A Mentalidade Anticapitalista

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Ludwig von Mises por Bettina Bien Greaves

LUDWIG von MISES nasceu em 29 de setembro de 1881, na cidade austro-húngara de Lemberg (hoje Lvov, na Ucrânia russa).  Seu pai era engenheiro civil, funcionário das estradas de ferro nacionalizadas. 

A carreira de Ludwig von Mises divide-se cronologicamente em três partes.  O primeiro período foi o de antes e durante a Primeira Guerra Mundial, quando ainda jovem terminou o doutorado (1906), iniciou sua carreira e serviu o exército de seu país. 

A seguir vieram os anos entre as duas guerras na Europa, quando trabalhou como consultor econômico do governo austríaco, escreveu muitos livros, lecionou na Universidade de Viena, no Instituto Graduado de Estudos Internacionais em Genebra (Suíça), dirigiu seu próprio curso particular, fundou e administrou um instituto para pesquisa do processo empresarial e participou ativamente em conferências internacionais sobre economia, na condição de valente defensor do mercado livre e da moeda forte. 

O terceiro período foi aquele em que veio para os Estados Unidos.  A invasão da Áustria, pátria de Mises, por Hitler contribuiu para essa importante decisão.  Em resumo, em 1940 o professor Mises iniciou vida nova na América como refugiado da guerra europeia. 

Com quase 60 anos, em terra estranha, Mises começou a desenvolver seu trabalho numa segunda língua, e seu público aumentou consideravelmente quando o autor passou a escrever e à fazer conferências em inglês.  Aos 64 anos, deu início a uma nova carreira na New York University Graduate School of Business Administration, carreira que prosseguiu até os 88 anos. 

Seis de seus principais trabalhos foram escritos em inglês e publicados no país que o adotou quando já havia completado seu 60° aniversário — Bureaucracy, Omnipotent Government, Ação Humana, A Mentalidade Anticapitalista, Theory and History e The Ultimate Foundation of Economic Science.  Ao todo, Mises escreveu 15 livros ou boas monografias e mais de 200 artigos.  Lecionou e fez conferências em treze países.  Através de novas edições e de traduções em doze línguas, suas obras encontram-se à disposição de um número crescente de novos leitores. 

Por muitos anos, Mises foi o principal porta-voz da Escola Austríaca da teoria econômica.  Representantes dessa Escola foram os primeiros a descrever e a reconhecer o pleno significado da utilidade marginal, a teoria do valor subjetivo.  Em rápido resumo, essa teoria investiga todas as atividades econômicas relacionadas aos valores subjetivos (pessoais) de indivíduos atuantes.  Explica os complexos processos de mercado, que resultam na produção de mercadorias e serviços. 

A interpretação do fenômeno de mercado como produto de julgamentos de valor pessoais foi apresentada pela primeira vez há cem anos (1871) pelo “fundador” da Escola Austríaca, Carl Menger.  Era então uma doutrina revolucionária pois tornou obsoletos os ensinamentos da Escola Clássica e demoliu as bases do socialismo marxista. 

A utilidade marginal, teoria do valor subjetivo, que Menger esboçou, foi a chave para a compreensão de todos os fenômenos do valor.  Essa teoria do valor conduz, por exemplo, ao conceito de soberania do consumidor, à tese de que os consumidores dirigem a produção do mercado.  Suas compras ou recusas de compra dão aos produtores as informações que os ajudam a planejar sua produção futura, de modo a suprir os consumidores com as várias coisas de que mais necessitam, de acordo com sua vontade e possibilidade de pagar. 

Mises era 40 anos mais novo do que Menger mas chegou a conhecê-lo pessoalmente, bem como através de seus trabalhos.  Mises se identificou muito com o mais conhecido sucessor austríaco de Menger, Eugen von Böhm-Bawerk.  Depois de ter-se aposentado do cargo de ministro das Finanças (1904), Böhm-Bawerk voltou a lecionar, e Mises então frequentou regularmente seu seminário de graduação, até que foi reconvocado para o serviço militar no início da Primeira Guerra Mundial. 

Os estudos, trabalhos e conferências do professor Mises seguiram de perto a linha do pensamento de Menger/Böhm-Bawerk.  Mises, contudo, foi além dos ensinamentos e teorias deles ao explicar não apenas os difíceis trabalhos interligados da moderna economia de mercado, como também as distorções econômicas que ocorrem quando os governos interferem. 

A popularidade de tais governos intervencionistas, apesar de seus frequentes e dramáticos fracassos, é explicada por Mises como simples consequências dos falsos conceitos econômicos que as pessoas têm. 

