Capítulo XXII – O “Ciclo Econômico”

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1. Um “repentino colapso” da “eficiência marginal de capital”?

Keynes inicia seu Capítulo 22, “comentários acerca do Ciclo Econômico”, nos contando que se sua teoria sobre o que determina a quantidade de emprego estiver correta, essa “deve ser capaz de explicar o fenômeno do Ciclo econômico.” Por mais que este capítulo aparente ser apenas uma aplicação das teorias apresentadas até o momento, ele, na verdade adiciona novos erros.

Eu duvido que vários dos keynesianos declarados já analisaram a Teoria Geral; mas a maioria deles provavelmente leram este capítulo (um dos menos técnicos do livro) ou ao menos popularização deste. Ele contém a essência daquelas recomendações práticas que fizeram tanto mal.

“A característica principal do Ciclo Econômico [Keynes nos explica] juntamente, e especialmente, a regularidade de sequência temporal e de duração, o que justifica chamá-lo de ciclo, é principalmente devido à forma com a qual a eficiência marginal de capital oscila. O Ciclo Econômico é melhor explicado, eu acho, como sendo causado por uma mudança cíclica na eficiência marginal de capital…” (p. 313)

Agora, como já apontamos, “a eficiência marginal de capital”, assim como grande parte dos termos Keynesianos essenciais, é vago e é utilizado por Keynes com diversos significados diferentes[1]. Em certo momento, ele parece representar a produção de ativos de capital atual; em outro momento, a produção futura esperada de ativos de capital específicos; e em um outro momento aparenta ser meramente o panorama para ganhos empresariais, independente do rendimento específico a um ativo de capital específico. Se dermos à “eficiência marginal de capital” esse amplo significado, não faz muita diferença se dissermos que mudanças na eficiência marginal de capital causam o ciclo econômico ou se mudanças no ciclo econômico causam mudanças na eficiência marginal de capital, porque nesse amplo sentido, mudanças na eficiência marginal de capital e mudanças no panorama empresarial, aparentam significar quase a mesma coisa. Porém, se a proposição de Keynes fosse de que movimentações no Ciclo Econômico são causadas, inicialmente, e liderado por mudanças (independentes) no rendimento específico para ativos de capital específicos, seria muito escancaradamente implausível para valer a pena refutar.

A crença de Keynes de que

“há certo grau de regularidade identificável na sequência temporal e duração dos movimentos de altas e baixas” (p. 314)

do ciclo econômico é discutível. Quanto mais se investiga, menor a duração “regular” encontrada.

O primeiro problema é o de chegar a um consenso a respeito da forma de medir a duração dos ciclos econômicos. Os possíveis índices ou combinações são, afinal, infinitos. Tomar a produção de coca como um índice, Burns e Mitchell[2] descobriram que, de 1914 até 1932, a duração da “fase de expansão” daquilo que eles separavam em cinco ciclos distintos, variavam entre 15 e 44 meses, o da “fase de recessão” foi entre 10 e 37 meses, e o do “ciclo completo” entre 26 e 57 meses. Esses resultados seriam sem dúvida maiores se mais ciclos fossem analisados. Além de que, o maior e o menor número de meses desses “ciclos” não correspondem tão precisamente se substituirmos por outros índices, como a produção de carvão, aço, petróleo, ações de algodão em moinhos, bezerros abatidos sob inspeção Federal etc.

Deixando essas dificuldades de lado, o que aparenta ser verdade é que ciclos econômicos são fenômenos que ocorrem normalmente em intervalos de alguns anos, em comparação a períodos medidos em dias ou semanas, digamos assim, ou décadas, por outro lado. Isso é parcialmente devido ao fato de termos arbitrariamente decidido nomear esse tipo de flutuação de “ciclo econômico” ou “ciclo comercial” e porque há certa união no sistema econômico, de forma que mudanças em determinado ponto, normalmente demorem um pouco para ter um efeito mais geral.

