A ciência é mais complexa do que dizem

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Em algum momento de sua educação infantil, a maioria dos alunos ouve uma história sobre como a ciência funciona. É a crença generalizada nesta história que convence o público em geral a aceitar apelos políticos à “Ciência” como justificativa para políticas relacionadas.

O título desta história é “O Método Científico” e é mais ou menos assim: Cientistas observam um fenômeno; em seguida, eles levantam hipóteses (uma palavra chique para “supor”) sobre suas causas; então, eles conduzem um experimento controlado sobre a hipótese; se a evidência experimental não mostra claramente que a hipótese é falsa, ela é retida e se torna algo como uma teoria científica e, eventualmente, após mais testes experimentais bem-sucedidos, um fato científico; por outro lado, se a evidência experimental enfraquece a hipótese, ela é rejeitada e os cientistas desenvolvem uma nova hipótese, aprimorada à luz das evidências existentes, e o processo experimental começa de novo.

Por meio desse procedimento de tentativa e erro, continua a história, a ciência acaba descobrindo verdades confiáveis ​​sobre o fenômeno em questão.

É uma história bonita e simples. Infelizmente, é um mito. O que torna sua aceitação ingênua, senão dogmática, entre o público em geral ainda mais inexplicável é que sua natureza mítica há muito é reconhecida por aqueles que estudam ciência.

Graças ao trabalho de W. V. O. Quine, Thomas Kuhn e outros, filósofos e sociólogos da ciência sabem desde meados do século passado que o simplista “Método Científico” não é – de fato, não pode ser – o modo como a ciência funciona.

A ciência é muito mais complexa do que isso.

Kuhn mostrou que, como questão histórica, o método de tentativa e erro pode operar até certo ponto durante períodos de “revolução científica”, quando os cientistas se tornaram tão insatisfeitos com o paradigma científico prevalecente – talvez, mas não necessariamente, como consequência de falhas experimentais acumuladas – que eles começam a procurar paradigmas de substituição.

No entanto, a grande maioria das carreiras dos cientistas é gasta conduzindo a “ciência normal”, um processo, não de tentativa e erro, mas de elucidar, ampliar e tornar mais preciso o paradigma existente. Em outras palavras, ao conduzir a ciência normal, os cientistas aceitam o paradigma prevalecente como dado e fazem qualquer coisa, exceto tentar falsificá-lo.

Por sua vez, Quine (com base em percepções desenvolvidas no início do século pelo físico francês Pierre Duhem) mostrou que a lógica de falsificar evidências não é o que parece à primeira vista. Um experimento que produz evidências aparentemente desconfirmadoras não dita que o cientista rejeite sua hipótese, em vez de alguma outra suposição que figurou no experimento. Uma hipótese pode sempre ser mantida, nas palavras inimitáveis ​​de Quine, “Venha o que vier”, independentemente das evidências.

Filósofos e sociólogos da ciência posteriores desenvolveram, corrigiram e ampliaram esses insights, mas o fato de eles transformarem a história simplista de “O Método Científico” em um mito é incontestável na literatura.

Na verdade, muitos trabalhos subsequentes na sociologia da ciência questionaram a própria possibilidade de que existam métodos melhores e piores de aquisição de conhecimento. Este trabalho anuncia uma espécie de relativismo cognitivo que nega à ciência um status privilegiado sobre outros métodos mais tradicionais, como confiar nos ditames da autoridade da família, tribo, religião ou facção política.

Entretanto, não se deve ir tão longe com os sociólogos relativistas. Que a ciência, mas não a autoridade religiosa, política ou qualquer outro tipo de autoridade, é capaz de colocar as pessoas na lua, curar doenças e contribuir para a mitigação de problemas ambientais, entre tantas outras conquistas da era moderna, são dados que os relativistas precisam explicar, mas não podem.

A ciência é um fenômeno complexo no sentido em que F. A. Hayek falou da complexidade dos fenômenos econômicos e outros fenômenos sociais. O que significava para um fenômeno ser complexo, para Hayek, era que nosso conhecimento, em particular, nossa capacidade de explicar e prever – e, portanto, de controlar – o fenômeno era limitado. Esse é o caso da ciência, como a história do último século de tentativas filosóficas e sociológicas de explicar, prever – e, na verdade, controlar – a ciência, mostrou claramente.

