Capítulo IV – A Abertura

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1. “Demanda efetiva”

O capítulo 3 da Teoria Geral contém o impressionante título: “O princípio da demanda efetiva”, mas o título dá uma impressão errada de seu conteúdo. Sua função no livro de Keynes é semelhante à abertura de uma opereta, na qual o compositor entrelaça e escreve variações das músicas temas principais que virão posteriormente.

O capítulo consiste em três seções. As duas primeiras são técnicas e “científicas”, a terceira é satírica e libertina. Como o capítulo inteiro apenas prenuncia o que deve ser desdobrado em detalhes nas páginas a seguir, não precisamos fazer uma análise delongada dele aqui. Porém, como as duas primeiras seções pretendem apresentar “a essência da Teoria Geral do Emprego”, alguns comentários gerais parecem necessários.

O conjunto da Teoria Geral pode ser descrito como um exercício de ofuscação, e a ofuscação começa já nos pontos iniciais. L. Albert Hahn comparou a leitura de Keynes a assistir “uma espécie de show de mágica. Tudo acontece de uma maneira que é exatamente o oposto do que [o não keynesiano] está acostumado.”[1]

A comparação é adequada. Keynes inverte constantemente causa e efeito, colocando a carroça na frente dos bois.

“Os empreendedores [ele nos diz] irão se esforçar para fixar a quantidade de empregos a um nível que, para eles, irá maximizar os rendimentos frente ao custo de produção” (pp. 24-25).

Agora, essa afirmação não é totalmente falsa; mas é certamente uma maneira enganosa de descrever o que acontece. Os empreendedores não “tentam fixar a quantidade de emprego” em qualquer “nível” pré-concebido.

Cada empresário está tentando obter lucro produzindo e vendendo um determinado produto. Decidido o produto, ele decide que tipo de fábrica montar, que tipo de equipamento instalar, quais matérias-primas solicitar e que tipos de trabalho específicos empregar. Sua decisão em relação à produção total dependerá em parte da quantidade de capital que ele pode obter e da comparação estimativa de receita bruta e custos. Ao determinar a quantidade relativa de equipamento que ele comprará ou mão -de- obra que ele irá contratar, ele será guiado pelos preços do primeiro e pelos salários do segundo; suas proporções podem variar dependendo dessa relação preço-salário. Como resultado desse conjunto de decisões, um certo número de trabalhadores de diferentes tipos será contratado. Mas essa é simplesmente uma das consequências do complexo total de decisões. Os empreendedores certamente não estão “tentando fixar”, com antecedência, nenhum “nível” de emprego. A quantidade de empregos não é seu objetivo; é meramente uma consequência dele.

Se a frase anterior de Keynes tivesse existido isoladamente, toda essa discussão não valeria a pena. Keynes, porém, constantemente repete e reforça esse ponto de vista. Suas equações matemáticas implicitamente seguem a premissa de que os empreendedores pensam dessa maneira e decidem a quantidade de emprego que fornecerão. Suas equações também costumam sugerir que todos os empreendedores estão organizados como um monopólio. Essa maneira de pensar, de fato, parece ser essencial para sua teoria.

E Keynes lança, logo no início, uma grande quantidade de álgebra bastante desnecessária e confusa, que ele torna ainda mais confusa pelo uso de símbolos que não têm nenhuma conexão simples e natural com o que eles simbolizam. De fato, é de se duvidar se essa álgebra é apropriada ou válida quando aplicada às vagas abstrações de Keynes.

As primeiras equações de seu livro aparecem na página 25:

“Sendo Z o preço de oferta agregado da produção obtida ao empregar N pessoas, sendo a relação entre Z e N escrita Z=ø(N), que pode ser chamada de Função de Oferta Agregada. Da mesma forma, sendo D o produto que os empreendedores esperam receber por empregar N pessoas, temos a relação entre D e N D=f(N), que pode ser chamada de Função de Demanda Agregada.”

