Banco Central = injustiça social

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A mensagem unânime disseminada pelos políticos, banqueiros e economistas “mainstream” diz que os bancos centrais existem para o “bem maior”. Eles fornecem à economia dinheiro e crédito suficientes, e eles lutam contra a inflação, deste modo estimulando o aumento do emprego e da produção. Além do mais, os bancos centrais supostamente têm a capacidade de evitar ou ao menos mitigar crises econômicas e financeiras.  No entanto, infelizmente, nada poderia ser mais falso do que isso.

Por toda a história, bancos centrais foram criados, antes de mais nada, para encher os cofres do governo. Para aumentar os meios financeiros do rei ou dos governantes eleitos através de um esquema inflacionário – geralmente muito sofisticado e muito insidioso para a maioria das pessoas compreender. Bancos centrais são decisivos para colocar o governante – ou a classe dominante – em uma posição em que possam saquear o povo em grande escala e, através da redistribuição da pilhagem, tornar um crescente número de pessoas financeiramente e socialmente dependentes.

Para esta finalidade foi atribuído aos bancos centrais o monopólio da produção da moeda. Isto possibilitou substituir commodities, ou “moeda natural” por papel sem lastro ou moeda fiduciária. Bancos centrais fornecem aos bancos comerciais dinheiro fiduciário do banco central, e bancos comerciais são livres para multiplicar este dinheiro fiduciário do banco central. Isto é o que os especialistas monetários normalmente chamam de “sistema bancário de reserva fracionária”, que é um genuíno esquema inflacionário.

Murray N. Rothbard fala inclusive sobre um cartel entre o banco central e os bancos comerciais. Na prática, o banco central age como um agente cartelizador: “para cartelizar os bancos comerciais privados, e para ajuda-los a inflacionar a moeda e o crédito juntos, injetando reservas nos bancos, e os resgatando se eles tiverem problemas.”[1] O cartel da moeda fiduciária, formado entre o banco central e os bancos comerciais, possui profundas consequências sócio-políticas e econômicas.

Por exemplo, a moeda fiduciária é inflacionária no sentido de que ela perde seu valor de compra ao longo do tempo; ela não pode servir, e não serve como uma muito necessária reserva de valor para os poupadores. Além disso, a emissão de moeda fiduciária dá início a uma ascensão artificial (boom), que, no entanto, deve cedo ou tarde se inverter para um declínio (bust). Mais ainda, a moeda fiduciária faz com que os consumidores, empresas e governos contraiam cada vez mais débitos, colocando-os em uma situação de superendividamento.

Existe mais um problema sério com a moeda fiduciária dos bancos centrais: Ela afeta a distribuição de renda e riqueza, e faz isso de uma maneira contrária ao livre mercado e a meritocracia. Para entender isso temos que considerar que se e quando a quantidade de moeda aumenta em uma economia, os preços de diferentes bens serão afetados em diferentes momentos e em diferentes graus.[2] Em outras palavras: Um aumento na quantidade de dinheiro altera – necessariamente – a renda relativa e a posição financeira das pessoas.

Os primeiros recebedores do novo dinheiro serão os beneficiados, pois eles podem comprar bens a preços que ainda não mudaram com seu dinheiro fresco. Ao passo que o novo dinheiro é passado de mão em mão, os preços sobem. Os últimos recebedores ficam em uma desvantagem: Eles só podem comprar bens a preços elevados com seu dinheiro. Em outras palavras: Os primeiros recebedores do novo dinheiro ficam (mais) ricos, e os últimos recebedores ficam (mais) pobres. Não é preciso dizer que os que não recebem nenhuma parte do novo dinheiro ficarão em situação pior.

Na crise de 2008/2009, por exemplo, foram as indústrias bancárias e financeiras (“Wall Street”) que foram resgatadas primeiro. Bancos centrais criaram novos balanços financeiros, injetaram eles nos balanços dos bancos e ofereceram a eles generosamente com custos de refinanciamento extremamente baixos. Nos EUA, por exemplo, o balanço do cartel bancário é agora muito maior do que era antes do estouro da crise. O cartel bancário geriu muito bem a crise que ele ajudou a criar ao emitir moeda fiduciária.

É ilusório pensar que um aumento na quantidade de dinheiro seria “neutro” pois deixaria a renda e a posição financeira das pessoas intacta. No atual regime de moeda fiduciária, o aumento incessante do fornecimento de dinheiro fiduciário feito pelo cartel bancário não apenas aumenta o preço dos bens de consumo. Ele também aumenta o preço dos ativos como ações, imóveis e habitação. Os detentores de ativos cujo valor aumenta devido a inflação se beneficiam, os detentores de balaços financeiros perdem: O poder de compra deste último é diminuído.

É difícil determinar exatamente quem é um ganhador líquido, e quem é um perdedor líquido do esquema inflacionário do cartel bancário. Porém, em princípio, os detentores de moeda fiduciária sofrem as consequências – especialmente se bancos centrais fixam taxas de juros a níveis negativos em termos de ajustamento com a inflação; a renda de assalariados fica abaixo da renda dos detentores de ativos cujos preços inflacionam, Os que recebem crédito dos bancos estão entre os primeiros recebedores do recém criado dinheiro e, portanto, se beneficiam enquanto os que não recebem crédito dos bancos fazem parte dos perdedores.

