Capítulo I —  As forças motrizes do destrucionismo

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§.1
A natureza do destrucionismo

Para o socialista, a vinda do socialismo significa uma transição de uma economia irracional para uma economia racional. No socialismo, a gestão planejada da vida econômica toma o lugar da anarquia da produção; a sociedade, que é concebida como a encarnação da razão, toma o lugar dos objetivos conflitantes de indivíduos irracionais e egoístas. Uma distribuição justa substitui uma distribuição injusta de bens. A necessidade e a miséria desaparecem e há riqueza para todos. Uma imagem do paraíso se desdobra diante de nós, um paraíso que — assim nos dizem as leis da evolução histórica — nós, ou pelo menos nossos herdeiros, devemos finalmente herdar. Pois toda a história leva àquela terra prometida e tudo o que aconteceu no passado apenas preparou o caminho para a nossa salvação.

É assim que os nossos contemporâneos veem o socialismo e eles acreditam na sua excelência. É falso imaginar que a ideologia socialista domina apenas os partidos que se autodenominam socialistas ou — o que geralmente quer dizer a mesma coisa — “sociais”. Todos os partidos políticos atuais estão saturados com as principais ideias socialistas. Mesmo os mais fortes oponentes do socialismo caem em sua sombra. Eles também estão convencidos de que a economia socialista é mais racional do que a capitalista, que garante uma distribuição mais justa da renda, que a evolução histórica está levando o homem inexoravelmente nessa direção. Quando se opõem ao socialismo, fazem-no com o sentido de que estão defendendo interesses privados egoístas e que estão lutando contra um desenvolvimento que, do ponto de vista do bem-estar público, é desejável e é baseado no único princípio eticamente aceitável. E em seus corações eles estão convencidos de que sua resistência é inútil.

No entanto, a ideia socialista nada mais é do que uma racionalização grandiosa de ressentimentos mesquinhos. Nenhuma de suas teorias pode resistir à crítica científica e todas as suas deduções são mal fundadas. Sua concepção da economia capitalista há muito foi considerada falsa; seu plano de uma ordem social futura mostra-se interiormente contraditório e, portanto, impraticável. O socialismo não apenas falharia em tornar a vida econômica mais racional, mas também aboliria a cooperação social de uma vez. Que ele traria justiça é meramente uma afirmação arbitrária, decorrente, como podemos mostrar, do ressentimento e da falsa interpretação do que ocorre no capitalismo. E essa evolução histórica não nos deixa alternativa, mas o socialismo acaba sendo uma profecia que difere dos sonhos quiliásticos dos sectários cristãos primitivos apenas em sua reivindicação ao título de “ciência”.

Na verdade, o socialismo não é o que pretende ser. Não é o pioneiro de um mundo melhor e mais refinado, mas o destruidor do que milhares de anos de civilização criaram. Ele não constrói; ele destrói. Pois a destruição é a sua essência. Não produz nada, apenas consome o que a ordem social baseada na propriedade privada dos meios de produção criou. Visto que uma ordem socialista da sociedade não pode existir, a menos que seja como um fragmento do socialismo dentro de uma ordem econômica baseada na propriedade privada, cada passo que conduz ao socialismo precisa se exaurir na destruição do que já existe.

Tal diretiva de destrucionismo significa o consumo de capital. Existem poucos que reconhecem esse fato. O consumo de capital pode ser detectado estatisticamente e pode ser concebido intelectualmente, mas não é óbvio para todos. Ver a fraqueza de uma diretiva que aumenta o consumo das massas às custas da riqueza de capital existente e, assim, sacrifica o futuro pelo presente e reconhecer a natureza dessa política requer uma visão mais profunda do que a concedida a estatistas e políticos ou para as massas que os colocaram no poder. Enquanto as paredes dos prédios das fábricas permanecerem de pé e os trens continuarem funcionando, supõe-se que tudo está bem no mundo. As crescentes dificuldades em manter um padrão de vida mais elevado são atribuídas a várias causas, mas nunca ao fato de que uma diretiva de consumo de capital está sendo seguida.

