Capítulo VIII – TRABALHO – 3. O campeão de produção

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cena de centenas de filmes em que o tema trabalho é abordado nos é familiar: o jovem e ávido operário chega à fábrica para trabalhar – seu primeiro emprego -, determinado a ser um operário produtivo.  No seu entusiasmo, contente, produz mais do que os outros operários que estão na fábrica há muitos anos e que estão cansados, encurvados e artríticos.  Ele é um “campeão de produção”. 

Não sem motivo, brota uma certa antipatia entre nosso jovem e ávido operário e seus colegas mais velhos.  Afinal de contas, eles estão entregues à indolência.  Contrastando com a exuberância juvenil do novato, seus níveis de produção parecem ainda mais magros. 

A medida em que o jovem operário continua com sua produção acelerada, fica cada vez mais alienado dos outros operários.  E torna-se altivo.  Os trabalhadores mais antigos tentam tratá-lo com compaixão.  Mas, uma vez que ele continua resistente, o submetem a um tratamento de silêncio e ao purgatório que um operário pode experimentar. 

Na continuação do filme, ocorre um momento de clímax, em que o jovem campeão de produção volta à razão.  Isso pode acontecer de várias maneiras, todas dramáticas.  Talvez veja uma mulher velha e doente, ex-operária da fábrica, ou um operário que tenha sofrido um acidente na fábrica.  Se o filme em questão é de vanguarda, a conversão pode ser simbolizada com os préstimos de um gato, que solta miados lamentosos ao redor de uma lata de lixo emborcada. Qualquer que seja o método, o jovem finalmente se dá conta de seus erros. 

E então, na dramática cena final, que geralmente termina com todos os operários – inclusive o campeão, regenerado – caminhando de braços dados, um filósofo operário, velho e bondoso, vem ao meio do palco.  Dá ao jovem operário um curso de cinco minutos sobre a história do trabalho, desde os tempos da Roma antiga até os dias atuais, mostrando a constante perfídia dos “patrões” e provando que, sem sombra de dúvida, a única esperança para os trabalhadores está na “solidariedade”. 

Sempre houve, explica ele, uma luta de classes, entre os trabalhadores e os capitalistas, na qual os trabalhadores continuamente lutam por salários e condições de trabalho decentes.  Os patrões são pintados como sempre tentando pagar aos trabalhadores menos do que estes merecem, exigindo deles tudo que possam, até caírem de exaustão.  Qualquer operário que coopere com os patrões em seus incessantes, impiedosos e desumanos esforços para “apressar” os operários e forçá-los a aumentarem seus níveis de produtividade, é um inimigo da classe operária.  Com esse ponto de vista resumido pelo filósofo operário, termina o filme. 

Esta visão da economia do trabalho contém um emaranhado de falácias em que cada parte une-se de forma complexa a outras partes.  Porém, há uma falácia principal. 

A falácia principal é a presunção de que existe apenas uma quantidade “xis” de trabalho no mundo a ser feito.  Às vezes chamada de falácia do “bolo do trabalho”, esta visão econômica sustenta que as pessoas do mundo só têm uma parcela limitada de trabalho que lhes cabe.  Se passarem dessa quantidade, não haverá mais trabalho a ser feito, e, consequentemente, não haverá mais empregos para os trabalhadores.  Para aqueles que sustentam esse ponto de vista, limitar a produtividade dos operários jovens e ávidos é de suprema importância.  Pois se todos os operários trabalharem além da conta, estragarão tudo para todo mundo.  Ao “se avançarem” na quantidade limitada de trabalho que existe, eles deixam trabalho de menos para todos os outros.  É como se a quantidade de trabalho que pode ser feita lembrasse um bolo de tamanho fixo.  Se algumas pessoas comerem mais do que a fatia que lhes cabe, todos os outros terão de comer menos de uma fatia. 

Se essa visão econômica do inundo estivesse correta, até haveria uma justificativa para a teoria esposada pelo filósofo do trabalho, no filme.  Poderia justificar a insistência para que o operário mais jovem e mais ativo não tirasse do “bolo” mais do que sua fatia.  No entanto, a adoção dessa teoria tem demonstrado ser ineficiente e ineconômica, com resultados trágicos. 

Esse falso argumento baseia-se no pressuposto de que os desejos das pessoas – conforto, lazer, realizações intelectuais e estéticas – têm um limite bem definido, que pode ser alcançado numa quantidade finita de tempo; e que, uma vez alcançado, a produção deve cessar.  Nada poderia estar mais longe da verdade. 

Admitir que os desejos do homem podem ser plena e definitivamente satisfeitos é admitir que chegamos a um ponto em que a perfeição humana – material, intelectual e estética – foi atingida. Paraíso? Talvez.  Se isso pudesse, de alguma forma, ser alcançado, então certamente não haveria o problema do “desemprego” – pois quem iria precisar de um emprego?

