As elites erradas

1
Tempo estimado de leitura: 7 minutos

“Para termos uma resposta eficaz que possa fazer frente ao igualitarismo reinante de nossa época, portanto, é necessário, mas não suficiente, demonstrar o absurdo, a natureza anticientífica, a natureza autocontraditória da doutrina igualitária, bem como as consequências desastrosas do programa igualitário. Tudo isso é muito bom. Mas deixa de fora a natureza essencial, bem como a refutação mais eficaz, ao programa igualitário: expô-lo como um disfarce da ânsia por poder da esquerda agora dominante. Como essas elites também são a classe formadora de opinião até então incontestada na sociedade, seu domínio não pode ser desalojado até que seja mostrado ao público oprimido, instintivamente, mas incipientemente oposto a essas elites, a verdadeira natureza das forças cada vez mais odiadas que estão governando sobre eles. Para usar as frases da Nova Esquerda do final dos anos 1960, a elite dominante deve ser ‘desmistificada’, ‘deslegitimada’ e ‘dessantificada’. Nada pode promover sua dessacralização mais do que a percepção pública da verdadeira natureza de seus slogans igualitários”. — Murray N. Rothbard, “Igualitarismo e as Elites

Durante um painel de discussão em um evento recente do Mises Institute, uma palestrante descreveu a universidade da Ivy League de seu filho como “elite”, mesmo lamentando os decretos covid perversos e prejudiciais impostos por sua diretoria. Esses decretos, a propósito, foram amplamente apoiados tanto pelos alunos dessa faculdade em particular quanto por seus pais.

Outro painelista respondeu com “Precisamos de novas elites!” e foi aplaudido pela plateia.

Isso é dolorosamente verdade. Precisamos desesperadamente de novas e melhores elites, porque a classe politicamente conectada do país passou os últimos cem anos arruinando a educação, medicina, diplomacia (paz), moeda, bancos, grandes negócios, literatura, arte e entretenimento, só pra começar. E, no entanto, eles têm a temeridade de atacar as inevitáveis ​​reações populistas aos seus próprios fracassos lúgubres!

O primeiro passo neste processo é retirar nossa sanção às elites existentes quando e onde pudermos. Isso pode ser tão fácil quanto desligar a CNN ou tão difícil quanto não enviar uma criança para buscar o prestígio decadente de um diploma das principais universidades. Mas temos que virar as costas para eles. Temos que derrubar os incentivos e instituições que tornam possível seu imerecido status de elite.

Imerecido neste contexto significa ser um status oriundo de conexões com o estado. Essa característica mais do que qualquer outra marca as elites “antinaturais” de hoje, com as quais queremos dizer elites que devem seu status em grande parte às conexões do governo e não ao mérito. Pode ser difícil identificar em alguns casos: algumas elites, como Jeff Bezos, tiveram um desempenho brilhante no mercado, mas também mantêm laços profundos com o pior do superestado americano. A Amazon vende serviços em nuvem para uma série de agências federais criminosas, e o próprio Bezos é proprietário exclusivo de um órgão da CIA, o Washington Post.

Diz-se que os oligarcas russos, muito presentes nos noticiários hoje em dia, se enquadram nessa categoria de elites não naturais e indignas. Embora a definição do dicionário de “oligarca” seja direta – um membro de uma elite controladora com poder político quase absoluto – o uso atual é mais amplo. Passou a significar “bilionário estrangeiro que ganhou dinheiro de maneiras profanas” e, como tal, presumivelmente se aplica a Vladimir Putin e seus supostos bilhões em ativos acumulados com um salário modesto. Mas muitos russos obtiveram poder e riqueza por meio de conexões estreitas com a antiga União Soviética, comprando ativos estatais a baixo custo durante o clientelismo do início dos anos 1990. Todos terão seus bens confiscados agora, como Roman Abramovich e suas ações do Chelsea Football Club em Londres? Que lei justifica isso, que tribunal emite tal ordem e que agência policial executa a apreensão? Essas perguntas triviais sobre o “estado de direito” não são feitas nem respondidas; estamos em guerra com Putin!

Mas as elites dos EUA também não são oligarcas? Quando consideramos o nexo do poder estatal e corporativo, encontramos muitos exemplos americanos além dos Bezos mencionados acima. O professor da Universidade de Nova York, Michael Rectenwald, cunhou o termo “governamentalidades” para descrever empresas de capital aberto, como Google e Amazon, que estão tão intimamente conectadas com o estado federal que se tornam representantes para atuar como agentes do estado. Quando consideramos o alcance desse nexo, quantas elites americanas realmente merecem seu status?

