A falácia do indivíduo mau e do coletivo bondoso

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A ditadura covidiana expôs de forma clara na sociedade humana a crença irrefletida e irracional das massas na falácia do indivíduo mau e do coletivo bondoso, sendo ela muito nítida na política, embora não seja sua exclusividade. Ela se refere à crença generalizada das pessoas de que os indivíduos são naturalmente nefastos e malignos. Eles precisam ser contidos por leis “eficientes”, “justas” e “corretas” para que não exerçam a sua maldade sobre outras pessoas. Por isso armas devem ser proibidas e o estado deve regular o que os indivíduos podem ou não fazer.

Esta crença, no entanto — de forma totalmente incoerente e paradoxal — pressupõe que os indivíduos, quando são burocratas, políticos ou corporativistas, deliberam em coletivos e tem muito poder nas mãos, automaticamente viram pessoas boas, corretas, honestas, graciosas e justas, que sempre tomarão as melhores decisões possíveis. Não é nem mesmo necessário que exista um sistema de freios e contrapesos para conter o grande poder desses grupos. Afinal, eles estão agindo coletivamente, tem enorme poder sobre terceiros e isso automaticamente coloca todos eles em uma posição de total confiança. São esses grupos de homens “imaculados”, “justos” e “honestos” que irão “proteger” a sociedade dos excessos de indivíduos malvados, injustos e potencialmente perigosos que andam por aí.

A ditadura covidiana mostrou, de forma explícita, como a grande maioria das pessoas, de forma totalmente instintiva e inconsciente, acredita na falácia do indivíduo mau e do coletivo bondoso. A crença de que os indivíduos são naturalmente malignos, mas — quando estão em grupo e tem enorme poder —, eles automaticamente se transformam em anjos graciosos, sacrossantos e benevolentes, cheios de bondade e amor no coração, que não devem jamais ser questionados, contestados ou desobedecidos. Afinal, se eles são tão amorosos, e exigem da população obediência à leis impecáveis, justas e imaculadas, por que não obedecê-los? Os indivíduos que ousam desobedecê-los é que devem ser considerados pessoas malignas e subversivas, que devem ser extirpadas da sociedade. Mas os coletivos de homens bondosos e poderosos que fazem parte do sistema político estão sempre certos, não importa o que façam.

Já faz um ano e meio que a grande maioria das pessoas usa máscaras em todos os lugares — algumas até mesmo dentro da própria casa — porque um grupo de burocratas decidiu isso. Muitas pessoas nem sequer contestam essa decisão. Se os governadores, prefeitos e vereadores decidiram isso, então elas simplesmente obedecem.

Afinal, por que os burocratas exigiriam de um cidadão que ele respirasse o próprio gás carbônico, se isso não fosse absolutamente necessário para o bem comum? Então o cidadão leal ao governo obedece a essa regra, porque assim ele estará zelando pelo “bem comum” e dando um “bom” exemplo aos demais cidadãos. É o que os dirigentes governamentais afirmam. Eles são pessoas de poder e tomam decisões de acordo com o “bem comum”. Adicionalmente, a televisão corrobora e aprova todas as decisões da classe política. Então, por que não obedecer a essas decisões? Afinal, quem desobedece as leis não pode ser considerado uma boa pessoa, muito menos um cidadão exemplar, certo?

Esta é basicamente a forma de raciocinar do cidadão comum. Em decorrência de dissonância cognitiva e de severas limitações intelectuais, ele é incapaz de perceber as deficiências gritantes do seu modo de raciocinar. No entanto, a lógica, a ética e um entendimento claro sobre a natureza humana nos ajudam a compreender a falácia da crença do indivíduo mau e do coletivo bondoso, que infelizmente guia a grande maioria dos seres humanos há muito tempo.

Seres humanos podem cometer maldades. Atrocidades em larga escala, no entanto, só podem ser cometidas por governos. O século 20 foi o século dos genocídios. Em pouco mais de 30 anos — de 1914 a 1945 —, a Europa sofreu com o genocídio assírio, o genocídio armênio, o Holodomor e o Holocausto, para citar apenas os morticínios mais letais do período.

Toda essa mortandade jamais poderia ter sido executada por indivíduos isolados. Elas foram todas cometidas por governos políticos; ou seja, por coletivos de homens poderosos, com enorme poder de decisão sobre a vida de terceiros, o que por si só seria suficiente para desmantelar completamente a crença na falácia do indivíduo mau e do coletivo bondoso. Aqui temos o claro exemplo de que os homens que estavam no poder eram psicopatas da pior espécie.