Aqueles intimamente ligados ao estado, que é financiado por vastas somas de crédito fornecido pelo cartel bancário sob condições favoráveis, gozam de segurança no emprego e aposentadorias confortáveis. Empresas conseguem negócios lucrativos com o governo. Particularmente, a indústria de bancos de investimento e comerciais, com seu acesso privilegiado ao crédito do banco central embolsam enormes lucros e pagam salários totalmente obscenos.

Seria um erro argumentar que o esquema de moeda fiduciária do cartel bancário existe para o bem maior. Ele beneficia alguns – normalmente poucos – à custa de outros – normalmente muitos. Então não é surpresa que um crescente número de pessoas tem levantado a questão: O cartel bancário piora a desigualdade? Claro, desigualdade de renda e riqueza possui várias causas, e quanto mais as pessoas forem desiguais em termos de criatividade, responsabilidade, talento e perseverança, renda e riqueza serão desigualmente distribuídas.

No entanto, o pensamento econômico consistente revela que o cartel bancário contribui com a desigualdade de renda e riqueza, até para um aumento da diferença entre os ganhadores líquidos e os perdedores líquidos do esquema de moeda fiduciária. Este tipo de desigualdade não pode ser justificado convincentemente por considerações econômicas ou éticas – pois isto é o resultado direto do monopólio estatal da produção da moeda, e grupos de interesse especiais tiram vantagens do monopólio estatal de produção de moeda servindo seus propósitos.

A resistência do público contra as manobras de bastidores do cartel bancário tem se mantido sob controle até o presente, presumivelmente porque as pessoas têm desfrutado de um aumento nos rendimentos reais no decorrer das últimas décadas. O que elas não veem é o contrafactual: O cartel bancário tem mantido a renda e riqueza da maioria das pessoas abaixo do potencial; elas poderiam estar em situação melhor, mas o cartel bancário impediu. Esta declaração abre a porta para um contra-argumento: Sem o cartel bancário e seu esquema de moeda fiduciária, não teria havido nenhum crescimento econômico.

Isto, porém, representa talvez um dos erros mais absurdos da teoria monetária “mainstream”. Explicando, o dinheiro – o meio de pagamento definitivo – só é útil pelo seu valor de troca. Um aumento em sua quantidade não confere nenhum benefício social; a economia não melhora se a quantidade de dinheiro aumenta. Como já dito antes, um aumento do fornecimento de moeda só beneficia alguns à custa de outros. É um meio de despojar sorrateiramente o desinformado de seus recursos, transferindo-os para os cofres dos informados.

Resta uma questão: Um aumento na quantidade de dinheiro não induz mais atividade econômica? Esta questão implica em uma proposição que não possui fundamento na teoria econômica consistente. É no máximo uma promessa sedutora. Pois pode-se argumentar logicamente que não há, e não pode haver, nenhuma relação constante entre fatores externos (como uma mudança na quantidade de dinheiro) e a ação humana (como, por exemplo, investir ou produzir); a hipótese “aumento na quantidade de dinheiro induz crescimento” é, portanto, insustentável logicamente.[3]

Portanto, infelizmente, este artigo termina com um insight desagradável: O pensamento econômico consistente conclui que o esquema de moeda fiduciária – representado e mantido pelo cartel bancário – contribui, necessariamente, com a desigualdade de renda e riqueza na sociedade.[4] É uma forma de ampliar a diferença ente ricos e pobres. Sob todos os aspectos, a moeda fiduciária deve ser considerada socialmente injusta. O mesmo se aplica ao conluio entre bancos centrais e bancos privados.

Então o que pode ser feito? A solução é evidente: Estabelecer um livre mercado na moeda, desativar os bancos centrais, desmantelar o cartel bancário. Como Murray Rothbard diz: “Abolir o Sistema de Reserva Fracionada e retornar ao padrão ouro, a um sistema monetário onde um metal produzido no mercado, como o ouro, serve como moeda padrão, e não notas de papel impressas pelo Banco Central”.[5] Talvez o debate sobre a crescente desigualdade ajude a reabilitar nosso sistema monetário – algo que os ensinamentos econômicos não conseguiram fazer até hoje.

 

Tradução de Fernando Chiocca

Artigo original aqui.

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NOTAS

[1] Rothbard, M. N. (1994), The Case Against The Fed, p. 145.

[2] Para uma explicação detalhada veja Mises, L. v. (1981), Theory of Money and Credit, esp. p. 160 – 168.

[3] Neste contexto veja Mises, L. v. (1957), Theory and History, pp. 3 – 4, pp. 9 – 12.

[4] É preciso notar que mesmo sob um regime de moeda commodity (no qual, por exemplo, ouro e prata servem como moeda) um aumento na quantidade de moeda possui consequências distributivas. No entanto, conforme a quantidade de moeda commodity não pode ser aumentada de acordo com a vontade política e fica sujeito aos custos de produção baseados no mercado, as consequências distributivas em um regime de moeda commodity podem ser muito menos significativas do que as de um regime de moeda fiduciária.

[5] Rothbard (1994), The Case Against The Fed, p. 146.

2 COMENTÁRIOS

  1. Por isso que qualquer pseudobanqueiro, é contra moedas descentralizadas.

    Depois há liberteens que defendem bancos privados no Brasil. Justo num sistema de moeda fiduciária.

    Há socialistas fabianos que defendem uma maior democratização do crédito. Justo o crédito que é debitado pela inflação.

    Depois há comunas sonhando com congelamento compulsório de preços. Não existe remédio mais eficiente para emagrecer.

    Deus que nos livre de todo esse mal!