A Mentalidade Anticapitalista

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Capítulo 1 – As Características Sociais do Capitalismo e as Causas Psicológicas de seu Descrédito

1.  O consumidor soberano

 

A característica essencial  do capitalismo moderno é a produção em massa de mercadorias destinadas ao consumo pelo povo.  O resultado é a tendência para uma contínua melhoria no padrão médio de vida, o enriquecimento progressivo de muitos.  O capitalismo desproletariza o “homem comum” e o eleva à posição de “burguês”. 

No mercado de uma sociedade capitalista, o homem comum é o consumidor soberano, aquele que, ao comprar ou ao se abster de comprar, determina em última análise o que deve ser produzido e em que quantidade.  As lojas e fábricas que suprem exclusiva ou predominantemente os pedidos dos cidadãos mais abastados em relação a artigos de luxo exercem apenas um papel secundário no cenário econômico do mercado.  Elas nunca atingem a dimensão da grande empresa.  As grandes empresas servem sempre — direta ou indiretamente — às massas. 

É esta ascensão das multidões que caracteriza a radical mudança social efetuada pela “Revolução Industrial”. Os desfavorecidos que em todas as épocas precedentes da história formavam os bandos de escravos e servos, de indigentes e pedintes, transformaram-se no público comprador por cuja preferência os homens de negócios lutam. Tornaram-se os clientes que estão “sempre com a razão”, os patrões que têm o poder de tornar ricos os fornecedores pobres, e pobres os fornecedores ricos. 

Na estrutura de uma economia de mercado não sabotada pelas panaceias dos governos e dos políticos, não existem grandes nem nobres mantendo a ralé submissa, coletando tributos e impostos, banqueteando-se suntuosamente enquanto os servos devem contentar-se com as migalhas.  O sistema de lucro torna prósperos aqueles que foram bem-sucedidos em atender as necessidades das pessoas, da maneira melhor e mais barata possível.  A riqueza somente pode ser conseguida pelo atendimento ao consumidor.  Os capitalistas perdem suas reservas monetárias se deixarem de investir no tipo de produção que melhor satisfaz as solicitações do público, no plebiscito diário e contínuo no qual cada centavo dá direito a um voto, os consumidores determinam quem deve possuir e fazer funcionar as fábricas, lojas e fazendas.  O controle dos meios materiais de produção é uma função social, sujeita à confirmação ou à revogação pelos consumidores soberanos. 

O conceito moderno de liberdade é isto.  Todo adulto é livre para moldar sua vida de acordo com seus próprios planos, não é forçado a viver de acordo com o projeto de uma autoridade planejadora que impõe seu único esquema através da polícia, isto é, o aparato social de compulsão e coação.  O que restringe a liberdade do indivíduo não é a violência ou a ameaça de violência de outrem, mas a estrutura fisiológica de seu corpo e a inevitável escassez natural dos fatores de produção.  É óbvio que o critério do homem para moldar seu destino jamais poderá ultrapassar os limites estabelecidos pelas chamadas leis da natureza. 

Estabelecer esses fatos não equivale a uma justificativa da liberdade do indivíduo em relação a padrões absolutos ou noções metafísicas.  Não expressa qualquer julgamento quanto às doutrinas em voga dos defensores do totalitarismo, seja “de direita” ou “de esquerda”.  Não tem nada a ver com as afirmações de que as massas são muito estúpidas e ignorantes para identificar o que melhor atende as suas “verdadeiras” necessidades e interesses e de que necessitam muito de um protetor, o governo, a fim de não se prejudicarem a si próprias.  Tampouco procura discernir se há super-homens disponíveis para exercer tal proteção. 

 

2.  A premência de aperfeiçoamento econômico

 

Sob o capitalismo, o homem comum desfruta de vantagens que, em épocas passadas, eram desconhecidas e portanto inacessíveis até mesmo aos mais ricos, Mas, com certeza, automóveis, televisores e geladeiras não fazem o homem feliz.  No momento em que os adquire, ele pode sentir-se mais feliz do que antes.  Porém, à medida que alguns de seus desejos são satisfeitos, surgem novos.  Assim é a natureza humana. 

Poucos norte-americanos estão cientes do fato de que seu país desfruta do mais elevado padrão de vida e de que o modo de viver do norte-americano médio afigura-se como fabuloso e fora do alcance da grande maioria dos povos que habitam países não capitalistas.  A maior parte das pessoas deprecia o que tem e o que pode adquirir e almeja as coisas que lhe são inacessíveis.  Seria inútil lamentar este apetite insaciável por mais e mais bens.  Esta avidez é exatamente o impulso que conduz o homem na direção do aperfeiçoamento econômico. Manter alguém contente com o que já conseguiu ou pode facilmente conseguir, sem interesse por melhorar suas próprias condições materiais, não é uma virtude.  Tal atitude é muito mais um comportamento animal do que a conduta de seres humanos racionais.  A principal característica do homem é de ele nunca desistir de aumentar seu bem-estar através de atividades intencionais. 

Todavia, esses esforços devem ajustar-se ao objetivo.  Devem ser apropriados para surtir os efeitos desejados.  O que há de errado com a maioria de nossos contemporâneos não é o fato de desejarem intensamente um suprimento mais rico de várias mercadorias, mas sim de escolherem meios inadequados para atingir esse objetivo.  São iludidos por falsas ideologias, favorecem políticas que são contrárias aos seus próprios e muito bem compreendidos interesses vitais.  Incapazes de enxergar as inevitáveis consequências alongo prazo de sua conduta, comprazem-se com seus efeitos passageiros, a curto prazo.  Defendem medidas que com certeza resultarão no empobrecimento geral, na desintegração da cooperação social sob o princípio da divisão do trabalho e num retorno à barbárie. 

Existe apenas uma maneira exequível de se melhorar as condições materiais da humanidade: acelerar o crescimento do capital acumulado em oposição ao crescimento da população.  Quanto maior for a soma de capital investido por trabalhador, mais e melhores mercadorias poderão ser produzidas e consumidas.  Isto é o que o capitalismo, o mais injuriado sistema de lucro, realizou e realiza de novo todos os dias.  Não obstante, a maioria dos atuais governos e partidos políticos procura sofregamente destruir este sistema. 