Mas infelizmente as pessoas não estudam história. E são péssimas para compreender o inevitável paradoxo existente entre o indivíduo e o coletivo.

Quando grupos de pessoas tem imensurável poder sobre terceiros, a probabilidade delas fazerem o mal é tão grande quanto ou até mesmo superior à possibilidade de se empenharem pelo bem. Portanto, é errado pressupor que um grupo de políticos — pelo simples fato de agirem em grupo, terem poder e serem parte do governo — desejarão o bem, se empenharão pelo bem e lutarão pela justiça e pela paz na sociedade. Eles não passam, como nunca passaram, de seres humanos. Só que são seres humanos com enorme poder. O que não apenas pode ser, como frequentemente é, potencialmente perigoso.

Indivíduos isolados jamais poderiam causar o nível de mortandade e destruição que estados e governos políticos já causaram à humanidade. De maneira que é irracional acreditar que os indivíduos são naturalmente malignos, mas que políticos e burocratas governamentais — por agirem em grupo, serem guiados por uma constituição e afirmarem que buscam o “bem comum” (expressão genérica vazia que não significa absolutamente nada) — são pessoas inerentemente benévolas, abnegadas e altruístas, legítimos guerreiros da paz e da bondade andando entre nós, simples mortais, só porque eles integram um grupo que se autointitula “o governo”.

Com a ditadura covidiana, a humanidade estendeu a teoria da bondade coletiva aos grandes conglomerados farmacêuticos. Subitamente, os corporativistas das companhias farmacêuticas também viraram anjos graciosos, puros, generosos e benevolentes — que amam a humanidade de forma abnegada e altruísta —, de maneira que podemos todos confiar cegamente nessas pessoas amáveis, honestas e infinitamente graciosas.

Por que questionar um esquema periódico de vacinação compulsória, se é para o nosso bem? Os corporativistas da indústria farmacêutica sabem muito bem o que estão fazendo. Você deve confiar neles. Você tem a obrigação de confiar neles, dizem os covidianos novos normais. Afinal, você não passa de um indivíduo mau, que não tem o direito de questionar tudo o que um coletivo de corporativistas puros, abnegados e sacrossantos estão fazendo para salvá-lo do coronavírus.

Se você ousar questioná-los, os dirigentes puros e abnegados do governo poderão tomar providências para lidar com indivíduos negacionistas perigosos como você, dos quais a sociedade precisa ser urgentemente protegida, visto que o seu pensamento independente, capacidade de raciocínio, autonomia intelectual e índole propensa ao questionamento representam um grande perigo para o rebanho.

Evidentemente, sabemos que isso não faz o menor sentido. Não devemos confiança alguma aos corporativistas da indústria farmacêutica — muito menos a confiança cega e irracional que as massas estão dispostas a depositar. Afinal, sabemos perfeitamente que essa é uma das indústrias mais corruptas do mundo, sendo movida basicamente por lucros astronômicos e titânicas ambições corporativas.

Você não precisa nem deve ter confiança em vacinas que estão prejudicando pessoas com sérios e graves efeitos colaterais, e matando tantas outras que vem a óbito dias depois de serem inoculadas com o químico experimental. Aliás, o que não falta na indústria farmacêutica é corrupção. Para usar novamente um exemplo que mencionei em um artigo anterior, o conglomerado farmacêutico chinês Changchun Changsheng, em 2018, foi multado no valor de 1,3 bilhão de dólares, ao ser responsabilizado pela produção de vacinas adulteradas de poliomielite, difteria e tétano. Mas de acordo com a linha de raciocínio dos covidianos novos normais, você não deve questionar jamais a sacrossanta e graciosa indústria farmacêutica. Ela é dirigida e comandada por corporativistas gentis, angelicais, altruístas e benévolos que só querem o seu bem. Quem é você para ousar contestá-los?

Lamentavelmente, a grande massa não entende a atual situação por um ponto de vista mais coerente e realista, justamente porque ela está presa na falácia da teoria do indivíduo mau e do coletivo bondoso. As multidões acreditam que indivíduos como eu e você somos pessoas naturalmente malignas — que precisam ter seus impulsos contidos pelo estado gentil e benevolente —, mas um grupo de pessoas com muito poder atuando em conjunto tomará apenas decisões boas, salutares e benéficas para a sociedade, em todas as ocasiões. Elas são imunes a falhas e jamais cometerão erros. Tal pensamento não poderia ser mais incoerente e desprovido de lógica.

