Canudos vs estado positivo

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Cidadela, vilarejo, arraial, reduto de monarquistas e fanáticos. Foram muitas as expressões que buscaram definir aquele fenômeno único em nossa história, que perturbou a política e, genuinamente, questionou a ordem vigente. A Guerra de Canudos foi o maior conflito civil ocorrido em território nacional, e seu desfecho foi, sem dúvidas, o maior crime já cometido pelo Exército Brasileiro, massacrando mais de uma dezena de milhares de civis.

A peregrinação religiosa do lendário Antônio Conselheiro culminou em um conflito que, inicialmente, apenas aparentava ser mais um evento violento do Nordeste brasileiro, sem relevância nacional. Não obstante, com o escalar da tensão dos eventos, tornou-se uma guerra que ameaçava a subsistência do regime político republicano. As motivações políticas que culminaram na destruição de Canudos foram complexas e, como veremos a seguir, justificavam-se em ideologias em voga no século XIX.

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Envolto de controvérsias, Antônio Conselheiro esteve no centro do conflito de Canudos. Do ponto de vista religioso, de fato era um propagador de heresias, que beatificado pela população sertaneja, tornou-se o representante natural de suas mais diversas aspirações. E realmente o foi. Grandes multidões deslocavam-se das mais diversas regiões do Nordeste e Norte, a procura daquele que, já há décadas, propagava quase que um novo Evangelho, com auxílio de portentos que curavam os leprosos e o protegiam das injustiças que as autoridades o incriminavam. O beato atraia para si grandes contingentes em peregrinação, fugidos da fome, da seca e da miséria. Por onde passavam espalhavam a doutrina conselheirista, que de grosso modo, envolvia desde o mais extremado ascetismo até profecias sobre o Apocalipse. O ponto de convergência para todas aquelas peregrinações pelos sertões foi a lendária cidade de Canudos, ponto de parada de Antônio Conselheiro, que chegou a abrigar mais de 20 mil habitantes.

Apesar de toda pobreza, é inegável que o vilarejo poderia em algum momento prosperar. Os contingentes populacionais que se deslocavam em função dos mais diversos motivos para aquela cidade geralmente abriam mão de seus patrimônios voluntariamente, doando frações consideráveis ao representante daquela teocracia. Dedicavam-se especialmente à criação de cabras, e a partir dessa cultura, no leito do rio Vaza-Barris, em poucos anos já atingiam um certo grau de autossuficiência.

O fato é que Canudos, ao buscar sua independência, a cada dia se aproximava mais do que podemos chamar de uma cidade-estado, que crescia vertiginosamente no seio da recém imposta república. Esta realidade, se considerarmos todo o escopo ideológico da época e que fundamentava a república é o que ponderamos como o principal motivo para a deflagração do conflito. Entretanto, para a opinião pública o principal motivo divulgado foi um tanto ingênuo e superficial: Um contrato não cumprido por um negociante de madeiras teria gerado revolta nos conselheiristas, que por reivindicarem seus produtos, teriam sofrido retaliações políticas das autoridades de Juazeiro, que espalhavam o boato de que tal cidade seria invadida pelos sertanejos. E realmente tal fato serviu como escusa para as primeiras invasões à Canudos, apesar que no decorrer do conflito as causas republicanas se tornaram muito mais ideológicas.

Além disso Antônio Conselheiro já provocava desconforto à toda aquela elite estatal, ao promover por décadas um discurso que desvirtuava a população de suas “obrigações” para com o poder temporal. E com a gênese da República, inspirou as multidões à desobediência civil e ao desacato da legislação positivada.