No problema do consumo de capital de uma sociedade destrucionista encontramos um dos principais problemas da diretiva econômica socialista. O perigo do consumo de capital seria particularmente grande na comunidade socialista; o demagogo alcançaria o sucesso mais facilmente ao aumentar o consumo per capita às custas da formação de capital adicional e em detrimento do capital existente.

É da natureza da sociedade capitalista que um novo capital esteja continuamente sendo formado. Quanto maior se torna o fundo de capital, mais se aumenta a produtividade marginal do trabalho e maiores são os salários absolutos e relativos. A formação progressiva de capital é a única forma de aumentar a quantidade de bens que a sociedade pode consumir anualmente sem diminuir a produção no futuro — a única forma de aumentar o consumo dos trabalhadores sem prejuízo para as futuras gerações de trabalhadores. Portanto, foi estabelecido pelo liberalismo que a formação progressiva de capital é o único meio pelo qual a posição das grandes massas pode ser permanentemente melhorada. O socialismo e o destrucionismo buscam atingir esse fim de uma maneira diferente. Eles se propõem a usar o capital para alcançar a riqueza presente em detrimento do futuro. A diretiva do liberalismo é o procedimento do pai prudente que poupa e constrói para si e para seus sucessores. A diretiva do destrucionismo é a diretiva do perdulário que dissipa sua herança, sem ligar para o futuro.

§.2
Demagogia

Para os marxistas, a conquista suprema de Karl Marx reside no fato de ele ter despertado o proletariado para a consciência de classe. Antes de ele escrever, as ideias socialistas mal tinham existência acadêmica nos escritos dos utópicos e nos pequenos círculos de seus discípulos. Ao conectar essas ideias com um movimento operário revolucionário que até então tinha apenas um objetivo pequeno-burguês, Marx criou, dizem os marxistas, as bases do movimento do proletariado. Esse movimento, eles acreditam, viverá até que ele cumpra sua missão histórica, o estabelecimento da ordem socialista da sociedade.

Supõe-se que Marx tenha descoberto as leis dinâmicas da sociedade capitalista e, com o auxílio da teoria da evolução histórica, tenha definido os objetivos do movimento social moderno como consequências inevitáveis dessa evolução. Diz-se que ele mostrou que o proletariado só poderia se libertar como classe abolindo o conflito de classes e, assim, tornando possível uma sociedade em que “o livre desenvolvimento de cada indivíduo é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.

Entusiastas extáticos veem em Marx uma das figuras heroicas da história mundial e o classificam entre os grandes economistas e sociólogos, mesmo entre os mais eminentes filósofos. O observador imparcial vê a obra de Karl Marx com outros olhos. Como economista, Marx carecia totalmente de originalidade. Ele era um seguidor dos economistas políticos clássicos, mas não tinha a capacidade de abordar problemas essencialmente econômicos sem um viés político. Ele viu tudo através dos óculos do agitador, que considera antes de mais nada o efeito causado na mente popular. Mesmo aqui, ele não era realmente original, pois os socialistas ingleses defensores do Direito à Plena Produção do Trabalho, que com seus panfletos na terceira e na quarta década do século XIX prepararam o caminho para o Cartismo, já o haviam antecipado em todos os pontos essenciais. Além disso, ele teve a infelicidade de ignorar totalmente a revolução na economia teórica que estava ocorrendo durante os anos em que ele elaborou seu sistema, uma transformação que se deu a conhecer logo após a edição do primeiro volume de O Capital. Como resultado, os volumes posteriores de O Capital, desde o dia em que foram publicados, estavam totalmente fora de contato com a ciência moderna. Esse foi um azar que atingiu seus apaixonados seguidores de maneira particularmente forte. Desde o início, eles tiveram de se contentar com exposições estéreis dos escritos do mestre. Eles evitam timidamente qualquer contato com a moderna teoria do valor. Como sociólogo e filósofo histórico, Marx nunca foi mais do que um agitador capaz, escrevendo para as necessidades diárias de seu partido. A concepção materialista da história é cientificamente sem valor; além disso, Marx nunca a elaborou com exatidão, mas a apresentou em várias formas incompatíveis. Seu ponto de vista filosófico era o dos hegelianos. Ele é um dos muitos escritores de seu tempo, agora quase todos esquecidos, que aplicou o método dialético a todos os campos da ciência. Décadas tiveram de passar antes que as pessoas tivessem coragem de chamá-lo de filósofo e colocá-lo ao lado dos grandes pensadores.