Existem exceções até mesmo para isso. Uma greve trabalhista, um bombardeio inimigo, uma enchente, um incêndio ou um terremoto, ou até mesmo um feriado, pode quase pausar as atividades de negócios, em um único dia, de um período de grande atividade; e atividades talvez já preparadas para retornar à atividade. Mas normalmente não contamos tais mudanças quando analisamos “ciclos econômicos.” Keynes acredita na “regularidade” de duração de ciclos econômicos, no entanto, é uma importante parte da teoria que ele apresenta para explicá-los.

“Uma explicação mais comum e normalmente a predominante da crise é, [ele diz] não principalmente um aumento na taxa de juros, mas um repentino colapso na eficiência marginal de capital” (p. 315).

Agora, a veracidade ou importância que atribuímos a essa proposição, depende, mais uma vez, da interpretação que damos ao ambíguo termo de Keynes, “a eficiência marginal de capital.” Se este significar apenas a previsão para lucros de negócios (o que aparenta ser nesse contexto), então é verdade, mas óbvio. Um colapso na previsão para lucros de negócios é, no entanto, apenas outro nome para colapso de confiança. Um colapso no estado de confiança é, evidentemente, uma parte inerente da crise. Mas isso apenas levanta a dúvida: O que fez a confiança colapsar? O que fez previsão de lucros piorar? O que levou ao repentino colapso da “eficiência marginal de capital”?

Isso é apenas mais um exemplo das confusões em que Keynes se mete, devido à ambiguidade de seus próprios termos. Se “a eficiência marginal de capital” significar renda de ativos de capital esperado (como Keynes frequentemente nos diz) então é uma expectativa, um fenômeno psicológico, dependente da previsão geral de lucros de negócios, como empresários estimam este, correta ou incorretamente. Se a “eficiência marginal de capital” significar (o que aparenta apresentar à primeira vista) a produtividade física atual de ativos de capital, então claramente não é isso que “colapsa” na crise, nem como causa, nem consequência. Se, finalmente, “a eficiência marginal de capital” significa o valor monetário atual de bens que bens de capital ajudam a produzir, então um colapso no valor monetário, pode causar um colapso na eficiência marginal de capital. Mas a causa não é o contrário.

Em resumo, a explicação de Keynes para a crise como sendo um repentino colapso da eficiência marginal de capital, não é nem um truísmo inútil, nem um evidente erro, dependendo do significado que atribuímos para a expressão “a eficiência marginal de capital”.

2. Quando Governos Controlam o Investimento

É importante que a explicação de Keynes para a crise elimine um aumento da taxa de juros como o principal culpado, apesar de sua tendência em fazer das taxas de juros excessivas e a “preferência líquida” as principais causas do desemprego.

“Acostumamo-nos a explicar a ‘crise’ [ele escreve] como um alívio de pressão da crescente tendência da taxa de juros sob a influência de uma maior demanda por dinheiro, tanto para propósitos comerciais quanto para propósitos especulativos. Por vezes esse fator pode, certamente, agir como um agravante e talvez, por vezes, como um pontapé inicial” (p. 315)

Mas, quando isso ocorre, ele se nega a apontar (ou talvez não entenda) que é exatamente devido à taxa de juros ter sido anteriormente mantida muito baixa, e o crédito livremente expandido à margem e outros questionáveis projetos, incapazes de alcançar uma taxa de juros realista ou capaz de sobreviver exceto em condições inflacionárias. A alta taxa de juros, leva então a culpa pelo colapso da margem ou projetos defeituosos que foram anunciados, apenas devido às ilusões criadas por uma baixa taxa de juros anterior.

Até Keynes apresentar alguma clara teoria do ciclo econômico, é a teoria de que não se pode controlada com meios privados, não pode ser confiada ao livre mercado, mas deve ser colocada nas mãos dos burocratas do governo, que são aparentemente reconhecidos como ex officio perfeitamente racionais, completamente informados, incorruptíveis e livres de qualquer interesse político.