É exato que ele atacava a república, menos porém pela pretensão de restaurar a monarquia do que pela vontade de ver ainda estabelecido os institutos, como – por exemplo – o do casamento religioso, que a Constituição de fevereiro havia substituído, incorrendo por isto no desagrado dos tradicionalistas impenitentes. […] O Conselheiro hostilizava a república por ter esta decretado a separação do Estado e da Igreja. (MILTON, 2003, p.130)

Canudos fundamentava-se em instituições quase que primitivas, tendo o teocrata como o árbitro máximo dos conflitos interpessoais, como explicita Euclides da Cunha: “Espelhavam-na a admiração e o respeito absoluto que o tornaram em pouco tempo árbitro incondicional de todas as divergências ou brigas, conselheiro predileto em todas as decisões” (CUNHA, 2013, p.97). A propriedade privada existia de modo restrito, apenas no que tangia as moradias e objetos pessoais. Os rebanhos e as terras para cultivo eram tidos como comunitários. Traçar características de como funcionava a economia de Canudos não faz parte deste texto, entretanto, seria um trabalho extremamente interessante, visto as peculiaridades de uma sociedade em que a preferência temporal era extremamente alta, em decorrência do fim do mundo que era repentino.

A fé no profeta andarilho alicerçava todo escopo de regras que regiam a cidade. A legislação republicana era rejeitada e o puritanismo regia a vida social: atos como faltar aos encontros religiosos e consumir bebidas alcoólicas eram crimes graves, enquanto homicidas, que muito possivelmente procuravam o lugar como esconderijo, passavam impunes.

Apesar dos traços tribais e do barbarismo presentes nessa comunidade, um fato é incontestável: todos estavam ali de livre e espontânea vontade. Poder-se-ia argumentar que boa parte deles deixavam seus lares e abriam mão de todo patrimônio para viver uma vida de misérias movidos apenas pela ignorância e fanatismo em uma crença infundada, não obstante, o fato de que a maioria dessas pessoas eram pacíficas e estavam vivendo em função de algo que realmente acreditavam continua inalterado.

Canudos nasceu em um território inóspito, seus habitantes se apropriaram de fatores naturais que não tinham donos e viviam do que a natureza lhes fornecia. O comentário de Murray Rothbard sobre o tema da propriedade privada em Homem, Economia e Estado ajuda-nos a elucidar esse tema:

 Em uma sociedade livre, qualquer pedaço de natureza que nunca foi usado é sem dono e está sujeito a apropriação de um homem, por meio de seu primeiro uso ou mistura de seu trabalho com este recurso (ROTHBARD, s/d, p.236).

Dessa forma, Rothbard cita o argumento de Wolowski e Lavasseur no qual a propriedade adquire um caráter muito mais pessoal e íntimo. Sem a ação do homem, há apenas matéria. Após sua ação, aquilo que fazia parte da natureza torna-se algo valioso, estimado subjetivamente por alguém. Agora, que o proprietário deixou sua marca sobre aquela matéria, ela tornou-se, finalmente, um bem econômico. “O produtor deixou um fragmento de sua própria pessoa na coisa, que, assim, tornou-se valiosa […]”. (ROTHBARD, s/d, p.242)

Assim sendo, todas as expedições do Exército à Canudos foram verdadeiros crimes contra os direitos daquela população e, consequentemente, toda a defesa que os conselheiristas buscaram, foi legítima. Lembremos que, apesar de toda falta de coordenação, as defesas do vilarejo foram relativamente efetivas, visto que repeliram diversas vezes os ataques de um combatente muito mais forte, como no caso da vergonhosa expedição Moreira César. Este sucesso dos sertanejos se deve, provavelmente, à liberdade que tinham de ter e usar armas de fogo.

De maneira que, nem nesse período agudo da luta, nem noutro qualquer, os fanáticos de Antônio Conselheiro tomaram jamais a ofensiva, limitando sua ação à defesa do que eles consideravam seu direito e sua liberdade. (MILTON, 2003, p. 96)

O incidente baiano é comparado, tanto por Aristides Milton, quanto por Euclides da Cunha, à guerra de Vendéia, ocorrida na França no fim do século XVIII. Nesta, tropas da recém imposta Primeira República atacaram e massacraram os contrarrevolucionários opositores da Revolução Francesa, que buscavam a restauração da monarquia. O caso francês teve proporções muito maiores, contabilizando um número de mortes maior que o caso brasileiro. Apesar desta diferença de proporções, a situação foi análoga: civis religiosos que não se conformaram com a nova organização política foram massacrados pelas forças estatais indiscriminadamente. Entretanto, a guerra de Canudos caracterizou-se com particularidades que a tornaram singular, como veremos a seguir.