De acordo com essa distorcida premissa irracional, os burocratas do estado e os corporativistas da indústria farmacêutica jamais cometem erros ou equívocos. Eu e você, por outro lado, estamos errados o tempo inteiro. A menos, é claro, que tomemos a “sábia” decisão de agir como cordeirinhos dóceis e submissos, que obedecem a classe política e os corporativistas da indústria farmacêutica em praticamente todas as questões, usando focinheira 24 horas por dia e tomando todas as injeções que eles exigirem. Não importa quantas doses sejam. Duas, três, vinte e sete ou sessenta e cinco. Em alguns países, como a Turquia, o governo já está justificando a “necessidade” de administrar novas doses da vacina anti-covid no rebanho para combater as novas cepas e mutações do vírus.

Graças a Deus somos pessoas privilegiadas por termos à disposição burocratas abnegados e corporativistas generosos lutando para nos salvar do coronavírus. Assim pensam os covidianos novos normais.

Sem dúvida nenhuma, o covidianismo mostrou como a maior parte da humanidade está terrivelmente agrilhoada à falácia da teoria do indivíduo mau e da bondade coletiva; elas genuinamente acreditam que pessoas como nós — que se recusam a usar máscaras e se recusam a serem usadas como ratos de laboratório descartáveis de um agressivo e anticientífico experimento em massa — representam um terrível perigo para a sociedade. Portanto, pelo simples fato de não andarmos com um pano na cara, somos criaturas egoístas e irresponsáveis, que não pensam nos outros, tampouco levam em consideração o bem comum.

Essas pessoas em nenhum momento cogitam a possibilidade de que nós somos os sensatos e racionais nesse contexto, que estão desobedecendo decretos tirânicos malignos, insanos, opressivos e injustificáveis. Nem passa pela cabeça dessas pessoas que errados são os políticos e burocratas que estão exigindo dos indivíduos que cumpram regras irracionais, absurdas e sem sentido. Infelizmente, para a grande maioria das pessoas, os indivíduos estão sempre errados e o coletivo político estará sempre certo.

A verdade é que, para as massas, não importa o que a classe política exija, ela estará sempre certa. Os indivíduos que não cumprirem os decretos exigidos é que estão errados e são os infratores perigosos. A equação simplória dessas pessoas é simples de entender — os burocratas do estado estão sempre certos, não importa quão estúpidas sejam as leis, ordens ou decretos implementados por eles, e os indivíduos que ousam contestar e desobedecer estão sempre errados. Lamentavelmente, é assim que as pessoas comuns pensam.

De acordo com essa linha de raciocínio, não foi errado nazistas terem exterminado judeus no Holocausto. Errados foram os judeus que resistiram. Assim como também não foi errado que Mao Tsé-tung tenha mandado fuzilar capitalistas burgueses durante o seu governo. Errados foram os capitalistas burgueses que ousaram resistir e viver, desobedecendo as ordens do “grande timoneiro”. Assim como também estavam errados todos os cúlaques que ousaram resistir aos expurgos stalinistas, por se recusarem a ter suas terras confiscadas e expropriadas pelo estado soviético e por lutarem contra as deportações. Errados são os indivíduos. E certos são os coletivos sacrossantos de políticos e burocratas generosos, que sempre se mobilizam para “ajudar” a sociedade e “corrigir” os indivíduos maus.

Por mais distorcida que seja, é essa a linha de raciocínio da grande maioria das pessoas, bem como de praticamente todos os covidianos novos normais. Tudo o que o governo, o estado, a classe política — e na presente situação, também os conglomerados farmacêuticos — fazem e exigem é justo, correto e não deve ser questionado. Errados são os indivíduos que questionam, desobedecem e não aceitam a violação das suas liberdades. Nunca passa pela cabeça dessas pessoas que governos podem ser tirânicos, ditatoriais, abusar dos indivíduos e cometer violência contra os mesmos.

Para essas pessoas de mentalidade simplória, governos são inerentemente bons, justos e corretos, simplesmente porque são um coletivo formado por políticos, que se autodenomina “o governo” e chancelam sobre a sua própria bondade e a suposta benevolência de suas intenções. O indivíduo, por outro lado, está sempre errado, simplesmente porque ele é o indivíduo. Ele é inerentemente mau e deve ser impreterivelmente execrado se se recusar a seguir as ordens sempre “justas”, “benévolas”, “corretas” e “puras” do coletivo político-corporativo.

