cívicos. Aquela geração inteira estava convencida de que o progresso era inevitável através da difusão da liberdade. Agora que a felicidade já havia sido descoberta, não havia volta.

Olhando em retrospecto, a geração que absorveu ideais iluministas era ingênua ao extremo. Se olharmos ao redor do mundo atual, veremos que a educação avançou em cada setor. É inconcebível para nós um jovem não tentar ser admitido em uma universidade. Sempre dizemos à juventude que o segredo do sucesso é se entregar aos estudos. Quanto ao ensino fundamental e médio, nós os consideramos tão importantes que eles são bens públicos, que devem ser providos pelo estado. E apenas para ter certeza de que todos recebam educação, a lei proíbe crianças de trabalhar, fato este que os sindicatos gostam e apóiam, pois isso mantém mão-de-obra barata fora do mercado. O acesso aos grandes livros, às grandes mentes, às melhores idéias de toda a história humana estão em todo lugar.

Mas será que essa educação ajudou a reforçar a liberdade? Todos os dados indicam que quanto mais objetivamente educada as pessoas se tornam, mais propensas elas ficam a acreditar no estado como meio de salvação social. Pode-se mapear isso demograficamente. Quanto maior o nível de educação, maior é a inclinação pelo pensamento socialista. Por que é assim? Hayek diria que isso tem a ver com a arrogância de intelectuais que acreditam que podem inventar uma melhor ordem social do que aquela que a liberdade pode criar. Mises chamaria a atenção para o ressentimento da parte dos intelectuais, que pensam que não são tão estimados pela sociedade como são os empreendedores ou estrelas do esporte. Rothbard assinalaria que os intelectuais são atraídos pelo estado como um meio de legitimizar suas idéias e assegurar seu bem-estar financeiro.

Qualquer que seja o caso, isso é um fato que aturdiria as pessoas no século XVIII: quanto mais educação uma pessoa recebe, mais elas são atraídas por ideais sociais que só podem ser realizados sob completo despotismo, se não mais.

Uma pessoa como [Thomas] Jefferson acharia isso inconcebível. Enquanto isso, os alunos que têm aula em escola pública estão sendo socializados e preparados para ter uma atitude acrítica em relação ao estado, e são frequentemente vítimas do modismo político. Ao invés de ler Jefferson ou outros grandes autores, eles são instruídos a fazer reciclagem e a digerir histórias falsas criadas para apoiar agendas políticas.

A atitude dos intelectuais iluministas perante o estado era estranhamente defeituosa por três razões. A primeira é que a estrutura da instituição que faz o ensino importa muito. Se a instituição pertence ao estado e é gerida por ele, podemos esperar que as idéias que ela promova serão favoráveis ao regime.

Isso não deve ser algo controverso. Se, por exemplo, o Wal-Mart estivesse gerindo nossas escolas, quem se surpreenderia se as críticas ao Wal-Mart fossem mantidas a um mínimo e as atitudes pró-Wal-Mart fossem cultivadas entre os alunos? Nós esperaríamos isso. Isso não nos surpreenderia. Apenas consideraríamos a fonte.

Mas é extremamente raro considerarmos a fonte quando se fala de educação estatal. Há uma suposição que as pessoas fazem que a educação, quando financiada pelo estado, será objetiva e terá em mente apenas o melhor interesse dos alunos. Essa suposição não faz sentido algum, mas, apesar disso, ela é amplamente aceita. Frequentemente encontramos esse problema quando lidamos com a questão das escolas de ensino fundamental e médio. Se uma pessoa frequenta uma escola batista ou católica, as pessoas logo perguntam como ela suporta toda aquela doutrinação religiosa. Mas você já ouviu algum estudante de uma escola pública ser questionado sobre como ele pode aguentar toda aquela doutrinação estatista? Não é provável.

A propriedade e o controle das instituições de fato influem na qualidade da educação que um aluno recebe e no que lhe será ensinado.

O segundo ponto ignorado pela geração iluminista é que a ideologia tem mais poder sobre a mente humana do que a mera abstração de idéias em geral. Especialmente hoje, é praticamente impossível fugir das permeações ideológicas. Com a desculpa de estarem sendo ensinados sobre biologia ou ciência, estudantes são rotineiramente alimentados de propaganda ambientalista que culpa o capitalismo por todas as doenças do mundo. Sob o disfarce de ciência social, planos socialistas sobre reconstrução política são ilusoriamente oferecidos aos desavisados.

Existe algo como conhecimento puro, mas é cada vez mais difícil de achar. Isso significa que mais conhecimento não necessariamente leva a um progresso social. Na verdade pode levar a um regresso social. Tudo depende da estrutura da instituição de ensino e de suas perspectivas ideológicas.