Para explicar esse fenômeno adverso que ameaçou a República, é mister analisar as motivações dos beligerantes, suas crenças e ideologias. Os republicanos acusavam incessantemente os sertanejos de fanatismo, entretanto, era dominante entre aqueles um credo tão infundado quanto o do inimigo.

A gênese da República se fez sobre os pilares da ideologia positivista. O positivismo comtiano floresceu ainda no período imperial, propagou-se especialmente nos altos escalões do Exército, sendo por muitos considerados a ideologia dominante no Brasil. A admirável tolerância de D. Pedro II com seus opositores permitiu que movimentos anti-monarquistas ganhassem cada vez mais força, especialmente nas escolas militares, culminando no golpe que oficializou a República. Segundo o historiador João Camilo de Oliveira Torres, o positivismo comtista, representado principalmente por Benjamin Constant, foi o movimento ideológico mais decisivo na derrubada do império.

O crescimento do positivismo comtista foi tão vertiginoso no Brasil, que mesmo antes do golpe de Deodoro, já havia sido fundada a Igreja Positivista na capital. O culto destes esclarecidos consistia na adoração da Humanidade, do Progresso e de tudo que se considerava científico. O profeta da ceita era, obviamente, Auguste Comte. Suas ideias eram aceitas de maneira definitiva pelo apostolado, que era representado na figura dos senhores Miguel Lemos e Teixeira Mendes.

A principal base do positivismo, não apenas o comtista, é o espírito anti-metafísico e cientificista. Mas como vimos, os esclarecidos se organizavam em seitas de adoração a entes abstratos e seguiam fielmente o profeta de Montpellier. As contradições tornam-se cada vez mais absurdas: fundamentavam-se em uma estrutura semelhante à Igreja Católica, embora, prescindissem de todo o escopo teológico e metafísico para dar lugar a um ente de adoração bem científico: a Humanidade.

A vitória da República foi, até certo ponto, uma vitória do positivismo, que se tornou uma espécie de religião oficiosa. Além disso, era religião de boa parte dos nossos militares. (TORRES, 2018, p. 126)

A ideia central que fundamenta a ideologia positivista é a Lei dos três estados, que além de tentar explicar a evolução das concepções humanas, também diz respeito à própria evolução humana. Para Auguste Comte, a humanidade passa, invariavelmente, por três estados ordinalmente evolutivos, a saber: o estado teológico, em que as crenças religiosas guiavam os homens, o estado metafísico, no qual os homens já não raciocinam de modo puramente teológico, mas através de racionalizações abstrativas e por fim, e mais importante, o estado positivo, que se guia pela demonstração dos fatos, pela indução e pela ciência. Quem estava encarregado de profetizar o último estado, por algum motivo mítico, era Auguste Comte, e a partir disto, a humanidade caminharia inflexivelmente ao seu último estado evolutivo. Historicamente, Comte fez parte de uma tradição de pensadores do século XIX que buscavam explicar a história a partir de leis, sejam elas metafísicas ou mesmo materialistas. Ludwig von Mises denomina tais doutrinas de meliorismo evolutivo. O curso da história tendia, inevitavelmente, ao progresso. A nova fase da humanidade – seja ela, o comunismo, o estado positivo, ou qualquer que seja – seria definitiva e superior a todo passado obscuro (MISES, 2010, p.790). Todavia, dentre todas, a filosofia comtiana foi a que mais influenciou a política brasileira daquele período.

