Bem-vindo a 2021, a era da pós-persuasão!

4
Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Ouvi esse termo ser usado pela primeira vez por Steve Bannon, arquiteto da surpreendente campanha Trump de 2016, em um documentário da PBS Frontline intitulado America’s Great Divide. Falando nos dias pré-fatídicos do início de 2020, Bannon afirmou que a era da informação nos torna menos curiosos e dispostos a considerar visões de mundo diferentes das nossas. Temos acesso a praticamente todo o conhecimento e história acumulados da humanidade em dispositivos em nossos bolsos, mas a simples sobrecarga de informações nos faz nos fechar em vez de nos abrir. Qualquer pessoa que queira mudar de ideia pode encontrar todo um universo de pontos de vista alternativos online, mas muito poucas pessoas o fazem (especialmente após uma certa idade). Para Bannon, isso significava que a campanha de Trump, e a política em geral, foi mais sobre mobilização do que persuasão.

Como sempre podemos encontrar fontes de mídia que confirmam nossa perspectiva e preconceitos – e rejeitar aquelas que não confirmam – a noção de política por argumento ou consenso está quase totalmente perdida. E não importa qual seja nossa perspectiva política ou cultural, há alguém criando conteúdo sob medida para se adequar a nós como consumidores estratificados. Assim, esquerdistas, conservadores e pessoas de todas as outras faixas ideológicas vivem em mundos de mídia digital muito diferentes, mesmo quando vivem em proximidade física.

Essa quantidade esmagadora de verborragia segregada e organizada chega até nós todos os dias, das notícias 24 horas ao Facebook, Twitter e YouTube. Plataformas idiotas como TikTok e Discord competem com videogames pela atenção de nossos filhos. Tudo isso nos deixa entorpecidos e exaustos. Nossa capacidade de concentração se deteriora. Aos poucos, perdemos nossa aptidão para o pensamento profundo e a leitura séria. Tentamos substituir sabedoria e compreensão por dados e fatos.

Mas, como as informações são tão abundantes e imediatamente disponíveis, elas valem cada vez menos. A informação é barata, literalmente.

Para nossos avós, o conhecimento era analógico e tinha um preço. Os guardiões do portões, na forma de mídia, universidades, bibliotecas e livrarias, atuavam como editores e filtros. Cid Moreira, o propagandista mais confiável do país, entregava uma versão da notícia todas as noites. O jornal local fazia o mesmo todas as manhãs. Mesmo há apenas trinta anos, muitas vezes não era uma tarefa fácil, e não havia um custo pequeno, obter livros e literatura que não eram facilmente encontrados em bibliotecas locais ou universitárias.

Se alguém hoje deseja ler economia austríaca, por exemplo (um bicho-papão para Bannon), pode fazê-lo virtualmente sem nenhum custo além do próprio tempo. Não é nem preciso sair de casa. O smartphone na palma da mão contém uma vida inteira de leitura e aprendizagem apenas nessa disciplina. Sem livros físicos, sem faculdade, sem mensalidade e sem necessidade de bibliotecário.

Então, por que mais pessoas não fazem isso? A resposta curta é: a maioria das pessoas está além da persuasão.

Isso não significa que devemos nos render às forças do analfabetismo econômico ou desistir de tentar conquistar corações e mentes para o lado da liberdade política. Ao contrário, devemos redobrar nossos esforços para cultivar qualquer pessoa interessada na sociedade civil, economia real, mercados, propriedade e paz – especialmente aqueles com menos de trinta anos. Mas este não é um jogo de números. Devemos nos concentrar naqueles que podem ser alcançados, não em alguma maioria mítica. Nossa tarefa é alcançar algumas pessoas de maneira restrita e profunda, não a maioria das pessoas superficialmente. Estamos em contraste com a verborragia e opostos à superficialidade e antiintelectualismo de nossa época. Mobilizar poucos é muito mais importante e eficaz do que tentar persuadir muitos tolamente.

H.L. Mencken estava certo sobre acreditar na liberdade, mas não acreditar nela o suficiente para forçá-la a alguém. Assim como nos opomos ao intervencionismo estrangeiro, devemos parar de tentar reconstruir as cidades e estados que não podem mais ser ajudados. Precisamos reconhecer que centenas de milhões de pessoas provavelmente estão além de qualquer persuasão na direção de visões políticas ou econômicas sensatas. Outros milhões são socialistas engajados que prontamente concordariam em nacionalizar indústrias inteiras e redistribuir radicalmente a propriedade. Por definição, essas visões não são razoáveis; então, como usar a persuasão quando falta razão?

