Como pensar sobre a economia

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[Resenha do livro How to Think about the Economy: A Primer, de Per Bylund, Auburn: Ludwig von Mises Institute, 2022]

Introdução

Na corrida presidencial de 2026, apesar de algumas diferenças entre os candidatos, é possível averiguar que todos eles, sem nenhuma exceção, são defensores de políticas econômicas que, mesmo aqueles que começaram a estudar economia há pouco tempo, conseguem dizer o quanto estas são nocivas para a economia. Independentemente da posição ideológica declarada, há um consenso entre candidatos em torno de políticas intervencionistas que, como já foi demonstrado por Ludwig von Mises e uma miríade de outros autores, levam a distorções econômicas que têm por resultado o empobrecimento geral.

Tendo em vista isso, é possível dizer que há poucas opções realmente boas, o que força os eleitores a procurarem o candidato menos problemático, isso entre opções igualmente ruins. Mas, mesmo considerando um cenário em que haja um bom candidato, é possível dizer com certo grau de certeza que ele não ganharia a corrida presidencial, pelo fato de que a maioria dos brasileiros não votaria nele. O principal motivo pelo qual esse candidato não venceria as eleições é a falta de conhecimento básico em economia por boa parte da população brasileira, o que impede o eleitorado brasileiro de compreender quais são os problemas relacionados a políticas intervencionistas.

Posto que o conhecimento básico de economia é importante para identificar o quão boas são as propostas de certos candidatos para a economia, um dos livros que melhor pode servir como porta de entrada ao bom pensamento econômico é o livro How to Think About Economy [“Como pensar sobre a economia”]. O livro foi escrito pelo economista sueco Per L. Bylund, professor associado de empreendedorismo na Spears School of Business na universidade estadual de Oklahoma e membro sênior do Mises Institute, no ano de 2022. A leitura do livro de Per L. Bylund é muito útil para a compreensão de conceitos-chave desenvolvidos pelos principais autores da escola austríaca, como Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Carl Menger e entre outros autores, isso porque o livro introduz esses conceitos com uma linguagem concisa e de fácil compreensão para leigos. Além disso, o livro também pode ser muito proveitoso para aqueles que são familiarizados com o estudo da escola austríaca, pelo fato de poder relembrar conceitos relevantes e a base de temas importantes como a inflação e os ciclos econômicos.

A economia como ordem espontânea

Na primeira parte, há uma explicação do que é a economia. A economia é uma ordem não planejada que surge das ações humanas, como a produção de um aparelho eletrônico ou a venda de um alimento. É importante ressaltar que boa parte dessas ações são interações das pessoas umas com as outras, interações que possuem sempre um fim em vista, geralmente a satisfação de uma vontade. Ou seja, pode-se dizer que a economia é o modo como agimos uns com os outros para satisfazer nossos desejos e/ou criar valor.

O fato de a economia ser uma ordem espontânea, algo que Friederich Hayek irá desenvolver melhor em sua obra, significa que ela é um sistema descentralizado e distribuído entre as pessoas, ou seja, cada pessoa e instituição tem seus próprios planos de como ganhar a vida, por exemplo: certas pessoas preferem trabalhar produzindo fertilizantes, já algumas decidem trabalhar plantando verduras, outras decidem abrir restaurantes e outras decidem abrir uma fábrica na qual possam produzir talheres. Perceba que cada uma dessas três pessoas, mesmo sem um grande ordenador geral, possui negócios que, para continuar em funcionamento, demandam produtos umas das outras (um fazendeiro precisa de fertilizantes para suas verduras, que são importantes para o restaurante que, além de verduras, também precisa de talheres). Esse pequeno sistema não é autônomo, pois todos esses empreendedores demandam uma série de outros bens e serviços que, se nos dermos o trabalho de descrever, seria necessário gastar uma grande quantidade de horas.

Por essas pessoas terem vontades distintas e, por isso, decidirem realizar ações diferentes com o objetivo de atender essas vontades criou-se uma rede complexa de ofertas e demandas que, caso fosse ser administrada por um órgão centralizado, seria impossível de funcionar. Se a administração dessa ”rede” já é impossível, prever perfeitamente os detalhes de como todo esse processo vai se desenrolar é tão difícil quanto. Por isso, a tarefa do economista não é prever esses detalhes, mas sim a compreensão dos fenômenos e comportamentos econômicos agregados, isso por meio da teoria econômica.