Deduziu da lei dos três estados que, sendo o regime republicano – pacífico-científico e industrial o estágio definitivo da evolução da humanidade – tudo, necessariamente, tenderá a ele. Assim sendo, tudo o que contrariasse a esta evolução – a reação conservadora do regresso, por exemplo – seria antinatural e acidental. (TORRES, 2018, p. 57)

Portanto, uma república que estivesse nascendo a partir de iluminados positivistas, na era do estado definitivo de evolução da sociedade, evidentemente, não deveria comportar em seu território resquícios dos outros estados. Apesar destas considerações, a ideologia supracitada adquiriu diversas faces no Brasil, sendo que muitos de seus membros, embora aceitassem a cartilha, pregavam o pacifismo em relação aos indivíduos de estados “primitivos”, como foi o caso do Marechal Rondon e sua relação com os indígenas. Não obstante, a regra geral era essa: uma república moderna e científica não poderia compactuar com a mentalidade dos povos do estado anterior, pois estes, segundo os esclarecidos, atrasariam a nação.

Assim, passamos a ter a divisa do positivismo – Ordem e Progresso – figurando em nossa bandeira, em substituição a Cruz da Ordem de Cristo que viera pintada nas velas cabralinas. […] Uma República não pode ter símbolos religiosos em sua bandeira. Mas a divisa ordem e progresso não era divisa religiosa? A cruz, ao menos, é o símbolo da religião de todos os brasileiros. (TORRES, 2018, p.93)

A Guerra de Canudos deixou evidente esta dicotomia entre duas cosmovisões diferentes, de um lado tínhamos os conselheiristas que lutavam por uma causa religiosa e do outro lado os militares que entregavam suas vidas pela república, ou ao menos, eram doutrinados para assim agirem.

Os militares ofereciam aos sertanejos uma única oportunidade de salvarem suas vidas diante do massacre: prestarem homenagens à República. A maioria deles inflexivelmente se recusavam, e os que aceitavam, ironicamente, tinham o mesmo fim dos primeiros.

Os que daquele modo se abatiam à entrada de Canudos tinham todos, sem excetuar um único, colgada ao peito esquerdo em medalhas de bronze, a efígie do marechal Floriano Peixoto e, morrendo, saudavam sua memória – com o mesmo entusiasmo delirante, com a mesma dedicação incoercível e com a mesma aberração fanática com que os jagunços bradavam pelo Bom Jesus misericordioso e milagreiro… (CUNHA, 2013, p.270)

Floriano Peixoto já havia morrido quando a guerra começou, o presidente do Brasil na época era Prudente de Morais, entretanto, o marechal representava de certo modo a conciliação de toda a ideologia que os militares abraçaram com a tirania ditatorial que muitos deles desejavam. O início da República brasileira realmente foi marcado por agressões aos direitos individuais e à liberdade de expressão, concretizando o anseio dos ideólogos, como lembra o escritor Nelson Saldanha, ao dizer que os comtistas viam a república como “concretização do executivismo positivista, forma de ditadura remotamente […]” (SALDANHA, 2001, p.238). Segundo este mesmo autor, a origem deste ideário político remonta a Platão, em que, na República, considera como melhor forma de governo, aquele que seja dirigido por filósofos, mutatis mutandis, pelos tecnocratas iluminados.

Comparando os regimes em questão – monarquia e república – as diferenças são elementares. Para Visconde de Ouro Preto a monarquia operava com a “máxima descentralização administrativa, com a maior expansão de todas as liberdades e garantias […]” (OURO PRETO, 2017, p.92). Sabemos que sua visão não era tão imparcial e um tanto idealizada, mas a essência monárquica, de fato, assemelha-se com sua proposição. Por outro lado, João Camilo de Oliveira Torres explica em O Positivismo no Brasil que a noção positivista de república é baseada na “consideração preponderante do bem público, como lei suprema, eliminando qualquer pretensão a direitos individuais” (TORRES, 2018, p. 297)

Para o filósofo Ricardo Vélez Rodríguez o positivismo atinge sua forma mais autoritária no Brasil através da doutrina política de Júlio de Castilhos. O castilhismo disseminou-se principalmente no estado do Rio Grande do Sul, no qual Júlio de Castilhos foi governador. Esta ramificação da ideologia comtiana defendia a absoluta primazia do direito coletivo em detrimento dos direitos individuais e, consequentemente, a máxima disciplina do indivíduo para servir o bem público. Além disso, era mister que o bem público fosse dirigido por um governante esclarecido, que suprisse todas as demandas da sociedade e que zelasse de educar civicamente os cidadãos, pois só desta forma tem-se a origem de toda moral social. O castilhismo fez discípulos na política nacional, o mais famoso deles, Getúlio Vargas, buscou em seu governo seguir a doutrina que, segundo Vélez, é a filosofia da República.