Como “preço de oferta agregado”, neste contexto, significa apenas custo agregado ou custo marginal, este parágrafo poderia ter sido simplesmente escrito sem nenhuma ostentação matemática, como: “O custo total da produção de uma determinada quantidade irá variar com o número de empregados, e o lucro que os empresários esperam receber também vai depender do número de empregados”.

Em termos grosseiros, isso geralmente pode ser verdade. Keynes, porém, ao colocar suas afirmações na forma de equações matemáticas, afirma estar falando com precisão. Afirmar, em uma equação matemática, que uma quantidade é função de outra, é afirmar que, pelo menos dentro de um intervalo especificado de valores, existe sempre uma relação precisa, determinada e previsível entre as duas quantidades. Eu escolho uma definição do texto de álgebra mais próximo em minhas prateleiras:

“Se uma variável y está relacionada com uma variável x de tal maneira que cada atribuição de um valor a x determina definitivamente um ou mais valores de y, então y é chamado de função de x.”[2](Meus itálicos.)

Assim que aplicamos padrões rigorosos, as equações de Keynes vão por água abaixo. Existe uma relação constante, precisa, determinada e previsível entre o número de empregados que um fabricante emprega e seus custos ou receita bruta? Obviamente não. Tanto seus custos quanto seus recebimentos dependerão não apenas do número de empregados, mas da qualidade de cada indivíduo e da natureza de suas habilidades. Seus custos dependerão não apenas dos salários que ele paga, mas também de sua fábrica, do equipamento adquirido, das matérias-primas compradas, dos custos de transporte e dos preços variáveis de todos estes. Seus lucros dependerão dos preços que ele obtiver por sua produção. O preço que ele paga pelas matérias-primas pode mudar em relação ao preço que ele recebe pelo produto final e os preços pagos ou recebidos mudam constantemente em relação aos salários que ele tem que pagar. Alterações nos custos relativos, ou avanços técnicos, podem alterar constantemente a relação do número de empregados com a produção total. Em resumo, qualquer relação entre folhas de pagamento e custos totais, por um lado, e folhas de pagamento e receita bruta esperada, por outro, só existirá momentaneamente. Não há garantias de que qualquer mudança no número de empregados – i.e. qualquer alteração em N – signifique qualquer alteração precisa ou pré determinável em Z ou D.

Muitas outras coisas estão erradas na formulação de Keynes, além de sua mera invalidez. Nenhum fabricante diz para si mesmo: “Contratarei N número de empregados, e isso me dará custos totais em dinheiro de Z e receitas totais em dinheiro de D.” Ele começa ao contrário. Ele começa decidindo quanto dinheiro ele pode pagar, o dito Z, ou quanto de um produto ele poderia produzir ou vender, gerando uma receita D. E só então ele decide quantos homens precisa ou pode pagar. Portanto, se uma relação funcional pudesse ser postulada, deveria ser o inverso do postulado por Keynes, e N seria, digamos, uma função de D ou uma função de Z.

Existem outras dificuldades com a formulação. Aparentemente, Z é definido como uma quantia real e N é certamente definido como uma quantia real, mas D é definido meramente como uma expectativa. “Sendo D a receita que os empreendedores esperam receber do emprego de N pessoas.” Sem dúvida, as expectativas em relação ao futuro, se razoáveis, podem ter alguma relação com as realidades presentes. Mas podemos postular uma relação constante, determinada ou precisa de expectativas com realidades? Podemos colocar as expectativas em uma equação matemática que faça sentido?

Se Keynes, aqui ou em outro lugar, usasse a palavra “função” como uma mera figura de linguagem, poderíamos deixar passar. Mas colocar essas supostas relações solenemente na forma de uma equação, sem tentar justifica-las com qualquer argumento dedutivo sólido, ou qualquer dado estatístico, ou qualquer outra coisa, exceto simples dogmas ipse dixit, é outra história.