A compreensão da ação humana (que é a base da economia) é, metodologicamente, individualista. Isso por que todas as ações tem uma causa, um fim, que sempre é pessoal, mesmo quando essa ação tem por objetivo fazer bem a determinada pessoa ou grupo (por exemplo, quando alguém vende alguma coisa para dar o dinheiro para uma instituição de caridade) ela continua sendo motivada por um fim que é valorizado pela pessoa que está fazendo. Mesmo quando essa ação está sendo feita sob ameaça, quando você é assaltado e é forçado a entregar seu dinheiro, por exemplo, a ação de entregar seus pertences (ou de reagir) ainda é realizada por uma valorização do próprio bem-estar (que está sendo ameaçado). Ludwig von Mises em sua principal obra, Ação Humana, mostrou o por que a ação é metodologicamente individualista:

      “Inicialmente, devemos dar-nos conta de que todas as ações são realizadas por indivíduos. Um conjunto opera sempre por intermédio de um ou de alguns indivíduos cujas ações estão relacionadas ao conjunto de forma secundária.  É o significado que os agentes individuais, e todos que são afetados pela sua ação, atribuem a uma ação que determina o seu caráter.  É o significado que distingue uma ação como ação de um indivíduo e outra como ação do estado ou da municipalidade.  É o carrasco, e não o estado, que executa um criminoso.  É o significado daqueles interessados na execução que distingue, na ação do carrasco, uma ação do estado. Um grupo de homens armados ocupa um local.  É o significado daqueles envolvidos nesta ocupação que a atribui não aos soldados e oficiais, mas à sua nação.  Se investigarmos o significado das várias ações executadas pelos indivíduos, necessariamente aprenderemos tudo sobre as ações dos conjuntos coletivos. Porque um coletivo social não tem existência e realidade fora das ações de seus membros individuais. A vida de um coletivo é vivida nas ações dos indivíduos que constituem o seu corpo.  não há coletivo social concebível que não seja operativo pelas ações de alguns indivíduos”

O próprio valor e o preço dos produtos que são comercializados dependem da valorização pessoal de cada indivíduo, o que reforça mais ainda o quão central é a ação humana. Por exemplo, num deserto onde há pouca água, as pessoas tendem a valorizar a água muito mais do que quem mora em uma cidade que é diariamente abastecida com água potável, por isso, a água tem um preço mais exacerbado num lugar com pouca oferta de água do que em um lugar com muita oferta. Esse exemplo nos mostra outro ponto importante: Os preços dos produtos refletem aquilo que as pessoas mais estão valorizando naquele momento. Pelo fato de as pessoas terem uma vontade dúbia, ou seja, pelo fato de as pessoas não serem constantes em suas vontades, os próprios preços também não são constantes.

O mercado como processo dinâmico

Sobre o mercado: O primeiro ponto a ser destacado acerca do mercado é que esse não deve ser compreendido como uma coisa estática, mas sim como um processo de produção e troca de bens entre os indivíduos, que acontece na tentativa de atender a desejos pessoais. O fato de o mercado depender das vontades pessoais de cada um faz com que este seja volátil, afinal, como foi dito no parágrafo acima, as vontades e objetivos de cada um são sempre inconstantes.

Para que os empresários possam sobreviver no mercado, é necessário que seus produtos satisfaçam as vontades de sua clientela e, além disso, precisa que este produto tenha uma qualidade tão boa ou até maior que a de concorrentes do mesmo ramo. É a necessidade de atender essas demandas e de fazer produtos que possam ser fabricados em menos tempo e com mais qualidade que faz com que o mercado seja responsável por boa parte dos avanços tecnológicos que houve na humanidade. Esses avanços tecnológicos só foram possíveis pois houve um acúmulo de capital para financiar a criação de novos aparatos tecnológicos, tal como as máquinas à vapor que surgiram na Inglaterra na metade do século XVIII.

O mercado só existe por que os indivíduos realizam trocas uns com os outros, mas a troca direta de bens e serviços é muito ineficiente. Por exemplo, quantos quilos de carne são equivalentes a oito horas de trabalho de um pedreiro? Ou quantos cachos de bananas são equivalentes a uma dúzia de ovos? Evidentemente esse tipo de troca é ineficiente, pois há uma dificuldade em medir quantos produtos X equivalente a produto Y, mas, além disso, também impossibilita o cálculo econômico, pois não há uma referência para saber se há demanda maior ou menor por tal produto. Durante muito tempo, a troca de bens e serviços foi feita com base no escambo, até o surgimento do dinheiro. O dinheiro funciona como um bem intermediário que facilita as trocas comerciais e possibilita sabermos quais produtos são mais procurados ou não, pois, como já dito antes, os preços refletem o valor que as pessoas dão a determinados bens e serviços.