Podemos afirmar que no castilhismo ocorreu um processo de despersonificação do indivíduo, em benefício da entidade anônima da coletividade, identificada como o próprio Estado. (VÉLEZ, 2000, p. 156)

Para analisar integralmente o fenômeno em questão, devemos buscar entender o polilogismo, termo atribuído a Ludwig von Mises, que explica uma característica fundamental não apenas do positivismo, mas de várias ideologias do século XIX. Os marxistas, por exemplo, afirmam que a forma de pensar de um indivíduo é determinada por sua classe; os ideólogos nazistas propunham, em oposto ao polilogismo de classe marxista, o polilogismo racial; os historicistas afirmavam que o modo de pensar variava de acordo com a evolução histórica e os positivistas seguiam ideia parecida: para estes a mentalidade diferenciava de acordo com o estado evolutivo, ou seja, uma mentalidade de um indivíduo do estado teológico se contrastava com a de um indivíduo do estado positivo.

Quando dizemos “modo de penar” ou “mentalidade”, referimos a toda estrutura lógica do indivíduo. Se aceitamos que diferentes grupos possuem estruturas lógicas diferentes, temos conflitos insolúveis, porquanto não há a menor possibilidade de interlocução entre eles, dado o fato que a verdade se torna relativa, cada grupo possui uma verdade de acordo com sua mentalidade. Dessa forma, entre o proletário e o burguês não poderia existir diálogo, bem como entre pessoas de diferentes raças. Em Ação Humana, Mises contrapõe estas ideologias: para fundamentar sua ciência da ação humana, é necessário que esta seja homogênea no sentido de que, mesmo que cada indivíduo tenha suas mais diversas particularidades, seu modo de ação segue leis praxeológicas, como o anseio de sempre mover-se de um estado de insatisfação para um estado de satisfação. Esta lei praxeológica deve ser universal para todos os homens, a substância “homem” a obedece integralmente, independentemente de seus acidentes, por assim dizer. “Para a praxeologia, é suficiente estabelecer o fato de que há somente um modo de ação que é humano e que é compreensível para a mente humana” (MISES, 2010, p.50). Consequentemente, para Mises, assim como não existem indivíduos com mentalidades pré-lógicas, também não há indivíduos que dotados de uma mentalidade tão superior que os permita ditar à sua maneira os caminhos da sociedade.

A raiz da ideia de que os indivíduos são dotados de um mesmo sistema lógico remonta a Aristóteles. Em Peri Hermeneias o filósofo busca fundamentar seu tratado lógico em tudo que seja universal ao pensamento humano. Logo em sua introdução ele nos diz:

Há os sons pronunciados que são símbolos das afecções na alma, e as coisas que se escrevem que são os símbolos dos sons pronunciados. E, para comparar, nem a escrita é a mesma para todos, nem os sons pronunciados são os mesmos, embora sejam as afecções da alma – das quais esses são os sinais primeiros – idênticas para todos, e também são precisamente idênticos os objetos de que essas afecções são as imagens. (ARISTÓTELES, 2013, p.3)

Pode-se dizer que as “afecções da alma” compreendem os significados das coisas, o pensamento, os estados da alma ou paixões. Esta definição varia demasiadamente de acordo com o comentarista, entretanto, preferimos definir como a estrutura lógica. Portanto, para Aristóteles, a estrutura lógica não varia entre os indivíduos ou grupos de indivíduos, apesar de que, o modo de expressar esta estrutura, a saber, a linguagem, possa variar entre os mais diversos povos. O comentarista José Veríssimo Teixeira da Mata explica-nos a importância desta consideração:

Por mais distinta que seja a percepção entre os presentes do objeto descrito, eles só poderão se comunicar sobre ele enquanto percebem um núcleo idêntico. Se não existir esse núcleo idêntico comum […], mesmo que seja fluido ou instável, não há comunicação. (ARISTÓTELES, 2013, p.78)

S. Tomás de Aquino em seu comentário ao Peri Hermeneias também argumenta sobre o tema em questão:

No entanto, há alguns opositores à posição de Aristóteles que diz que as paixões da alma que as vozes significam são as mesmas para todos. Primeiro, de fato, porque homens diversos têm opiniões diferentes sobre as coisas e, assim as paixões da alma não parecem ser as mesmas para todos.

Boécio, em resposta a essa objeção, diz que aqui Aristóteles está usando as paixões da alma para nomear as concepções do intelecto e, como o intelecto não é enganado, é necessário que as concepções do intelecto sejam as mesmas para todos, porque se alguém discorda do verdadeiro, ele não intelige. (AQUINO, 2018, p. 55)

O polilogismo foi característica marcante nos meios intelectuais brasileiros do século XIX. Como explica João Camilo de Oliveira Torres, positivistas como marechal Rondon, pregadores do pacifismo, ainda assim, defendiam a ideia de mentalidades pré-lógicas, que no caso de Rondon se referia aos indígenas.

Em Os Sertões, Euclides da Cunha, também positivista, defende seu polilogismo racial. Apesar de toda sua genialidade literária, destacada principalmente em sua monumental obra sobre Canudos, Euclides apresenta diversas opiniões espúrias, que estavam de certo modo, em voga na Primeira República. Em primeiro lugar, Os Sertões, como o próprio autor diz em sua nota à 2° edição, não é um livro em defesa dos sertanejos, mas de ataque. Embora reconheça as expedições militares como um crime, especialmente pelo fim que tiveram, ele sempre deixa explícito que, à priori, os sertanejos estavam errados, por mal compreenderem o sistema político vigente. A república precisava ser aceita por todos, afinal, o bem comum era mais importante que qualquer direito individual.

Assim, para Euclides, apesar de que o massacre realizado pelas forças estatais fossem um ato vil e não se justificassem, os conselheiristas caracterizavam-se por ser um grupo pré-lógico, por motivos raciais, como expresso neste trecho:

A mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas da inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso. (CUNHA, 2010, p.64)

Em outros trechos ele cita deficiências que os sertanejos teriam, tanto em aspecto físico quanto intelectual, por conta da miscigenação. Esta concepção racista, além de infundada, dá justificativas para o massacre. Nosso ponto é que, ao se estabelecer como verdade científica a ideia de que diferentes grupos tenham concepções do intelecto diferentes, dentre estes alguns possuam estruturas pré-logicas, justifica-se, portanto, que estes são inferiores. Tal visão, sem dúvidas, dá margens para a total relativização dos direitos naturais destes grupos.

Evidentemente, nem todos os adversários de Antônio Conselheiro pensavam uniformemente. Os grandes contingentes de soldados que combateram, em sua maioria, seguiam disciplinadamente os comandos de dizimarem seus conterrâneos sem ao menos entenderem as finalidades do embate. No entanto, aqueles soldados doutrinados que morriam homenageando o marechal de ferro agiam analogamente aos conselheiristas que pelo Conselheiro divinizado entregavam suas vidas. Euclides da Cunha reconhece este ponto. A diferença essencial entre os beligerantes está no fato de que um deles apenas luta para defender aquilo que tem como propriedade. Por mais incultos e ignorantes sobre os motivos da guerra que fossem os soldados, no que tange a este fato, todos estavam cientes de que eram agressores de pessoas inocentes.