O terceiro ponto ignorado pela visão iluminista é que aqueles com o mais forte motivo para influenciar o futuro tenderão a dominar o debate e, assim, controlar os propósitos com os quais a educação é dirigida. E em qualquer sociedade o estado procura ser a influência dominante na cultura — e quase sempre tem êxito. Em algum momento da vida de cada libertário, percebemos que grande parte do que a mídia reporta sai diretamente dos anúncios oficiais das agências governamentais. Essa é apenas uma das várias maneiras que o governo tem de fazer propaganda de si próprio e de suas prioridades por toda a sociedade.

E essa questão de propagandear idéias é crítica. Deixe-me explicar isso através de uma analogia com o mercado de bens e serviços. Todos nós já tivemos amigos que alegavam já terem tido a idéia de criar um determinado produto que estava fazendo sucesso no mercado naquele momento. É uma alegação desinteressante porque ela ignora um fato crítico. O trabalho difícil de uma empresa não é tanto a criação da idéia, mas sim o trabalho em cima dela. Eis aqui o passo que faz a diferença que leva à lucratividade.

Uma idéia deve ter viabilidade econômica, isto é, ela deve se tornar parte eficiente da estrutura de alocação social de bens e serviços. O iPhone já podia ser tecnologicamente viável há cinco anos, mas apenas nesse verão ele se tornou economicamente viável. E superioridade técnica não é necessariamente igual a superioridade econômica. Uma vez que o problema está superado, há a questão muito importante do marketing, que nada mais é do que difundir a imagem do produto para o mercado, levando em conta a disponibilidade para o mundo.

Sem considerações econômicas e de marketing, as melhores idéias do mundo ficarão adormecidas. Seu vizinho pode estar sentado sobre a melhor fórmula para ceras de carro que ainda está para ser criada. Mas o que isso significa no mundo real? Essencialmente nada, até que seu vizinho descubra um jeito de transformar aquela fórmula em algo real, e depois descubra um jeito de fazer com que outros na sociedade possam adquiri-la.

Precisamente o mesmo ocorre com idéias. Se Mises tivesse meramente imaginado as idéias de Ação Humana, mas nunca as tivesse escrito, o mundo seria algo bem diferente. Se ele as tivesse escrito, mas nunca tivesse procurado uma editora, nada teria surgido delas. E, mesmo após ter achado uma editora e ter visto o livro surgir em 1940, em alemão, ele teria um problema adicional: suas idéias não estavam acessíveis em inglês. E então para atingir sua meta, ele trabalhou por mais anos para apresentar suas idéias para um novo mundo — o mundo do pós-guerra —, em um idioma diferente.

Por que ele fez isso? Mises entendeu que são as idéias que impulsionam o mundo para frente. Mas idéias apenas não são suficientes. Elas precisam ser apresentadas em um formato efetivo que possam ser vendidas, por assim dizer. E então elas precisam ser apresentadas de um jeito que atraia as pessoas.

Mises, em contraste com os pensadores iluministas, sabia que esses dois últimos estágios do trabalho intelectual não poderiam ser ignorados. Ele percebeu que o mundo das idéias está sujeito às leis da economia da mesma maneira que o mercado de bens e serviços. Há um forte elemento empreendedor que é necessário para que as idéias tenham sucesso. Mises foi tão enfático nesse ponto que ele foi bem longe a ponto de pôr a culpa pelo colapso social naqueles que não promoveram e nem lutaram pelas boas idéias.

Em Theory and History, o primeiro livro que publicamos, Mises escreveu que todas as idéias, sejam boas ou más, se originam na mente dos indivíduos. Mas essas idéias somente se estabelecem se forem aceitas pela sociedade. Não há garantias de que essas idéias serão aceitas. As pessoas vão endossar idéias ruins mesmo que estas as levem à autodestruição. Mas se elas escolhem o que é destrutivo, Mises escreveu, “a culpa não é somente delas. É também dos precursores das boas causas por não terem tido sucesso em expor seus pensamentos de forma mais convincente.”

Ele finaliza esse ponto com a seguinte afirmação: “A evolução favorável dos assuntos humanos depende fundamentalmente da habilidade da raça humana de gerar não apenas autores, mas também arautos edisseminadores das idéias benéficas.”

Portanto, Mises sabia não ser suficiente manter as visões certas, ainda que isso fosse um passo essencial. Tão importante quanto é fazer todo o possível para que essas visões sejam propagandeadas convincentemente de uma maneira que vai transformar a sociedade e a política. E é por isso que ele se tornou um defensor de uma nova instituição que seria dedicada à liberdade. Essa instituição, esperava ele, não seria apenas uma fonte de idéias. Ela trabalharia para popularizá-las e implementá-las dentro dos assuntos da população humana.

Estaria isso de alguma forma distorcendo o mercado de idéias? A alegação é absurda, já que o mercado de idéias é construído inteiramente sobre idéias que foram descobertas, propagandeadas e disseminadas, e por isso se tornaram parte da estrutura do mundo em que vivemos. Da mesma maneira que um empresário não pode se contentar em simplesmente imaginar um shopping ou um novo software de busca — mas também deve ver esses sonhos realizados economicamente e então propagandeados —, não devemos e não podemos estar contentes em simplesmente manter visões notáveis. Devemos trabalhar para realizá-las.

