Capítulo II — A concentração de establishments

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§1
A concentração dos establishments como um complemento para a divisão de trabalho

A concentração dos estabelecimentos é dada com a divisão do trabalho. Na oficina do sapateiro a produção de sapatos, anteriormente realizada em cada casa individual, é reunida em um único estabelecimento. A vila dos sapateiros, a oficina de sapatos se torna o centro de manufatura para uma área extensa. A fábrica de sapatos que é organizada pela produção em massa de sapatos representa uma união ainda maior de estabelecimentos, e o princípio básico de sua organização interna é, de um lado, a divisão do trabalho e, do outro, a concentração de trabalho similar em departamentos especiais. Numa palavra, quanto mais o trabalho é separado, mais os trabalhos similares precisam ser concentrados.

Nem dos resultados do censo realizado em diversos países para verificar a doutrina da concentração de unidades produtivas, e nem de outras evidências estatísticas de mudanças no número de estabelecimentos, podemos aprender tudo o que há para ser conhecido sobre eles. O que aparece nessas enumerações como uma unidade é sempre, de certa forma, uma unidade de negócios, e não uma unidade de produção. Somente em certos casos essas investigações contam separadamente trabalhos que, enquanto unidos em localidade, são conduzidos separadamente dentro de uma única empresa. A concepção do estabelecimento e sua evolução há de ser elaborada de um ponto de vista que não aquele que se baseia em estatísticas de trocas.

A alta produtividade da divisão do trabalho resulta, acima de tudo, da especialização do processo que a torna possível. Quanto mais frequentemente um processo tem de ser repetido, mais a instalação de uma ferramenta especificamente adaptada vale a pena. A repartição do trabalho vai mais longe do que a especialização das ocupações ou, pelo menos, do que a especialização dos empreendimentos. Na fábrica de sapatos, sapatos são produzidos por diversos processos parciais. É bastante concebível que cada parte do processo deva ocorrer em um estabelecimento especial e em um empreendimento especial. De fato, há fábricas que fazem apenas partes dos sapatos e as ofertam  às fábricas de sapatos. Mesmo assim, nós normalmente consideramos como uma unidade produtiva a soma dos processos parciais combinados em uma única fábrica de sapatos que produz ela mesma todas as partes componentes dos sapatos. Se à fábrica de sapatos também é adicionada uma fábrica de couro ou um departamento para a produção das caixas nas quais os sapatos são embalados, nós falamos da união de diversas unidades produtivas para um empreendimento comum. Essa é uma distinção puramente histórica que nem circunstâncias técnicas da produção nem as peculiaridades do empreendimento de negócios bastam em si mesmas para explicar.

Quando nós entendemos como um estabelecimento aquela totalidade do processo envolvida em uma atividade econômica que os homens de negócios entendem como uma unidade, precisamos lembrar que essa unidade não é de forma alguma uma coisa indivisível. Cada unidade produtiva é, ela mesma, composta de processos técnicos já horizontal e verticalmente combinados. O conceito de um estabelecimento, portanto, é econômico, e não técnico. Sua delimitação em casos individuais é determinada por considerações econômicas, e não por considerações técnicas.

O tamanho da unidade produtiva é determinado pela qualidade complementar dos fatores de produção. O objetivo é a combinação ótima desses fatores, i.e., aquela combinação pela qual o maior retorno possível pode ser economicamente produzido. O desenvolvimento econômico leva a indústria para divisões do trabalho cada vez maiores, envolvendo de uma vez um aumento no tamanho e uma limitação no escopo da unidade de produção. O tamanho atual da unidade de produção é o resultado da interação dessas duas forças.

§2
O tamanho ótimo dos establishments na produção primária e no transporte

A lei da proporcionalidade na combinação dos fatores da produção foi primeiramente formulada na conexão com a produção agrícola, como a Lei dos Retornos Decrescentes. Por um longo tempo, seu caráter geral foi mal-entendido, e a lei foi entendida como uma técnica agrícola. Foi contrastada com a Lei dos Retornos Crescentes, que foi pensada ser válida para a produção industrial. Esses erros foram, desde então, corrigidos.[1]

A Lei da Combinação Ótima dos fatores de produção indica o tamanho mais lucrativo para o estabelecimento. A rede de lucros é maior de acordo com o grau  ao qual seu tamanho permite que todos os fatores de produção sejam empregados sem resíduos. Só desta forma se pode estimar a superioridade que o tamanho de um estabelecimento particular tem sobre outro estabelecimento — no dado nível de técnica produtiva. Foi um erro pensar que o aumento dos estabelecimentos industriais precisa sempre levar a uma economia de custos, erro de que Marx e sua escola são culpados, apesar de afirmações ocasionais traírem o fato de que ele reconheceu o verdadeiro estado das coisas. Também aqui há um limite para além do qual o aumento do estabelecimento não resulta em uma aplicação mais econômica dos fatores de produção. Em princípio, o mesmo pode ser dito da agricultura e da mineração; os dados concretos apenas diferem. São meramente certas particularidades das condições da produção agrícola que fazem-nos considerar a Lei dos Retornos Decrescentes como primariamente afetando a terra.

A concentração de estabelecimentos é primariamente uma concentração no espaço. Como a terra usável para agricultura e silvicultura se estende no espaço, todo esforço para ampliar os estabelecimentos aumentam as dificuldades advindas da distância. Portanto, um teto é delimitado para o tamanho das unidades de exploração agrícola. Porque agricultura e silvicultura se estendem no espaço, é possível concentrar seus estabelecimentos somente até certo ponto. É supérfluo entrar na questão — frequentemente levantada na discussão desse problema — de se a produção de larga ou de pequena escala é a mais econômica na agricultura. Isso não tem nada a ver com a Lei da Concentração dos Estabelecimentos. Mesmo supondo que a produção de larga escala é superior, não se pode negar que não há dúvida sobre uma Lei da Concentração dos Estabelecimentos na agricultura ou na silvicultura. Também, a propriedade de latifúndio não significa estabelecimento de latifúndio. Os grandes domínios são sempre feitos de diversos estabelecimentos.

Isso se torna ainda mais claro em um outro ramo da produção primária, a mineração. Um empreendimento de mineração é enraizado no lugar onde o minério é encontrado. As concentrações de estabelecimentos são tão grandes quanto estes lugares separados permitem. Eles podem ser concentrados apenas ao grau em que a posição geográfica dos leitos de minérios faz a concentração parecer lucrativa. Resumidamente, não se pode ver em lugar nenhum na produção primária uma tendência para a concentração das unidades de produção. Isso é igualmente verdade para o transporte.

§3
O tamanho ótimo dos establishments em manufatura

O processo da manufatura de matérias primas é, até certo ponto, livre das limitações de espaço. O trabalho de plantações de algodão não pode ser concentrado, mas os trabalhos de fiação e tecelagem podem ser unidos. Mas também aqui seria pretensioso derivar sem mais considerações uma Lei da Concentração de Estabelecimentos do fato de que a instalação maior geralmente prova-se superior à instalação menor.

Também para a indústria a localização possui importância, além do fato de que (ceteris paribus, i.e., em um dado nível da divisão do trabalho) a superioridade econômica da maior unidade produtiva existe somente até o ponto que a Lei da Combinação Ótima de Fatores de Produção assim demanda e que consequentemente nenhuma vantagem é ganha pela ampliação do estabelecimento para além do ponto em que os instrumentos são utilizados mais eficientemente. Cada tipo de produção tem uma localização natural, que no fim das contas depende da distribuição geográfica da produção primária. O fato de que a produção primária não pode ser concentrada precisa influenciar os processos subsequentes de manufatura. O poder dessa influência varia de acordo com a importância atribuída ao transporte do material bruto e dos produtos acabados nos diferentes ramos da produção.

A Lei da Concentração dos Estabelecimentos opera, portanto, somente até onde a divisão de trabalho leva à progressiva divisão da produção em novos ramos. Essa concentração é, realmente, nada mais do que o outro lado da divisão do trabalho. Como resultado da divisão de trabalho, numerosos estabelecimentos diferentes entre eles, dentro dos quais uniformidade é a regra, substituem numerosos estabelecimentos similares entre eles, dentro dos quais vários processos de produção diferentes eram levados a cabo. Isso causa a diminuição do número de instalações similares, enquanto o círculo de pessoas, para cujas necessidades as instalações operam direta ou indiretamente, aumenta. Se a produção das matérias primas não fosse geograficamente fixa, uma circunstância que age contrariamente ao processo iniciado pela divisão do trabalho, uma única instalação existiria para cada ramo de produção.[2]

 

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Notas

[1]              Vogelstein, Die finanzielle Organization der kapitalistischen Industrie und die Monopolbildungen. (Grundriss der Sozialökonomik, VI. Abteilung, Tübingen 1914), p. 203 et seq. Weiss Art. Abnehmender Ertrag em “Handwörterbuch der Staatswissenschaften” 4th Edition, Vol. I, p. 11 et seq.

[2]              Os fatores restantes da localização (Alfred Weber, Industrielle Standortslehre no “Grundriss der Sozialökonomik”  VI Abt, Tübingen 1914, p. 54 et seq.) podem ser deixados de lado, já que a distribuição atual ou historicamente transmitida da produção primária finalmente os determina.

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.