Como escritor científico, Marx era seco, pedante e pesado. O dom de se expressar inteligentemente foi negado a ele. Só em seus escritos políticos ele produz efeitos poderosos, e estes apenas por meio de antíteses deslumbrantes e de frases fáceis de lembrar, frases que, pelo jogo de palavras, escondem seu próprio vazio. Em sua polêmica, ele não hesita em distorcer o que seu próprio oponente disse. Em vez de refutar, ele tende a debochar.[1] Aqui, também, seus discípulos (sua escola realmente existe apenas na Grécia e na Europa Oriental, especialmente na Rússia) imitaram fielmente o exemplo do mestre, insultando seus oponentes, mas nunca tentando refutá-los por meio de argumentos.

A originalidade e a significância histórica de Marx residem inteiramente no campo da técnica política. Ele reconhece o imenso poder social que pode ser alcançado pela soldagem das grandes massas de trabalhadores, reunidas em oficinas, um fator político; e ele procura e encontra os slogans para unir essas massas em um movimento coerente. Ele produz a palavra de ordem que leva as pessoas indiferentes à política a atacar a propriedade privada. Ele prega uma doutrina de salvação que racionaliza seu ressentimento e transfigura sua inveja e desejo de vingança em uma missão ordenada pela história mundial. Ele os inspira com a consciência de sua missão, saudando-os como aqueles que carregam em si o futuro da raça humana. A rápida expansão do socialismo foi comparada à do cristianismo. Mais apropriada, talvez, seria uma comparação com o Islã, que inspirou os filhos do deserto a devastar civilizações antigas, disfarçou sua fúria destrutiva com uma ideologia ética e reforçou sua coragem com fatalismo rígido.[2]

No cerne do marxismo está a doutrina da identidade de interesses de todos os proletários. Como indivíduo, entretanto, o trabalhador está diariamente em agudo conflito competitivo com seus colegas de trabalho e com aqueles que estão prontos para lhe tirar o emprego; junto com seus próprios camaradas em seu próprio ofício, ele compete com trabalhadores de outros ramos do comércio e com os consumidores dos produtos em cuja produção colabora. Diante de todos esses fatos, todas as suas paixões tiveram de ser despertadas para induzi-lo a buscar sua salvação na união com outros trabalhadores. Mas isso não era tão difícil; sempre vale a pena despertar o que é mau no coração humano. No entanto, Marx fez mais: ele enfeitou o ressentimento do homem comum com o nimbo da ciência, e assim o tornou atraente para aqueles que vivem em um plano intelectual e ético superior. Todo movimento socialista pegou emprestado esse aspecto de Marx, adaptando ligeiramente a doutrina para suas necessidades especiais.

Como um mestre da técnica demagógica, Marx era um gênio; isso não pode ser suficientemente enfatizado. Ele encontrou o momento histórico propício para unir as massas em um único movimento político e estava ele mesmo no local para liderar esse movimento. Para ele, toda política era apenas a continuação da guerra por outros meios; sua arte política sempre foi tática política. Os partidos socialistas cujas origens remontam a Marx mantiveram isso, assim como aqueles que tomaram os partidos marxistas como modelo. Eles elaboraram a técnica de agitação, a cadência de votos e de almas, o despertar da agitação eleitoral, as manifestações de rua e o terrorismo. Aprender a técnica dessas coisas requer anos de estudo árduo. Em suas conferências partidárias e em sua literatura partidária, os marxistas dão mais atenção às questões de organização e tática do que aos problemas básicos mais importantes da política. Na verdade, se quiséssemos ser mais precisos, teríamos de admitir que nada lhes interessa, exceto do ponto de vista da tática partidária, e que eles não têm interesse em poupar para outra coisa.