Portanto, é fundamental esclarecer que, ao falarmos das motivações positivistas, republicanas, afinal, ideológicas, estamos referindo especialmente à elite intelectual, militar e política brasileira. Se estes não participaram diretamente do combate, não muda o fato de que o iniciaram. Como vimos, a ideologia corrente não aceitava a menor fagulha que representasse um retrocesso político. E devemos admitir que o incidente de Canudos, em seu auge, de fato abalou as estruturas da república imatura, se os rebeldes triunfassem, outros surgiriam pelo país e a secessão poder-se-ia tornar uma ameaça real. Portanto, para os republicanos, era imprescindível cortar o mal pela raiz.

Como citado por diversas vezes em Os Sertões, aquele conflito representava ou o fim prematuro da república, ou sua consolidação. Os rumores eram diversos; diziam que os conselheiristas eram patrocinados por nações estrangeiras ou que recebiam apoios de grupos monarquistas brasileiros. A informação extraoficial era de que Canudos recebia armas e contingentes de soldados que apoiavam a causa monarquista em detrimento da republicana. Para a mídia aliada do governo, esta era a única explicação plausível que justificasse as derrotas sucessivas do Exército Brasileiro no campo de batalha baiano.

A conjuntura política e social tornou-se cada vez mais exótica à história nacional. Emergiu-se de todo este processo “civilizatório” do governo o sentimento nacionalista típico de guerras entre nações. Toda pequena dissensão ou divergência transformava-se, consequentemente, em um crime de guerra para o público embevecido. Ao longo do país, intelectuais monarquistas foram ainda mais ostracizados culminando, assim, na vandalização à jornais monarquistas ainda em atividade. Nas cidades circunvizinhas ao cerco, os grupos de soldados que retornavam da guerra do fim do mundo causavam uma comoção geral, vista em poucos momentos no passado.

A cada momento que se passava, a guerra adquiria um caráter mais místico e, por maiores que fossem as proporções do conflito, cada evento tornava-se, aos olhos da opinião pública, mitológico. Segundo os combatentes republicanos, os soldados conselheiristas não podiam ser vistos, estavam encantados, eram protegidos por forças místicas. A própria cidade mostrava-se protegida sobrenaturalmente, porquanto parecia inconquistável, bem como seu líder, que até o momento de sua morte, também despertava este temor peculiar no inimigo.

Peremptoriamente, as vitórias dos oprimidos eram o fator mais importante para criar este estado de horror nos republicanos. As crenças, que segundo os positivistas, como vimos, eram características do estado teológico, inferiorizado, no período inicial da guerra ainda não causavam medo, pelo contrário, eram ridicularizadas. A doutrina conselheirista, dotada da mais franca simplicidade, confundia e ainda confunde todos aqueles que se debruçam a estudá-la, talvez por buscarem sentido e fundamentação em algo que, naturalmente, não deveria ter. Euclides da Cunha cita trechos de poesias comuns entre os sertanejos, e nestas, evidenciam-se algumas características das crenças deste povo. Entre estas, temos versos que lamentam o fim da monarquia, maldizem as novas leis, que seriam, com certo teor de verdade, do diabo. Consequentemente, segundo os versos, o Anti-Cristo instaurara-se por meio daquele governo amaldiçoado, não obstante, Antônio Conselheiro emergia como o Consolador, para de todo este mal livrar o povo.

O sucesso bélico de Canudos favoreceu, como dito anteriormente, a criação no imaginário de muitos soldados da figura mítica do sertanejo com quem lutavam, quase intangível, que por ser protegido sobrenaturalmente, não podia ser derrotado. Entretanto, já no segundo semestre de 1897, com a constante chegada de novas tropas republicanas, o conflito começou a se tornar desproporcional, visto que do outro lado, nenhuma renovação acontecia. E de fato, esta batalha desde seu início foi desproporcional. Os soldados possuíam um aparato bélico muito superior aos conselheiristas que lutavam com armas, na maioria dos casos, artesanais.

Com a intensificação do cerco, especialmente após a obscura morte de Antônio Conselheiro, toda esta mistificação em torno da cidade começou a cair por terra. Canudos, antes intransponível, agora não resistia ao que foi, nas palavras de Euclides da Cunha, o mais pobre dos saques que registra a História. E realmente o foi, não havia nada a se levar como espólios, apenas uma vingança ao que, no ponto de vista republicano, foi uma afronta à ordem política vigente.

