Marx Vs Proudhon – Como prevaleceu o que havia de pior na Esquerda

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[Este artigo foi extraído do capítulo 9 do livro Leftism: From de Sade and Marx to Hitler and Marcuse]

O fourierismo na França foi ofuscado pelo surgimento de um homem com uma mente socialista muito mais clara e profunda que por sua vez, infelizmente para nós, foi suplantado por Karl Marx – Pierre Joseph Proudhon, que como Fourier era oriundo de Besançon. O pai de Fourier era um lojista com algumas posses. Enquanto que o pai de Proudhon vinha de um ambiente “proletário”. Não obstante, Pierre Joseph conseguiu obter uma boa educação em um collège onde aprendeu latim e grego e posteriormente hebraico. Ele logo perdeu sua Fé, sendo influenciado por ideias socialistas, mas se revoltou contra as especulações e profecias malucas de Fourier e seu discípulo Considérant, os quais ele atacou em panfletos. Ele se tornou o primeiro pensador socialista metódico e científico, porém, ao contrário de seu feroz oponente, Karl Marx, sempre manteve – mesmo em seu “ateísmo” – uma certa perspectiva humana e metafísica. Ele era, de certo modo, um ateu atormentado por dúvidas, e na parte final de sua vida ele lutou ferozmente contra o fanatismo dos inimigos das religiões. Seu socialismo era “distributivista” ao invés de coletivista; a palavra chave de seu pensamento econômico é “mutualismo”. Ele era completamente contra o liberalismo econômico porque ele temia a grandeza, a concentração de riqueza, empresas colossais, porém ele era igualmente inimigo do estado centralizado onipotente que figura como a base fundamental em todo pensamento esquerdista.

Nos numerosos livros e panfletos de Proudhon encontramos noções e ideias que qualquer verdadeiro defensor da liberdade ou qualquer conservador poderia subscrever, mas que realmente são parte integrante do “arsenal” do pensamento direitista. Ele verdadeiramente pertencia àquela não muito rara categoria de teóricos que, se tivesse os contatos certos, os amigos certos e o ambiente certo, poderia ter superado o magnetismo da esquerda.

Em seu Confessions of a Revolutionary Proudhon diz que “é surpreendente observar o quão frequentemente temos nossas questões políticas complicadas pela teologia”[1] e de fato ele nunca se divorciou completamente de uma perspectiva teológica. Ele sempre permaneceu um antiestatista íntegro e naturalmente um antidemocrata convicto. É significativo que um dos principais teólogos católicos contemporâneos, Henri de Lubac S. J., dedicou um estudo profundo a ele: Proudhon et le christianisme. Constantin Frantz, o grande conservador alemão, não conseguiu esconder sua admiração por Proudhon, porém lamentou que ele tenha que ter citado um “radical francês” porque a Alemanha, o país clássico dos pensadores, havia se tornado intelectualmente estéril. Proudhon, no entanto, continuou convicto de que a França era a nação da “mediocridade dourada”.

Deixe-me apenas citar algumas passagens para ao menos dar uma vaga ideia da parte do pensamento de Proudhon que estava fadada ao conflito com a perspectiva socialista posterior que era ditatorial, centralizadora e “democrática”.

“A Revolução de Fevereiro substituiu o sistema de voto por “classes”[2]: o puritanismo democrático ainda não estava satisfeito. Alguns queriam que o voto fosse dado as crianças e mulheres. Outros protestaram contra a exclusão dos inadimplentes, infratores libertados e prisioneiros. Não dá para entender como não demandaram a inclusão de cavalos e burros.”

“A democracia é a ideia do estado sem limitações.”

“Dinheiro, dinheiro, sempre dinheiro – esta é a cruz (le nerf) da democracia.”

“Democracia não é nada além da tirania das maiorias, a tirania mais execrável de todas porque ela não se baseia nem na autoridade de uma religião, nem na nobreza da raça e nem nas prerrogativas dos dons ou da propriedade. Sua fundamentação são números e sua máscara é o nome do povo.”

“Democracia é uma aristocracia dos medíocres.”