Além disso, Keynes continua:

“O valor de D no ponto em que a função de demanda agregada é intersectada pela função de oferta agregada, será denominado demanda efetiva.” (Seus itálicos, p. 25)

Mas, como D foi definido como “o lucro que os empresários esperam que seja recebido”, ele deveria ser chamado apenas de demanda efetiva esperada. E se é meramente esperada, dificilmente pode ser chamada de “efetiva”.

O termo “demanda efetiva”, hoje, é tido como completamente absurdo ou confuso. Os economistas modernos não precisam do adjetivo “efetivo” antes da “demanda”. A demanda é efetiva por definição. Se não é efetiva, não se chama demanda, mas necessidade, desejo, anseio ou cobiça. A palavra “demanda” implica o desejo necessário, juntamente com o poder de compra necessário. Se Keynes se referia a demanda agregada, então esse é o adjetivo que ele deveria ter usado e mantido. Se ele quis dizer demanda agregada monetária ou poder de compra monetário agregado, então esses são os termos que ele deveria ter usado quando era isso que ele queria dizer.

As confusões em sua terminologia apenas refletem as confusões em seu pensamento. Imediatamente após a equação e a definição que acabei de citar, Keynes nos diz:

“Essa é a essência da Teoria Geral do Emprego” (p. 25).

E na estrutura sem alicerces dessa visão estão construídas todas as suas torres que tocam as nuvens!

Essa equação inválida faz parte da “refutação” de Keynes à lei de Say.

“A teoria clássica supõe [ele escreve] que o preço agregado da demanda (ou lucro) sempre se ajusta ao preço agregado da oferta… Daí vem a lei de Say, de que o preço de demanda agregado da produção como um todo é igual ao preço de oferta agregado para todos os volumes de produção, sendo equivalente à proposição de que não há obstáculo ao emprego pleno” (p. 26)

Esta passagem distorce tanto a “teoria clássica” quanto a essência da Lei de Say. A teoria clássica[3]  não supõe que o preço da demanda (agregado ou não) “sempre” se ajusta ao preço (agregado) da oferta. A teoria neoclássica afirma que sob condições de equilíbrio tais consequências ou corolários seguem. Mas não afirma que as condições estejam necessariamente em equilíbrio. Afirma que, sob condições de livre concorrência, com preços e salários fluidos e flexíveis, sempre haverá uma tendência para o equilíbrio. A lei de Say, é claro, não declara, de fato ou por implicação, que “não há obstáculo ao pleno emprego”. Ela declara que o único obstáculo ao pleno emprego é a falta de equilíbrio em algum lugar.

2. A propensão a consumir

A segunda seção do capítulo 3 nos dá nossa primeira introdução à “propensão a consumir”. Esta é a proposição de que:

“A psicologia da comunidade é tal que, quando a renda real é aumentada, o consumo agregado aumenta, mas não tanto quanto a renda” (p. 27)

Haverá muito tempo, mais tarde, para a análise completa dessa curiosa proposição, sobre a qual houve tanto atraso, mas uma ou duas observações podem ser feitas aqui. Ao falar da “psicologia” da comunidade e ao usar o termo levemente desdenhoso “propensão”, Keynes consegue insinuar a noção de que a maneira como as pessoas gastam sua renda é essencialmente irracional.

Também será notado que sua proposição é vaga e aberta a várias interpretações diferentes. Se a comunidade, à medida que fica mais rica, gasta a mesma proporção de sua renda no consumo, então é claro que o consumo não aumentará na mesma quantidade absoluta que a renda; mas a diferença será presumivelmente compensada por um aumento proporcional no investimento. Se a comunidade, à medida que fica mais rica, gasta uma proporção menor de sua renda em consumo, é claro que deve gastar uma proporção maior em investimento. Keynes, porém, nunca nos diz inequivocamente qual, ou o que, ele quer dizer. Ao tirar conclusões sobre sua “lei psicológica”, ele continua declarando:

“Assim, para justificar qualquer quantidade de emprego, deve haver uma quantidade de investimento suficiente para absorver o excesso da produção total além do que a comunidade escolhe consumir quando o emprego está em tal nível” (p. 27)

Aqui está uma banalidade introduzida disfarçada de grande descoberta. Naturalmente, se dividirmos todos os gastos sob um equilíbrio de pleno emprego em dois tipos, gastos com “consumo” e “investimento”, deve haver gastos suficientes com “investimento” para compensar a diferença entre gastos com “consumo” e gastos totais, se quisermos ter pleno emprego. Mas essa descoberta prodigiosa poderia ser aplicada não apenas ao “investimento”, mas a qualquer coisa. Se dividirmos a quantia de gasto necessária para o pleno emprego em tudo, exceto cerveja, mais os gastos com cerveja, o emprego pleno dependerá da quantia gasta em cerveja. Ou, colocando-o na mesma fraseologia keynesiana citada acima: “Para justificar qualquer quantidade de emprego, deve haver uma quantidade de cerveja consumida suficiente para absorver o excesso da produção total além do que a comunidade escolhe gastar em todo o resto, exceto cerveja, quando o emprego está no nível especificado.” E você também pode colocar tudo isso em um impressionante conjunto de equações matemáticas.

(Posso antecipar uma discussão posterior aqui, apontando que a diferença entre “consumo” e “investimento” é pelo menos até certo ponto arbitrária, e nem um pouco clara como Keynes às vezes faz parecer. É a compra de uma casa uma despesa de consumo ou um investimento? Se você a compra como moradia é considerada um bem de consumo; mas se você a compra para alugar para outra pessoa, é um investimento, o que também se aplica a um automóvel ou um cortador de grama Os bens de “consumo” e de “investimento” não são necessariamente diferentes tipos de bens: eles mudam de natureza com seu estado de utilização, em que mãos estão ou com os objetivos mutáveis de seus proprietários.)

Tendo feito sua grande divisão entre bens de “consumo” e “investimento”, Keynes passa a construir sobre ela toda a economia keynesiana. Ele resume isso no parágrafo seguinte (p. 28) e em uma série de oito proposições na próxima página. Essas duas páginas podem ser chamadas de coração da economia keynesiana. Como já afirmei, as proposições serão analisadas detalhadamente nas páginas seguintes; mas como este é nosso primeiro contato com elas, podemos fazer algumas observações preliminares.

“Dada a propensão a consumir [ele começa] e a taxa de novos investimentos, haverá apenas um nível de emprego consistente com o equilíbrio” (p. 28)

A oração coordenada nesta frase seria completamente verdadeira, especialmente sem as orações subordinadas. Há apenas um nível de emprego consistente com o pleno equilíbrio, e esse é o pleno emprego. Isso é verdadeiro por definição. Se houver desemprego, deve haver desequilíbrio em algum lugar. Quando Keynes escreve:

“A demanda efetiva associada ao pleno emprego é um caso especial que só se verifica quando a propensão a consumir e o incentivo para investir se encontram associados entre si numa determinada forma” (p. 28)

Ele está recorrendo à mistificação indesculpável ou ele está escrevendo disparates. Com o equilíbrio, há sempre pleno emprego.

É claro que poderíamos escrever a frase anterior de Keynes assim: “O emprego pleno é um caso especial, realizado apenas quando há um equilíbrio total, que por sua vez só é realizado quando o consumo e o investimento, juntos são o suficiente para proporcionar o pleno emprego”. Isso seria verdade, mas tudo seria verdade pela própria definição de nossos termos. Apenas colocaríamos a declaração dessa forma como uma piada, como se alguém dissesse: “Uma semana é um caso especial, realizado apenas quando contém apenas sete dias, nem mais, nem menos, em sucessão.”