Seu receio a respeito de uma economia livre é aberto:

“É da natureza de mercados de investimento organizados, sob a influência de compradores amplamente ignorantes a respeito do que estão comprando e de especuladores que estão mais preocupados em prever a próxima mudança no sentimento de mercado do que com uma estimativa razoável da futura produção de ativos de capital, e quando a desilusão cair sobre um mercado muito otimista ou demandado, esse cairá com uma força repentina e até mesmo catastrófica.” (pp. 315-316)

“Não é tão fácil ressuscitar a eficiência marginal de capital, definida, pela incontrolável e desobediente psicologia do mundo dos negócios. É o retorno de confiança, dizendo em linguagem popular, que é muito complicado de controlar em uma economia de capitalismo individualista.” (Meus itálicos, p. 317)

Um ponto incidente presente nessa passagem é que esse amplia a frase “a eficiência marginal do capital” a um ponto na qual passa a significar, “em linguagem popular”, apenas confiança! Porém, o que a passagem revela acima de tudo, com as palavras que sublinhei, é a natureza essencialmente autoritária do pensamento de Keynes. Em um livre mercado, compradores são “amplamente ignorantes em relação ao que estão comprando”. O mundo dos negócios é “incontrolável” e “desobediente,” como uma criança malcriada. Obviamente, em um mundo como esse, investidores não podem ser confiados a investir seu próprio dinheiro ou empreendedores tomarem suas próprias decisões. Keynes não hesita em fazer a conclusão lógica:

“Eu concluo que o dever de regular a quantidade atual de investimentos, não pode ser confortavelmente deixada em mãos privadas” (p. 320).

Aquele que controla os investimentos, controla o rumo e natureza da produção – decide o que vai ser feito e vendido e o que não vai, o que consumidores poderão ter e em que quantidade. E Keynes também não se acovarda diante desse corolário (com exceção de certa falta de clareza e sinceridade), mas brevemente começa a falar a respeito do suporte a “todos os tipos de medidas para aumentar a propensão para o consumo” (p. 325), e redistribuição de riqueza.

“Em condições existentes, na qual a quantidade de investimento não é planejada e controlada, sujeita aos caprichos da eficiência marginal de capital, como definido pelo julgamento privado de indivíduos ignorantes ou especuladores”

o mínimo que ele apoiaria é

“uma taxa de investimento socialmente controlada” (pp. 324-325)

Tudo isso implica que, novamente, não apenas que empreendedores, empresários, investidores e especuladores são ignorantes, mercuriais e irresponsáveis, mas que existe uma classe de pessoas (talvez economistas que se assemelham ao Lord Keynes) os quais são totalmente informados, racionais, equilibrados e sábios, e possuem formas de saber em todos os momentos, exatamente quanto investimento é necessário, e em qual quantidade deveria ser alocado para quais indústrias e projetos, e que esses gerentes estão além da corrupção e de qualquer interesse em relação ao resultado as próximas eleição. A Grã-Bretanha, infelizmente, decidiu tentar o antídoto de Keynes. Os resultados agora são conhecidos. Eu apresento aqui com uma análise do professor Ely Devon da Universidade de Manchester o qual apareceu na revisão de julho de 1954 do Banco de Lioyd:

“É atualmente de conhecimento comum que não há critério objetivo pelo qual o governo possa decidir, qual a quantidade de investimento ideal no total. Mas ainda assim, por vezes, é argumentado que é possível por meio de análises estatísticas, definir a distribuição dos investimentos. Se o governo com seu controle sobre investimentos, apenas desejar imitar o procedimento mercadológico e selecionar as faixas de investimento que irão pagar melhor, estão pode se tentar planejar taxas de rendimento nos vários projetos submetidos a ele, e usar tais relações como critério para selecionar quais aprovar. No entanto, mesmo assim, taxas de rendimento esperados poderiam ser calculadas apenas com margens muito amplas, caracterizando os riscos essenciais envolvidos com tal previsão e assim como estimativas futuras para necessidade de carvão e aço, investigações estatísticas podem expor e ilustrar esses riscos, mas é improvável que os limitem.

