Capítulo IV — A concentração das fortunas

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§1
O problema

Uma tendência para a concentração dos estabelecimentos ou da concentração dos empreendimentos não é, de forma alguma, equivalente a uma tendência para a concentração das fortunas. No mesmo grau em que estabelecimentos e empresas se tornaram cada vez maiores, o capitalismo moderno desenvolveu formas de empreendimentos que tornam pessoas com pequenas fortunas capazes de gerenciar grandes negócios. A prova de que não há tendência para a concentração das fortunas reside no número desses tipos de empreendimentos que apareceram e estão crescendo diariamente em importância, enquanto os mercadores individuais quase desapareceram da indústria, da mineração e do transporte de larga escala. A história das formas de empreendimento, da societas unius acti até a sociedade por ações moderna, é prato cheio de contradições à doutrina da concentração de capital, tão arbitrariamente posta por Marx.

Se desejamos provar que os pobres estão se tornando cada vez mais numerosos e mais pobres, e que os ricos estão se tornando cada vez menos numerosos e mais ricos, é inútil apontar que em um período da remota antiguidade, tão intangível a nós quanto a Era de Ouro para Ovídio ou Virgílio, as diferenças de riqueza eram menores do que são hoje em dia. Precisamos provar que há uma causa econômica que leva imperativamente à concentração das fortunas. Os marxianos nem sequer tentaram fazer isso. A teoria deles, que atribui à era capitalista uma especial tendência para a concentração de fortunas, é pura invenção. A tentativa de dá-la qualquer fundamentação histórica é desesperada e aduz justamente para o contrário do que Marx afirma ser demonstrável.

§2
O fundamento das fortunas fora da economia de mercado

O desejo por um aumento da riqueza pode ser satisfeito através da troca, que é o único método possível na economia capitalista, ou por violência e petição em uma sociedade militarista, onde os fortes a adquirem pela força, e os fracos pela petição. Na sociedade feudal, a propriedade dos fortes se mantém somente até onde eles têm o poder para mantê-la; a dos fracos é sempre precária, por ter sido adquirida pela graça dos fortes, é sempre dependente deles. Os fracos mantêm suas propriedades sem proteção legal. Em uma sociedade militarista, portanto, não há nada além de poder que impeça os fortes de aumentar sua riqueza. Eles podem seguir enriquecendo-se até que outros homens fortes os oponham.

Em nenhum lugar e em nenhuma época a propriedade de larga escala da terra surgiu através da atuação das forças econômicas no mercado. É o resultado de esforço militar e político. Fundamentado pela violência, tem sido mantido pela violência e por ela apenas. Assim que os latifúndios são trazidos para a esfera das transações de mercado, eles começam a desmoronar, até que o último deles desapareça completamente. Nem na sua formação e nem na sua manutenção as causas econômicas operaram. As fortunas de grandes terras não apareceram através da superioridade econômica da propriedade de larga escala, mas através da violenta anexação fora do campo das trocas. “E cobiçam campos”, reclama o profeta Miqueias,[1] “e roubam-nos, cobiçam casas, e arrebatam-nas”. Portanto, surge a propriedade daqueles que, nas palavras de Isaías, “[…] ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores no meio da terra!”[2]

A origem não-econômica das fortunas de terra é claramente revelada pelo fato de que, como regra, a expropriação através da qual foram criadas, não altera de forma alguma a forma de produção. O antigo proprietário permanece no solo sob um diferente título legal e prossegue com a produção.

A propriedade de terra pode também ser fundamentada em dotes, presentes. Foi dessa forma que a Igreja adquiriu suas grandes posses no Reino Franco. Não depois do oitavo século, esses latifúndios caíram nas mãos da nobreza; de acordo com a teoria antiga, isso foi o resultado de secularizações por Carlos Martel e seus sucessores, mas a pesquisa recente é inclinada a fazer responsável uma “ofensiva por parte dos aristocratas leigos”.[3]