O equilíbrio, em suma, existe apenas quando as condições para o mesmo existem. Uma dessas condições é o pleno emprego. E o emprego pleno sempre existe quando existe equilíbrio.

Quando Keynes fala, portanto, como ele faz aqui e em outros lugares, de “equilíbrio” com subemprego, ele está falando algo sem sentido. Isso é uma contradição de princípio, como falar de um caos ordenado ou de um círculo triangular. Quando Keynes fala, em resumo, de um “equilíbrio” com o desemprego, ele não está falando de posição de equilíbrio alguma, mas de algo completamente diferente. Ele está falando de uma situação congelada, um desequilíbrio congelado, uma situação em que algum preço, taxa de juros ou salário, ou muitos preços, taxas de juros, e salários, são impedidos, por contrato, resistência sindical ou intervenção do governo, de se ajustar a um nível de equilíbrio.

Esse uso obviamente indevido de termos é uma das falácias centrais de todo o sistema keynesiano. Quando esse mau uso é reconhecido, todo o seu sistema entra em colapso.[4]

Tudo isso é para não dizer –   pois Keynes às vezes gosta de fingir que os economistas neoclássicos realmente dizem – que desemprego ou desequilíbrio é impossível, ou mesmo emprego pleno, ou equilíbrio total é o estado normal das coisas. Por outro lado, os melhores economistas neoclássicos sempre reconheceram que é o emprego pleno absoluto ou o perfeito equilíbrio nunca são reais, assim como a perfeição em qualquer condição humana.

O conceito de “equilíbrio” é primariamente uma ferramenta de pensamento metodológica do economista. Não é porque o equilíbrio perfeito nunca se torna realidade, que ele pode ser descartado como uma ferramenta intelectual inútil. Um engenheiro fala de um motor sem atrito ou com uma eficiência de 100%, percebendo muito bem que nenhum motor é sem atrito e nenhuma máquina é 100% eficiente. Mas ele precisa desses conceitos como referências, padrões, ferramentas de pensamento. Um matemático lida conceitualmente com pontos sem dimensões e linhas sem espessura, embora os pontos e linhas em seu livro didático tenha dimensões e espessura ou não possam ser vistos. O matemático considera altamente valioso e até indispensável usar conceitos de números “irracionais” e “imaginários” – como a raiz quadrada de menos um – cuja realidade ou racionalidade ele pode achar embaraçoso explicar.

O economista também encontra dificuldades lógicas quando tenta pensar no conceito de equilíbrio perfeito. Mas tais dificuldades são encontradas com quase todos os principais conceitos da economia: “concorrência perfeita”, “pleno emprego”, “economia estacionária”, “curvas de oferta”, “curvas de demanda”, etc. Não é meu objetivo aqui discutir os méritos de qualquer conceito em particular. Mas a maioria do que acabamos de mencionar são ferramentas intelectuais de pensamentos úteis e necessárias. O conceito de equilíbrio é indispensável, tanto para a teoria “estática” quanto para a teoria “dinâmica”. O erro ocorre quando o “equilíbrio” é considerado um fator existente, ou ridicularizado simplesmente porque não é existente. O real é uma tendência sempre presente para o equilíbrio. O equilíbrio tende a ser cada vez mais aproximado e rápido na proporção em que a concorrência, os preços e os salários são fluidos e livres.

O erro de Keynes está no uso da palavra equilíbrio em dois sentidos bastante diferentes, um dos quais é totalmente inválido. Essa é a confusão do “equilíbrio” com uma situação que, por um motivo ou outro, está simplesmente congelada, como o desemprego em massa prolongado devido a um desajuste prolongado entre os preços de diferentes mercadorias, ou entre salários individuais, ou na maioria das vezes entre preços e salários. Todas as proposições e deduções de Keynes nas páginas 28-31 são o resultado de um equívoco ou distorção da teoria neoclássica.