Geralmente, controle de investimento governamental não apenas tenta imitar os procedimentos mercadológicos; na verdade, o próprio propósito do controle governamental é o de impedir que as forças comuns do mercado ajam como critério de distribuição. A autoridade em comando tenta escolher com base no interesse público ou prioridades sociais. É extremamente complicado visualizar como prioridades sociais ou retorno de renda social pode ser calculada estatisticamente. Como se compara estatisticamente o retorno de renda social advindo da construção de mais residências com o retorno de renda social advindo de mais investimentos em construção e reparação de estradas? Ou comparar o retorno de renda social advinda de mais investimentos na indústria de carvão com investimento em engenharia, ou têxteis?

Se é ou não possível calcular o retorno de renda social estatisticamente, ainda assim são poucas as evidências de que tal cálculo possui um papel importante nas discussões do comitê de emissão de capital e de planejamento de investimento. Pouco foi publicado a respeito dos procedimentos desses dois importantes comitês e o critério utilizado para chegar às suas conclusões, mas eu suspeito que a alocação de investimento é muito melhor como um resultado de embates políticos, administrativos e pressões, do que escolhas racionais determinadas pelo cálculo estatístico do retorno de renda social.

Cada indústria ou linha de investimento é de responsabilidade administrativa de algum departamento governamental, e no argumento sobre o programa de investimento, cada departamento lutaria pelos interesses os quais são responsáveis. Todos os argumentos iriam, obviamente, ter como objetivo, demonstrar que o investimento ser patrocinado é vital para a economia, pois iria aliviar um possível obstáculo, consequência da expansão exportada ou economia de dólares. A força desse caso, a eficiência com a qual é apresentada, o poder e energia do Ministro no cargo, pressões públicas e ideias comumente aceitas, porém vagas a respeito do que é ‘essencial e descartável,’ seria totalmente direcionada à determinação de como cada solicitação para inclusão no programa de investimento seria particularmente tratada.

Sem dúvidas de que os argumentos feitos antes desses comitês seriam cobertos de estatísticas, já que todo oficial sabe que uma conjectura estatística sempre causa uma impressão. E se todos os interessados fizerem o jogo estatístico corretamente – especialmente se não estiverem cientes que estão jogando esse jogo – então uma aparente atmosfera de que os problemas estão sendo resolvidos de forma racional com base em estimativas quantitativas de resultados de outras linhas de ação, pode facilmente ser mantida.”

3. A vida de ativos duráveis

Tanto por uma das principais políticas econômicas defendida por Keynes. Agora, vamos retornar a algumas das análises econômicas técnicas na qual ele baseou sua espantosa conclusão.

Keynes, como já vimos, acreditava na regularidade em durações de ciclos econômicos. Mais precisamente, ele acreditava que “a duração do movimento descendente” possuía “uma ordem de magnitude a qual não era comum”, mas

“que apresenta em si alguma tendência à estabilidade, digamos que de três ou cinco anos.” (p. 317)

Como de costume, ele não apresenta evidência estatística sobre isso, nem cita alguma fonte onde tal evidência estatística possa ser encontrada.

A extrema dificuldade de calcular a duração de ciclos econômicos é apresentada por Burns e Mitchell no Calculando Ciclos Econômicos. Quadro 56 na página 221 deste volume, mostra que a fase de recessão de quinze ciclos Americanos mensurado pela produção mensal de gusa entre 1879 e 1933 durou de cinco a quarenta e quatro meses, comparado aos “três a cinco anos” do Keynes.

Geoffrey H. Moore, dando continuidade a esses estudos da Secretaria Nacional De Pesquisa Econômica, descobriu que a duração média do movimento decrescente dos vinte quatro ciclos no intervalo de 1854 a 1954 foi de apenas vinte meses.

