A ascensão do ESG: substituindo lucros por paternalismo e estratégia por padrões

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O movimento para criar mudanças sistêmicas no sistema econômico está crescendo. Tradicionalmente, os investimentos em empreendimentos empresariais eram baseados em expectativas de retorno favorável em função dos riscos envolvidos. Esperava-se que as empresas tivessem o melhor desempenho para garantir o valor para os acionistas e, para isso, precisavam atender às necessidades dos consumidores, alavancar recursos com eficiência e gerenciar suas operações com eficiência.

Atualmente, no entanto, espera-se que as empresas tenham um impacto social – e é esse impacto que está sendo priorizado. Mais do que produção, mais do que consumo e ainda mais do que valor para o acionista.

As organizações com fins lucrativos estão cada vez mais adotando o conceito de capitalismo consciente e integração de partes interessadas, que nomes como John Mackey e Sir Richard Branson não apenas defenderam, mas construíram movimentos ao redor, pedindo às empresas que tenham um “Propósito Superior” e se comprometam a criar um “mundo melhor”.

À primeira vista, isso soa não apenas como uma coisa boa, mas como um movimento estratégico, uma vez que a preferência do consumidor se inclina para empresas que visam ter um impacto social em vez de simplesmente vender um produto.

Edward Freeman, considerado o pai da Teoria das Partes Interessadas, afirma que as empresas devem alinhar os interesses de todas as partes interessadas enquanto fazem o que podem para evitar trade-offs. Sua publicação de 1984, Strategic Management: A Stakeholder Approach, estimulou a missão de transformar as práticas de negócios em buscas mais nobres.

De vilão a guardião social

Em 1987, foi lançada a World Business Academy dedicada à proposição de que não se pode confiar nas empresas, pois a esfera corporativa estava “por trás de todos os grandes problemas”. Algo tinha que mudar.

Essa noção negativa do impacto dos negócios atraiu outros a se posicionarem sobre o assunto. John Renesch cunhou a frase “capitalismo consciente”, John Elkington promoveu o Triple Bottom Line – representando pessoas, planeta e lucro, e Michael Porter desenvolveu o conceito de valor compartilhado, que propõe o encontro de uma necessidade social com um modelo de negócios.

Certamente, muitos enfatizaram que o papel dos negócios na sociedade é mais do que apenas ganhar dinheiro, e as formas de responsabilidade social corporativa (RSC) se expandiram e evoluíram em resposta.

Quando o conceito de RSC surgiu, era aplicável a empresas maiores que tinham a capacidade de utilizar sua riqueza e sucesso para retribuir – por meio de voluntariado, doação a instituições de caridade e até parceria com ONGs. No entanto, a RSC não é mais retribuir ou mesmo redistribuir – trata-se de engajamento com questões sociais – e isso agora é esperado de todas as empresas.

Os incentivos ao ODS e a ascensão do ESG

A pressão para ‘fazer o bem‘ não se baseia apenas em preocupações reputacionais de atores privados, mas deriva de um movimento global mais amplo e politicamente motivado.

Em 2000, a Cúpula do Milênio aconteceu na cidade de Nova York, nas Nações Unidas, e foi o maior encontro de líderes mundiais da época. O objetivo da Cúpula foi determinar o papel contínuo da ONU e propor novas metas para a criação de um mundo melhor.

Como resultado da Cúpula, os funcionários públicos assinaram a Declaração do Milênio, que delineou oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs) a serem alcançados até 2015. E dado que o foco principal da ONU era a erradicação da pobreza, o envolvimento com o setor financeiro tornou-se um componente.

A pedido do então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, um estudo foi encomendado para justificar os compromissos corporativos com iniciativas sociais e, em 2006, a ONU convocou os países a se tornarem signatários de seus Princípios para o Investimento Responsável ( PIR). Para aqueles que aderiram ao PIR, os padrões propostos exigiam que empresas e mercados de capitais participassem e fizessem mais pelo bem global.

Depois de 2015, os ODMs se transformaram nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), e o PIR estimulou a criação de estruturas ESG. Tanto o Conselho de Padrões de Contabilidade de Sustentabilidade (CPCS) quanto o Fórum Econômico Mundial (FEM) promoveram iniciativas para instituir “um sistema globalmente aceito para divulgação corporativa” para acompanhar o progresso dos ODS e pressionaram as empresas financeiras a implementar métricas ESG como prova de que estavam fazendo sua parte.

A adoção de padrões ESG, no entanto, é realmente problemática vez que valor e virtude são difíceis de medir e sempre haverá trade-offs – quer Freeman goste ou não.

Uma questão problemática para as empresas que atendem a objetivos sociais e não às necessidades do mercado é a complexidade de atender a todas as partes interessadas de uma só vez e a subjetividade do que significa ser ‘bom’ ou quando ‘bom’ se aplica ou não.

Por exemplo, antes da pandemia, os reguladores pretendiam limitar o uso de plásticos de uso único, mas essas estipulações foram suspensas em resposta às preocupações de segurança do COVID-19. Os centros de reciclagem fecharam e a produção de plástico aumentou. Isso era o que era necessário e, portanto, bom para a sociedade.