E, a partir deste ponto, estava chegando em seu ápice o mais brutal massacre de nossa história. Testemunhas oculares relatavam que mesmo em condições de extrema desnutrição os seguidores de Antônio Conselheiro investiam em ataque, como verdadeiros mártires. De modo geral, tinham a convicção que o seu líder voltaria, milagrosamente, e daria a todos eles o triunfo sobre o inimigo.

Tal fato não ocorreu, pelo contrário, as baixas se tornaram cada vez maiores e mesmo aqueles que se rendiam, prestando reverências à república, eram covardemente assassinados. Os sertanejos, capturados ou rendidos, imploravam para morrer por armas de fogo, pois, de acordo com suas superstições, se fossem assassinados a “ferro frio” não se salvariam. Eram chacinados desta maneira, degolados, sem nenhuma possibilidade de defesa. Idosos, mulheres e crianças também foram vítimas do massacre da Gravata Vermelha, que dizimou mais de 15.000 mil pessoas, extinguindo, portanto, a cidade de Canudos.

Qualquer resquício daquele evento urgia ser ostracizado e por isso, toda a cidade foi destruída, as casas incendiadas, e os últimos resistentes também assassinados. Posteriormente, um açude foi projetado, e atualmente, cobre as ruínas da antiga cidade. Euclides da Cunha, em um célebre trecho de seu magnum opus, expõe o epílogo:

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados. (CUNHA, 2010, p.352)

A partir deste ponto, acreditava-se, a república brasileira poderia florescer verdadeiramente, sem entraves que a desvirtuasse do progresso geral que a humanidade tendia. Considerando que o incidente que abordamos seria esquecido, novas insurreições não aconteceriam novamente, pelo menos não na mesma proporção. Assim, portanto, a república brasileira seguiu, orgulhosa de perdurar através da hecatombe de milhares de seus filhos, embora cambiante, ainda idealizada até nossos dias, assim como foi pelos seus patronos.

 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AQUINO, Tomás de. Comentário ao Sobre a interpretação de Aristóteles. Vide Editorial, 2018

ARISTÓTELES. Da Interpretação. Editora Unesp, 2013.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Principis 2020.

CUNHA, Euclides da. Canudos e outros temas. Senado Federal, Conselho Editorial, 2003.

MILTON, Aristidides. A Campanha de Canudos. Senado Federal, Conselho Editorial, 2003.

MISES, Ludwig von. Ação Humana: Um tratado de Economia. Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

OURO PRETO, Visconde de. Advento da ditadura militar no Brasil. Senado Federal, Conselho Editorial, 2017.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Do Romantismo até nossos dias. Paulus, 1991.

ROTHBARD, Murray. Homem, Economia e Estado. Universidade Libertária.

SALDANHA, Nelson. História das Ideias Políticas no Brasil. Senado Federal, Conselho Editorial, 2001.

TORRES, João Camilo de Oliveira. O positivismo no Brasil. Edições Câmara, 2018.

VÉLEZ, Ricardo Rodríguez. Castilhismo: uma filosofia da República. Senado Federal, Conselho Editorial, 2000.

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom este artigo. Parabéns ao autor!

    “o positivismo atinge sua forma mais autoritária no Brasil através da doutrina política de Júlio de Castilhos”

    O positivismo é só uma coisa estética na vida do Julio de Castilhos. É como o socialismo para muito esquerdista de Iphone. O sujeito era apenas um psicopata, que costumava dizer que “inimigos não se poupa nem na vida nem nos bens”. Aqui em Porto Alegre tem um templo positivista em muitos boas condições, igual desde a construção, tanto interna quanqto externamente, pois é meio que conservado por uma mistura de invasores e admiradores fervorosos do positivismo. Conversando certa vez com os antigos, eles me disseram que o Castilhos jmais colocou os pés no Templo.