Mas essa média estatística omite uma ampla variedade de durações. A recessão iniciada em agosto de 1918 durou apenas sete meses; a que começou em outubro de 1873 durou sessenta e cinco meses. Apesar da impressão de regularidade do Keynes, aqui está uma diferença de duração quase dez vezes maior entre uma situação e outra.      Keynes vem discutindo a duração média de todo o ciclo, ao invés de apenas a fase de recessão, sua hipótese teria se aproximado da marca. O boom e a fase de recessão juntas, dos vinte e quatro ciclos, somados resultam em apenas cinquenta meses, ou pouco mais de quatro anos. Mas essa média novamente omite grandes diferenças. Enquanto a média dos booms dos vinte e quatro ciclos duraram trinta meses, a duração foi de dez a oitenta meses.

Agora Keynes tenta explicar sua “regularidade” por meio

“das influências que controlam a recuperação da eficiência marginal de capital” (p. 317)

Mas, aqui ele substitui novamente o significado mais abrangente dessa frase como um mero equivalente a “estado de confiança” para o restrito significado de produtividade específica de ativos de capital específicos. Ele conclui que a “duração da crise” possui

“uma determinada relação com a vida de ativos duráveis” (p. 318)

e com os

“custos contábeis dos estoques excedentes” (p. 317)

Novamente, nenhuma evidência estatística é apresentada, e pode ser questionado se alguma é possível. Não há “média” de vida de “ativos duráveis” relevante e nenhum período “médio” para se livrar de “estoques excedentes.” Cada bem de capital possui uma vida útil econômica diferente (não necessariamente coincidente com sua vida útil física). Até mesmo ativos duráveis com uma vida útil aproximadamente igual foram compradas e instaladas em épocas diferentes, logo precisam ser substituídos em épocas diferentes. A expectativa de vida média de um ser humano é de, digamos, setenta anos, mas sob condições normais, aproximadamente o mesmo número de homens e mulheres que morrem são “substituídos” todo ano, a uma taxa bem semelhante. Eles não morrem todos de uma vez e são substituídos a cada setenta anos.

Keynes não apenas se confunde com sua aritmética básica, como economicamente, possui causa e efeito reverso. A quantidade de ativos novos e duráveis ou estoques comprados depende do estado de expectativas e do estado de confiança quando comparado ao inverso. Se um manufatureiro mantém se velho equipamento por mais um ou dois anos, ou compra um novo, depende menos da idade física de seu equipamento do que em suas expectativas a respeito das futuras vendas, custos e preços. Se pessoas mantêm seus velhos automóveis ou compram novos, depende mais de sua renda atual ou renda futura estimada do que a precisa idade de seus velhos carros. Não há um ponto onde pessoas são “forçadas” a comprar novos carros ou onde manufatureiros são “forçados” a comprar novos equipamentos. Essa decisão depende principalmente da sua estimativa das futuras condições de seu negócio.

Isso é aplicado com ainda mais intensidade quando se trata de estoques. Não há uma “média” relevante de quando se livrar deles. Nada é alcançado ao se criar uma média de quanto tempo demora para uma loja de departamentos se livrar de um estoque excedente de lençóis para cama com o tempo que demora para um vendedor da Cadillac se livrar de um estoque excedente de carros. E em qualquer caso, cada período específico depende mais do poder de compra e estado de expectativa dos compradores e da vontade de vendedores de cortar preços para “despacho,” do que a “necessidade” de compradores de substituir seus próprios estoques.

Em resumo, enquanto “a longevidade de ativos duráveis” por acaso tiver alguma relação com a duração da crise, é apenas um de muitos fatores, e raramente o mais importante. Também não aparenta haver alguma forma estatística de determinar sua importância exata ou relativa.