A avaliação da evidência empírica desempenha um papel crucial, mas de forma alguma direta ou facilmente compreensível, na determinação da aceitação ou rejeição de teorias científicas concorrentes. Essas avaliações das evidências não são realizadas por autômatos objetivos e desapaixonados, mas por seres humanos falíveis com emoções subjetivas, preconceitos e motivações pessoais, que foram classificados em comunidades de cientistas com ideias semelhantes, em grande parte de acordo com os preconceitos metodológicos que absorveram na pós-graduação.

Além de lógica, a ciência também é psicológica e sociológica. Como a evidência objetiva é interpretada por meio desses indivíduos e pelas lentes sociais, de modo que os resultados ocasionalmente possibilitam realizações como pousar na lua, curar doenças e mitigar problemas ambientais, permanece em grande parte um mistério. A ciência envolve evidências, mas também envolve pessoas. É um processo empírico de testar as ideias mais recentes contra as evidências, mas os aspectos empíricos da ciência estão embutidos em processos psicológicos e sociais que eclipsam em grande parte nossa compreensão.

A perpetuação do mito do “Método Científico” encoraja a pretensão de que entendemos a ciência. Mais especificamente, encoraja a falsa noção de que, por entendermos a ciência tão bem, sempre podemos confiar nas implicações de algo chamado “A Ciência” como a fonte de toda a sabedoria política. Mas, embora muitos de seus sucessos (e vários de seus fracassos) sejam óbvios, está longe de ser óbvio por que a ciência tem tanto sucesso, e está igualmente longe de ser óbvio que devemos confiar tanto assim na ciência na formulação de políticas.

 

Artigo original aqui

1 COMENTÁRIO

  1. Duas questões sempre me incomodaram, e nesta atual crise covidiana estão na boca de todo o cientista de fundo de quintal:

    (1) Artigos não revisados por pares;

    (2) A noção de que todo o conhecimento é provisório e que neste exato momento existem milhares de cientistas obcecados em refutar o conhecimento estabelecido;

    Um conhecimento dedutivo precisa ser revisado por um par? acredito que não necessariamente. As conclusões da escola ético-jurídica austríaca não precisam disto para serem válidas. Até porque se dependerem de “escolas rivais”, ela não irá chegar a lugar algum. Neste caso, como saber que uma teoria na área das humanas é melhor do que a outra, sem cair em um relativismo vazio? simples. Se eu não posso aguentar as consequências da minha teoria sem o uso da violência, ela está necessariamente errada. Assim, podemos deduzir que somente pessoas com a sua própria propriedade privada podem fazer ciência. Ou seja, a teoria está restrita ao próprio indivíduo ou é aceita de livre e espontânea vontade por outros. No geral, quanto mais voluntária é uma ciência mais ela está próxima da verdade. Quando alguém me diz: “mas isso foram os cientistas que provaram…” em 99% dos casos é melhor ficar com a bunda encostada na parede.

    Quando eu passei a estudar a anarquia de propriedade privada, por um tempo eu tentei refuta-la devido ao meu passado imundo de ex-liberal. Eu sabia que o estado deveria ser abolido, mas todas as consequências de uma sociedade de leis privadas – Hoppe, foi muito “radicalismo”. Ou como um liberaleco randiano me disse uma vez: “tu não passa de um niilista, cujo sonho é ter uma sociedade onde a leis sejam ditadas por gangues” ou “não existe propriedade privada sem estado”. Mas isso foi apenas por um tempo. Hoje em dia eu não fico preocupado em atacar o libertarianismo para tentar refuta-lo. Para mim, é ciência estabelecida.

    A ciência já era. O método científico sempre foi método político científico. Agora só caiu a máscara. Como no outro Graças a Deus não tive nenhum problema de saúde por estes tempos, pois depois de ver médicos descaradamente anti-científicos não acredito mais nessa raça. Com no artigo do Rockwell “Libertários de esquerda Vs a realidade” deixou implícito, esse negócio de XX e XY não é mais considerado. Triste