Anarquismo cristão

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Apesar de as diferentes igrejas cristãs estarem (até hoje) organizadas de forma anárquica, tanto na sua organização interna como na sua relação umas com as outras, o seu resultado em termos de fidelidade e influência social não só não diminui, mas também mantém sua proporção, ou mesmo melhora em nível global, que é a área onde as diferentes religiões devem ser comparadas. Dentro delas, qualquer um pode abandonar seu credo sem grandes problemas; até mesmo membros de sua hierarquia, como nos mostra um caso recente na Catalunha. E entre elas, apesar de suas discrepâncias em questões de credo, são frequentes os casos de colaboração e diálogo ecumênico. Também é relativamente fácil, como ilustra o caso norte-americano, o estabelecimento de novas denominações, com maior ou menor sucesso ou duração, algo que, guardadas as devidas proporções, assemelha-se a um mercado dinâmico em que é comum a criação e destruição de novas empresas… Além disso, só parece diminuir naqueles lugares, como a Europa, onde tem sido associada ao poder político, o que parece ter reduzido o seu dinamismo e capacidade de competição. Soma-se a isso o fato de os Estados se apropriarem de muitas de suas funções tradicionais.

É, portanto, surpreendente que, apesar de operar em um ambiente anárquico e dinâmico, e os Estados serem seus principais e mais temíveis competidores (a maioria dos ateus não se torna anarquista, mas delega questões morais e litúrgicas ao Estado, como educação em valores ou uniões matrimoniais), a questão da relação entre o Cristianismo e o Estado não tenha despertado entre os teólogos o interesse de outras questões doutrinárias. A maioria das denominações continua a dar destaque aos seus respectivos estados e, exceto para algumas congregações do tipo anabapatista, elas não têm procurado se desvincular disso. Consequentemente, com as exceções que iremos comentar, uma teologia sistemática não foi desenvolvida em relação a esta questão.

Portanto, é surpreendente que nas últimas décadas alguns teólogos de muitas igrejas cristãs, inclusive a católica, tenham começado a discutir o Estado e agora seja possível falar em anarquismo cristão. Talvez os primeiros a elaborá-lo em sua forma moderna foram Jacques Ellul e Vernard Eller, com dois livros com o mesmo título Anarquia cristã. Ambos citam numerosos precursores no passado, desde os primórdios do Cristianismo. Refletiram sobre o assunto, mas sem uma elaboração sistemática. Esses teóricos viram seu trabalho ter sequência com o de teólogos como John Milbank ou William Cavanaugh (ambos traduzidos na editora do arcebispado de Granada, Nuevo Inicio). Os autores citados, entre tantos outros, foram estudados na melhor obra que existe sobre o assunto, o Christian Anarchy de Alexandre Christoyannopoulos.

Ressalte-se que, exceto por um autor como James Redford, que afirma o anarcocapitalismo de Cristo, a maioria dos autores não entra na questão do capitalismo ou o defende, focando apenas na crítica ao poder do Estado e suas incompatibilidades com um programa de vida cristã. Também relevante é o fato de que esses autores, principalmente Ellul e Eller, concentram suas análises na Bíblia, principalmente no Novo Testamento. E suas análises e referências raramente saem do âmbito teológico, por isso não incorporam contribuições dos âmbitos econômico, político ou sociológico que possam reforçar suas posições. Talvez as exceções sejam duas das já citadas: Cavanaugh, que incorpora reflexões da sociologia histórica ou da história (seu artigo de 2004 Killing for the Telephone Company na revista Modern Theology é especialmente interessante), e Milbank, Teologia e teoria social.

Uma das principais críticas que esses teólogos fazem em relação à moralidade dos atores estatais é que eles violam um dos princípios básicos da ética cristã: a famosa regra de ouro; isto é, não faça aos outros o que você não quer que eles façam a você. De fato, como Rothbard bem assinalou em seu famoso A Anatomia do Estado, os Estados são absolutamente assimétricos em suas relações com os cidadãos. Isto é: O que o Estado faz é uma espécie de bem moral, mas se for recíproco é um crime de lesa majestade.

Vejamos, os Estados podem arrancar rendimentos dos cidadãos com uma espécie de ameaça difusa de violência em caso de resistência, porque entende que esse precisa mais desse dinheiro do que o contribuinte, ou porque estabelece que vai fazer melhor uso dele do que o contribuinte. Mas este comportamento feito ao contrário, um cidadão que necessita urgentemente do dinheiro não pode recorrer a retirá-lo à força do fundo público, nem mesmo tentar recuperar uma parte do dinheiro que ele mesmo contribuiu. Ele seria multado ou preso.

Mas, sobretudo, se referem ao crime violento, isto é, se os chefes de um Estado ordenam o assassinato de inocentes em outros países, numa “guerra preventiva” por exemplo. Isso parece justificar-se pela segurança do próprio Estado, mas se for o contrário, ou seja, um cidadão de um país “libertado” que ataca quem quer que tenha dado essas ordens, isto não só não vai ser tolerado, mas será duramente reprimido.

Não apenas nesta área a assimetria pode ser observada. Podemos ver isso na área fiscal, onde o fisco tem posição predominante, ou como vimos em um artigo anterior, no planejamento urbano. Não parece ser um comportamento muito de acordo com a lei que Cristo nos ensinou.

Autores como Cavanaugh também relativizam o mito da violência religiosa, principalmente em um livro com esse título. A violência tem sido historicamente exercida por poderes temporais, estatais ou pré-estatais, incluindo o papado como um poder terreno, usando a justificativa da religião. Mas isso não significa necessariamente que as organizações religiosas o tenham realizado. Da mesma forma que o capitalismo é responsabilizado por muita violência exercida pelo Estado em seu nome, a religião tem servido de desculpa para iniciar conflitos regidos por motivos menos nobres.

