Al Capone e a data de validade

0
Tempo estimado de leitura: 4 minutos

Há quase cem anos, duas máfias se uniram para impor mais uma regulação a produtores e consumidores.

Em um certo dia de 1930, uma garotinha de sete anos chamada Dolores se preparava para ir à escola, localizada no bairro de Park Manor, em Chicago. No café-de-manhã, ela comeu panquecas e cereais, e tomou um copo de leite. Enquanto sua mãe Mafalda a levava para a escola, Dolores começou a passar mal. Ela se sentiu fraca, nauseada e com fortes dores abdominais. Preocupada, a mãe a levou para um pronto-socorro, onde Dolores foi diagnosticada com intoxicação alimentar. “Minha nossa, o que será que essa menina comeu?”, perguntou-se a mãe. Em casa, Mafalda notou que o leite estava com um cheiro estranho. “Só pode ter sido esse maldito leite!”, pensou. No dia seguinte, conversando com seu irmão Alphonse, ela comentou o ocorrido. Ele ficou possesso: “Vou dar um jeito nisso!”

Alphonse era ninguém menos do que Al Capone. Naquele momento, ele era uma das pessoas mais poderosas de Chicago e, quiçá, até dos Estados Unidos. Em 1920, o país havia imposto a Lei Seca: a produção, a importação, o transporte e a venda de bebidas alcoólicas haviam sido proibidos. Proibicionismo, além de antiético, não funciona nem do ponto de vista utilitário. Como havia uma grande demanda por bebidas alcoólicas, a diminuição da oferta fez com que seus preços disparassem. Logo, o mercado de bebidas alcoólicas se tornou muito lucrativo e irrestível àqueles dispostos a enfrentar os agentes estatais. Pessoas violentas foram atraídas para o negócio. Uma delas foi justamente Al Capone, que passou a importar bebidas do Canadá e conseguiu controlar o comércio de bebidas em Chicago.

Foi com a Lei Seca que o termo “crime organizado” passou a existir nos Estados Unidos. Com a proibição, os mafiosos tiveram uma oportunidade de ouro. Eles rapidamente se organizaram, protegendo cervejarias e destilarias locais, importando bebidas, subornando policiais para que os deixassem em paz e comprando o apoio de juízes e políticos. O negócio foi de vento em popa. Chefões como Al Capone chegavam a faturar cem milhões de dólares por ano, o que dá mais de um bilhão de dólares em valores de hoje. No começo dos anos 1930, ficou claro para o povo que a proibição não estava funcionando. Um movimento oposicionista crescia em todo o país, alegando que a proibição aumentava a taxa de criminalidade, causava desemprego e impunha valores puritanos à sociedade urbana.

Estava evidente que a Lei Seca cairia logo. Al Capone estava preocupado. Com o fim da proibição, os rendimentos de sua gangue cairiam bastante. Ele precisava de outra fonte de renda para manter seu estilo de vida luxuoso. Além disso, ele estava cansado daquela vida de gângster. Ele já tinha tomado tiro, havia quase sido envenenado com ácido prússico e recebia ameaças constantes de gangues rivais. Certo dia, ele comentou com o irmão: “Quero cair fora, Ralph. Já tenho bastante dinheiro, não preciso mais me arriscar tanto.” Assim, Al Capone resolveu entrar no negócio do leite. Quase todo mundo tomava leite diariamente, a margem de lucro era relativamente alta e a gangue dele já controlava as engarrafadoras de álcool, que poderiam ser facilmente adaptadas para engarrafar leite.

Mas tinha mais. Al Capone também controlava as máquinas capazes de estampar as garrafas com texto. E aí é que a intoxicação alimentar de sua sobrinha Dolores veio bem a calhar. Usando isso como desculpa, ele passou a pressionar os políticos que controlava a aprovarem uma legislação que impusesse a obrigatoriedade da data de validade nas garrafas. Para o público, isso parecia uma genuína preocupação com a saúde das criancinhas. Não era. Na verdade, ele queria apenas criar uma barreira para dificultar a entrada de concorrentes no negócio. A Câmara de Chicago aprovou a legislação. A idéia rapidamente se espalhou para o resto do país e, em seguida, para o mundo. Al Capone foi preso logo depois, mas a obrigatoriedade da data de validade em embalagens continua até hoje.

Eis um caso em que uma máfia menor, a de Al Capone, e uma máfia maior, a estatal, se uniram para impor mais uma regulação aos produtores e aos consumidores. E, como sempre, por trás do discurso da segurança, estavam motivos escusos. Mas e agora? Será que, pelo menos, essa data de validade é confiável? Claro que não. Como tudo que é imposto pelo estado, o único interesse do Leviatã com isso é aumentar a arrecadação. Não há nenhum incentivo para verificar de fato por quanto tempo um item alimentar permanece bom. Em 2010, inclusive, um grupo de gastrônomos recomendou que os donos de mercados ignorassem a data de validade e julgassem os alimentos apenas pela aparência e pelo cheiro. Segundo o grupo, a data de validade que aparece nas embalagens “é praticamente um chute”.

Da maneira como são impostas hoje, essas datas de validade são um problema, porque, além de antiéticas, nos dão uma falsa sensação de segurança. É preferível que não haja nenhuma obrigatoriedade de data de fabricação, data de validade ou qualquer outra coisa similar. Eventualmente, pode haver demandas legítimas dos consumidores por informações desse tipo. Nesse caso, sua inclusão nas embalagens aconteceria naturalmente, sem coerção e sem violar a propriedade privada de ninguém, visto que as empresas estariam competindo entre si para procurar satisfazer seus potenciais consumidores, sem regulações e barreiras de entrada criadas artificialmente. Que mafiosos como Al Capone – ou, pior, como políticos – fiquem bem longe da minha garrafinha de leite!

 

 

Artigo disponível em versão de vídeo narrado pelo autor aqui.