Considere Elon Musk, que recentemente vendeu parte de suas ações da Tesla e comprou uma participação de 9% no Twitter, ganhando assim uma vaga no conselho. Sua riqueza deriva em parte de seus esforços claramente meritórios na construção e venda do PayPal; sua perspicácia nos negócios em investir os recursos do PayPal; e seus esforços visionários e incansáveis ​​construindo tanto a Tesla quanto a SpaceX privada. Certamente um homem de sua inteligência e ímpeto empreendedor seria uma elite natural e digna?

Bem, pode ser. Pelo menos parte de sua riqueza em ações da Tesla se deve a subsídios governamentais que ajudam a criar um mercado para seus EVs, e a SpaceX negocia diretamente com a NASA. Talvez Musk não tenha pedido esses subsídios e seria bastante rico e bem-sucedido sem eles – mas eles obscurecem a questão.

Os Obamas são oligarcas? Afinal, seu patrimônio líquido de US$70 milhões deriva inteiramente de seu tempo na Casa Branca. Que tal George W. Bush e seus US$40 milhões, considerando como ele herdou dinheiro e depois vendeu sua empresa de petróleo e gás para uma empresa de propriedade de George Soros? Considere Joe Biden, cujo patrimônio líquido disparou de menos de US$30.000(!) em 2009 para quase US$10 milhões hoje. Ele literalmente não tem um emprego de verdade desde 1970! Certamente ele é um oligarca, no sentido de riqueza e poder imerecidos?

E quanto a Stacey Abrams, a ex-candidata a governador da Geórgia que declarou um patrimônio líquido de US$109.000 em 2018, mas agora divulga um patrimônio líquido de US$3,17 milhões? O que ela construiu ou criou? Ela é uma oligarca, com riqueza imerecida e status devido apenas à política? Que tal Anderson Cooper, da CNN, nascido no seio da riqueza de Vanderbilt e escolas de elite (sem mencionar o estágio obrigatório na CIA) e depois ganhou um programa de destaque em uma grande estação de TV a cabo? Ele é de alguma forma merecedor de seu status?

Oligarcas russos, políticos americanos e bilionários ligados ao Estado são todos farinha do mesmo saco: eles não ganharam, ou ganharam totalmente, sua riqueza e posição na sociedade. Mas devemos esperar isso. O governo das elites, pelo menos até certo ponto, é de fato inevitável. Toda sociedade, ao longo do tempo e em todo lugar, manifesta isso. A democracia não o resolve ou muda, mas apenas transfere o status do mérito para a política. A democracia simplesmente cria elites diferentes – piores – na forma de uma classe gerencial e burocrática permanente que não reflete o consentimento dos governados mais do que Putin representa a vontade de todos os russos.

A liberdade política e econômica tem a ver com a liberdade e a prosperidade que as pessoas comuns desfrutam em qualquer sociedade. É a medida de saber se as elites são naturais ou não naturais, merecedoras ou não. Nos países mais pobres e corruptos, as elites engordam suas próprias contas bancárias suíças enquanto drenam parasitariamente os cidadãos de seus escassos recursos. Nos países mais ricos e menos corruptos, as elites agem com muito mais benevolência (por exemplo, o príncipe Hans-Adam II em Liechtenstein). A maioria dos países do Ocidente hoje está em algum lugar no meio. Mas a crise covid nos mostrou que mais uma vez a situação está piorando.

O que precisamos não é eliminar as elites, mas criar outras melhores.

Em seu ensaio “As elites naturais, os intelectuais, e o estado”, Hans-Hermann Hoppe descreve como os estados modernos usurpam o papel de indivíduos dignos na sociedade que possuem autoridade natural:

    Tal teoria foi apresentada por Bertrand de Jouvenel. De acordo com sua visão, o estado é o fruto do crescimento das elites naturais: o resultado natural de transações voluntárias entre donos de propriedade privada é algo não-igualitário, hierárquico e elitista. Em todas as sociedades, alguns poucos indivíduos adquirem o status de elite através do talento. Devido às suas conquistas superiores em termos de riqueza, sabedoria e bravura, esses indivíduos ganham o reconhecimento de autoridade natural, e suas opiniões e julgamentos passam a gozar de vasto respeito. Além disso, devido ao acasalamento seletivo, o matrimônio, e às leis da herança civil e genética, as posições de autoridade natural estão fadadas a serem passadas para os herdeiros seguintes de poucas e nobres famílias, que assim mantêm sua tradição. É para os chefes dessas famílias, que têm longos e firmados históricos de conquistas supremas, sagacidade e conduta pessoal exemplar, que os homens comuns levam suas queixas e conflitos contra outros homens. Esses líderes das elites naturais agem como juízes e pacificadores, frequentemente sem cobrar nada por esse serviço, seja porque ele é considerado como uma obrigação de uma pessoa munida de autoridade, seja pela preocupação de a justiça civil estar sendo tratada como um “bem público” produzido privadamente.

O pequeno, porém decisivo passo para haver a transição para um estado consiste precisamente na monopolização da função de juiz e pacificador. Isso ocorreu quando um único membro da voluntariamente reconhecida elite natural foi capaz de conseguir, não obstante a oposição dos outros membros da elite, que todos os conflitos dentro de um território especificado fossem trazidos para ele. Assim, as partes conflitantes não mais podiam escolher algum outro juiz ou pacificador.

Como identificamos “boas” elites, líderes sábios que agirão e guiarão o mundo de maneira benevolente? Líderes que se preocupam com civilização, propriedade, prosperidade, paz, justiça, imparcialidade, conservação e caridade? Começamos dando as costas à política, mídia, academia e cultura popular e olhando para os exemplos do mundo real ao nosso redor. Em nossa família, trabalho, círculos sociais e comunidades locais estão os homens e mulheres que podem substituir nossos senhores nada naturais. Homens e mulheres que entendem a desigualdade e as diferenças humanas como o ponto de partida inevitável da sociedade humana, que na visão de Ludwig von Mises permite a “colaboração dos mais talentosos, mais capazes e mais trabalhadores com os menos talentosos, menos capazes e menos trabalhadores”, o que “resulta em benefícios para ambos”.

Este, então, é o atrito igualitário. Progressistas de todos os matizes políticos se opõem à ideia de elites naturais não por causa de seu alegado igualitarismo ou antipatia por hierarquias: eles se opõem à ideia porque ela contempla uma hierarquia não estabelecida por eles. Uma elite natural também significa que inteligência, habilidade, atratividade, carisma, sabedoria, discrição e confiança silenciosa – todos distribuídos de forma muito desigual na natureza – tornam-se as características daqueles que têm maior influência na sociedade.

Praticamente não há esperança ou redenção no governo. E não precisamos de elites para governança; os mercados desempenham essa função muito melhor e muito mais democraticamente. Nosso foco deve ser nas instituições intermediárias da sociedade civil, salvando aquelas que podem ser salvas e construindo novas onde o dano é muito grande. Começamos esse processo com elites reais, os verdadeiros “adultos no recinto”. Precisamos desesperadamente dessacralizar a safra atual e substituí-la por pessoas muito melhores e mais nobres.

 

 

Artigo original aqui

1 COMENTÁRIO

  1. “A Amazon vende serviços em nuvem para uma série de agências federais criminosas”

    O liberaleco do estado mínimo da Faria Lima é paga pau de qualquer empresário globalista, os homens de negócios randianos. Muita leitura do chatíssimo e mal humorado “A revolta de Atlas”. Mas fica difícil não acreditar que o monopólio das grandes empresas depende exclusivamente do olho do dono. É impossível se tornar um gigante financeiro sem uma cooperação próxima com a máfia estatal. Seria negar toda a teoria austro-libertária. Eu não sabia que a Amazon era fornecedora da máfia estatal nesta escala de horrores. Mas inocente eu sei que a Amazon não pode ser depois de ver uma foto do Bezos com o Macron no palácio do governo.

    O liberal que aceita o estado como uma instituição moral pode tranquilamente argumentar que vender um produto para o estado não é um crime, pois estaria dentro da lei, da constituição e todas essas idiotices estatistas. Mas eu não vejo diferença entre a Amazon vendendo para o governo americano e a IBM vendendo para a Alemanha Nazista. Somente os libertários podem condenar estas empresas em ambos os casos, utilizando a ética da propriedade privada. Ou seja, o que dizem os libertários vale para todos os casos do passado, presente e futuro, seja aqui ou em outro mundo. Qualquer outra escola de pensamento é política, ou seja, irá condenar ou não estes atos crimininosos de acordo com sua agenda de poder.

    Outro excelente artigo.