Portanto não precisamos tentar aqui desvendar os erros em detalhes. Mas um comentário geral deve ser feito. Keynes falou como se nenhum economista clássico tivesse ouvido falar em pânico, depressão ou desemprego. É claro que as suposições de equilíbrio estático ou as de uma “economia estacionária” não são, por si só, suficientes para lidar com os ciclos econômicos. Mas são pré-condições metodológicas necessárias para a compreensão dos ciclos econômicos. A menos que entendamos suposições “estáticas”, não podemos entender suposições “dinâmicas”.

3. Desprezo à poupança

Na seção III do capítulo 3, Keynes realmente se deixa levar por duas páginas e meia (32-34). A rigor, não há argumento aqui – apenas desprezo pelos economistas clássicos e o que eles acham que é uma virtude econômica. Cito algumas de suas frases seriam, em diversos parágrafos, seguidas de meu próprio contra-argumento.

“Ricardo conquistou a Inglaterra tão completamente quanto a Santa Inquisição conquistou a Espanha.”

A Inquisição conquistou a Espanha pela força e tortura; a única força que Ricardo usou foi a força da lógica. Se atualizarmos a comparação de Keynes, teremos que dizer que ele conquistou o mundo acadêmico anglo-americano atual e o mundo político ocidental atual, quase tão completamente quanto Marx conquistou a Rússia e a China.

“A teoria [de Ricardo] não foi somente aceita por estadistas e pelo mundo acadêmico. Mas a controvérsia cessou; o outro ponto de vista desapareceu completamente; deixou de ser discutido.”

Esse, infelizmente, tem sido o destino da economia não Keynesiana hoje, pelo menos nas universidades.

“O grande quebra-cabeça da Demanda Efetiva com o qual Malthus lutou desapareceu da literatura econômica. Você não o encontrará mencionado nem uma vez em todas as obras de Marshall, Edgeworth ou do Professor Pigou, de cujas mãos a teoria clássica recebeu sua personificação mais madura.”

Foi antiquado de Keynes tratar seus professores de Cambridge como representando o ponto mais alto atingido pela economia antes de seu próprio surgimento. Afinal, entre seus antecessores, havia Menger e Böhm-Bawerk na Áustria, Walras na Suíça, Wicksell na Suécia, John Bates Clark e Irving Fisher na América e Jevons e Wicksteed em seu próprio país. E entre os contemporâneos de Keynes, figuras tais como Mises, Hayek, Anderson, Knight e Röpke carregavam o rigor lógico e a unidade da economia muito além do ponto em que Marshall a deixara.

“Ele [o grande quebra-cabeça da Demanda Efetiva] só pôde sobreviver furtivamente, abaixo da superfície, nos submundos de Karl Marx, Silvio Gesell ou Major Douglas.”

“Submundo econômico” é uma descrição feliz da literatura. Keynes, porém, parecia imaginar que sua associação declarada a ele o tornaria repentinamente respeitável.

“O fato de a vitória ricardiana ter sido tão completa faz com que seja revestida de curiosidade e de mistério.”

Muito menos um mistério do que o fato de a vitória keynesiana ter sido tão completa. O sistema ricardiano, pelo menos, tinha uma elegante consistência interna; era lógico dentro de suas suposições, dentro de seu quadro de referência limitado; e não confundiu irremediavelmente, como o sistema keynesiano, efeitos de curto prazo com os de longo prazo ou teoria “estática” com teoria “dinâmica”.

“Isso [a completude da vitória ricardiana] provavelmente se deveu a um complexo de afinidades entre a sua doutrina e o meio em que foi lançada.”

Como a vitória keynesiana deve ter sido devido ao ambiente político de 1936?

“Creio que o fato de ter chegado a conclusões inteiramente diversas das que poderia esperar um indivíduo comum e pouco instruído contribuiu para seu prestígio intelectual.”

Keynes certamente chegou a conclusões bem diferentes do que a pessoa comum não instruída esperaria — por exemplo, que poupar é um pecado e desperdiçar uma virtude. E talvez isso tenha aumentado seu prestígio intelectual atual.