O Brasil pós-persuasão exige que pensemos em como nos separar e nos desligar politicamente de Brasília. Nosso futuro imediato reside no federalismo rígido, que se encaixa com a secessão suave que já está acontecendo, enquanto milhões de pessoas votam com os pés. Mobilização e separação, não persuasão, é o caminho a seguir.

 

Artigo original aqui.

4 COMENTÁRIOS

  1. Essa tese da pós-persuação, exatamente como descrita pelo autor, está correta. Mas na minha opinião, não trata-se de nenhuma novidade histórica. Somente articular isso em foma de uma idéia teoria sobre as guerras narrativas para mim é inédito.

    Eu li um livro tempos atrás interessantíssimo de um autor conservador chamado John Lukacs. O título em questão era o “A última guerra Européia – setembro 1939 – Dezembro 1941”. Isso que acontece hoje em dia de acordo com esta passagem do texto:

    (…)”Essa quantidade esmagadora de verborragia segregada e organizada chega até nós todos os dias”(…)

    (…)”Tudo isso nos deixa entorpecidos e exaustos. Nossa capacidade de concentração se deteriora. Aos poucos, perdemos nossa aptidão para o pensamento profundo e a leitura séria.”(…)

    Aconteceu de maneira praticamente igual na Alemanha Hitlerista dos anos 30, em maior escala do que hoje – guardadas as devidas proporções, pois foi restrito aos germanos. Várias cidades do interior da Alemanha cujos habitantes viviam quase como na idade média, foram jogados neste mundo de informações pelos nazistas, justamente como esse objetivo que vemos hoje em dia, ainda que naquele caso fosse um instrumento estatal.

    Em pleno anos 30 do século 20, 35% dos moradores do interior da Alemanha jamais haviam saído de suas próprias cidades. O impacto sobre essas pessoas da propaganda em larga escala dos nazistas foi enorme. E devemos considerar que a frase do Goebels “mentir até que se torne verdade” só faz sentido quando não existe nenhuma outra verdade disponível. Se não tem ninguém falando contra, e para isso é necessário liquidar completamente outros meios de comunicação, até eu acreditaria nos nazistas. É uma questão lógica. Se você encontra só pessoas falando em Pandemia e ninguém para dizer fraudemia, o que pensar?

    Desde que li Mises e Hayek – capítulo 12 do Caminho da Servidão, eu sei que o nazismo era uma ideologia de esquerda. Ver as Big Techs tentando silenciar toda a dissidência de maneira implacável como fizeram os nacional-socialistas nos anos 30, só confirma isso.

  2. Entendo que para algumas pessoas é difícil aceitar uma crítica, mesmo construtiva.
    Talvez aquele que se sentiu tão ofendido com a palavra “infeliz” tenha sido o tradutor que teve a “brilhante” ideia de tentar usar personagens e referências geográficas conhecidas dos leitores brasileiros em vez de guardar fidelidade ao texto original. Não sei…
    Mas tenho a certeza de que a realidade brasileira é MUITO diferente da norte-americana.
    Enquanto nos EUA um presidente conservador está nos últimos dias de mandato e cuja reeleição foi impedida de forma fraudulenta, o presidente conservador do Brasil tem ainda dois anos de mandato pela frente e possibilidade de reeleição.
    Enquanto nos EUA a proposta de um federalismo radical tem chance de ser viável, por aqui a viabilidade é zero.
    Enquanto nos EUA há vários Estados economicamente autossuficientes governados por conservadores, no Brasil não consigo identificar um único que reúna essas condições.
    Enfim, o respeito a opiniões divergentes é uma rara virtude, que precisamos cultivar se desejamos um futuro melhor.

  3. O artigo é muito interessante, mas a tradução foi INFELIZ. Fui ao original e constatei que o autor escreveu o texto referindo-se aos Estados Unidos da América. A redação correta da primeira frase do último parágrafo é: “Os EUA pós-persuação exigem que pensemos em como nos separar e nos desligar politicamente de Washington D.C.”
    Certas tentativas de adaptação prejudicam enormemente o texto e comprometem a compreensão por parte dos leitores que não tenham acesso à publicação original.

    • Ora, ora, ora, temos um Xerox Holmes aqui…

      É sério que o autor falou dos EUA e não do Brasil e de Washington e não de Brasília?

      Uauu! Que descoberta.

      E isso muda exatamente o que? A ideia é a mesma. A situação do Brasil é a mesma.

      E todos tem acesso ao original pois o link está no final. INFELIZ foi esse teu comentário..