Essa atitude militarista em relação à política que revela a afinidade íntima do marxismo com o estatismo prussiano e russo, rapidamente encontrou adeptos. Os partidos modernos do continente europeu aceitaram completamente a ideologia marxista. Especialmente os partidos que visam promover interesses particulares e que reúnem a classe camponesa, a classe média industrial e a classe dos trabalhadores, fazem uso da doutrina marxista da luta de classes para seus próprios fins. Eles aprenderam tudo o que sabem com o marxismo.

A derrota da ideologia liberal não poderia ser adiada por muito tempo. O liberalismo evitou ansiosamente todo artifício político. Confiou inteiramente na vitalidade interior de suas ideias e em seu poder de convencer, e desdenhou todos os outros meios de conflito político. Nunca perseguiu táticas políticas, nunca se rebaixou à demagogia. O antigo liberalismo era totalmente honesto e fiel aos seus princípios. Seus oponentes chamam isso de ser “doutrinário”. Hoje, os antigos princípios liberais devem ser submetidos a um completo reexame. A ciência foi completamente transformada nos últimos cem anos, e hoje os fundamentos sociológicos e econômicos gerais da doutrina liberal têm de ser relançados. Em muitas questões, o liberalismo não pensou logicamente até a conclusão. Existem fios soltos a serem reunidos.[3] Mas o modo de atividade política do liberalismo não pode mudar. Ele considera toda cooperação social como uma emanação de utilidade racionalmente reconhecida, na qual todo poder é baseado na opinião pública e não pode empreender nenhum curso de ação que possa impedir a livre decisão dos homens pensantes. O liberalismo sabe que a sociedade pode avançar para um estágio superior apenas quando os homens reconhecem a utilidade da cooperação social; que nem Deus nem o destino velado determinam o futuro da raça humana, mas apenas o próprio homem. Quando as nações correm cegamente para a destruição, o liberalismo precisa tentar esclarecê-las. Mas mesmo que não ouçam, seja porque são surdos, seja porque a voz de advertência é muito débil, não se deve tentar seduzi-los para o modo correto de conduta por meio de artifícios táticos e demagógicos. Pode ser possível destruir a sociedade pela demagogia. Mas ela nunca pode ser construída por esse meio.

§.3
O destrucionismo do literato

A arte romântica e social do século XIX preparou o caminho para o destrucionismo socialista. Sem a ajuda que obteve dessa direção, o socialismo nunca teria conquistado o espírito das pessoas.

O romantismo é a revolta do homem contra a razão, tanto quanto uma revolta contra a condição sob a qual a natureza o obrigou a viver. O romântico é aquele que sonha acordado; ele facilmente consegue, na imaginação, desconsiderar as leis da lógica e da natureza. O homem pensante e que age racionalmente tenta se livrar do desconforto das necessidades insatisfeitas pela ação econômica e pelo trabalho; ele produz para melhorar sua posição. O romântico é fraco demais — neurastênico demais para trabalhar; ele imagina os prazeres do sucesso, mas nada faz para alcançá-los. Ele não remove os obstáculos, apenas os remove na imaginação. Ele tem rancor da realidade porque não é como o mundo dos sonhos que ele criou. Ele odeia o trabalho, a economia e a razão.

