Capítulo VI — Ética capitalista

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§.1
Ética capitalista e a impraticabilidade do socialismo

Nas exposições do Socialismo Ético, encontra-se constantemente a afirmação de que ele pressupõe a purificação moral dos homens. Enquanto não conseguirmos elevar moralmente as massas, não poderemos transferir a ordem socialista da sociedade da esfera das ideias para a da realidade. As dificuldades no caminho do socialismo residem exclusivamente, ou predominantemente, nas deficiências morais dos homens. Alguns escritores duvidam que esse obstáculo algum dia seja superado; outros se contentam em dizer que o mundo não será capaz de alcançar o socialismo no presente ou no futuro imediato.

Pudemos mostrar por que a economia socialista é impraticável: não porque os homens sejam moralmente mesquinhos, mas porque os problemas que uma ordem socialista teria para resolver apresentam dificuldades intelectuais insuperáveis. A impraticabilidade do socialismo é o resultado da incapacidade intelectual, não moral. O socialismo não pôde alcançar seu fim, porque uma economia socialista não podia calcular o valor. Mesmo os anjos, se fossem dotados apenas de razão humana, não poderiam formar uma comunidade socialista.

Se uma comunidade socialista fosse capaz de realizar o cálculo econômico, ela poderia ser estabelecida sem qualquer mudança no caráter moral dos homens. Em uma sociedade socialista, padrões éticos diferentes prevaleceriam daqueles de uma sociedade baseada na propriedade privada dos meios de produção. Os sacrifícios temporários exigidos do indivíduo pela sociedade seriam diferentes. No entanto, não seria mais difícil fazer cumprir o código de moral socialista do que o é fazer cumprir o código de moral capitalista, se houvesse qualquer possibilidade de fazer cálculos objetivos dentro da sociedade socialista. Se uma sociedade socialista pudesse determinar separadamente o produto do trabalho de cada membro da sociedade, sua participação no produto social poderia ser calculada e sua recompensa fixada proporcionalmente à sua contribuição produtiva. Sob tais circunstâncias, a ordem socialista não teria motivo para temer que um camarada deixasse de trabalhar com o máximo de energia por falta de qualquer incentivo para adoçar o trabalho árduo. Só porque falta essa condição, o socialismo terá de construir para sua utopia uma espécie de ser humano totalmente diferente da raça que agora caminha pela terra, para quem o trabalho não é labuta e dor, mas alegria e prazer. Porque tal cálculo está fora de questão, o socialista utópico é obrigado a fazer exigências aos homens que são diametralmente opostas à natureza. Essa inadequação do tipo humano que causaria o colapso do socialismo pode parecer ser de uma ordem moral; em um exame mais detalhado, revela-se uma questão de intelecto.

§.2
Os alegados defeitos da ética capitalista

Agir razoavelmente significa sacrificar o menos importante pelo mais importante. Fazemos sacrifícios temporários quando desistimos de coisas pequenas para obter coisas maiores, como quando deixamos de nos entregar ao álcool para evitar seus efeitos colaterais fisiológicos. Os homens se submetem ao esforço do trabalho para não morrer de fome.

Comportamento moral é o nome que damos aos sacrifícios temporários feitos no interesse da cooperação social, que é o principal meio pelo qual as necessidades humanas e a vida humana em geral podem ser supridas. Todas as éticas são éticas sociais. (Se fosse afirmado que o comportamento racional, direcionado apenas para o benefício próprio, deveria ser chamado de ético também, e que nós teríamos de lidar com a ética individual e com os deveres para consigo mesmo, não poderíamos contestá-lo; na verdade, esse modo de expressão talvez enfatize melhor do que o nosso, que em última análise a higiene do indivíduo e a ética social se baseiam no mesmo raciocínio.) Comportar-se moralmente significa sacrificar o menos importante pelo mais importante, ao fazer possível a cooperação social.

O defeito fundamental da maioria dos sistemas éticos antiutilitaristas reside na má interpretação do significado dos sacrifícios temporários que o dever exige. Eles não veem o propósito do sacrifício e da renúncia ao prazer, e constroem a hipótese absurda de que o sacrifício e a renúncia são moralmente valiosos em si mesmos. Eles elevam o altruísmo e o autossacrifício e o amor e compaixão, que levam a eles, a valores morais absolutos. A dor que a princípio acompanha o sacrifício é definida como moral porque é dolorosa — o que está muito perto de afirmar que toda ação dolorosa para o performador é moral.

A partir da descoberta dessa confusão, podemos ver por que vários sentimentos e ações que são socialmente neutros ou mesmo prejudiciais passam a ser chamados de morais. É claro que mesmo um raciocínio desse tipo não pode evitar o retorno furtivo às ideias utilitárias. Se não estivermos dispostos a elogiar a compaixão de um médico que hesita em realizar uma operação de salvar uma vida com base que ele, desse modo, salva a dor do paciente e distingue, portanto, entre a verdadeira e a falsa compaixão, reintroduzimos a consideração teleológica do propósito que nós tentamos evitar. Se louvarmos a ação altruísta, o bem-estar humano, como propósito, não pode ser excluído. Surge assim um utilitarismo negativo: devemos considerar como moral aquilo que beneficia, não a pessoa que age, mas os outros. Foi estabelecido um ideal ético que não pode ser encaixado no mundo em que vivemos. Portanto, tendo condenado a sociedade construída no “interesse próprio”, o moralista passa a construir uma sociedade na qual os seres humanos sejam o que seu ideal exige. Ele começa entendendo mal o mundo e suas leis; ele então deseja construir um mundo correspondente às suas falsas teorias, e ele chama isso de estabelecimento de um ideal moral.

O homem não é mau apenas porque deseja desfrutar do prazer e evitar a dor — em outras palavras, viver. Renúncia, abnegação e autossacrifício não são bons em si mesmos. Condenar a ética exigida pela vida social sob o capitalismo e estabelecer, em seu lugar, padrões de comportamento moral que — pensa-se — podem ser adotados sob o socialismo é um procedimento puramente arbitrário.

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.