“Autoridade, que na monarquia é o princípio da atividade governamental, é na democracia o objetivo do governo”

“O povo, graças a sua inferioridade e miséria, sempre irá formar o exército da liberdade e do progresso – mas devido a ignorância e rudimentariedade de seus instintos, como resultado da urgência de suas necessidades e a impaciência de seus desejos, tende em direção a formas simples de autoridade. O que ele busca não são, de maneira alguma, garantias legais das quais ele não possui noções concretas e nem quaisquer realizações de seu poder. . . ele tem fé em um líder cujas intenções são conhecidas. . . Para este líder ele concede autoridade sem limites e poder irresistível. . . O povo não acredita em princípios que por si só poderiam salva-lo: lhe falta a ‘religião de ideias’.”

“Democracia é, na verdade, essencialmente militarista.”

“Todo estado é por sua própria natureza expansionista.”

“Entregues à própria sorte ou levados por uma tribuna, as massas nunca conseguirão nada. Elas têm os olhos voltados para o passado. Nenhuma tradição é formada entre elas. . . . sobre política não entendem nada além de intrigas, sobre o governo somente desperdício e força pura; de justiça apenas acusações; de liberdade somente a construção de ídolos que são destruídos no dia seguinte. A ascensão da democracia deu início à uma era de atraso que irá levar a nação e o estado à morte.”

“Aceite como um homem a situação que você se encontra e se convença de uma vez por todas que o mais feliz dos homens é aquele que sabe melhor como ser pobre.”

“Minha opinião sobre a família não é como a do Direito Romano antigo. O pai da família é para mim um soberano. . . . Considero todos nossos sonhos sobre a emancipação das mulheres destrutivos e estúpidos.”

“Quando dizemos ‘o Povo’ sempre queremos dizer inevitavelmente a parte menos progressiva da sociedade, a mais ignorante, a mais covarde, a mais ingrata.”

“Se democracia é razão, então ela deveria representar primeiramente demopédia, ‘educação do povo’.”

“O século XX dará início à um período de federação ou a humanidade entrará em um purgatório de mil anos.”

Portanto, não deve ser surpresa nenhuma que este homem do povo, em grande parte um autodidata mas que possuía uma certa sabedoria popular, estava fadado ao conflito com outro homem cuja mente se encontrava bizarramente divorciada da realidade, uma pessoa cheia de ódio, um ilusionista, mas ao mesmo tempo um demagogo habilidoso – Karl Marx. Estes dois homens, mesmo que ambos tivessem uma reivindicação genuína ao rótulo de “socialista”, eram temperamentalmente polos opostos.

Proudhon, apesar de seu anticlericalismo (que foi diminuindo conforme foi envelhecendo) era profundamente imbuído de princípios morais cristãos. Ele levou uma vida exemplar extremamente pura e de estudos e se sacrificou por suas ideias, sempre guiado por sentimentos profundos e verdadeiros.

Um livro que ele publicou em 1846, Système des contradictions economiques ou Philosophie de la misère, foi o motivo do confronto com Marx. A burguesia de Trier atacou furiosamente Proudhon em um texto agressivo, La Misère de la Philosophie. Ainda que Proudhon e Marx sonhassem com um “desaparecimento do estado”, Marx via a realização de suas ideias através de meios revolucionários, através do uso da força bruta, através da “ditadura do proletariado”. Proudhon, por outro lado, era um “evolucionista”: A ordem correta das coisas deveria ser descoberta, não arbitrariamente planejada. O socialismo deveria surgir gradualmente, em estágios, sem revoltas, através da persuasão: Deveria abranger o globo através de adesão voluntária e finalmente unir a humanidade não sob um superestado centralizador, mas em um sistema federativo, através de federações profundamente enraizadas nos costumes, instituições e tradições locais. O padre de Lubac destaca o apego sentimental de Proudhon ao lugar da França que ele nasceu e cresceu – o Franche Comtè que ficou sob o domínio espanhol por muito tempo e onde os sentimentos de liberdade individual eram particularmente fortes.