“Deu-lhe virtude a circunstância de que seus ensinamentos, transportados para a prática, eram austeros e, por vezes, desagradáveis”

A “virtude” dos ensinamentos de Keynes é a de elogiar a falta de economia, os gastos imprudentes e os orçamentos desequilibrados, sendo, portanto, extremamente palatável para os políticos no poder.

“Deu-lhe primor o poder sustentar uma superestrutura lógica, vasta e coerente.”

Isso é verdade. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo sobre a economia keynesiana, que é mal construída e inconsistente, sem economia ou elegância.

“Deu-lhe autoridade o fato de poder explicar muitas injustiças sociais e crueldades aparentes como incidentes inevitáveis na marcha do progresso, e de poder mostrar que a tentativa de modificar esse estado de coisas tinha, de modo geral, mais chances de causar danos que benefícios”

Como a doutrina de Keynes sobre gastos governamentais, taxas de juros artificialmente baixas e de impressão dinheiro recomenda às autoridades políticas atuais?

“Por ter formulado certa justificativa à liberdade de ação do capitalista individual, atraiu-lhe o apoio das forças sociais dominantes agrupadas atrás da autoridade.”

Isso é pura demagogia marxista, que atribui crenças a motivos desacreditados em vez de lógica desinteressada. Uma resposta à altura pode ser que a popularidade da teoria de Keynes nos círculos acadêmicos reflete a inveja que os acadêmicos mal pagos tem dos empresários bem sucedidos.

 “Embora, até há pouco, a doutrina [ricardiana] em si nunca tenha sido contestada pelos economistas ortodoxos, sua óbvia inadequação no que tange às finalidades de predição científica diminuiu bastante, com o passar do tempo, o prestígio de seus adeptos.”

A alegação implícita de que a economia keynesiana pode possibilitar a “previsão científica” de flutuações futuras nos negócios é pura conversa fiada. Nenhum sistema de economia pode fazer isso. O máximo que qualquer raciocínio econômico pode fazer é dizer que tais e tais condições, se existissem isoladamente, tenderiam a ter tais resultados[5]. O sistema ricardiano, apesar de todas as suas deficiências, fez isso muito melhor do que o sistema Keynesiano. As previsões baseadas na teoria keynesiana tiveram um histórico patético.

“Aparentemente, depois de Malthus, os economistas profissionais ficaram insensíveis diante da falta de conformidade entre os resultados de sua teoria e dos fatos observados.”

Essa “falta de correspondência” existia principalmente na mente de Keynes. Keynes nunca se incomodou em comparar sua própria teoria com os “fatos observados”. Como veremos mais adiante, ele gostava de fazer declarações abrangentes, não apenas sem qualquer tentativa de prova estatística, mas mesmo onde já existia prova estatística de sua “falta de conformidade” com os “fatos observados”.

“O celebrado otimismo da teoria econômica tradicional — que levou os economistas a serem considerados Cândidos, os quais, tendo-se retirado do mundo para cultivarem seus jardins, clamam que tudo caminha do melhor modo no melhor dos mundos possível, contanto que deixemos as coisas andarem sozinhas — tem como origem, no meu entender, o fato de não haver sido levado em conta o empecilho que uma insuficiência da demanda efetiva pode significar para a prosperidade.”