Por que todos eles detestam o capitalismo?  Por que, ao mesmo tempo em que desfrutam do bem-estar que o capitalismo lhes confere, lançam olhares saudosos aos “bons velhos dias” do passado e às condições miseráveis do trabalhador russo de nossos dias? 

 

3.  A sociedade de status e o capitalismo

 

Antes de responder a esta pergunta, é necessário distinguir melhor a característica inconfundível do capitalismo em contraste com a da sociedade de status. 

É muito frequente comparar os empresários e capitalistas da economia de mercado com os aristocratas da sociedade de status.  A base da comparação está na existência, em ambos os grupos, de homens relativamente ricos em contraste com as condições relativamente limitadas dos outros homens.  Contudo, o uso desta metáfora impede que se compreenda a diferença fundamental entre os ricos aristocratas e os ricos “burgueses” ou capitalistas. 

A fortuna de um aristocrata não é um fenômeno do mercado; não se origina do fornecimento aos consumidores e não pode ser diminuída nem mesmo afetada por qualquer ação da parte do público.  Ela provém da conquista ou da liberalidade por parte de um conquistador.  Pode extinguir-se pela revogação por parte do doador ou pela perda violenta por parte de outro conquistador, ou pode ser dissipada por esbanjamento.  O senhor feudal não atende consumidores e está imune aos dissabores da ralé. 

Os empresários e capitalistas devem sua fortuna às pessoas que, enquanto fregueses, sustentam os seus negócios.  Eles a perdem, inevitavelmente, assim que outras pessoas os superam num atendimento aos consumidores de forma melhor e mais barata. 

A finalidade deste ensaio não é descrever as condições históricas que criaram as instituições de casta e statusr a subdivisão das pessoas em grupos hereditários com diferentes camadas, direitos, reivindicações e privilégios ou incapacidades legalmente justificadas.  A única coisa que conta para nós é o fato de a preservação dessas instituições feudais ser incompatível com o sistema do capitalismo.  A abolição dessas instituições e o estabelecimento do princípio de igualdade perante a lei removeram as barreiras que impediam a humanidade de desfrutar de todos os benefícios que o sistema de propriedade privada dos meios de produção bem como de empresa privada torna possível. 

Numa sociedade baseada em camadas, status ou castas, a situação de vida do indivíduo é fixada.  Ele nasce em certa categoria e sua posição na sociedade é rigidamente determinada pelas leis e costumes que designam a cada membro de sua classe privilégios e deveres ou incapacidades definidas.  Excepcionalmente, a boa ou má sorte poderá em casos raros elevar um indivíduo a uma camada superior ou rebaixá-lo a uma inferior.  Porém, via de regra, as condições de cada membro de uma ordem ou camada definida somente poderão melhorar ou piorar com uma mudança nas condições de todos os seus membros.  Fundamentalmente, o indivíduo não é o cidadão de uma nação; ele é membro de um estado (Stand, état) e somente como tal indiretamente integrado no corpo de sua nação.  Ao entrar em contato com um compatriota pertencente a uma outra camada, não se sente em comunhão com ele.  Percebe apenas o abismo que o separa do status da outra pessoa.  Essa diferença refletiu-se na linguística bem como nos usos indumentários.  Sob o ancien regime, os aristocratas europeus falavam, de preferência, francês.  O terceiro estado usava o vernáculo enquanto as camadas inferiores da população urbana e os camponeses apegavam-se aos dialetos locais, jargões e gírias quase sempre incompreensíveis para as pessoas cultas.  As várias camadas vestiam-se de modo diferente. Ninguém deixava de reconhecer a qual camada pertencia até um estranho. 

A principal crítica que os enaltecedores dos bons velhos tempos dirigem contra o princípio de igualdade perante a lei é a de que ele aboliu os privilégios de camada e dignidade.  Segundo eles, tal princípio “atomizou” a sociedade, dissolveu suas subdivisões “orgânicas” em massas “amorfas”.  Essas massas agora dominam, e seu materialismo mesquinho superou os padrões nobres das épocas passadas.  O dinheiro é rei.  Muitas pessoas sem valor desfrutam de riquezas e abundância, ao passo que pessoas de mérito e valor seguem de mãos vazias. 

Esta crítica tacitamente supõe que sob o ancien regime, os aristocratas se distinguiam por sua virtude e que deviam sua posição e rendimentos à superioridade moral e cultural.  Torna-se muito necessário pôr fim a esta fábula.  Sem expressar qualquer julgamento de valor, o historiador não pode deixar de enfatizar que a alta aristocracia dos principais países europeus era descendente dos soldados, cortesãos e cortesãs que, nas lutas religiosas e constitucionais dos séculos XVI e XVII, sabiamente puseram-se do lado dos que permaneceram vitoriosos em seus respectivos países. 

Se, por um lado, os conservadores e os inimigos “progressistas” do capitalismo discordam em relação à avaliação dos antigos padrões, por outro, eles concordam plenamente em condenar os padrões da sociedade capitalista.  A seu ver, quem conquista fortuna e prestígio não são as pessoas de reconhecido valor, mas sim as frívolas e inúteis.  Ambos os grupos parecem desejar a substituição dos métodos manifestamente injustos vigentes sob o capitalismo laissez-faire por métodos mais justos de “distribuição”. 

Ora, nunca se contestou que, no capitalismo sem obstáculos, saem-se melhor aqueles que, do ponto de vista dos padrões de valores eternos, devem ser os preferidos.  O que a democracia capitalista de mercado faz não é premiar as pessoas de acordo com seus “verdadeiros” méritos, valor próprio e dignidade moral.  O que torna um homem mais ou menos próspero não é a avaliação de sua contribuição a partir de um princípio “absoluto” de justiça, mas a avaliação por parte de seus semelhantes, que aplicarão somente o critério de suas necessidades, desejos e objetivos pessoais.  O sistema democrático de mercado é exatamente isto.  Os consumidores são supremos — isto é, soberanos.  Desejam ser satisfeitos. 