4. Uma política de inflação permanente

A teoria de Keynes a respeito da crise, como suas outras teorias, consiste basicamente em uma atitude contra-mundum, uma negação de quase todas as doutrinas “ortodoxas” ou estabelecidas. Se uma verdade a respeito das crises econômicas foi estabelecida nos últimos anos, é a de que elas são tipicamente trazidas pelo dinheiro barato – i.e., baixa taxa de juros-políticas que incentivam excessivos empréstimos e expansões de crédito, especulações imprudentes e todas as distorções e instabilidades econômicas originadas desses. É verdade que tais crises podem ser evitadas se deixarmos o dinheiro suficientemente “limitado” de forma que expansões de crédito, especulações imprudentes e empreendimentos descuidados não sejam encorajados a princípio. Também é verdade que quando tais sintomas de um boom inflacionário surgem, um conveniente aumento da taxa monetária pode preveni-los de ir muito rápido e amortecer o boom antes deste se desenvolver tanto.

Tudo isso, obviamente, é rejeitado por Keynes. Ele lida com toda a coisa sendo uma estranha e perversa teoria:

“Pode parecer extraordinário que uma escola de pensamento deveria existir e que essa encontre a solução para o ciclo econômico, analisando o boom em seus estágios iniciais por meio de uma taxa de juros maior” (p. 326)

Keynes declara ser totalmente incapaz de entender o raciocínio dessa “escola de pensamento,” e essa declaração aparenta ser sincera.

A única linha argumentativa, junta a qualquer justificação para essa política que pode ser encontrada, é a apresentada pelo Sr. D. H Robertson, que assume, em efeito, que emprego pleno é um ideal impraticável e que o melhor que podemos esperar, é um nível de emprego muito mais estável do que o que temos hoje e talvez um pouco maior do que a média (páginas. 326-327).

Agora, se “emprego pleno,” como imaginado pelos Keynesianos, é um ideal praticável ou ao menos definível é uma questão que examinaremos depois. E se Keynes profere o argumento de Robertson corretamente ou não, não é algo que não estamos interessados. Nós precisamos apenas apontar que esta não é a verdadeira linha de argumento para a análise do boom em seus estágios iniciais por uma taxa de juros maior. A real objeção para manter taxas de juros muito baixas por muito tempo é a de que isso incentiva empréstimos excessivos, preços inflacionários e aumentos salariais, projetos especulativos que não conseguem arcar com os próprios custos, ilusões, instabilidades e distorções em meio à economia que estão unidas para eventualmente ser levada a uma depressão.

Keynes diz acreditar que aqueles contrários a bolhas inflacionárias são contra o emprego pleno:

“A austera visão que iria empregar uma alta taxa de juros para verificar de uma vez alguma tendência do nível de emprego de aumentar consideravelmente além da média de digamos, a última década, é, entretanto, mais comumente defendida por argumentos sem nenhum fundamento além confusão mental” (pp. 327-328).

Agora, eu não lembro de ninguém que advogou ou que se propôs a tal, aumentar a taxa de juros com o objetivo de diminuir o nível de empregos. Se Keynes conhecesse tal economista, ele deveria tê-lo citado. Economistas defenderam aumentar a taxa de juros, com o objetivo de atrasar, parar ou impedir uma inflação monetária e de crédito a princípio, com as instabilidades e crises finais a qual uma inflação sempre acarreta. Eles querem uma taxa de juros aumentada a um nível não inflacionário de forma que não se encare uma crise e desemprego em massa, quando a bolha inflacionária explodir.

A economia Keynesiana é a economia do desejo de satisfação, a economia da terra de Cockaigne, onde todo problema pode ser resolvido com retórica:

“Portanto, o antídoto para o boom não é uma taxa de juros maior, mas sim uma menor! Já que isso pode fazer o dito boom durar. O antídoto correto para o ciclo econômico não é abolir os booms e dessa forma nos manter em uma semi-crise permanentemente; mas sim abolir crises e assim nos manter permanentemente em um quase boom” (p. 322)

Isso soa mais como um discurso de encerramento de um candidato político na última comissão de uma campanha eleitoral do que uma afirmação de um economista sério. Claro, o ideal econômico é o de manter máxima produção e até mesmo “emprego pleno” (adequadamente definido) a todo momento. Mas Keynes propõe alcançar isso, na realidade, por meio de uma política inflacionária permanente, mantendo a taxa de juros baixa por meio de uma expansão crédito-monetária constante (o que define uma política permanente de dinheiro barato). Mas isso não traria uma produção totalmente balanceada dos produtos que os consumidores mais desejam, nem estabilidade trabalhista. Essa é uma política de boom e crash, com o método corretamente descrito.

