A participação política sedimenta o sistema

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Desde 2015, passando pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, temos visto um grande envolvimento popular da chamada “nova direita” (que no caso são tanto liberais quanto conservadores). Também há os “anti-esquerda” ou “anti-PT” se envolvendo mais com partidos e movimentos políticos, coisa que a própria esquerda já fazia há muito antes. Porém, seria mesmo o ideal investirmos nosso tempo, esforço ou até dinheiro, nessa luta política?

O resultado das eleições de 2018 confirmaram o que já era esperado. Partido Novo, MBL, PSL, e outros movimentos políticos e partidos de oposição à esquerda tiveram um grande crescimento e apoiadores, e realmente parece ser uma coisa boa a eleição de políticos que supostamente irão ajudar a impedir a aprovação de mais leis ruins (ou mesmo absurdas), e irão propor menos impostos e gastos. Podemos concluir que isso é algo bom, certo?! É um fato que é melhor ter um político que preze pela austeridade, do que um que defenda coletivismos, gastos desnecessários e etc…. Por essa razão intuitivamente concluímos: “Se políticos socialistas são ruins, pois defendem mais impostos e controle estatal, se engajar em política para eleger liberais é a solução”.  Uma conclusão que parece plausível, e por esta razão estamos vendo todo esse engajamento, com MBL se tornando o maior movimento político do país, o NOVO ganhando esse número de filiados e PSL se tornando o segundo maior partido no congresso. Porem eles são uma consequência de algo que já estava acontecendo, e não uma “novidade”, “Nova política” ou a esperança que os brasileiros estavam buscando.

Antes de dizermos o motivo de o investimento na política não ser uma boa estratégia para aqueles que realizam a defesa da liberdade, sejam eles liberais ou libertários, mostraremos primeiro porque não devemos nos iludir com um governo liberal, e apresentá-los aos ciclos políticos. Pois é importante visualizarmos como a alternância de poder acontece, e de onde parte isso.

Bem, é fato que a política funciona em ciclos. Já se perguntaram a razão do Lula ter ganho as eleições em 2002, e depois Bolsonaro em 2018? Qual o motivo dos países nórdicos terem enriquecido e hoje muitos deles estarem com um estado gigantesco e uma social-democracia enorme regendo suas sociedades? Vejam a história do Estados Unidos da América, que outrora foi provavelmente o país mais liberal até aproximadamente 1890, e depois passou a adotar grandes regulações (como por exemplo as que foram usadas contra suas estradas de ferro), a ponto de instituir o FED em 1913. E ao longo das décadas até hoje eles instituíram e ainda têm grandes regulações em saúde como Obamacare, medicare e medicaid, e regulações até para propagandas infantis. O que devemos perceber é que o natural do estado é acumulo de poder e a sua manutenção, e também notaremos que é comum um país enriquecer com liberdade econômica, poucos impostos, e um governo pequeno, mas posteriormente adotarem discursos de distribuição de riquezas, com palavras como “social” ganhando espaço, políticos de esquerda tendo voz e sendo eleitos. Anos depois, quando o socialismo começa a endividar um país, narrativas liberais ganham força de novo.

É importante conseguirmos visualizar nosso próprio exemplo: PT praticamente quebra o país, e vem um governo prometendo austeridade. Paulo Guedes se torna celebridade justamente por ser liberal, promessas para a economia substituem as anteriores promessas para o social que Lula fazia. Na Argentina foi a mesma coisa, e a intensidade em terras irmãs deste fenômeno é ainda maior, já que foi um dos países mais ricos do mundo e atualmente se afunda no socialismo. Então tenham isso em mente:

  1. País enriquece;
  2. Narrativa social ganha espaço;
  3. Populismo cria dívidas;
  4. O liberalismo ganha espaço.

Mas para essas mudanças acontecerem o que acontece antes é um desalinhamento do estado com as pessoas, com muitas começando a sentir que algo está errado (mesmo não sabendo o que está errado, muito menos o que deveria ser o certo), mas é nítido para elas como o governo perdeu o alinhamento com o povo, e o resultado disso são: manifestações, povo pedindo fora Dilma, e abraçando qualquer coisa que seja “Anti-PT”.

Bem, então um governo “Liberal” já era esperado, dado o estado econômico do Brasil e o desalinhamento do povo com o governo (ou chamem de descontentamento). Então vamos organizar os fatos que observamos aqui:

  • As mudanças acontecem quando o povo não está alinhado ou satisfeito com o governo
  • Governos estão em constantes ciclos

Conseguimos identificar que estes ciclos ocorrem para manter o governo alinhado com a população, com o intuito de manter a população “satisfeita” com o governo. O estado, como um sistema complexo, faz isso para se manter funcionando, manter o acumulo de poder, a proteção dos monopólios e controle social. Então se o povo está insatisfeito com o governo, o estado, seja para impedir um afastamento do povo ou mesmo uma revolta, ofertará justamente o que o povo está demandando naquele momento. Assim como no mercado, a praxeologia também está presente na máquina de estado, por que ambos são compostos por pessoas, e pessoas agem, e ação humana se apresenta desta forma, como Mises deduziu. MBL, Partido NOVO e afins nasceram justamente para ofertarem o que antes as pessoas estavam demandando. Justamente por isso Bolsonaro foi eleito, e por esta razão, não faz sentido investir em política. Oferta só existe para atender uma demanda, não se cria demanda a partir da oferta (embora seja comum ler isso em muitos lugares e ainda hajam economistas que acreditem nisso).

