A revolução não foi televisionada

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Como um jogo de meio tabela sem muita importância mudou a história das transmissões de jogos no Brasil.

Após edição da MP 984/2020 pelo presidente Bolsonaro, o mandante do jogo passa ter exclusividade no direito de imagem da partida, mudando a regra anterior que dividia esse direito com o time visitante. Na prática isso exigia um acordo entre todos os times do campeonato que vendiam em bloco esse direito. Sem essa cartelização cada time agora tem liberdade de negociar sozinho sem precisar de um acordo coletivo.

O primeiro jogo com a nova regra foi do Flamengo contra o Boavista. Transmitido no Brasil pelo Youtube, teve pré jogo para a torcida, patrocínios, narração própria, doações no superchat, e ainda lucrou vendendo o direito de transmissão para o exterior. Isso rendeu ao Flamengo a maior transmissão esportiva do YouTube.

Os argumentos contrários a nova regra foram os mesmos que sempre usam quando se avança no sentido de maior liberdade em qualquer área: “é mais seguro deixar como está; pode ser arriscado”. Argumento infantil, limitado e covarde. A concorrência e a inovação são os motores da prosperidade e ela só é possível quando não há regras burocráticas impedindo o avanço. A liberdade é um jogo de ganha-ganha, ganhou a empresa Flamengo e ganharam os consumidores torcedores que tiveram uma transmissão gratuita feita para agradar o público que torce para o Flamengo.

A Globo nisso tudo

A Globo domina esse mercado engessado há décadas. Anabolizada com bilhões de publicidade estatal, a emissora sempre teve bala na agulha para comprar em bloco o direito de transmissão dos campeonatos. Isso é uma tortura para quem gosta de futebol; A transmissão não é feita para o público torcedor engajado, mas para “todo mundo” sempre muito superficial.

As coisas mudaram para a Globo a partir de 2019 com Bolsonaro. O governo federal parou de injetar bilhões na empresa que desde então vem tentando se reestruturar a nova realidade, reajustando salários e demitindo funcionários.

A emissora vivia em uma bolha de prosperidade, pagava altos salários, contratava artistas da concorrência só para por na geladeira, comprava anos de exclusividade dos eventos esportivos, tudo garantido com dinheiro público das propagandas de Petrobras, Caixa, Banco do Brasil, BNDES, BR distribuidora, Lubrax e etc.

Em troca desses bilhões a emissora se comprometia a ser porta voz da narrativa oficial do estado brasileiro. A globo nunca vai exibir um debate sobre redução do estado, desburocratização ou redução de impostos, pelo contrário, de forma leve a emissora vai propagando a agenda de mais estado e mais controle, como por exemplo a agenda ambientalista. Não por acaso a emissora vive criando narrativas para tentar derrubar apenas o presidente, mas sem criticar a burocracia estatal com a esperança de voltar a ser financiada no futuro.

A medida provisória é mais um golpe para a Globo, a pulverização dos contratos abre espaço para concorrentes pegarem uma fatia do mercado, aumentando a concorrência e elevando o custo da negociação, logo nesse momento que a Globo se vê obrigada a enxugar os custos.

E agora?

Com a nova regra cabe ao mandante do jogo correr atrás. Os times grandes podem negociar com emissoras que paguem mais sem se submeter a um acordo coletivo, os times pequenos podem conseguir espaço na televisão em emissoras menores. Os clubes podem ainda criar o próprio espetáculo com patrocinadores, shows, sorteios, comentaristas que tem mais identificação com a torcida e transmissão via youtube, como fez o Flamengo. Todo mundo ganha com mais liberdade e há uma avenida de oportunidades para ser explorada.

A medida provisória ainda precisa ser aprovada no congresso, mas o sucesso do Flamengo deve dar força ao lobby dos times com deputados e senadores. Como escreveu Etienne de la Boétie em seu discurso sobre a servidão voluntária:

“O bem que nos prometes, já o experimentaste, mas nada sabes do que nós já possuímos; gozas do favor do rei, mas nada sabes da liberdade, do gosto que ela tem, da sua doçura. Se a conhecesses, havias de nos aconselhar a defendê-la, não só com lança e escudo, mas até com unhas e dentes.”

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