E Keynes resolve o problema do ciclo econômico retoricamente por simplesmente não mencionar neste capítulo nem uma única vez o nível salarial! Ele não questiona nenhuma vez o que aconteceria se salários, nesse boom com emprego pleno, começassem a ultrapassar os preços e varrer as margens de lucro. Ele nunca diz o que faria para impedir que isso aconteça. No sistema Keynesiano, o nível das taxas salariais e seu efeito para o emprego, é O Grande Inominável.

A teoria de Keynes a respeito do ciclo econômico, incluindo sua teoria de política de juros, é lotada de contradições. A taxa de juros, de acordo com ele, deveria ser baixa durante a depressão, durante o boom e durante a crise. Seu “antídoto” é o de manter o boom, incentivando investimentos excessivos e maus investimentos, e então, quando o boom ceder, abaixar a taxa de juros ainda mais para incentivar mais investimentos excessivos e maus investimentos, com o objetivo de fazê-lo perdurar. Ele se negou a reconhecer a taxa de juros como um pagamento para qualquer coisa real – que não a produtividade ou valor de aluguel dos ativos de capital que poderiam ser comprados com os fundos emprestados, ou o pagamento por uso de tempo generalizado. Ele falhou em reconhecer que a taxa de juros é um fenômeno mercadológico como qualquer outro. Ele se opunha à ideia de “manter uma taxa de juros alta a qual iria provavelmente impedir alguns bons investimentos” (p. 321); esquecendo-se de que qualquer preço de mercado para qualquer coisa, deixa de fora todos os possíveis compradores que não estão dispostos ou em condições de pagar esse preço; mas se toda a oferta é vendida, a mercadoria apesar disso, irá presumivelmente ser utilizada da forma mais produtiva. O que confundiu Keynes foi a crença de que “dinheiro” não era algo real, mas apenas pedaços de papel que poderiam ser feitos à vontade com impressoras. Ele foi capaz de escrever, por exemplo:

“Ou, novamente, o mal supostamente deveria esgueirar-se se o aumento nos investimentos foi causado por uma queda na taxa de juros gerada por um aumento na quantidade de dinheiro. Ainda assim não há nenhuma virtude em especial na taxa de juros preexistente, e o novo dinheiro não é mais ‘forçado’ sobre ninguém.” (p. 328)

Aqui Keynes claramente reconhece que ele defende dinheiro artificialmente barato, mesmo que este seja originado por inflação monetária direta. Na verdade, esta é a única maneira na qual uma política de dinheiro barato pode ser efetivada. Ou a oferta de dinheiro (e/ou crédito) tem que ser aumentada para manter a taxa de juros baixa, ou a taxa de juros artificialmente baixa (se está realmente for efetiva) irá estimular empréstimos e um consequente aumento da oferta de dinheiro e crédito. Verdade, não há “nenhuma característica em especial na taxa de juros preexistente”, mas há pelo menos uma negativa em uma taxa de juros a qual é não inflacionária.