O romântico dá por garantidos todos os presentes de uma civilização social e deseja, além disso, tudo de bom e belo que, segundo ele, tempos e países longínquos tiveram ou têm a oferecer. Cercado pelos confortos da vida urbana europeia, ele deseja ser um rajá, beduíno, corsário ou trovador indiano. Mas ele vê apenas aquela parte da vida dessas pessoas que parece agradável para ele, nunca a falta deles das coisas que ele obtém em tal abundância. Seus cavaleiros galopam pelas planícies em corcéis de fogo, seus corsários capturam belas mulheres, seus soldados a cavalo vencem seus inimigos entre episódios de amor e melodias. A natureza perigosa da existência deles, a pobreza relativa de suas circunstâncias, suas misérias e suas labutas — essas coisas a sua imaginação cuidadosamente negligencia: tudo é transfigurado por um brilho róseo. Comparada com esse ideal de sonho, a realidade parece árida e superficial. Existem obstáculos a superar que não existem no sonho. Existem tarefas muito diferentes a serem realizadas. Aqui não há mulheres bonitas para serem resgatadas das mãos de ladrões, nem tesouros perdidos para serem encontrados, nem dragões para matar. Aqui há trabalho a ser feito, incessantemente, assiduamente, dia após dia, ano após ano. Aqui, precisa-se arar e semear se quisermos colher. O romântico não quer admitir tudo isso. Obstinado como criança, ele se recusa a reconhecer isso. Ele debocha e zomba; ele despreza e odeia o burguês.

A disseminação do pensamento capitalista produziu uma atitude mental hostil ao Romantismo. As figuras poéticas dos cavaleiros e dos piratas tornam-se objetos de alegre deleite. Agora que as vidas de beduínos, marajás, piratas e outros heróis românticos foram observadas de perto, qualquer desejo de imitá-los desapareceu. As conquistas da ordem social capitalista tornavam bom estar vivo e havia um sentimento crescente de que segurança de vida e liberdade, bem-estar pacífico e satisfação mais rica de necessidades só poderiam ser esperadas do capitalismo. O desprezo romântico pelo que é burguês transformou-se em descrédito.

Mas a atitude mental da qual o Romantismo surgiu não foi tão fácil de erradicar. O protesto neurastênico contra a vida buscou outras formas de expressão. Ele o encontrou na arte “social” do século XIX.

Os poetas e romancistas realmente bons do período não eram escritores propagandistas sociopolíticos. Flaubert, Maupassant, Jacobsen, Strindberg, Konrad Ferdinand Meyer, para citar apenas alguns, estavam longe de ser seguidores da literatura da moda. Não devemos a descrição desses problemas sociais e políticos aos escritores cujas obras deram ao século XIX seu lugar duradouro na história da literatura. Essa foi a tarefa assumida por escritores de segunda ou terceira categoria. Foram escritores dessa classe que introduziram como figuras literárias o empresário capitalista sanguessuga e o nobre proletário. Para eles, o rico está errado porque é rico, e o pobre está certo porque é pobre.[4] “Mas isso é como se a riqueza fosse um crime”, Gerhart Hauptmann faz Frau Dreissiger exclamar em Die Weber. A literatura desse período está cheia de condenações à propriedade.

Esse não é o lugar para uma análise estética dessas obras; nossa tarefa é examinar seus efeitos políticos. Eles trouxeram a vitória ao socialismo ao conquistar a lealdade das classes educadas. Por meio desses livros, o socialismo foi levado às casas dos ricos, cativando as esposas e filhas e fazendo com que os filhos se afastassem dos negócios da família até que finalmente o próprio empreendedor capitalista começou a acreditar na baixeza de suas atividades. Banqueiros, chefes da indústria e mercadores encheram os camarotes dos teatros em que peças de tendência socialista eram apresentadas a plateias entusiasmadas.