Milhões de pessoas gostam de beber Pinkapinka, uma bebida preparada pela multinacional Pinkapinka Company.  Milhões gostam de histórias de detetive, filmes de mistério, jornais que trazem histórias em quadrinhos, touradas, lutas de boxe, uísque, cigarros e gomas de mascar.  Milhões elegem governos ávidos para armar e patrocinar a guerra.  Assim, os empresários que fornecem de forma melhor e mais barata todas as coisas necessárias à satisfação desses desejos tornam-se ricos.  O que conta na estrutura da economia de mercado não são os julgamentos acadêmicos de valor mas as avaliações verdadeiramente manifestadas pelas pessoas ao comprar ou deixar de comprar. 

Para quem reclama da injustiça do sistema de mercado, cabe somente um conselho: se quiser enriquecer, tente satisfazer o público oferecendo-lhe algo mais barato ou de que ele goste mais.  Tente superar a Pinkapinka fabricando uma nova bebida, A igualdade perante a lei lhe dá o poder de desafiar qualquer milionário.  Será — num mercado não sabotado por restrições impostas pelo governo — culpa exclusivamente sua se você não conseguir sobrepujar o rei do chocolate, a estrela de cinema e o campeão de boxe. 

Mas, se você, em vez das riquezas que talvez conseguisse ao escolher o ramo do vestuário ou do boxe profissional, preferir a satisfação obtida ao escrever poemas ou filosofia, está livre para agir assim.  Então, com certeza, você não ganhará tanto dinheiro quanto os que servem a maioria das pessoas.  Porque essa é a lei da democracia econômica de mercado.  Aqueles que satisfazem um número menor de pessoas conseguem menos votos — dinheiro — do que os que satisfazem os desejos de mais pessoas, na caça ao dinheiro, a estrela de cinema supera o filósofo; os fabricantes de Pinkapinka superam o compositor de sinfonias. 

É importante entender que a oportunidade de competir pelas recompensas que a sociedade tem para distribuir é uma instituição social.  Ela não pode remover ou aliviar as desvantagens inatas com as quais a natureza discriminou muitas pessoas.  Não pode alterar o fato de que muitos nascem doentes ou se tornam deficientes no correr da vida.  O equipamento biológico do homem restringe de forma radical o campo em que ele irá agir.  A classe daqueles que têm condições de pensar por si está nitidamente separada da classe dos que não têm essas condições. 

 

4.  O ressentimento da ambição frustrada

 

Podemos agora tentar compreender por que as pessoas detestam o capitalismo. 

Numa sociedade baseada em castas e status, o indivíduo pode atribuir o destino adverso a condições cujo controle lhe escapa.  É escravo porque os poderes sobre-humanos que tudo comandam designaram-lhe essa posição.  Não depende dele, e não há motivos para que se envergonhe de sua sujeição.  Sua mulher não o pode culpar por estar nessa categoria.  Se ela disser: “Por que você não é um duque?  Se fosse um duque, eu seria duquesa”, ele responderá: “Se eu tivesse nascido filho de um duque, jamais me casaria com você, uma escrava, mas sim com a filha de outro duque; se você não é duquesa, é exclusivamente culpa sua; por que você não soube escolher melhor os seus pais?”

No regime capitalista a coisa é outra.  A situação de vida de cada um depende de seus próprios feitos.  Quem não tiver suas ambições plenamente satisfeitas sabe muito bem que deixou escapar as oportunidades, que foi testado e considerado inapto por seus semelhantes.  Se sua mulher o censura: “Por que você recebe apenas oito dólares por semana?  Se fosse esperto como o seu colega Paulo, você seria chefe de seção e eu desfrutaria melhores condições de vida”, ele toma consciência da própria inferioridade e se sente humilhado. 

A tão falada dureza do capitalismo consiste no fato de ele tratar cada um de acordo com a contribuição que este oferece ao bem-estar do seu semelhante.  A força do princípio a cada um de acordo com seus feitos não dá margem a escusar falhas pessoais.  O indivíduo sabe muito bem que existem pessoas iguais a ele que obtiveram sucesso onde ele falhou.  Sabe que muitos daqueles que inveja são pessoas que se fizeram pelo próprio esforço e que partiram do mesmo ponto onde ele começou.  E, muito pior, sabe que os outros também sabem disso. Ele vê nos olhos da mulher e dós filhos a reprovação silenciosa: “Por que você não foi mais esperto?” Ele vê como as pessoas admiram quem obteve mais sucesso do que ele e como contemplam com desprezo ou com piedade o seu fracasso. 

O que faz com que muitos se sintam infelizes no capitalismo é o fato de que este dá a cada um a oportunidade de chegar aos cargos mais cobiçados que, é claro, só serão alcançados por alguns.  Tudo o que o homem consegue ganhar é sempre mera fração do que a sua ambição o impeliu a ganhar.  Existem sempre diante de seus olhos pessoas que venceram onde ele falhou.  Existem companheiros que o sobrepujaram e contra quem ele nutre, no subconsciente, complexos de inferioridade.  Esta é a atitude do vagabundo contra o homem que tem emprego fixo, do operário contra o chefe de seção, do executivo contra o vice-presidente, do vice-presidente contra o presidente da empresa, do homem que ganha 300.000 dólares contra o milionário, e assim por diante.  A confiança em si mesmo e o equilíbrio moral de todos são solapados pelo espetáculo dos que deram provas de maior habilidade e capacidade.  Cada qual está ciente de suas próprias derrotas e deficiências. 