Que na economia de mercado é difícil manter os latifúndios, mesmo hoje, é demonstrado pelos esforços em criar instituições de legislação como o “Familienfideikommisse” (feoffment em truste) e instituições legais relacionadas como o “entail” inglês. O propósito do “Familienfideikommisse” era o de manter propriedade de terra de larga escala, porque não era possível mantê-las de outra forma. A Lei da Herança é mudada, a hipoteca e a alienação são impossibilitadas, e o Estado é indicado guardião da indivisibilidade e da inalienabilidade da propriedade, de modo que o prestígio da tradição familiar não deve ser afetado. Se as circunstâncias econômicas tivessem tendido em direção à contínua concentração da propriedade de terra, tais leis teriam sido supérfluas. A legislação teria sido promulgada contra a formação de latifúndios, e não em favor de sua proteção. Mas sobre tais leis a história legal não sabe coisa alguma. A regulação contra a “Bauernlegen”, contra o confisco das terras aráveis, etc., é dirigida contra movimentos de fora da área de troca, isto é, contra a força. As restrições legais contra a mão-morta são similares. Os bens de mão-morta que, incidentalmente, são legalmente protegidos de uma forma parecida com aqueles do “Familienfideikomisse” não aumentam o desenvolvimento econômico pela força, mas por doações piedosas.

Agora, a maior concentração de fortunas se encontra justamente na agricultura, onde a concentração dos estabelecimentos é impossível e a concentração de empreendimentos economicamente sem propósito, onde a propriedade extensa parece ser economicamente inferior à pequena propriedade e incapaz de enfrentá-la na livre competição. A propriedade dos meios de produção nunca foi tão concentrada do que nos tempos de Plínio, quando metade da província da África era possuída por seis pessoas, ou como nos dias dos Merovíngios, quando a Igreja possuía a maior parte de todo o solo francês. E em nenhuma parte do mundo há menos propriedade de terra de larga escala do que na América do Norte capitalista.

§3
O fundamento das fortunas dentro da economia de mercado

A asserção de que a riqueza, por um lado, e a pobreza, do outro, estão sempre aumentando, foi primariamente mantida sem nenhuma conexão consciente com alguma teoria econômica. Seus apoiadores pensam que derivaram isso da observação de relações sociais. Mas o julgamento do observador é influenciado pela ideia de que a soma da riqueza de uma sociedade é de uma dada quantidade, de modo que se alguém possui mais, então outros possuem menos.[4] Como, no entanto, em toda sociedade o crescimento de novos ricos e o vir a ser de nova pobreza são sempre encontrados de maneira conspícua enquanto o lento declínio de grandes fortunas e o lento enriquecimento das classes menos possuidoras facilmente escapa aos olhos do estudante desatento, é fácil chegar à conclusão prematura resumida no bordão socialista “mais ricos os ricos, mais pobres os pobres”

Nenhum argumento prolongado é necessário para provar que a evidência falha completamente em fundamentar essa afirmação. É bastante infundada a hipótese de que, em uma sociedade baseada na divisão do trabalho, a riqueza de uns implica a pobreza de outros. Sob certas condições isso é verdade sobre as sociedades militaristas, enquanto não há divisão do trabalho. Mas sobre uma sociedade capitalista, é uma inverdade. Além disso, uma opinião formada na base de observações casuais daquela seção específica com a qual o indivíduo é pessoalmente simpático é uma prova bastante insuficiente da teoria da concentração.

O estrangeiro que visita a Inglaterra munido de boas recomendações tem oportunidades de aprender algo sobre as famílias nobres e ricas e seus estilos de vida. Se quiser saber mais ou sente que é seu dever visitar mais do que uma trilha simplesmente prazerosa, pode fazer uma visita rápida nas fábricas de grandes empresas. Para o homem leigo, não há nada de particularmente atrativo nisso. De início o barulho, o frenesi e a atividade surpreendem o visitante, mas depois de inspecionar duas ou três fábricas, o espetáculo se torna monótono. Tal estudo das relações sociais, por outro lado, como pode ser feito em uma breve visita à Inglaterra, é mais estimulante. Uma caminhada pelas favelas de Londres ou qualquer outra cidade grande produz impressões mais vívidas, e o efeito no viajante que, quando não ocupado com seu estudo, vai estar correndo de um entretenimento a outro, é duas vezes mais poderoso. Por isso, visitas às favelas se tornaram um item popular no itinerário do tour obrigatório pela Inglaterra. Dessa forma, os futuros estadistas e economistas adquiriram uma impressão dos efeitos da indústria nas massas, o que se tornou a base para os pontos de vista sociais de uma vida inteira. Foram para casa firmes na opinião de que a indústria faz alguns ricos e muitos pobres.