A arte social é uma arte tendenciosa: toda literatura social tem uma tese a demonstrar.[5] É sempre a mesma tese: o capitalismo é um mal, o socialismo é a salvação. Que tal repetição eterna não levou ao tédio mais cedo precisa ser atribuído apenas ao fato de que os vários escritores tiveram em mente formas diferentes de socialismo. Mas todos eles seguem o exemplo de Marx em evitar a exposição detalhada da ordem socialista que eles elogiam; a maioria deles apenas indica por alusão, embora com bastante clareza, que desejam uma ordem socialista. Que a lógica de seu argumento é inadequada e que as conclusões são conduzidas mais por um apelo às emoções do que à razão dificilmente surpreende, visto que o mesmo método é seguido por autoridades científicas soi-disant no socialismo. A ficção é o veículo preferido para esse tipo de procedimento, pois há pouco medo de que alguém tente refutar suas afirmações em detalhes por meio de uma crítica lógica. Não é costume questionar sobre a exatidão de observações particulares em romances e peças de teatro. Mesmo se fosse, o autor ainda poderia encontrar uma saída negando a responsabilidade por palavras específicas colocadas na boca de um herói. As conclusões forçadas pelo desenho de personagens não podem ser invalidadas pela lógica. Mesmo que o “homem de propriedade” seja sempre descrito como mau por completo, não se pode censurar o autor por causa de um exemplo simples. Pelo efeito total da literatura de sua época, nenhum escritor sozinho é responsável.

Em Hard Times Dickens coloca na boca de Sissy Jupe, a filha abandonada de um palhaço de circo e dançarino, observações destinadas a quebrar o utilitarismo e o liberalismo. Ele faz o Sr. M’Choackumchild, professor na escola capitalista modelo de Benthamite Gradgrind, perguntar quão grande é a porcentagem de vítimas quando, de 100.000 viajantes marítimos, 500 são afogados. A boa criança responde que para os parentes e amigos das vítimas não há porcentagem — e assim condena com serena simplicidade a autocomplacência do manchesterismo. Deixando de lado a improbabilidade rebuscada da cena, tudo isso é claro e comovente, mas não diminui a satisfação que os membros de uma comunidade capitalista podem sentir quando contemplam a grande redução dos perigos da navegação sob o capitalismo. E se o capitalismo planejou que de 1.000.000 de pessoas apenas vinte e cinco morrem de fome a cada ano, enquanto em sistemas econômicos mais antigos uma proporção muito maior morria de fome, então nossa estimativa dessa conquista não é prejudicada pela banalidade de Sissy, que para aqueles que passam fome a provação é igualmente amarga, quer um milhão ou milhões de outras pessoas morram de fome ao mesmo tempo ou não. Além disso, a nós nem uma prova é fornecida de que em uma sociedade socialista menos pessoas morreriam de fome. A terceira observação que Dickens coloca na boca de Sissy visa mostrar que não se pode julgar a prosperidade econômica de uma nação pela quantia de sua riqueza, mas precisa-se considerar também a distribuição dessa riqueza. Dickens era muito ignorante dos escritos dos utilitaristas para saber que essas visões não contradiziam o antigo utilitarismo. Bentham, particularmente, sustentou com ênfase especial que uma soma de riqueza traz mais felicidade quando é distribuída uniformemente do que quando é distribuída de forma a dotar alguns ricamente enquanto outros têm pouco.[6]

A contraparte de Sissy é o menino modelo, Bitzer. Ele leva sua mãe para o asilo e então se contenta em dar a ela meia libra de chá uma vez por ano. Até mesmo isso, diz Dickens, é uma fraqueza do admirável jovem, a quem ele chama de excelente jovem economista. Por um lado, toda esmola tende inevitavelmente a empobrecer o destinatário. Além disso, a única ação racional de Bitzer com relação ao chá teria sido comprar o mais barato e vendê-lo tão caro quanto possível. Os filósofos não demonstraram que nisso consiste todo o dever do homem (o todo, não uma parte de seu dever)? Milhões de pessoas que leram essas observações fingiram indignação pela vileza do pensamento utilitário que o autor pretendia que sentissem. No entanto, eles são bastante injustos. É verdade que os políticos liberais têm lutado contra o incentivo dos mendigos por meio da esmola indiscriminada e têm mostrado a futilidade de qualquer tentativa de melhorar a situação dos pobres que não prossiga aumentando a produtividade do trabalho. Eles expuseram para os próprios proletários o perigo das propostas de aumento da taxa de natalidade por meio de casamentos prematuros entre pessoas que não estão em condições de cuidar de seus filhos. Mas eles nunca protestaram contra o apoio através da Lei dos Pobres de pessoas que não podem trabalhar, nem contestaram o dever moral dos filhos de sustentar seus pais na velhice. A filosofia social liberal nunca disse que era um “dever”, muito menos o início e o fim da moralidade, comprar o mais barato possível e vender o mais caro possível. Ela mostrou que esse é o comportamento racional do indivíduo que busca (comprando e vendendo) os meios para a satisfação indireta de suas vontades. Mas o liberalismo não mais chamou de irracional dar chá para a mãe idosa do que disse que beber chá em si era irracional.

Uma olhada nas obras dos utilitaristas é suficiente para desmascarar essas distorções sofísticas. Mas dificilmente há um em cada cem mil leitores de Dickens que já leu uma linha de um escritor utilitarista. Dickens, com outros românticos menos talentosos como contadores de histórias, mas seguindo as mesmas tendências, ensinou milhões a odiar o liberalismo e o capitalismo. E, no entanto, Dickens não era um campeão aberto e direto do destrucionismo, não mais do que William Morris, Shaw, Wells, Zola, Anatole France, Gerhart Hauptmann, Edmondo de Amicis e muitos outros. Todos eles rejeitam a ordem social capitalista e combatem a propriedade privada dos meios de produção, talvez sem estarem sempre conscientes disso. Nas entrelinhas, eles sugerem uma figuração inspirante de um melhor estado de coisas social e economicamente. Eles estão recrutando agentes para o socialismo e, como o socialismo precisa destruir a sociedade, estão ao mesmo tempo abrindo caminho para o destrucionismo. Mas assim como o socialismo político tornou-se finalmente, no bolchevismo, uma confissão aberta de destrucionismo, o mesmo aconteceu com o socialismo literário. Tolstoi é o grande profeta de um destrucionismo que remonta às palavras dos Evangelhos. Ele faz os ensinamentos de Cristo, que se apoiavam na crença de que o Reino de Deus era iminente; um evangelho para todos os tempos e todos os homens. Como as seitas comunistas da Idade Média e da Reforma, ele tenta construir a sociedade com base nas ordens do Sermão da Montanha. É claro que ele não vai tão longe a ponto de aceitar literalmente a exortação de seguir o exemplo dos lírios do campo, que não labutam. Mas em seu ideal de sociedade só há lugar para agricultores autossuficientes que, com meios modestos, cultivam um pequeno pedaço de terra, e ele é lógico o suficiente para exigir que tudo o mais seja destruído.

E agora os povos que saudaram com o maior entusiasmo tais escritos, que clamam pela destruição de todos os valores culturais, estão eles próprios à beira de uma grande catástrofe social.

 

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Notas

[1]              Veja, por exemplo, as observações sobre Bentham em O Capital: “a mais caseira banalidade”, “apenas copiado estupidamente”, “lixo”, “um gênio da estupidez burguesa” (op. cit., Vol. I, p. 573) sobre Malthus, “um plágio superficial e clericalmente afetado de estudante” (Ibid., Vol. I, p. 580).

[2]              Assim, o marxismo acha fácil aliar-se ao zelotismo islâmico. Cheio de orgulho o marxista Otto Bauer grita: “No Turquestão e no Azerbaijão, monumentos a Marx ficam opostos às mesquitas, e o Mulá na Pérsia mistura citações de Marx com passagens do Alcorão quando ele inclui o povo na Guerra Santa contra os europeus imperialistas.” Veja Otto Bauer, Marx als Mahnung (Der Kampf, XVI, 1923, p. 83).

[3]              Veja meu “Liberalismus”, Jena 1927.

[4]              Cazamian, Le roman social en Angleterre (1830-50), Paris 1904, p. 267 et seq.

[5]              Sobre a tendência socialista na pintura veja Muther, Geschichte der Malerie im 19; Jahrhundert, München 1893, Vol. II, p. 186 et seq.; Coulin, Die sozialistische Weltanschauung in der französischen Malerei, Leipzig 1909, p. 85 et seq.

[6]              Bentham, Principles of the Civil Code, p. 304 et seq.

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.