Intervencionismo

O intervencionismo é definido como a intervenção do estado na economia por meio de regulações e proibições. Como já explicado anteriormente, o mercado é um processo de produção e troca de bens e serviços que acontece numa ordem não planejada, ou seja, numa ordem descentralizada e a tentativa de impor uma ordem centralizada ou de alterar essa ordem artificialmente, ao contrário do que é dito, é gerador de pobreza. O livro destaca duas intervenções estatais que são danosos a economia: A impressão de dinheiro, que leva ao tópico do ciclo econômico, e o salário mínimo.

Tal como foi já dito anteriormente, a inflação é o aumento da quantidade de dinheiro acima da quantidade de bens disponíveis no mercado, o que faz com que o dinheiro tenha um valor menor e, por conta disso, os bens e serviços tornam-se mais caros. Apesar de haver casos de inflação antes da era contemporânea, como a desvalorização da prata devido a entrada massiva de prata na Europa após a descoberta das minas de prata nas américas do século XVI, a inflação tornou-se um fenômeno mais comum após o século XIX. Isso deve-se a diversos fatores que poderão ser mais explorados em textos futuros, mas podemos citar entre eles a abolição em massa do padrão ouro, a fundação de bancos centrais e entre outros. A inflação, como disse o economista Milton Friedman:

                                               “É igual o alcoolismo, em ambos os casos, quando você começa a beber ou quando você começa a imprimir muito dinheiro, os efeitos bons vêm primeiro e os maus efeitos só vêm depois. É por isso que, em ambos os casos, há uma forte tentação em exagerar, beber demais e imprimir muito dinheiro. Quando se trata da cura, é o contrário: quando você para de beber, ou quando você para de imprimir dinheiro, os efeitos ruins vêm primeiro e os bons efeitos só vêm depois”

Os ”efeitos bons” e os ”efeitos ruins” a que Milton Friedman se refere são fenômenos comuns dos ciclos econômicos. O ciclo econômico é uma das consequências da inflação — e uma das mais danosas. Para compreender o que é o ciclo econômico é necessário saber o que a taxa de juros, uma expressão da preferência temporal das pessoas, ou seja, o quanto elas querem consumir hoje versus o que preferem poupar para o futuro. Se as pessoas poupam mais, significa que há mais dinheiro disponível nos bancos para empréstimo, ou seja, a taxa de juros é baixa, sendo que ela aumenta no caso de haver muitas pessoas pegando dinheiro emprestado no banco.

À princípio, quando o governo imprime o dinheiro, a taxa de juros é reduzida de maneira artificial, o que dá uma falsa informação àqueles que vão pegar um empréstimo e iniciar um projeto a longo prazo que antes seriam inviáveis. Isso dá uma falsa impressão de prosperidade econômica, que não dura muito tempo devido ao fato de que não houve uma poupança real das pessoas, a taxa de juros não diminuiu naturalmente. Como não houve valor criado, mas apenas a impressão de dinheiro, o preço dos produtos ”explode” como efeito da inflação, o que faz com que os projetos começados devido a essa baixa taxa de juros artificial se tornem insustentáveis e quebrem, o que leva a uma recessão econômica.

Por fim, há outra intervenção estatal que tem efeitos nocivos à economia: o salário mínimo. Suponha que há um homem que mora na periferia mas, determinado a sair dessa condição, decide vender pirulitos no sinaleiro. Com o tempo, esse homem começa a melhorar de condição, até eventualmente conseguir um trabalho vendendo outro tipo de produto e ganhando cada vez mais. Mas agora, caso ele tivesse encontrado um político que, determinado a melhorar a vida dele enquanto ainda vendia pirulitos no sinaleiro, assinou uma lei que determina um preço mínimo de pirulitos (que torna a compra do pirulito desvantajosa). Um leigo poderia pensar que, graças a essa mudança, a vida desse homem iria melhorar muito mais rapidamente, mas esse não é o caso.

Devido a esse preço mínimo, este homem não conseguiu vender mais pirulitos, pois agora se tornou um produto com um preço que nenhuma pessoa estava disposta a pagar por um simples pirulito, o que atrasou em muito a ascensão econômica desse sujeito. O salário mínimo funciona dessa mesma maneira: obrigando os empregadores a pagarem um preço que é caro demais para determinados serviços (seja pelo fato de não ser um serviço que se pague ou pelo fato do funcionário ser inexperiente e, por isso, não poderá trabalhar tão bem quanto alguém que já tem experiência), estes decidem não contratar o número de pessoas que poderiam ser contratadas e, por isso, muitos são barrados de entrar no mercado de trabalho.

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