A longa lista de autores alemães que rejeitaram radicalmente as ideias “ocidentais” do Iluminismo e a filosofia social do racionalismo, utilitarismo e do laissez-faire bem como as políticas desenvolvidas por essas escolas de pensamento começa com Justus Möser.  Um dos novos princípios que provocaram a ira de Möser foi a exigência de que a promoção dos oficiais do exército e dos funcionários públicos fosse baseada no mérito e habilidades pessoais, e não na ascendência, linhagem nobre, idade e tempo de serviço do beneficiado.  A vida numa sociedade em que o sucesso dependa exclusivamente do mérito pessoal seria, segundo Möser; simplesmente insuportável.  Tal como é a natureza humana, as pessoas são propensas a superestimar seu próprio valor e méritos.  Se a situação de vida de uma pessoa estiver condicionada por outros fatores além de uma superioridade inerente, quem estiver nos graus inferiores da escala pode aceitar esse resultado e, ciente de seu próprio valor, ainda preservará sua dignidade e autorrespeito.  Mas será diferente se tudo depender apenas do mérito.  Nesse caso, os malsucedidos sentir-se-ão insultados e humilhados.  Surgirão ódio e animosidade contra quem os sobrepujou.[1]

O sistema de preços e de mercado do capitalismo é um tipo de sociedade na qual o mérito e os empreendimentos determinam o sucesso ou a derrota do homem.  Independente do que se pense do preconceito de Möser contra o princípio do mérito, deve-se admitir que ele estava certo ao descrever uma de suas consequências psicológicas.  Ele percebeu os sentimentos daqueles que foram testados e considerados incompetentes. 

No intuito de se consolar e de restaurar sua autoafirmação, a pessoa procura um bode expiatório.  Tenta convencer-se de que falhou mas não por culpa própria.  Acha-se tão brilhante, eficiente e ativa quanto os que a ultrapassam.  Lamentavelmente esta nossa abominável ordem social não recompensa os homens de maior mérito; ela coroa o salafrário desonesto e inescrupuloso, o trapaceiro, o explorador, o “individualista grosseiro”.  O que o fez fracassar foi sua honestidade.  Era decente demais para recorrer aos golpes baixos aos quais seus bem-sucedidos rivais devem a supremacia.  Nas condições do capitalismo, o homem é obrigado a optar por virtude e pobreza ou por imoralidade e riqueza.  Ele, graças a Deus, escolheu a primeira alternativa e desprezou a segunda. 

A busca de um bode expiatório é a atitude das pessoas que vivem sob uma ordem social que trata todos de acordo com sua contribuição para o bem-estar de seus semelhantes e na qual, portanto, cada um é a origem de sua própria sorte, neste tipo de sociedade, cada indivíduo cujas ambições não tenham sido totalmente satisfeitas odeia a sorte de todos os que conseguiram mais êxito.  O tolo libera esses sentimentos através da calúnia e da difamação.  Os mais sofisticados não descambam para a calúnia pessoal.  Sublimam seu ódio numa filosofia, a filosofia do anticapitalismo, a fim de calar a voz interior que lhes diz que, se falharam, é totalmente por culpa própria.  Seu fanatismo ao criticar o capitalismo está exatamente no fato de eles lutarem contra á consciência que têm da falsidade dessa critica. 

O sofrimento causado pela ambição frustrada é peculiar às pessoas que vivem numa sociedade de igualdade perante a lei.  Não é a igualdade perante a lei que provoca isso, mas sim o fato de, numa sociedade desse tipo, a desigualdade dos homens em relação às suas habilidades intelectuais, à sua força de vontade e à sua experiência prática tornar-se visível.  A distância entre o que o homem é e o que realiza, por um lado, e o que, por outro lado, ele pensa de suas próprias habilidades e realizações é impiedosamente revelada.  Sonhar com um mundo mais “justo”, que o trate de acordo com seu “real valor”, é o refúgio de todos que têm falhas de autoconhecimento. 

 

5.  O ressentimento dos intelectuais

 

Geralmente o homem comum não tem ocasião de conviver com pessoas que tenham tido mais êxito do que ele.  Convive com outros homens comuns.  Jamais se encontra, na vida social, com o seu chefe, nunca aprende por experiência própria quão diferentes são um empresário ou um executivo com respeito às habilidades e competência necessárias para um atendimento eficaz dos consumidores.  Sua inveja e consequente ressentimento não estão voltados contra um ser vivo de carne e osso, mas contra pálidas abstrações como “administração”, “capital” e “Wall Street”.  É impossível detestar tais fantasmas, com sentimentos tão amargos quanto se pode ter contra um semelhante a quem se encontre diariamente. 

O mesmo não acontece com as pessoas que, por condições especiais de profissão ou por laços familiares, estão em contato pessoal com os vencedores de recompensas, as quais, segundo elas, por direito, lhes deveriam ter sido outorgadas, nessas pessoas, os sentimentos de ambição frustrada tornam-se particularmente dolorosos pois geram ódio contra seres vivos e concretos.  Detestam o capitalismo porque conferiu a um outro homem a posição que elas gostariam de ter. 

É o que acontece com as pessoas normalmente chamadas de intelectuais.  Tomemos o exemplo dos médicos. A rotina diária e a experiência fazem com que todos eles estejam cientes do fato de que existe uma hierarquia na qual os membros do corpo médico são classificados de acordo com seus méritos e esforços.  Os mais qualificados do que ele, aqueles cujos métodos e descobertas ele deve assimilar e praticar a fim de se manter atualizado, foram seus colegas de faculdade, de estágio no internato, e juntos participam dos congressos de associações médicas.  Encontra-se com eles à cabeceira dos pacientes bem como em reuniões sociais.  Alguns são seus amigos pessoais ou seus conhecidos, e todos se comportam com ele com a maior amabilidade, tratando-o de caro colega.  Estão, porém, muito acima dele na apreciação do público e quase sempre também na importância dos rendimentos.  Eles o sobrepujaram e agora pertencem a uma outra classe de homens. Quando se compara a eles, sente-se humilhado.  Mas deve policiar-se com cuidado a fim de que ninguém perceba seu ressentimento e inveja.  Mesmo a mais leve indicação de tais sentimentos seria considerada como péssimas maneiras e o depreciaria aos olhos de todos.  Deve dominar esse aborrecimento e desviar sua indignação para um outro alvo.  Ele denuncia a organização econômica da sociedade, o abominável sistema capitalista.  Se não fosse esse regime injusto, suas habilidades e talentos, seu zelo e seus feitos lhe teriam proporcionado a alta recompensa que merece. 