Se oferta não faz sentido sem demanda, então investir na oferta não faz sentido. Engajamento político apenas alimenta a narrativa simples do: “Eu não sou PT” (Troque “PT” por “Bolsonaro”, “PDT”, “LIVRES”, e qualquer outro), e outras como: “Eu quero menos impostos; Eu quero coisas públicas, gratuitas e de qualidade”. A verdadeira lógica por trás de menos impostos, a defesa genuína da austeridade, a luta contra leis e regulações que apenas atrapalham o mercado não são debatidas, sequer citadas. Além do debate raso, outra consequência são os chamados “políticos de carreira”, os candidatos que irão justamente defender o que a população quer que eles defendam, e assim buscarem através disso uma carreira perpétua, enquanto o verdadeiro problema não é sequer notado.

A conclusão lógica para os liberais é a baixa eficiência do investimento na política em si, e não no debate social. A consequência disso é ficarem eternamente presos no Ciclo de “direita e esquerda”: nos Estados Unidos, Obama venceu John McCain com um discurso pacífico, mas populista. Ao assumir o cargo instituiu o Obamacare, que gerou desemprego e prejudicou o mercado de planos de saúde. Então, em 2016, Donald Trump vence justamente com um discurso “Anti-Obama” e “Anti-populismo” (focando em seus adversários, principalmente o partido Democrata), e assim chegou ao poder representando a “Alt-Right” (designação usada nos EUA para a “Nova Direita” local), e seu governo apenas vem continuando o que seu antecessor fez, assim como no Brasil acontece do atual presidente não se distanciar muito em termos de gestão do seu antecessor, Michel Temer. A alternância de poder, fato característico da democracia (a forma mais aperfeiçoada e refinada de máquina de estado), só alimenta o mesmo e mantem seu controle econômico e social, com a impressão de moeda, aumento da dívida pública (seja ela “interna” ou “externa”) e manutenção do corporativismo.

 E para os libertários, além do engajamento político não ser eficiente para a busca de melhorias e da derrubada dos governos, é facilitado o alinhamento do estado com as pessoas que deveriam se opor a ele! No segundo mandato de Dilma Rousseff (2015-2016), os movimentos separatistas tiveram força pela primeira vez desde os anos 1930, e após a vitória de Bolsonaro está sendo o período do qual estes estão tão fracos quanto antes da chamada “Crise do PT” (um dos termos informais que costuma-se usar para os últimos anos da Ex-Presidente Dilma no poder), o que demonstra como o alinhamento do social com a política enfraquece o desejo para com à liberdade. Um governo alinhado socialmente é mais forte, a população fica mais conformada e não há melhorias significativas. A única saída que temos é continuar o debate e a busca pela mudança cultural. Observem que o libertarianismo tem sofrido ataques até mesmo do MBL, de políticos e grupos liberais, e isso nada mais é que eles tentando manter o sistema atual.

Por fim, devemos nos lembrar da natureza da alternância política (partidos e movimentos políticos ofertando o que as pessoas estão demandando, ou seja, dizendo o que elas querem ouvir), e como isso acontece exclusivamente para se manter o alinhamento do estado com a população e assim a perpetuação do poder. Logo, liberais na política estão sendo pouco eficientes na sua busca por melhorias através da política, e os libertários dentro da política estão tornando o estado mais eficiente em se manter alinhado com o social, visto que haverá mais pessoas conformadas com a política, e menos pessoas desejosas de liberdade, um mercado livre e autorregulado, e leis baseadas na razão.

 

5 COMENTÁRIOS

  1. A demanda por assistencialismo/intervencionismo numa sociedade livre surge justamente pelo fato das pessoas gostarem de “coisas grátis” além de intensa propaganda e condicionamento por parte da mídia e intelectuais que são direcionados por grupos aristocráticos, sejam políticos ou corporativos, para aumentar o poder dos mesmos e sua arrecadação se aproveitando da ingenuidade das massas. Esse é o motivo para quem perguntou, a única forma de manter uma sociedade livre é apenas com uma consciência moral extrema.

  2. Muito bom!

    Única coisa que ficou faltando no texto foi o autor explicar como surge a demanda por socialismo e populismo em uma sociedade rica e razoavelmente livre. Não é tão óbvio quanto o surgimento da demanda por um pouco mais de liberdade econômica numa sociedade ferrada economicamente por um governo intervencionista…