Mais tarde, quando ele escreveu ou falou sobre as condições industriais, ele nunca se esqueceu de descrever a miséria que encontraram nas favelas, elaborando os detalhes mais dolorosos, frequentemente com exagero mais ou menos consciente. De forma geral, sua figuração nos conta nada além de que algumas pessoas são ricas e outras são pobres. Mas para saber disso, não precisamos de pessoas que tenham visto o sofrimento com seus próprios olhos. Antes que escrevessem nós já sabíamos que o capitalismo ainda não aboliu toda a miséria do mundo. O que eles têm de provar é que o número de pessoas ricas está diminuindo, enquanto o indivíduo rico se torna mais rico, e que o número e a pobreza dos pobres estão em constante aumento. Precisariam, no entanto, de uma teoria da evolução econômica para provar isso.

Tentativas de demonstrar por pesquisa estatística o aumento progressivo da miséria das massas e o aumento da riqueza entre uma quantidade decrescente de pessoas em uma classe rica não são melhores do que esses meros apelos à emoção. As estimativas de renda monetária à disposição do inquérito estatístico são inutilizáveis porque o poder de compra do dinheiro oscila. Esse fato por si só é suficiente para mostrar que nos falta qualquer base para comparar aritmeticamente a distribuição de renda ao longo de vários anos. Pois onde não é possível reduzir a um denominador comum os vários bens e serviços cujas rendas são compostas, não se pode formar qualquer série para comparação histórica a partir de estatísticas conhecidas de renda e de capital.

A atenção dos sociólogos é frequentemente dirigida ao fato de que a riqueza mercantil e industrial, isto é, riqueza não investida em propriedade de terra ou de mineração, raramente se mantém em uma família por um longo período. As famílias burguesas crescem de maneira estável da pobreza para a riqueza, por vezes tão rapidamente que um homem que passava fome nos anos anteriores, de repente se torna um dos mais ricos de seu tempo. A história das fortunas modernas é cheia de histórias de garotos mendigos que fizeram deles mesmos milionários. Pouco é dito do decaimento das fortunas entre os abastados. Isso geralmente não acontece tão rapidamente a ponto de chocar o observador casual; um exame mais próximo, no entanto, revelará quão incessante é esse processo. Raramente as riquezas mercantis e industriais se mantêm em uma família por mais do que duas ou três gerações, a não ser que, por investimento na terra, tenha deixado de ser riqueza dessa natureza.[5] Torna-se propriedade em terra, não mais usada nos negócios de aquisição ativa.

Fortunas investidas no capital, ao contrário do que a filosofia econômica ingênua do homem comum imagina, não representam fontes eternas de renda. Que o capital produz um lucro, ou sequer que mantém a si mesmo, não é de forma alguma um fato autoevidente que segue a priori do fato de sua existência. Os bens de capital, dos quais o capital é concretamente composto, aparecem e desaparecem da produção; em seu lugar surgem outros bens, em última instância bens de consumo, fora do valor do qual o valor da massa de capital precisa ser reconstituído. Isso é possível somente quando a produção for bem-sucedida, isto é, quando produziu mais valor do que absorveu. Não apenas lucros de capital, mas a reprodução de capital pressupõe um processo bem-sucedido de produção. Os lucros do capital e a manutenção do capital são sempre o resultado de um empreendimento bem-sucedido. Se esse empreendimento falha, o investidor perde não apenas o lucro produzido pelo capital, mas também seu fundo original. Deve-se distinguir cuidadosamente entre meios de produção produzidos e os fatores primários de produção. Na agricultura e silvicultura as forças originais e indestrutíveis do solo são mantidas mesmo se a produção falhar, e gerenciamento desleixado não pode dissipá-las. Podem tornar-se sem valor por mudanças na demanda, mas não podem perder sua capacidade inerente de produzir produto. Esse não é o caso na produção manufaturada. Nela, tudo pode ser perdido, raiz e ramo. A produção precisa continuamente reestabelecer o capital. Os bens de capital individuais que o compõem têm uma vida limitada. A existência do capital é prolongada apenas pela maneira pela qual o proprietário deliberadamente reinveste na produção. Para possuir capital, deve-se consegui-lo de novo, dia após dia. No longo prazo, uma fortuna de capital não é uma fonte de renda que pode ser aproveitada na ociosidade.