O mesmo acontece com muitos advogados e professores, artistas, escritores, jornalistas, arquitetos, cientistas, engenheiros e químicos.  Também eles sentem-se frustrados por serem atormentados pela supremacia de seus colegas mais bem-sucedidos, seus antigos companheiros de escola e amigos íntimos.  O ressentimento torna-se mais agudo justamente por causa dos códigos de conduta e ética profissional que lançam um véu de camaradagem e coleguismo por sobre a realidade da competição. 

Para compreender a aversão que o intelectual tem pelo capitalismo, convém lembrar que, na sua opinião, este sistema é encarnado por um certo número de companheiros cujo êxito ele inveja e a quem responsabiliza pela frustração de suas próprias vastas ambições.  Sua veemente aversão ao capitalismo não passa de simples subterfúgio do ódio que sente pelo sucesso de alguns “colegas”. 

 

6.  A tendência anticapitalista dos intelectuais americanos

 

A tendência anticapitalista dos intelectuais é fenômeno que não se limita a um ou a alguns países.  Mas é mais generalizada e áspera nos Estados Unidos do que nos países europeus.  Para melhor explicar fato tão surpreendente, devemos levar em conta a assim chamada “sociedade” ou, segundo os franceses, Le monde. 

Na Europa, a “sociedade” inclui todos os que se destacam em qualquer esfera de atividade.  Políticos e líderes parlamentares, chefes de entidades públicas, editores e redatores dos principais jornais e revistas, escritores famosos, cientistas, artistas, músicos, engenheiros, advogados e médicos formam, junto com destacados homens de negócios e descendentes de famílias nobres e aristocráticas, o que se convencionou chamar boa sociedade.  Eles se conhecem em jantares e chás, bailes e bazares beneficentes, estreias e lançamentos; frequentam os mesmos restaurantes, hotéis e estâncias.  Quando se encontram, sentem prazer em conversar sobre assuntos intelectuais, um modo de relação social que começou na Itália renascentista, aperfeiçoou-se nos salões parisienses e, mais tarde, foi imitado pela “sociedade” de todas as cidades importantes da Europa ocidental e central.  Novas ideias e ideologias encontram as primeiras reações nessas reuniões sociais antes de influenciarem círculos mais amplos, ninguém pode tratar da história das belas-artes e da literatura do século XIX sem analisar o papel que a “sociedade” desempenhou ao encorajar ou desalentar seus protagonistas. 

O acesso à sociedade europeia está aberto a quem se distingue em algum domínio.  Talvez seja mais fácil para as pessoas de ascendência nobre e com muito dinheiro do que para os plebeus com modestos rendimentos. Mas nem os bens nem os títulos podem dar a um membro desse meio a posição e o prestigio que é a recompensa da grande distinção pessoal.  As estrelas dos salões parisienses não são os milionários mas os membros da Academia Francesa.  Os intelectuais predominam e os outros no mínimo simulam um vivo interesse por assuntos intelectuais. 

Esse significado de sociedade é estranho ao cenário norte-americano.  O que se chama “sociedade” nos Estados Unidos consiste quase exclusivamente nas famílias mais ricas.  Existe pouca relação entre os homens de negócio bem-sucedidos e os autores, artistas e cientistas famosos do país.  Os que constam do rol do Registro Social não se reúnem socialmente com os formadores da opinião pública e com os precursores das ideias que determinarão o futuro da nação.  A maioria das pessoas da alta sociedade não está interessada em livros ou ideias.  Quando se encontram e não jogam cartas, bisbilhotam sobre as pessoas e discutem mais sobre esportes do que sobre assuntos culturais.  Mas mesmo os que não são avessos à leitura consideram os escritores, cientistas e artistas como gente com a qual não desejam conviver.  Há um abismo, quase insuperável, separando a “sociedade” dos intelectuais. 

É possível explicar o aparecimento desta situação historicamente.  Mas tal explicação não altera os fatos.  Não irá remover nem aliviar o ressentimento com que os intelectuais reagem ao desprezo que recebem dos membros da “sociedade”.  Os autores ou cientistas americanos costumam considerar o abastado homem de negócios como um bárbaro, como homem exclusivamente concentrado em ganhar dinheiro.  O professor menospreza os alunos que estão mais interessados no time de futebol da universidade do que no seu rendimento acadêmico. Sente-se insultado ao saber que o técnico esportivo recebe salário superior ao de um eminente professor de filosofia.  Os pesquisadores, que descobrem novos métodos de produção, odeiam os homens de negócio que só estão interessados no valor monetário do seu trabalho de pesquisa.  É muito significativo que um grande número de físicos norte-americanos dedicados à pesquisa sejam simpatizantes do socialismo ou do comunismo.  Como não entendem de economia e percebem que os professores de economia também se opõem ao que eles chamam injuriosamente de sistema de lucro, não é de estranhar que tenham tal atitude. 

Se um grupo de pessoas se segrega do resto da nação, especialmente de seus líderes intelectuais, tal como o faz a alta sociedade norte-americana, é inevitável que se torne alvo de fortes críticas provenientes daqueles que são excluídos desse círculo.  A segregação praticada pelo norte-americano rico faz com que, de certa forma, ele se torne um banido.  Ele pode sentir-se tolamente orgulhoso com sua própria discriminação.  O que não percebe é que a autossegregação o isola e gera animosidades que levam os intelectuais a serem favoráveis às políticas anticapitalistas. 

 

7, O ressentimento dos trabalhadores de “colarinho branco”

 

Além de atingido pelo ódio geral ao capitalismo, comum à maioria das pessoas, o trabalhador de “colarinho branco” se defronta com dois problemas específicos da sua categoria. 