Cavanaugh mostra como em muitos conflitos como a Guerra dos Trinta Anos, paradigma de uma guerra religiosa, as motivações eram puramente políticas e respondiam aos interesses dos governantes da época, como mostra o fato de haver católicos e protestantes em ambas alianças em conflito, e que uma delas até convocou as potências muçulmanas para lutar ao lado dela. Embora seja verdade que existam personagens ligados à religião, como papas, cardeais ou bispos que encorajaram o conflito, eles o fizeram mais em seu papel como governantes temporários do que como líderes religiosos.

Assim como os setores capitalistas hoje estão imbricados no aparato dos Estados e são difíceis de separar, em outras épocas eram os atores religiosos que estavam envolvidos no governo sendo difícil distinguir entre suas funções religiosas e temporárias. Se o capitalismo, como tal, não é responsável pelas guerras que são travadas em seu nome, nem a religião como tal será culpada de tão grande pecado, e aqueles que são responsáveis ​​por iniciá-las o serão.

As análises de anarquistas cristãos, especialmente protestantes como Eller ou Ellul, se concentram muito, demais na minha opinião, na análise das escrituras sagradas, quando também poderiam se concentrar na própria dinâmica organizacional das religiões ou nas formas como estas organizam a vida social na ausência de um monopolista do poder político.

Por exemplo, eles poderiam ter estudado como as igrejas cristãs organizaram sistemas eficazes de proteção aos pobres, instituições educacionais, incluindo universidades, hospitais e até mesmo sistemas de justiça. Também seria interessante se eles tivessem investigado as diferentes maneiras que as comunidades cristãs têm ao longo do tempo resistiram com sucesso ou enfrentaram o poder do Estado, desde as catacumbas até os regimes totalitários de hoje. Mesmo assim, suas análises ainda são interessantes porque nos mostram a grande riqueza de ideias anarquistas que estão presentes na Bíblia e em outros textos sagrados.

Minha favorita são as tentações a Jesus, que são destacadas em pelo menos três dos Evangelhos, especialmente em Mateus (Mateus IV 1-11). Na terceira tentação, o diabo tenta Jesus elevando-o ao topo de uma montanha e mostra-lhe todos os reinos da terra com sua glória e então diz a ele que “Todos esses reinos estão em meu poder e serão seus se     prostrando-te diante de mim, me adorares”. Ou seja, os reinos da terra são propriedade do demônio e obedecem a ele, o que à primeira vista não parece uma forma muito boa de legitimação do poder político, já que está implicitamente reconhecendo seu caráter demoníaco.

Outro exemplo poderia ser uma das famosas armadilhas saduceus em que os críticos de Jesus entre os judeus tentam fazer com que Cristo se contradiga para acusá-lo de impiedade ou de obediência ao poder imperial romano. Mostram-lhe uma moeda e fazem-no escolher entre Deus e César (hoje seria impossível porque o dinheiro são notas) e Cristo escapa muito bem do dilema afirmando a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Mas também podemos observar como Cristo em nenhum momento determina o que corresponde a César. Cristo não elabora nenhuma lista com as funções que deve desempenhar natural ou exclusivamente. Existem muitas outras citações no Antigo e no Novo Testamento. Por exemplo, no livro de Samuel (Samuel 8, 4-22) os israelitas pedem a Deus um rei e Deus os avisa sobre o que vai acontecer com eles e como este vai saquear e dominá-los. Ainda assim eles pedem, mas logo se arrependem, por sua voracidade, e pedem a Deus que os salve de tal figura. Se você deseja consultar James Redford, ele cita quase todas essas passagens.

Mas então os possíveis críticos deste texto recorrerão rapidamente à citar a Epístola de São Paulo aos Romanos (Romanos XIII, 1-7) em que o fundador da Igreja Cristã estabelece a obrigação de obedecer às leis do lugar e seus governantes porque estes foram colocados lá por Deus. Ele até recomenda pagar os impostos devidos e não só obedecer, mas respeitar as autoridades. Toda a teologia do Estado cristão foi construída sobre este texto, e tem sido a orientação dominante da posição da maioria de suas igrejas, com exceção de algumas pequenas seitas.

Deixando de lado a questão de que não faz parte dos evangelhos sinópticos que relatam a vida e os ensinamentos de Jesus Cristo, sendo uma epístola de São Paulo (embora isso não a impeça de fazer parte do cânone bíblico para todos os efeitos), a verdade é que, sem dúvida, está em contradição com o anterior. Não seria novidade, pois na Bíblia são frequentes as divergências entre os diferentes livros que a compõem. Mas é surpreendente que o santo fundador da Igreja altere a história de seu mestre, a menos que seja escrita em uma chave simbólica e não expresse o que à primeira vista parece indicar.

O jovem Karl Barth (que quando um jovem era anarquista, e depois se tornou um social-democrata) parece entendê-lo e numa análise sensata (recolhida nos livros de Ellul e Eller) desmonta com um grande aparato de erudição a interpretação estatista do texto de São Paulo, afirmando que quando se refere ao poder, ele se refere a outras realidades espirituais e não terrenas. Mas, em qualquer caso, os anarquistas cristãos abrem a possibilidade moral de uma sociedade sem o monopólio estatal da violência e com bons argumentos, o que deveria ser parte de qualquer análise séria tanto da questão religiosa quanto da anarquista.

 

 

 

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