Keynes aqui permite que sua própria retórica o leve tão longe da realidade que é difícil saber por onde começar a dissecar a passagem. Antes de tudo, a teoria econômica tradicional não era celebrada na mente popular por otimismo, mas por pessimismo. O famoso epíteto de Carlyle, “a ciência sombria”, resume o julgamento popular do século XIX da teoria econômica da época. Pensava-se que as “leis da população” de Malthus condenavam o mundo à existência eterna no nível mais simples de subsistência para as massas populares. A chamada “lei de ferro dos salários” de Ricardo (nunca sua própria descrição dela) foi pensada para tornar impossível a melhoria dos salários reais, pelo menos sem um lento aumento do “fundo salarial”. Mais uma vez, não foi Cândido que era o otimista incurável do intenso romance de Voltaire, mas Dr. Pangloss; e Cândido só decidiu cultivar seu próprio jardim depois que suas ilusões otimistas haviam sido completamente destruídas. Finalmente, os economistas neoclássicos nunca assumiram prosperidade e pleno emprego, exceto na suposição de equilíbrio. Eles não supunham que sempre houvesse equilíbrio, mas supunham que havia uma constante tendência de volta ao equilíbrio, por mais perturbada que fosse, desde que prevalecesse a concorrência, os preços e salários livres.

“Pois, obviamente haveria uma tendência natural para o emprego ideal de recursos em uma sociedade que funcionava à maneira dos postulados clássicos. Pode ser que a teoria clássica represente a maneira pela qual gostaríamos que nossa economia se comportasse. Mas presumir que ela realmente funciona assim é negligenciar nossas dificuldades.”

Essa passagem mostra apenas que Keynes não entendeu o que realmente eram os postulados neoclássicos. É porque os sindicatos e os políticos intervieram para impedir os ajustes que teriam ocorrido na economia que se prolongaram o desemprego em massa e o subemprego de recursos. Keynes atribuiu aos “postulados clássicos” a própria estagnação causada pelas políticas baseadas nos postulados keynesianos.

Pois, os postulados keynesianos e as políticas keynesianas existiram anos antes de Keynes aprová-los e tentar sistematizá-los na Teoria Geral. Eles eram, como veremos, simplesmente os velhos postulados e políticas do inflacionismo (levando a um inevitável colapso), restrições do governo, políticas governamentais de “estabilização de preços” e salários inflexíveis na direção descendente. A flexibilidade de salários, preços e mercados postulados pelos economistas neoclássicos foram combatidas; e então as consequências foram atribuídas à economia neoclássica.

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Notas

[1] Common Sense Economics, (Nova Iorque: Abelard-Schuman, 1956), p. ix.

[2] Gerald E. Moore, Algebra, (Nova Iorque: Barnes & Noble, edição de 1956), p. 50.

[3] Muitas vezes é difícil saber exatamente como tratar a terminologia de Keynes. Quando ele fala da teoria “clássica”, ele geralmente quer dizer o que seria mais preciso chamar teoria neoclássica ou, ainda mais especificamente, teoria marshalliana ou pigoviana. Ele raramente quer dizer a teoria moderna do valor subjetivo, cuja existência ele mais frequentemente prefere ignorar. Menos ainda, ele considera a divergência real de teorias entre economistas. É para ser considerado original que ele tenta agrupar todas as outras visões além da sua, sob o epíteto comum de “clássico” ou “ortodoxo”? Seria tedioso, no entanto, chamar a sua atenção cada vez que usasse erroneamente algum termo. Tentarei economizar o tempo do leitor aceitando alguns dos seus termos, depois de preencher a advertência necessária na sua primeira aparição, de modo prosseguir com a análise.

[4] Sr. William Beveridge, escrevendo em 1931, definiu a posição “clássica” da forma como era claramente entendida antes de Keynes fazer sua ofuscação: “Demanda e oferta no longo prazo são ajustados e produção é direcionada pelo movimento dos preços; se o que era para ser flexível no sistema econômico é feito rígido, então vem o desequilíbrio e uma tensão. Não é o que está acontecendo com trabalho e preços na Grã Bretanha hoje ­– uma rigidez nos salários em desacordo com as condições econômicas , levando para um desequilíbrio incurável?” Tariffs: The Case Examinated (Londres: Longmans, 1931), p. 240.

[5] As razões pelas quais a previsão econômica não pode ser “científica” ver Ludwig von Mises, Human Action, 1949, pp. 649, 866-868.