Quando veio o feroz e talvez inesperado ataque de Marx, Proudhon não respondeu. Este homem nobre e sensível provavelmente considerou que fosse abaixo de sua dignidade reagir àquele texto grosseiro. Embora Proudhon pudesse ter despertado níveis maiores de paixões, embora fosse ele quem cunhou o termo “socialismo científico”, ele era desprovido do dogmatismo amargurado irredutível de Karl Marx. Se Proudhon tivesse mantido a liderança do movimento socialista, teria dado a ele um caráter mais anárquico e “personalista”, uma maior humanidade e plasticidade. O mundo ocidental teria lidado com ele com mais facilidade. Ao invés disso Karl Marx prevaleceu com seu monasticismo secular rígido destinado a afundar a civilização em uma miséria abismal. Daniel Halévy escreveu bem acertadamente que, “Havia um espaço para um grande diálogo entre dois homens: Marx, o protagonista da revolução das massas proletárias, e Proudhon, o defensor da revolução personalista. O diálogo afundou e Marx é o responsável por isso, porque o tom que ele deu logo no início impossibilitou a aguardada discussão”.

 

Tradução de Fernando Chiocca

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Notas

[1] Cf. J. P. Proudhon, Les confessions d’un revolutionnaire (Paris, 1849), p. 61. Repetidas vezes Proudhon abordou o problema da existência de Deus e defendeu calorosamente a posição católica contra Feuerbach. Cf. Daniel Halévy, “Proudhon d’ après ses carnets inédits (1843-1847),” Hier et Demain (Paris: Sequana, 1944), no. 9, pp. 26-27

[2] O voto por classes baseando-se em graus de educação, tributação ou rendimentos continuou na Europa pelo começo do século XX. A Áustria, por exemplo, introduziu o sistema de um-homem-um-voto somente em 1907, porém, ainda antes da Grã-Bretanha. A Rodésia independente, timocrata e não democrata, tem duas “classes” (“listas”). Cf. State of Rhodesia, Democracy and the Constitution (Salisbury: Fact Papers, 1966), no. 8. (A nova constituição de 1970 não é basicamente diferente). George Bernard Shaw, um fabiano que tem seus momentos de genialidade, disse, “Não vejo como superar esta dificuldade enquanto nossos democratas insistirem em assumir que o Sr. Homem Comum seja onisciente e também ubíquo, e se recusem a considerar o sufrágio à luz da realidade do senso comum. Quanto controle do governo o Sr. Homem Comum precisa para se proteger da tirania? Quanto ele é capaz de exercer sem se arruinar e destruir a civilização? Penso que não . . . .” “É uma questão de história natural simples que humanos variam muito em competência política. Eles variam não apenas de indivíduo para indivíduo, mas também de idade para idade no mesmo indivíduo. Diante deste fato evidente é estupidez seguir fingindo que a voz do povo é a voz de Deus. Quando Voltaire disse que o Sr. Todo Mundo era mais sábio que o Sr. Qualquer Um ele nunca havia visto o sufrágio adulto em ação. Todo tipo de gente forma o mundo, e para a civilização se manter alguns desses tipos devem ser mortos como cães raivosos enquanto outros devem ser colocados no comando do estado. Até que as diferenças sejam classificadas não podemos ter um sufrágio científico, e sem um sufrágio científico toda tentativa de democracia irá se autoderrotar como sempre se autoderrotou.” (Cf. seu  Everybody’s Political What’s What, London, 1944, pp. 45-46.) Enquanto essas linhas estão sendo escritas, o socialismo britânico, em nome dos potentados africanos, ainda tenta governar economicamente a Rodésia para impor o sistema de um-homem-um-voto. Pouco importa que aqueles que mais irão sofrer com o embargo (que conta com a participação de assassinos totalitários de diversos continentes) são precisamente as pessoas pelas quais se está beneficiando a Rodésia, o elementos mais carentes economicamente da Rodésia, os africanos. O esquerdistas quase sempre são cruéis e irão sacrificar tudo e todos por suas ideias fixas.