Sentado atrás de uma escrivaninha, anotando palavras e números num papel, ele tende a supervalorizar o significado do seu trabalho.  Como o patrão, ele escreve e lê as coisas que outros colegas anotaram, conversa diretamente ou por telefone com outras pessoas.  Muito vaidoso, imagina-se parte da elite gerencial da empresa e compara suas tarefas com as do chefe, na condição de “trabalhador que usa o cérebro”, olha do alto e com arrogância para o operário que tem as mãos sujas e calejadas.  Torna-se furioso ao saber que muitos desses operários braçais recebem maiores salários e são mais considerados do que ele.  É uma vergonha, pensa ele, que o capitalismo não valorize o trabalho “intelectual” dele, não lhe dê o “verdadeiro” valor, e dê tanta atenção ao simples trabalho pesado dos “incultos”. 

Enquanto acalenta essas ideias atávicas sobre o significado do trabalho num escritório e do trabalho manual, o “colarinho-branco” fecha os olhos para uma avaliação realista da situação, não percebe que seu trabalho como escriturário consiste no desempenho de tarefas rotineiras que requerem apenas um certo treino, enquanto as “mãos” que ele inveja são dos mecânicos e técnicos altamente qualificados que sabem manejar as intricadas máquinas e instrumentos da indústria moderna.  É exatamente essa interpretação errônea do verdadeiro estado de coisas que revela o fraco discernimento e poder de raciocínio do escriturado. 

Por outro lado, esse empregado, como os demais profissionais, sofre com a convivência diária com pessoas que obtiveram mais sucesso do que ele.  Vê alguns companheiros de trabalho que começaram no mesmo nível progredirem na hierarquia da empresa, enquanto ele fica para trás.  Ainda ontem Paulo e ele estavam no mesmo nível.  Hoje, Paulo tem um cargo mais importante e ganha mais.  Ainda assim, ele acha que Paulo, de qualquer ponto de vista, lhe é inferior.  Com certeza, conclui, Paulo deve seu progresso aos golpes baixos e aos artifícios que ajudam a carreira de uma pessoa sob o injusto sistema capitalista, denunciado por todos os livros e jornais, pelos letrados e políticos como fonte de toda desordem e miséria. 

O clássico enunciado das ideias do escriturário e de sua fantasiosa crença de que suas tarefas subalternas são parte da atividade empresarial, semelhantes ao trabalho de seus patrões, encontra-se na descrição que Lenin faz do “controle da produção e da distribuição”, tal como consta no seu ensaio mais popular.  O próprio Lenin e a maioria de seus colegas-conspiradores nunca souberam nada sobre a operação da economia de mercado nem nunca quiseram saber.  Tudo o que sabiam sobre o capitalismo era que Marx o descrevera como o pior de todos os males.  Foram revolucionários profissionais.  Suas únicas fontes de renda eram os fundos do partido alimentados pelas contribuições e subscrições voluntárias e na maior parte das vezes involuntárias — extorquidas — e por “desapropriações” violentas.  Porém, antes de 1917, como exilados na Europa ocidental e central, alguns camaradas exerceram eventualmente trabalhos subalternos de rotina em firmas comerciais, foi a experiência deles — a experiência de escriturários que tinham de preencher formulários e papéis, copiar cartas, inscrever números em livros e arquivar documentos — que forneceu a Lenin toda a informação que ele possuía sobre as atividades empresariais. 

Lenin distingue corretamente, por um lado, o trabalho dos empresários e, por outro, o do “grupo de engenheiros, agrônomos etc., formados cientificamente”.  Estes especialistas e tecnólogos são principalmente executores de ordens.  No capitalismo eles obedecem aos capitalistas; no socialismo, eles obedecerão “aos trabalhadores armados”.  Para Lenin, a função dos capitalistas e empresários é “o controle da produção e distribuição, do trabalho e dos produtos”, na realidade, a tarefa dos empresários e capitalistas é determinar com que finalidade os fatores de produção deverão ser utilizados a fim de servirem da melhor maneira possível às necessidades dos consumidores, isto é, determinar o que deve ser produzido, em que quantidades e com que qualidade.  Porém, não é este o significado que Lenin dá ao termo “controle”.  Na qualidade de marxista, ele não tinha noção dos problemas que a administração das atividades de produção tem de enfrentar sob qualquer sistema de organização social: a inevitável escassez dos fatores de produção, a incerteza das condições futuras, as quais a produção tem de suprir, e a necessidade de selecionar, a partir de uma desconcertante multidão de métodos tecnológicos apropriados à consecução dos objetivos já determinados, aqueles que prejudiquem o menos possível a obtenção de outros fins, isto é, aqueles com os quais o custo da produção é mais baixo, nenhuma alusão a estes assuntos pode ser encontrada nas obras de Marx e Engels.  Tudo o que Lenin pôde aprender sobre negócios — a partir das histórias de seus camaradas que eventualmente trabalharam em escritórios comerciais — era que eles exigiam uma porção de rabiscos, anotações e cálculos.  Por isso, declara que “contabilidade e controle” são as principais coisas necessárias para a organização e o funcionamento correto da sociedade.  Mas “contabilidade e controle”, prossegue ele, já foram “simplificados ao máximo pelo capitalismo, acabando por tornarem-se as operações extraordinariamente simples de vigiar, registrar e emitir recibos, ao alcance de todos os que sabem ler, escrever, e conhecem às quatro operações elementares da aritmética“.[2]

Aí está a filosofia do arquivista em sua glória total. 

