A ladainha socialista sobre as grandes fortunas

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Nesse início de ano boa parte da mídia fez questão de enfatizar o aumento expressivo do patrimônio dos chamados super ricos. Em jornais como valor econômico e el país, as reportagens focam nas 500 pessoas com as maiores fortunas do mundo, que detém atualmente 7,6 trilhões de dólares.

No topo do ranking dos multimilionários encontram-se alguns nomes já bastante conhecidos: Jeff Bezos, Elon Musk, Bill Gates e Warren Buffett. Desses, Bezos já ostenta inconteste a liderança nos últimos quatro anos, com uma fortuna estimada em 193,7 bilhões de dólares.

Um ponto de destaque na recente multiplicação de capital dos super ricos veio justamente das políticas de isolamento impostas pelos mais diversos governos ao redor do globo. Em função da nova dinâmica que favoreceu o comércio eletrônico, a Amazon de Bezos teve uma valorização de 75% no ano de 2020.

Para os observadores mais atentos, não chega a ser uma surpresa que empresários muito bem posicionados e com conexões com o governo lucrem horrores se aproveitando de decisões estapafúrdias tomadas pelo estamento burocrático. Na verdade, regulações, entraves legais e as mais diversas barreiras políticas são justamente destinadas a garantir os resultados financeiros de corporativistas cujos interesses estão em simbiose com a máquina estatal.

Mas nesse universo de cartas marcadas, alguns personagens antes desconhecidos vem chamando a atenção pelo recente acúmulo de capital. Um dos exemplos mais marcantes é o chinês Zhon Shanshan, uma figura praticamente anônima até recentemente, e que é o dono da empresa de água mineral Nongfu. Antes um jornalista, o sucesso incomum de Zhon Shanshan no mundo dos negócios garantiu que no último ano sua fortuna aumentasse em mais de dez vezes.

Ainda no mesmo contexto geográfico, relatório da revista Forbes aponta que os 400 homens mais ricos da China acumulam hoje a cifra de 2 trilhões de dólares, um resultado que em muito se deve a valorização de quase 20% do índice CSI 300, que acompanha 300 das empresas líderes da China. Novamente, chama a atenção um resultado tão peculiar quando supostamente a China foi o epicentro de uma patologia que simplesmente confinou parte expressiva dos adultos saudáveis e economicamente ativos do mundo inteiro.

Embora seja mais que evidente que esse resultado é mérito das mãos conspurcadas de políticos e burocratas, ironicamente não faltam vozes pedindo por mais intervenção do estado para supostamente reverter esse quadro. É praticamente impossível não encontrar por aí milhares de comentaristas de internet dizendo que distribuir a fortuna de Jeff Bezos seria suficiente para resolver o problema da fome do mundo…

Ora, muito dificilmente os detentores destas grandes fortunas poderiam legitimar suas posses através de critérios éticos, como o homesteading e trocas voluntárias. Ocorre porém que mesmo num cenário em que houvesse uma justificativa para tanto, e essas fortunas fossem socializadas, não haveria benefício nenhum para os mais de 7 bilhões de habitantes do mundo, e quem prova isso é a matemática.

Partamos do cenário mais simples: se fosse possível socializar aquela cifra pertencente às 500 maiores fortunas do mundo, os famigerados 7,6 trilhões de dólares já referidos anteriormente, nesse cenário se cada uma das 7 bilhões de pessoas do mundo recebesse uma porção igual dessa fortuna socializada, cada pessoa receberia um valor pouco superior a mil dólares.

Ou seja, falando em resultados concretos, mesmo num contexto econômico pobre de um país de terceiro mundo como o Brasil os mil dólares provenientes desse processo de socialização mal representaria um acréscimo de 5 salários mínimos para cada destinatário. E não se trata de uma renda mensal, pois uma vez socializada, não haveria mais de onde extrair novamente tais recursos financeiros.

E tudo isso com uma gigantesca colher de chá, pois no mundo real nenhum Bezos tem 100 bilhões em papel moeda simplesmente esperando ser confiscado pelo estado.

Um tal processo implicaria em lidar com a socialização de veículos, bens móveis, bens imóveis e títulos de crédito que é de fato os bens que representam a fortuna acumulada dos super ricos.

Agora some ao processo o trabalho hercúleo e gastos incomensuráveis pra fazer chegar o dinheiro socializado a cada camponês de áreas remotas das Filipinas, do Vietnã, do Congo ou da floresta amazônica… Os socialistas parecem ignorar que muitas pessoas pobres que eles alegam representar sequer possuem uma conta bancária.

Infelizmente, porém, no fim das contas os socialistas tem muito pouco do que se queixar no arranjo político atual. Com a magnitude da intervenção estatal justificada pela crise do vírus chinês, o mundo já está com os dois pés no socialismo, independente de se concretizar ou não o confisco das grandes fortunas.

Aliás, de certo modo, é possível dizer que hoje os super ricos atuam menos como empreendedores visando projetos pessoais, e mais como prepostos do estado, que é quem de fato tem a palavra final sobre cada mínimo aspecto da atividade empresarial.

No atual arranjo, qualquer burocrata com uma caneta pode decidir o que abre e o que fecha, quanto tempo o estabelecimento deve ficar aberto, quantos clientes podem ser atendidos e até quanto pode ser cobrado por cada produto. Em suma, não há diferença alguma entre o padrão corporativista atual, daquilo que se praticava na economia de guerra da Alemanha nazista ou na União Soviética, e é por isso que estamos experenciando o inferno.

4 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns irmão! eu começei a ler este artigo de maneira pessimista – e pronto para excomunga-lo, pensando que fosse uma defesa pueril destas empresas bilionárias, tal qual fazem os liberalóides do estado mínimo mas me enganei. Excelente! Condenarmos esses prepostos – você usou uma palavra precisa, da máfia estatal não quer dizer que somos socialistas querendo expatria-las. Somos libertários de propriedade privada, afinal.

    Esta frase aqui também matou a pau, coisa que somente um Ancap entende – isso porque temos um único neurônio, ao contrário dos liberais que não tem nenhum -, “Ora, muito dificilmente os detentores destas grandes fortunas poderiam legitimar suas posses através de critérios éticos, como o homesteading e trocas voluntárias.” É isso!

    Muito bom artigo.