Combater esses argumentos ao apontar para o rendimento estável dos “bons” investimentos em capital seria errado. O ponto é que os investimentos precisam ser “bons”, e para sê-lo, eles precisam ser o resultado de uma especulação bem-sucedida. Malabaristas aritméticos calcularam a quantia que um centavo, investido em juros compostos no tempo de Cristo, teria chegado por agora. O resultado foi tão chocante que poderia muito bem perguntar por que ninguém nunca foi esperto o bastante para fazer uma fortuna dessa forma. Mas mesmo além de todos os outros obstáculos para um tal curso de ações, sobressai-se o problema de que cada investimento de capital está atado ao risco de uma perda total ou parcial da soma original do capital. Isso é verdade, não apenas sobre o investimento do empreendedor, mas também do investimento que o capitalista faz em creditar o empreendedor, já que seu investimento naturalmente depende totalmente do investimento do empreendedor. Seu risco é menor, porque o empreendedor o oferece como segurança que parte de sua riqueza, que está fora do empreendimento imediato, mas qualitativamente esses dois riscos são o mesmo. O financiador pode também perder seu dinheiro, e assim frequentemente ocorre.[6]

Um investimento de capital eterno é tão inexistente quanto um seguro. Todo investimento de capital é especulativo; seu sucesso não pode ser previsto com  certeza. Nem mesmo a ideia de um rendimento de capital “eterno e seguro” poderia ter surgido se o conceito de investimento de capital tivesse sido tirado da esfera dos negócios e dos empreendimentos de capital. As ideias de eternidade e segurança vêm de aluguéis seguros na propriedade de terra e das seguranças governamentais relacionadas. Corresponde às condições atuais quando a lei reconhece como investimentos de truste somente aqueles que estão na terra ou em renda assegurada na terra ou paga pelo Estado ou por outras corporações públicas. No empreendimento capitalista não há renda segura e não há segurança de riqueza. É óbvio que uma vinculação investida em empreendimentos fora da agricultura, silvicultura e mineração seriam sem sentido.

Se, então, somas de capital não crescem por si mesmas, se somente por sua manutenção, para além de suas frutificações e aumentos, especulação bem-sucedida é constantemente exigida, não pode haver hipótese alguma sobre uma tendência das fortunas em se tornarem cada vez maiores. Fortunas não podem crescer; alguém tem de aumentá-las.[7] Para isso é necessária a atividade bem-sucedida de um empreendedor. O capital se reproduz, dá frutos e aumenta somente até onde um investimento bem-sucedido e sortudo o sustenta. Quanto mais rápidas as mudanças no ambiente econômico, menor o tempo em que um investimento precisa ser considerado bom. Para fazer novos investimentos, para a reorganização da produção, para inovações na técnica, são necessárias habilidades que somente alguns possuem. Se, sob circunstâncias excepcionais, essas são herdadas de geração para geração, os sucessores são capazes de manter a riqueza deixada por seus ancestrais, talvez até mesmo de aumentá-las, apesar do fato de que podem ter sido divididas na herança.

Mas se, como é geralmente o caso, os herdeiros não se igualam às demandas que a vida faz aos empreendedores, a riqueza herdada rapidamente desaparece.

Quando empreendedores ricos querem perpetuar suas riquezas na família, eles geralmente buscam refúgio na terra. Os descendentes dos Fuggers e dos Welsers vivem até hoje em considerável bonança, se não no luxo, mas deixaram há tempos de serem mercadores e transformaram sua riqueza em propriedade de terra. Tornaram-se membros da nobreza alemã, não diferindo de nenhuma forma de outras famílias nobres do Sul da Alemanha. Numerosas famílias de mercadores em outros países passaram pelo mesmo desenvolvimento; tornando-se ricas na troca e na indústria, deixaram de ser mercadores e empreendedores e se tornaram senhores de terras, não para aumentar suas fortunas, mas para mantê-las e transmiti-las para seus filhos e para os filhos de seus filhos. As famílias que fizeram de outra forma desapareceram rapidamente na obscura pobreza. Há algumas famílias de banqueiros cujos negócios existiram por centenas de anos ou mais, e uma olhada aprofundada nos assuntos dessas famílias nos mostrará que eles geralmente só são comercialmente ativos na administração de fortunas realmente investidas na terra e nas minas. Não há fortuna antiga que prospere no sentido de aumentar continuamente.

§4
A teoria da pobreza crescente

A teoria da pobreza crescente entre as massas está no cerne do pensamento marxista e de outras doutrinas socialistas. A acumulação da pobreza paralela a acumulação de capital. É o “caráter antagonístico da produção capitalista” em que “acumulação de riqueza em um polo” é simultaneamente “acumulação de miséria, tortura trabalhista, escravidão, ignorância, brutalização e degeneração moral no outro”.[8] Essa é a teoria do aumento progressivo na pobreza progressiva das massas. Baseado em nada além do processo tortuoso de um sistema abstruso de pensamento, isso precisa ocupar-nos ainda menos, na medida em que está gradualmente recuando a segundo-plano, mesmo nos escritos dos discípulos marxianos ortodoxos e nos programas oficiais de partidos social-democratas. Mesmo Kautsky, durante a discussão do revisionismo, foi obrigado a conceder que, de acordo com todos os fatos, era precisamente nos países capitalistas mais avançados que a miséria física estava em declínio, e que as classes trabalhistas tinham um maior padrão de vida do que 50 anos atrás.[9] Os marxianos ainda se penduram na teoria de pobreza crescente puramente em virtude de seu valor de propaganda, e a explora hoje tanto quanto durante a juventude do agora partido envelhecido.

Mas, intelectualmente, a teoria do relativo crescimento da pobreza, desenvolvida por Rodbertus, substituiu a teoria do crescimento absoluto. “Pobreza”, diz Rodbertus, “é um conceito social, i.e., um relativo. Agora, eu sustento que as necessidades justificáveis das classes trabalhadoras, uma vez que  essas atingiram uma posição social maior, tornaram-se consideravelmente mais numerosas. Seria igualmente errôneo, agora que conseguiram essa posição, não falar, mesmo com salários não alterados, de uma deterioração em sua condição material como seria na etapa prévia quando seus salários diminuíram, e eles não haviam ainda alcançado esta posição.”[10] Esse pensamento é derivado inteiramente do ponto de vista do Estado Socialista, que considera um aumento das reivindicações dos trabalhadores “justificadas” e a elas atribui uma “posição maior” na ordem social. Contra o juízo arbitrário desse tipo, nenhum argumento é possível.

Os marxianos têm adotado a doutrina do aumento relativo da pobreza. “Se no curso da evolução o neto de um pequeno mestre tecelão, que viveu com seus próprios empregados, vem a habitar uma vila suntuosa, magnificamente decorada, enquanto o neto dos empregados vive em alojamentos, que embora sejam, sem dúvida, mais confortáveis do que o sótão de seus avôs na casa do mestre tecelão, servem para alargar o fosso social entre os dois, então o neto do viajante sentirá ainda mais sua pobreza, por ver os confortos que estão ao alcance de seu patrão. Sua posição é melhor do que a de seu ancestral, seu padrão de vida aumentou, mas sua situação se tornou relativamente pior. A miséria social se torna maior […] os trabalhadores relativamente mais miseráveis.”[11] Assumindo que isso fosse verdade, não seria acusação contra o sistema capitalista. Se o capitalismo aumenta a posição econômica de forma geral, é de importância secundária se aumenta ou não no mesmo nível. Uma ordem social não é ruim simplesmente porque ajuda mais uns do que outros.

Se eu estou melhor, como pode me prejudicar que outros estejam melhores ainda? Deve-se destruir o capitalismo, que satisfaz melhor as vontades de todas as pessoas, simplesmente porque alguns indivíduos se tornam ricos e alguns poucos deles muito ricos? Como, então, pode ser afirmado como “logicamente inatacável” que “um aumento na pobreza relativa das massas […] precisa acabar finalmente em catástrofe.”[12]

Kautsky tenta fazer sua concepção da teoria marxiana da pobreza crescente diferente daquela que emerge de uma leitura livre de preconceito de O Capital. “A palavra pobreza”, ele diz, “pode significar pobreza física, mas também pode significar pobreza social. No primeiro sentido, é mensurada pelas necessidades fisiológicas do homem. Essas de fato não são a mesma coisa em todo lugar, mas ainda assim não demonstram diferenças nem de longe tão grandes quanto as necessidades sociais, das quais a insatisfação produz pobreza social.”[13] É a pobreza social, Kautsky diz, que Marx tinha em mente. Considerando a clareza e a precisão do estilo de Marx, essa interpretação é uma obra-prima do sofismo, e foi rejeitada de acordo pelos revisionistas. Para a pessoa que não toma as palavras de Marx como revelação, pode, de fato, ser indiferente se a teoria da pobreza social crescente está contida no primeiro volume de O Capital, se foi tomada de Engels ou se foi posta pela primeira vez pelos neomarxistas. As questões importantes são se ela é defensável e que conclusões seguem dela.

Kautsky diz que um aumento da pobreza no sentido social é “atestado pela própria burguesia, eles somente deram a ela um nome diferente; chamam-na cobiça […] O fato decisivo é que o contraste entre as necessidades dos assalariados e a possibilidade de satisfazê-las pelos salários, o contraste, portanto, entre salário e capital, vem se tornando cada vez maior”.[14] Cobiça sempre existiu, portanto; não é um novo fenômeno. Nós podemos até admitir que é mais prevalente agora do que antigamente; a busca geral de melhora da posição econômica é uma característica marcante e peculiar da sociedade capitalista. Mas como pode alguém concluir daí que a ordem da sociedade capitalista precisa necessariamente mudar para a ordem socialista, isso é inexplicável.

O fato é que a doutrina da pobreza social relativa crescente nada mais é do que uma tentativa de dar uma justificativa econômica para políticas baseadas no ressentimento das massas. Pobreza social crescente significa apenas inveja crescente.[15] Mandeville e Hume, dois dos maiores observadores da natureza humana, observaram que a intensidade da inveja depende da distância entre o invejoso e o invejado. Se a distância é grande, um não se compara com o invejado, e, na verdade, nenhuma inveja é sentida. Quanto menor a distância, no entanto, maior a inveja.[16] Assim, pode-se deduzir do aumento do ressentimento das massas que as desigualdades de renda estão diminuindo. A “cobiça” crescente não é, como Kautsky pensa, uma prova do crescimento relativo da pobreza; ao contrário, demonstra que a distância econômica entre as massas vem se tornando cada vez menor.

 

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Notas

[1]              Miqueias, 2:2.

[2]              Isaías, 5:8.

[3]              Schröder, Lehrbuch der deutschen Rechtsgeschichte, p. 159 et seq., Dopsch, Wirtschaftliche und soziale Grundlagen der europäischen Kulturentwicklung, Part 2, Viena 1920, p. 289 et seq.

[4]              Michels, Die Verelendungstheorie, Leipzig 1929, p. 19 et seq.

[5]              Hansen, Die drei Bevölkerungsstufen, München 1889, p. 181 et seq.

[6]              E isso além dos efeitos de desvalorização da moeda.

[7]              Considerant tenta provar a teoria da concentração com uma metáfora emprestada da mecânica: “Les capitaux suivent anjourd’hui sans contrepoids la loi de leur propre gravitation; c’est que, s’attirant en raison de leurs masses, les richesses sociales se concentrent de plus en  plus entre les mains des grands possesseurs”. [“Os capitais seguem hoje, sem contrapesos, a lei de sua própria gravitação; é a de que, ao atrair-se por conta de suas massas, as riquezas sociais se concentram cada vez mais nas mãos dos grandes proprietários”.] Citado por Tugan-Baranowsky, Der moderne Sozialismus in seiner geschichtlichen Entwicklung, p. 62. Isso é brincar com palavras, e nada mais.

[8]              Marx, Das Kapital, Vol. I, p. 611.

[9]              Kautsky, Bernstein und das Sozialdemokratische Programm, Stuttgart, 1899, p. 116.

[10]             Rodbertus, Erster sozialer Brief an v. Kirchmann (Ausgabe von Zeller, Zur Erkenntnis unserer staatwirtschaftlichen Zustände, 2nd Edition, Berlim 1885), p. 273 n.

[11]             Hermann Müller, Karl Marx und die Gewerkschaften, Berlim 1918, p. 82 et seq.

[12]             Como é feito por Ballod, Der Zukunftsstaat, 2nd Edition, Stuttgart 1919, p. 12.

[13]             Kautsky, Bernstein und das Sozialdemokratische Programm, p. 116.

[14]             Ibid., p.  120.

[15]             Compare as observações de Weitling, citadas em Sombart (Der proletarische Sozialismus, Jena 1924, Vol. I, p. 106).

[16]             Hume, A Treatise of Human Nature (Philosophical Works, ed. by Green and Grose, Londres 1873), Vol. II, p. 162 et seq.; Mandeville, Bienenfabel, editado por Bobertag, München 1914, p. 123; Schatz (L’Individualisme économique et social, Paris 1907, p.73, n. 2) chama isso de uma “idée fondamentale pour bien comprendre la cause profonde des antagonismes sociaux”. [“Uma ideia fundamental para bem compreender a causa profunda do antagonismo social”.]

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.