A quantidade de trabalho a ser feito é tão grande quanto o número de desejos não satisfeitos. Uma vez que os desejos do homem são, para todos os fins práticos, ilimitados, a quantia de trabalho a ser feito também é ilimitada.  Portanto, não importa quanto trabalho o jovem ávido realize, possivelmente ele não poderá exaurir a quantidade de trabalho por fazer ou mesmo fazer um rombo considerável nela. 

Se o operário ávido não “tira trabalho dos outros” (já que há uma quantidade ilimitada de trabalho a ser feito), que efeito tem o que ele faz? O efeito de trabalhar mais e com mais eficiência é aumentar a produção.  Com sua energia e eficiência, ele aumenta o tamanho do bolo – o bolo que, então, tem de ser dividido entre todos os que tomaram parte em sua produção. 

O campeão de produção também deveria ser considerado sob outro ponto positivo. Consideremos o apuro de uma família que tenha naufragado numa ilha tropical. 

Quando a família Robinson buscou refúgio numa ilha, tudo o que possuíam era o que tinham salvado do navio.  Os parcos bens de capital, mais sua própria habilidade de trabalharem, foi o que determinou sobreviverem ou não. 

Se desconsideramos todas as superficialidades novelescas, a situação econômica em que se viu a família Robinson era a de se confrontarem com uma lista infindável de desejos, enquanto que os meios a sua disposição para satisfazerem esses desejos eram extremamente limitados. 

Supondo que todos os membros da família trabalhassem com os recursos materiais disponíveis, acharíamos que eles poderiam satisfazer só alguns de seus desejos. 

Em sua situação, qual seria o efeito de extrapolar a produção? Suponhamos que um dos filhos de repente se tornasse um “campeão de produção” capaz de produzir por dia o dobro do que produziam os outros membros da família.  Esse peste seria a ruína da família, “tirando o trabalho” dos outros membros da família, e estragaria a minissociedade que criaram?

E óbvio que o campeão de produção da família Robinson não iria causar a ruína da família.  Ao contrário, ele seria visto como o herói que era, já que não haveria perigo algum de que sua maior produtividade fizesse com que faltasse trabalho para a família.  Vimos que, por razões práticas e filosóficas, as vontades e desejos da família eram ilimitados.  Dificilmente ela teria problemas desse tipo, mesmo que vários de seus membros trabalhassem dobrado. 

Se o campeão de produção da família pudesse produzir dez peças a mais de vestuário, poderia tornar-se possível, para os outros membros da família, serem dispensados de suas tarefas de manufatura de roupas.  Novas tarefas seriam atribuídas a eles.  Haveria um sorteio, no qual seria decidido que tarefas assumiriam.  Mas, evidentemente, o resultado final seria maior satisfação para a família.  Numa economia moderna e complexa, os resultados seriam idênticos, embora o processo fosse mais complexo.  O sorteio, por exemplo, poderia levar algum tempo.  Persiste, porém, a questão de que, por causa do campeão de produção, a sociedade, no todo, se encaminharia para uma situação de satisfação e prosperidade cada vez maiores. 

Outro aspecto da superprodução é a criação de novos itens.  Thomas Edison, Isaac Newton, Wolfgang Mozart, J.  S.  Bach, Henry Ford, Jonas Salk, Albert Einstein e muitos outros foram os campeões de produção de seu tempo, não em quantidade, mas em qualidade.  Cada um deles “extrapolou” o que era considerado pela sociedade um índice e um tipo de produtividade “normais”. E, mesmo assim, cada um desses campeões de produção deu a nossa civilização contribuições incalculáveis. 

Essa superprodução, além de ser compreendida do ponto de vista da quantidade e da inovação, também deveria ser considerada em termos das novas vidas que torna possíveis sobre a Terra.  A quantidade de vida humana que a Terra pode comportar está relacionada ao nível de produtividade que os seres humanos atingem.  Se houvesse menos “campeões de produção”, o número de vidas que a Terra poderia comportar ficaria grandemente limitado.  Se, no entanto, o número de “campeões de produção” aumentasse significativamente em cada campo de ação, a Terra teria condições, então, de comportar uma população em constante expansão. 

A conclusão, portanto, é a de que os campeões de produção, não só são responsáveis por satisfazer mais do que um baixo e menos eficiente índice de produção referente a nossos desejos, mas também pela preservação das próprias vidas de todos aqueles que teriam de morrer, não fosse os campeões de produção ampliarem os horizontes das satisfações humanas.  Eles fornecem os meios com os quais a crescente taxa de natalidade global pode ser comportada.