Inerente a todos os trabalhos de Mises está a seguinte tese: “São as ideias que fazem a história, e não a história que faz as ideias.” Apenas as ideias com bases sólidas podem conduzir a programas de ação econômicos e políticos que atingirão os resultados desejados.  Ideias que partem de uma lógica defeituosa e de interpretações errôneas da realidade resultarão numa conduta que “não somente deixa de alcançar os objetivos desejados por seus autores e defensores como também cria um estado de coisas que — do ponto de vista das avaliações de seus autores e defensores — é menos desejável do que o estado de coisas anterior”. 

Mises tem pelo menos três grandes ideias originais. 

Ele ultrapassou os outros dois “gigantes” da Escola Austríaca — Menger e Böhm-Bawerk — ao descrever a ciência da economia como parte integrante da totalidade do conhecimento.  Na sua mais importante obra,Ação Humana, ele demonstra que a ciência da economia trata da ação consciente e intencional dos homens. 

A segunda contribuição de Mises foi sua demonstração de que a sociedade socialista, ou sociedade dirigida, por falta de preços de mercado, fica sem orientação que lhe permita o planejamento de uma produção em larga escala.  Os preços de mercado somente se desenvolvem quando as pessoas têm liberdade para adquirir e negociar de forma privada bens próprios — mercadorias, serviços, matéria-prima, mão-de-obra e demais fatores de produção.  Numa sociedade de mercado há um feedback dos consumidores que compram ou deixam de comprar, para os produtores que planejam as produções futuras.  Como resultado das exigências do consumidor, os índices do mercado — os preços — desenvolvem-se, por um lado, entre mercadorias e serviços e, por outro, entre o canal utilizado como meio de troca (moeda).  Esses índices do mercado — preços — fornecem aos produtores e empresários preciosas pistas sobre o que os consumidores provavelmente desejam no futuro. 

Se os produtores são forçados a concordar com um plano central, como acontece na sociedade socialista, não têm a possibilidade de desviar-se desse plano para buscar o lucro, no intuito de melhor atender aos consumidores.  Nesse caso, não existe mercado nem competição para vários fatores de produção e, como resultado, não existem preços de mercado. 

Desta forma, numa sociedade socialista não há meios para que os planejadores determinem os valores relativos e a importância dos vários fatores de produção. 

A terceira grande contribuição de Ludwig von Mises é a sua interpretação dos ciclos econômicos — das explosões e depressões econômicas.  Mises baseou-se na teoria monetária de Carl Menger, que explicava que o dinheiro era apenas um artigo de fácil negociação, que as pessoas achavam útil para fazer trocas, nada mais nada menos do que isso.  Mises também baseou-se na teoria dos juros de Böhm-Bawerk, que explicava que as taxas de juros originaram-se das preferências ocasionais dos indivíduos.  A partir destas teorias, Mises desenvolveu a teoria monetária ou “austríaca” dos ciclos econômicos. 

Mises foi um dos poucos que perceberam o perigo implícito em definir “inflação” como preços mais elevados. Isso supõe que os sindicatos trabalhistas e os homens de negócios, muito mais do que os representantes do governo, são os responsáveis pela “inflação”.  Assim, tal definição faz com que “os controles de preços e salários surjam como solução lógica para os preços mais elevados.  Mas, como demonstra Mises, estes são apenas consequência da emissão de mais dinheiro por parte do governo numa tentativa de obter influência política junto aos eleitores. 

Mises sempre foi um constante e firme crítico de todas as formas de intervenção governamental.  Seu conhecimento dos princípios econômicos permitiu que previsse muitas das terríveis consequências que surpreenderam o mundo durante este século — a desvalorização do marco alemão após a Primeira Grande Guerra, o conflito internacional que surgiu como resultado das políticas e programas nacionalistas decretados por Hitler e por outros governos intervencionistas, a decadência dos padrões monetários manipulados e o novo sistema de Direitos Especiais de Saque. 

Várias e várias vezes os prognósticos de Mises tornaram-se realidade.  Quando jovem, por vezes superestimava a inteligência das pessoas e não conseguia entender como podiam continuar agindo por tanto tempo a partir de um engano econômico.  Mais tarde, veio a compreender que era impossível prever quanto pode durar a fé numa ideia errônea.  Por isso é que seus prognósticos são interpretações qualitativas (e não quantitativas) da forma pela qual os enganos do povo devem, mais cedo ou mais tarde, desaparecer. 

O livre-mercado, como Mises o descreve, é o único sistema realmente viável.  Um livre-mercado não é o sonho inútil de um pensador visionário.  É um sistema econômico plausível e praticável, o único sistema capaz de durar pela eternidade.*

 

* Este artigo foi extraído, com autorização, do trabalho publicado em Human Events, vol. XXXI, n.° 39, de 25-09-197 I.

 

NOTA DA EDIÇÃO AMERICAMA DE 1978: Este artigo foi escrito antes da morte de Ludwig von Mises, que ocorreu em 10 de outubro de 1973, na cidade de Nova York.  “Ao todo, Mises escreveu 25 livros ou boas monografias e mais de 250 artigos.”

 

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.