Para essas pessoas simplórias, o indivíduo só é aceitável se ele agir como um cordeirinho dócil e subserviente, que jamais questiona ou contesta as ordens que recebe dos seus donos. Para os covidianos novos normais, o indivíduo deve ser como um ursinho de pelúcia maleável e submisso, cuja única preocupação é obedecer, cumprir regras e seguir todas as ordens e mandamentos exigidos pela cartilha sanitária do regime coronazista. Caso contrário, ele deve ser considerado um indivíduo subversivo e perigoso, que deve sofrer as consequências de sua insubordinação.

Infelizmente, não há cura para a falácia do indivíduo mau e do coletivo bondoso, embora seja fácil refutá-la, visto que ela é ostensivamente irracional e incoerente. A maioria das pessoas não compreende como está presa a esta deplorável deficiência intelectual. Não faz o menor sentido acreditar que indivíduos são intrinsecamente maus, mas que automaticamente se tornarão criaturas angelicais, amorosas e benévolas se tiverem muito poder e tomarem decisões em grupo.

Na verdade, se esta linha de raciocínio for levada adiante, chegaremos a constatação de que estados e governos políticos não deveriam nem mesmo existir. Afinal, se os indivíduos são naturalmente malignos, um estado será, invariavelmente, uma coalizão de homens perversos que terão plenos poderes para oprimir, dominar e subjugar os seus semelhantes. Portanto, a crença de que os homens são naturalmente malignos se transforma, inexoravelmente, em uma excelente justificativa para a imediata dissolução do estado.

Da mesma forma, aqueles que acreditam que os indivíduos são inerentemente bondosos — se levarem igualmente o seu raciocínio até as últimas consequências — chegarão exatamente a mesma conclusão: o estado não precisaria existir. Afinal, se os indivíduos são naturalmente bons, então todos eles terão propensão para fazer o que é correto. De maneira que eles não teriam necessidade da tutela de políticos e burocratas para serem pessoas honestas, virtuosas e altruístas.

Ou seja, quer você acredite que os indivíduos são naturalmente malignos, ou inerentemente bondosos, é impossível justificar a existência do estado por qualquer uma dessas premissas. Na verdade, ambas se tornam excelentes justificativas para a abolição do estado.

Mas não tente fazer uma pessoa comum levar esta linha de raciocínio até as últimas consequências. Em função da dissonância cognitiva, a maioria delas vai continuar acreditando que grupos de homens tomando decisões em conjunto são inerentemente benignos, gentis e generosos, ao passo que o indivíduo sempre será hostil, perigoso e maligno.

A verdade, no entanto, é que é mais provável que ocorra o inverso.  Indivíduos tendem a ser bons e responsáveis, e geralmente não necessitam de ninguém para guiá-los pela mãozinha, dizendo o que podem ou não fazer. Em grupo, no entanto, muitos indivíduos poderão se sentir tentados a abusar do poder que tem em seu próprio benefício, visto que dificilmente sofrerão as consequências de suas sórdidas ações. Adicionalmente, a certeza da impunidade e o sentimento de culpa compartilhada — que estará presente sempre que ele deliberar em grupo — pode levar o indivíduo em posição de poder a abusar de sua autoridade, sempre que ele achar isso vantajoso.

Infelizmente, compreender plenamente a natureza humana é uma arte dominada por poucos. A maioria deseja ser simplesmente governada, terceirizando assim as responsabilidades pessoais e o trabalho de pensar. Por isso a desobediência à tirania requer coragem. Contaminadas pelo sórdido coletivismo do populismo político, a maioria das pessoas sempre será completamente incapaz de compreender o mundo pela perspectiva do indivíduo.

Ironicamente, é justamente o indivíduo que deveria ser o centro do mundo e o protagonista do progresso econômico e social. O coletivismo é intrinsecamente malévolo e destrutivo e, invariavelmente, sempre será o prenúncio da tragédia que conduz a sociedade à escravidão, à submissão e ao despotismo, não produzindo absolutamente nada de justo, construtivo e salutar no processo. De maneira que o estabelecimento de uma civilização próspera e livre requer, necessariamente, a emancipação total do indivíduo.

1 COMENTÁRIO

  1. Mais um artigo certeiro do autor, que remete à célebre passagem do clássico de MacKay:
    “Men, it has been well said, think in herds; it will be seen that they go mad in herds, while they only recover their senses slowly, one by one.”
    ― Charles MacKay, Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds