Capítulo III — A concentração dos empreendimentos

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A concentração horizontal dos empreendimentos

A fusão de diversos estabelecimentos similares e independentes em um empreendimento pode ser chamada de concentração horizontal da produção. Seguimos aqui o uso amplo dos escritores da palavra cartel, apesar de a definição deles não estar em completo acordo com a nossa. Se os estabelecimentos separados não permanecem completamente independentes, se, por exemplo, o gerenciamento de alguns departamentos está amalgamado, há concentração de estabelecimentos. Uma simples concentração de empreendimentos ocorre apenas quando as unidades individuais permanecem independentes em tudo, exceto na tomada de decisões econômicas decisivas.  Um exemplo disso é um cartel ou um sindicato. Tudo permanece como estava, mas, dependendo de se é um cartel de compras ou de vendas, ou de ambos, as decisões sobre compras e vendas são tomadas unitariamente.

Quando não é meramente o passo preliminar para uma amalgamação dos estabelecimentos, o propósito dessa união é a dominação monopolista do mercado. A concentração horizontal origina-se apenas dos esforços de empreendedores separados para obter aquelas vantagens obtidas sob certas circunstâncias pelo monopolista.

§2
A concentração vertical dos empreendimentos

A concentração vertical é a união em um empreendimento unitário de empreendimentos independentes, alguns dos quais usam os produtos dos outros. Essa terminologia segue o uso da literatura econômica moderna. Exemplos de concentração vertical são a união dos trabalhos de fiação, tecelagem, alvejamento e tingimento; um trabalho de impressão ao qual uma fábrica de papel e uma empresa de jornais são unidas; os trabalhos misturados da indústria do ferro e da mineração de carvão, etc.

Cada unidade produtiva é uma concentração vertical de processos parciais e de aparatos. Uma unidade dos estabelecimentos será criada assim que parte dos meios do estabelecimento — e.g., certas máquinas, construções, o gerenciamento dos trabalhos — for conjuntamente mantida. Tal comunidade é o que falta na união vertical dos empreendimentos. Aqui, a essência da união encontra-se na vontade do empreendedor de fazer um empreendimento servir a outro. O mero fato de que um homem possua duas empresas não é suficiente por si mesmo se essa vontade não existir. Onde um manufatureiro de chocolate também possui uma ferraria não há concentração vertical. Considera-se geralmente que a concentração vertical tem como objetivo assegurar um escoamento para o produto ou salvaguardar a fonte de matéria-prima e produtos semiacabados. É isso o que os empreendedores respondem quando questionados sobre as vantagens de tais combinações. Muitos economistas aceitam isso sem questionar, já que aparentemente não pensam ser parte de seu trabalho escrutinar o que é dito pelos “homens práticos”; e após aceitar a afirmação como final, procedem para examinar a coisa do ponto de vista ético. Ainda assim, mesmo que evitem pensar sobre isso, a pesquisa aprofundada dos fatos deve mostrá-los a verdade. Há o fato de que gerentes de instalações anexadas a uma combinação vertical frequentemente têm de fazer reclamações. O gerente da fábrica de papel diz: “eu poderia conseguir muito mais valor para o meu papel se eu não tivesse que o suprir para a ‘nossa’ gráfica”. O gerente da fábrica de tecelagem: “se eu não tivesse de obter os fios das ‘nossas’ obras de fiação, eu poderia ter conseguido-os pagando menos”. Tais reclamações são comuns hoje em dia, e não é difícil entender por que elas precisam acompanhar toda a concentração vertical.

Se os estabelecimentos amalgamados fossem individualmente tão eficientes que não tivessem que evitar competição, a concentração vertical não serviria a nenhum propósito especial. Uma fábrica de papel do melhor tipo nunca precisaria se assegurar de seu mercado. Uma gráfica que está ao nível de seus competidores não precisaria se assegurar de seu suprimento de papéis. O empreendimento eficiente vende onde consegue os melhores preços, e compra onde pode fazê-lo mais economicamente. Portanto, não segue que dois empreendimentos, operando em estágios diferentes do mesmo ramo de produção e mantidos por um proprietário, precisam necessariamente unir-se em uma combinação vertical. Somente quando uma ou outra delas se mostra menos capaz de sustentar-se na competição é que o empreendedor concebe a ideia de ajudá-la ao amarrá-la à empresa mais forte. Ele busca nos lucros do negócio próspero os fundos para cobrir os prejuízos do negócio não-próspero. Além das isenções de impostos e outras vantagens especiais, como aquelas que os trabalhos misturados da indústria alemã do ferro foram capazes de obter dos acordos de cartel, a união atinge nada mais que um aparente lucro em uma empresa e um aparente prejuízo em outra.

O número e a importância das concentrações verticais são extremamente superestimados. Na vida econômica capitalista moderna, ao contrário, novos ramos de empreendimentos estão constantemente em formação e partes dos existentes estão constantemente se separando e tornando-se independentes.

A tendência progressiva à especialização na indústria moderna mostra que o desenvolvimento está se afastando da concentração vertical, que, exceto onde é demandada por questões de técnica produtiva, é sempre um fenômeno excepcional, geralmente a ser explicado pelo entendimento das condições legais e políticas da produção. Mas mesmo aqui a quebra dessas uniões e o reestabelecimento de empresas individuais é algo a ser testemunhado repetidas vezes.

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.