O verdadeiro problema com os sistemas de classificação

Interesses e incentivos divergentes criam efeitos push-pull no mercado e, embora seja importante estar ciente do impacto e dos custos de oportunidade envolvidos, também é importante deixar os mecanismos de mercado funcionarem. Em vez disso, no entanto, as empresas estão sendo coagidas a cumprir avaliações e medidas de conformidade, e isso só criará gargalos para os processos de produção ao longo do tempo, uma vez que qualquer coisa nova ou diferente precisará primeiro ser aprovada ou verificada. E o crescente movimento B Corp de Branson e o coorte do Capitalismo Conscient de Mackey estão ajudando nesse processo.

Aderir às altas expectativas de verificadores como o B-Team, que afirmam que nosso “modelo econômico está quebrado” apesar dos grandes avanços que podemos ver diante de nossos olhos, não é apenas ruim para os negócios, mas também para o progresso.

Experimentação e diversificação, de acordo com Ludvig Von Mises, é a melhor combinação para o avanço, e as ofertas de novos produtos são um benefício para a sociedade em si quando as empresas agem de forma ética e atendem aos desejos e necessidades dos consumidores. No entanto, as atividades inovadoras provavelmente serão suplantadas por melhorias incrementais que aderem aos padrões de ditames externos e obterão o endosso das agências de avaliação.

As empresas não devem precisar de um selo de aprovação de uma agência certificadora, especialmente porque as vendas sinalizarão quando algo de valor está sendo oferecido e, se os lucros caírem, as organizações devem trabalhar para entender o porquê. No entanto, obter o logotipo do B Lab ou ser um parceiro na campanha do capitalismo consciente tem um forte apelo para aqueles que buscam ganhar capital social e apaziguar as elites da indústria e os especialistas políticos – e essas iniciativas não estão apenas ganhando força, elas estão unindo forças.

O rebranding das empresas e o controle centralizado

Recentemente, a Imperative 21 Network  foi lançada para “REINICIAR” nosso sistema econômico, e tanto a B Team quanto a Capitalismo Consciente são listadas como dois dos principais administradores dessa iniciativa.

A Network representa “mais de 70.000 empresas, 20 milhões de funcionários, US$6,6 trilhões em receita e US$15 trilhões em ativos sob gestão” e o objetivo é “mudar a narrativa cultural sobre o papel das empresas e das finanças na sociedade”. E a mudança certamente está em andamento, pois em 2019, a Business Roundtable, formada por um grupo de 180 CEOs das maiores empresas dos EUA, declarou que as empresas devem ter como objetivo melhorar o status de todas as partes interessadas e desempenhar um papel mais elevado na sociedade.

Com tudo isso em mente, não é de se admirar que o ESG tenha se tornado uma fortaleza na comunidade de investimentos e é enervante ver a facilidade com que o mundo dos negócios sucumbiu a players poderosos.

Mas o que é mais preocupante é o fato de que as agências certificadoras e as medidas de avaliação inevitavelmente encorajam os reguladores. Tome-se como exemplo a seita de agricultura orgânica, enquanto as certificadoras eram inicialmente autorreguladas e autocertificadas, tendo sido estabelecidas pelos próprios agricultores. No entanto, à medida que as vendas de alimentos com rótulo orgânico aumentaram, também aumentou o número de órgãos de certificação envolvidos. O surgimento de vários esquemas de rotulagem orgânica confundiu o que cada rótulo representava e, ao longo do tempo, tornou-se necessário abordar os processos de certificação e estabelecer um sistema mais padronizado e regulamentado.

E o mesmo provavelmente será verdade para o ESG. No momento, há uma diversidade de estruturas ESG com taxas que variam de milhares de dólares a vários milhões, e as preocupações com a credibilidade estão aumentando e gerando interesse das agências de monitoramento.

Dado que o ESG foi formulado dentro do sistema da ONU para promover os ODS da ONU e responsabilizar os signatários do PIR, parece bastante claro qual estrutura de ESG vencerá no final – a Global Reporting Initiative (GRI). A GRI é parceira da ONU e foi fundada com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e, coincidentemente, é atualmente a estrutura mais utilizada (implementada por 73% das 250 maiores empresas do mundo).

Portanto, parece provável que qualquer estrutura padronizada seja baseada nos postulados da ONU quando tudo estiver dito e feito, e tudo isso terá ocorrido bem diante de nossos olhos e através uso de nossos próprios bolsos.

 

 

 

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A Dra. Kimberlee Josephson é professora associada de negócios no Lebanon Valley College e atua como pesquisadora adjunta do Consumer Choice Center. Ela ministra cursos sobre sustentabilidade global, marketing internacional e diversidade no local de trabalho; e sua pesquisa e artigos de opinião apareceram em vários meios de comunicação.Ela possui doutorado em estudos globais e comércio e mestrado em política internacional pela La Trobe University, mestrado em ciência política pela Temple University e bacharelado em administração de empresas com especialização em ciência política pela Bloomsburg University.