 

8.  O ressentimento dos “primos”

 

No mercado não obstruído pela interferência de forças externas, o processo que tende a transferir o controle dos fatores de produção para as mãos das pessoas mais eficientes nunca termina.  Assim que um homem ou uma firma começa a moderar seus esforços no sentido de satisfazer, da melhor maneira possível, as necessidades mais urgentes dos consumidores ainda não devidamente satisfeitas, começa a se dissipar a riqueza acumulada por sucessos anteriores desses mesmos esforços.  Quase sempre essa dispersão da fortuna já tem início no decurso da vida do homem de negócios quando seu ânimo, energia e desenvoltura enfraquecem sob o impacto da idade, cansaço e doença, e quando termina sua habilidade para ajustar a condução dos negócios à estrutura de mercado em contínua mutação.  Frequentemente é a preguiça dos herdeiros que dissipa a herança.  Quando os descendentes lerdos e passivos não afundam na insignificância e, apesar de sua incompetência, permanecem ricos, devem a prosperidade às instituições e medidas políticas que foram ditadas por tendências anticapitalistas.  Retiram-se do mercado, onde não existem meios de preservar as fortunas ganhas, a não ser reconquistando-as a cada dia, na árdua competição com todos, com as firmas já existentes bem como com outras novas que “operam quase sem capital”.  Se compram obrigações do tesouro, ficam nas mãos do governo que promete salvaguardá-los dos riscos do mercado no qual os prejuízos são o castigo da incompetência.[3] Há, porém, famílias em que as excepcionais capacidades necessárias ao sucesso empresarial se propagam por várias gerações.  Um ou dois filhos, ou netos, ou até bisnetos têm capacidade igual ou maior do que seus antepassados.  A riqueza dos avós não é dissipada e cresce cada vez mais. 

Tais casos não são frequentes.  Chamam a atenção não só por serem raros mas também devido ao fato de os homens que sabem aumentar os negócios que herdaram gozarem de duplo prestígio: a estima dedicada aos seus pais e a voltada para eles mesmos.  Alguns “patriarcas”, como são chamados pelas pessoas que ignoram a diferença entre a sociedade de status e a sociedade capitalista, na maioria das vezes conjugam na sua pessoa não só educação, bom gosto e boas-maneiras, mas também aptidão e tenacidade próprias ao homem de negócios mais trabalhador.  E alguns deles pertencem ao grupo de empresários mais ricos do país ou do mundo. 

Convém analisar as condições destes poucos homens riquíssimos das famílias chamadas patriarcais, a fim de explicar um fenômeno que desempenha papel importante na moderna propaganda e trama anticapitalista. 

Mesmo nas famílias afortunadas, as qualidades necessárias à condução bem-sucedida dos negócios não se transmitem a todos os filhos e netos.  Via de regra, apenas um, ou no máximo dois, em cada geração tem os dotes para tal.  Assim, torna-se indispensável para a manutenção da riqueza e dos negócios da família que a condução dos negócios seja confiada a esse, ou a esses, e que os demais membros fiquem reduzidos à posição de meros recebedores de uma quota dos benefícios.  Os métodos adotados para esses acertos variam de país para país, de acordo com as disposições das leis locais e nacionais.  O efeito, porém, é idêntico.  Dividem a família em duas categorias — os que dirigem os negócios e os que não fazem isso. 

A segunda categoria consiste habitualmente em pessoas muito próximas aos indivíduos da primeira categoria que propomos chamar de patrões.  São elas irmãos, primos, sobrinhos dos patrões, ou quase sempre irmãs, cunhadas viúvas, primas, sobrinhas etc.  Propomos chamar os membros dessa segunda categoria de “primos”. 

Os “primos” recebem seus rendimentos da firma ou empresa.  Mas são estranhos à vida de negócios e nada sabem sobre os problemas que o empresário deve enfrentar.  Foram educados em modernas escolas e faculdades, cujo ambiente é marcado por um desprezo arrogante referente ao mecânico enriquecimento. Alguns deles passam o tempo em clubes, boates, apostam e jogam, divertem-se e farreiam, chegando à devassidão.  Outros, amadoristicamente, ocupam-se com pintura, literatura ou outras artes.  Por isso, a maioria é de pessoas desocupadas e inúteis. 

É verdade que existiram e existem exceções, e que os feitos de parte do grupos de “primos” ultrapassam em valor os escândalos provocados pelo comportamento devasso dos playboys e esbanjadores.  Muitos dentre famosos autores, acadêmicos e homens de estado foram “homens sem ocupação”.  Liberados da necessidade de ganhar o sustento através de uma ocupação remunerada e independentes dos favores dos fanáticos, tornaram-se pioneiros de novas ideias.  Outros, carentes de inspiração própria, tornaram-se mecenas de artistas que, sem a ajuda financeira e o apoio recebido, não teriam conseguido realizar o seu trabalho criativo.  O papel que os homens ricos desempenharam na evolução intelectual e política na Inglaterra tem sido salientado por muitos historiadores.  O meio no qual os autores e artistas da França no século XIX viveram e encontraram apoio foiLe monde, a “sociedade”. 

Entretanto, não se trata aqui dos pecados dos playboys nem das virtudes de outros grupos de pessoas ricas.  O ponto que nos interessa é a participação que um grupo especial de “primos” teve na disseminação de doutrinas visando à destruição da economia de mercado. 

Muitos “primos” se consideram prejudicados pelos acertos que regulam sua relação financeira com os patrões e com a empresa da família.  Mesmo que esses acertos tenham sido feitos por decisão do pai ou do avô, ou através de um acordo firmado por eles mesmos, acham que estão recebendo muito pouco e que os patrões recebem demais.  Pouco familiarizados com a natureza da empresa e do mercado, estão convencidos — como Marx — de que o capital automaticamente “gera lucros”, não veem motivo para que os membros da família encarregados da condução dos negócios ganhem mais do que eles.  Totalmente incapazes de apreciar corretamente a significação dos balancetes e dos extratos de lucros e perdas, veem em cada atitude dos patrões uma sinistra tentativa de enganá-los e despojá-los do patrimônio herdado.  Brigam constantemente com eles. 

Não é de admirar que os patrões percam a calma.  Sentem-se orgulhosos do seu sucesso em superar todos os obstáculos que os governos e sindicatos colocam no caminho das grandes empresas.  Estão plenamente cientes de que, se não fosse sua eficiência e zelo, a firma há muito já teria acabado ou a família seria forçada a vendê-la.  Acreditam que os “primos” deveriam reconhecer-lhes os méritos e acham suas queixas simplesmente vergonhosas e sem cabimento. 