E ainda sim somos pessoas impacientes, não? Queremos ver os efeitos de nosso trabalho ainda em vida, mas o que vemos é o estado expandindo e a liberdade diminuindo; e então ficamos imaginando se o nosso trabalho no mundo das idéias vale a pena. Podemos considerar que se não fosse pelas vozes oposicionistas dos misesianos, o estado teria uma mão mais livre, e o despotismo seria pior do que já é.

Podemos também considerar que há uma diferença de tempo entre a propagação de uma idéia e sua realização.

Finalmente, considerem que a queda fatal de uma ideologia falida não é sempre observável; só sabemos que isso ocorreu quando os efeitos estão claros para o mundo. Por exemplo, em retrospectiva, agora sabemos que a idéia socialista na Rússia estava em queda contínua já por volta de 50 anos antes de o estado finalmente ruir. E, ainda assim, apenas alguns anos antes da queda, os acadêmicos ocidentais estavam nos garantindo que o comunismo soviético seria uma figura permanente no mundo, e que seu maravilhoso sistema econômico iria de alguma forma superar o nosso.

Somos muito afortunados por viver em tempos em que de fato podemos ver evidências de riqueza ao redor de nós, desde novas tecnologias e novos desenvolvimentos econômicos, até o declínio prático da capacidade do estado em gerenciar assuntos mundiais. Temos visto evidências inegáveis da falha do planejamento total e da incrível beleza criada pela economia de mercado.  Temos visto o completo colapso da idéia socialista. Mises não teve tal luxo. Ele viu guerra, depressão, planejamento central, socialismo — nacional e internacional — e inflação, e isso resume bem tudo o que ele viu entre seu nascimento e sua morte. E ainda assim ele lutou. Por quê?

Murray Rothbard certa vez escreveu um ensaio inteiro discutindo essa exata questão. Ele apontou que a filosofia social de Mises reforçou sua batalha pelo que é verdadeiro. Ele sabia que a civilização e a existência humana estavam em jogo. Uma boa teoria é importante, mas não é suficiente. Os defensores do livre mercado devem levar a batalha para todos os níveis da sociedade. Para Mises, nenhuma forma de educação estava abaixo de sua dignidade. Não havia uma separação entre teoria e prática. É por isso que devemos ser totalmente dedicados à liberdade, à paz e ao livre mercado. Devemos nos posicionar firmemente em favor da vida humana e da prosperidade. Rothbard conclui que “a ciência até pode ser algo sem valor intrínseco, mas o ser humano não; e Ludwig von Mises nunca fugiu das responsabilidade de ser um humano.”

Eu posso lhes dizer, baseado em minha longa amizade com Murray, que ele podia muito bem estar escrevendo sobre si próprio. Esse espírito está conosco esta noite, nesta sala, em tudo o que fazemos, e em tudo o que vamos fazer nos próximos 25 anos, pois em nenhum dos dois casos vocês fugiram de suas responsabilidades.

Graças à suas ajuda e generosidade, somente nesse ano, vimos um aumento inacreditável em nossas atividades, desde publicações, até distribuição e ensino. Temos uma nova e magistral biografia sobre Mises que reconstrói a história e o significado de seu tempo. Temos alunos e professores como nunca. Nossas idéias estão chegando a cada vez mais e mais pessoas. E ainda assim nosso trabalho está longe de estar completo. Nunca se passará um dia sem que nós não estejamos apontando o progresso. Temos modelos inspiradores, não apenas no trabalho mas também nas vidas de Mises e Rothbard.

A história, como sempre, nos julgará. Que nós possamos dizer que fizemos tudo o que pudemos para servir o bem da humanidade, que nunca nos entregamos ao mal, que não apenas nos opusemos meramente a ele em nossos corações e mentes, mas que também lutamos contra ele de maneira ainda mais ousada, e que desalojamos o mal do estatismo pelas bênçãos da liberdade, que é a base da própria civilização.

Do fundo do meu coração, eu agradeço a vocês pelo apoio dado à nossa causa. Agora, sigamos em frente para mais outros incríveis 25 anos.

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[1] Jörg Guido Hülsmann é membro sênior do Mises Institute. Ele é professor na França, na Université d’Angers. É autor do livro Mises: The Last Knight of Liberalism. (N. do T.)

[2] Um grupo ou uma instituição organizada para pesquisa intensiva e para a resolução de problemas, especialmente nas áreas de estratégia política e armamentícia. (N. do T.)

[3] Quatro leis de segurança assinadas pelo Presidente John Adams e aprovada pelo Congresso Federalista em 1798 em antecipação à guerra com a França de 1798-1800. Essas leis restringiam estrangeiros — tendo como alvo imigrantes franceses e irlandeses (que eram em sua maioria pró-França) — e limitavam críticas da imprensa ao governo. Foi a primeira lei federal que punia como crime qualquer declaração feita contra o governo e seus membros. Thomas Jefferson se opôs à lei e a repeliu em 1802. (N. do T.)

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