A briga familiar entre patrões e “primos” diz respeito apenas aos membros do clã.  Mas assume maior importância quando os “primos”, para irritar os patrões, juntam-se aos anticapitalistas e financiam todo tipo de aventuras “progressistas”.  Os “primos” dispõem-se a apoiar greves até mesmo nas fábricas de onde provêm seus próprios rendimentos.4 É sabido que a maior parte das revistas “progressistas” e dos jornais “progressistas” depende totalmente dos subsídios que eles fornecem.  Esses “primos” sustentam universidades progressistas, colégios e institutos destinados à “pesquisa social” e patrocinam todo tipo de atividades do partido comunista. Na condição de “parlatórios socialistas” e de “tribunas bolchevistas”, desempenham papel importante no “exército proletário” em luta contra o “funesto sistema do capitalismo”. 

 

9.  O comunismo da Broadway e de Hollywood

 

As inúmeras pessoas a quem o capitalismo proporcionou rendimentos confortáveis e lazer vivem à busca de divertimento.  Multidões frequentam os teatros.  Há dinheiro no mundo do espetáculo.  Atores populares e dramaturgos recebem somas compostas de, no mínimo, seis algarismos.  Vivem em verdadeiros palácios com mordomos e piscinas.  É evidente que não passam fome.  Mesmo assim, Hollywood e Broadway, os famosos centros da indústria do espetáculo, são focos de comunismo.  Autores e atores podem ser identificados entre os mais fanáticos defensores do regime soviético. 

Tentou-se explicar esse fenômeno de vários modos.  Há uma ponta de verdade na maioria dessas interpretações.  No entanto, nenhuma leva em conta o principal motivo que conduz os campeões do palco e da tela às fileiras dos revolucionários. 

No capitalismo, o sucesso material depende da apreciação das realizações da pessoa por parte do consumidor, que é soberano.  Quanto a isto não existe diferença entre os serviços prestados por um fabricante e os prestados por um produtor, ator ou dramaturgo.  Contudo, a consciência desta dependência faz com que quem trabalha no mundo do espetáculo fique muito mais preocupado do que quem fornece ao consumidor coisas tangíveis. Os fabricantes de mercadorias palpáveis sabem que seus produtos são comprados por suas propriedades físicas.  Podem ter uma expectativa razoável de que o público continue solicitando esses artigos enquanto nada melhor ou mais barato não lhes for oferecido, pois é improvável que as necessidades satisfeitas por essas mercadorias venham a se alterar num futuro próximo.  A situação do mercado para tais mercadorias pode, de certa forma, ser prevista por empresários inteligentes.  Com um certo grau de confiança, podem adivinhar o futuro. 

Com as diversões é diferente.  As pessoas procuram divertir-se porque estão entediadas.  E nada aborrece tanto as pessoas quanto o divertimento com o qual já estão acostumadas.  A essência da indústria do espetáculo é a variedade.  As pessoas aplaudem mais o que é novo e, por isso mesmo, inesperado e surpreendente.  São extravagantes e volúveis.  Desprezam hoje o que apreciaram ontem.  Um magnata do palco ou da tela deve sempre temer os caprichos do público.  Pode acordar hoje rico e famoso e, no dia seguinte, ser esquecido.  Sabe muito bem que depende totalmente da fantasia e da simpatia de uma multidão sequiosa por distração.  Vive ele ansioso.  Como o arquiteto na peça de Ibsen, teme os desconhecidos que acabam de chegar, os jovens dispostos que o suplantarão na opinião do público. 

É óbvio que nada pode aliviar a ansiedade das pessoas do espetáculo.  Por isso elas se agarram em qualquer ninharia.  O comunismo, pensam alguns, lhes trará a libertação.  Não é um sistema que torna todos felizes?  Não há homens famosos que declaram que todos os males da humanidade são causados pelo capitalismo e que serão eliminados pelo comunismo?  Não são também eles pessoas trabalhadoras, companheiros de todos os outros trabalhadores? 

Pode-se supor que nenhum dos comunistas de Hollywood e da Broadway jamais tenha estudado as obras de qualquer autor socialista e menos ainda uma análise séria da economia de mercado.  Mas é precisamente esse fato que, para estrelas, dançarinas e cantoras, para autores e produtores de comédias, filmes e canções, traz a estranha ilusão de que suas mágoas passadas desaparecerão tão logo os “despojadores” sejam despojados. 

Há quem culpe o capitalismo pela estupidez e grosseria de muitos produtos da indústria do espetáculo.  Não é preciso discutir esse assunto, Mas vale a pena lembrar que nenhum outro meio norte-americano apoiou com mais entusiasmo o comunismo do que as pessoas que trabalham para a produção dessas estúpidas peças e filmes.  Quando um futuro historiador pesquisar os fatos pouco significativos, que Taine tanto apreciava e considerava fontes de estudo, não deve deixar de mencionar o papel que a mais famosa artista do mundo em strip-tease desempenhou no movimento radical norte-americano.  [5]

NOTAS

[1] Möser, No Promotion According to Merit, primeira publicação em 1772. (Justus Mösers Sammtlich Werhe, ed. B. R. Abeken, Berlim, 1842, vol. II, pp. 187-191.)

[2] Cf. Lenin, State and Revolution (Little Lenin Library, n?  14, publicado por International Publishers, New York), pp. 83-84.

[3] Até há pouco tempo, havia na Europa um outro meio de fazer fortuna com segurança contra a inexperiência e extravagância do seu possuidor.  A riqueza adquirida no mercado poderia ser investida em enormes extensões de terra cujas taxas e disposições legais protegiam da competição de estranhos.  Ordens de transmissão por herança na Inglaterra e acordos semelhantes de sucessão existentes no resto da Europa impediam os proprietários de dispor das propriedades em prejuízo dos herdeiros.

 

[4] “Limusines com motoristas uniformizados conduziam senhoras importantes aos piquetes que mantinham, muitas vezes greves contra as empresas que haviam ajudado a pagar as limusines.” Eugene Lyons, 77ie Red Decade, New York, 1941, p. 186. (O grifo é meu).

[5] Cf. Eugene Lyons, .c., p. 293.

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.