5. Mais carroças antes de cavalos

Existem algumas ocasionais falácias na Seção VI do Capítulo 22 que vale a pena reconhecer como principal indicador da falta de confiabilidade e negligência do pensamento de Keynes. Ele dispensa “a ideia de que em um boom, investimentos tendem a superar as poupanças” sob a ideia de que

“economias e investimentos podem ser desiguais, e logo, não possuem significado até que estes termos sejam definidos com algum sentido especial” (p. 328)

Isso não é honesto; não apenas porque o próprio Keynes definiu investimento e poupança nesse “sentido especial” em seu Tratado sobre a Moeda, pois, a despeito de suas definições formais de poupança e investimento na Seção II do Capítulo 6, de acordo com o qual, eles devem ser sempre iguais, toda a tese da Teoria Geral, qual faz da “economia” um pecado e o “investimento” uma virtude, depende constantemente da pressuposição tácita de que um pode, na verdade, ocorrer sem o surgimento automático de uma igual quantia do outro.

(A verdade, como vimos em nosso Capítulo XVI, é de que, em um boom [monetário], investimento pode superar genuínas economias anteriores, novo dinheiro ou créditos bancários providos foram nesse meio tempo criados-provido, em outras palavras, que há inflação monetária.)

Novamente, Keynes faz algumas afirmações espantosas na página 328.

“No curto prazo, o preço de oferta geralmente aumenta junto a uma produção crescente, por conta ou do fato físico de menor lucro, ou da tendência do custo de unidade aumentar monetariamente quando produção aumenta.”

Mas no típico cenário “Keynesiano”, depois que se há desemprego e capacidade não utilizada, custo de unidade de produção caem quando produção aumenta, por causa da redução dos indiretos custos unitários.

“O aumento de preços é apenas um subproduto da elevada produção.”

Mas produção elevada, demanda se mantendo inalterada, significa uma queda de preços.

“Ninguém possui um interesse legítimo em poder comprar por preços que só estão baixos porque a produção está baixa.”

Isso é uma inversão de causa e efeito. Quando a produção está baixa é geralmente porque preços estão baixos devido a uma baixa demanda.

Quando afirmações a respeito de relações econômicas básicas são tão desleixadas e confusas, é difícil se surpreender pelo fato de encontrar tanta confusão e falácias na discussão de problemas mais complicados.

6. Manchas solares além dos olhos

A seção final do Capítulo 22, a respeito da suposta conexão entre o tamanho da colheita em relação ao ciclo econômico, é irrelevante para os temas principais da Teoria Geral, e deve nos interessar apenas como mais uma ilustração da teorização escorregadia e improvisada a qual Keynes aparentava achar boa o suficiente para o estudo econômico.

Keynes parte da teoria de W. Stanley Jevons (apresentada em 1878) de que o ciclo econômico era causado principalmente pelas variações na qualidade das colheitas, e estes, por sua vez, a um ciclo de mancha solar. Keynes repete e defende a teoria da seguinte forma:

“Quando uma colheita excepcionalmente grande é colhida, uma importante adição é geralmente feita à quantidade mantida por futuros anos. Os ganhos desse acréscimo são adicionados à renda dos fazendeiros e é tratado por eles como um lucro; enquanto o agora maior excesso não implica em uma redução do gasto em outras áreas da comunidade, mas é financiada por meio de economias. Ou seja, o aumento de excesso é uma adição ao investimento atual. Essa conclusão não é invalidada mesmo que os preços caiam bruscamente. Portanto, é natural que notemos o ponto de virada crescente sendo caracterizada por colheitas abundantes enquanto o ponto de virada decrescente é marcada por colheitas improdutivas.” (pp. 329-330).

Agora, uma teoria dessas, para nem sequer ser considerada minimamente plausível, recorre primeiramente a um suporte indutivo e estatístico. Seria necessário mostrar: (1) uma ligação direta ou ao menos positiva, simultânea ou atrasada, entre o tamanho da colheita com o grau de prosperidade; (2) pelo menos uma relação aproximada entre a quantidade total das safras com o excesso originado deste; (3) ao menos uma relação aproximada entre a quantidade total da colheita e a quantidade de empréstimos para cobrir o excesso; e (4) uma correlação entre as mudanças anuais na quantidade de empréstimos para agricultura para cobrir a safra e as variações anuais da quantidade total de empréstimos bancários para todos os propósitos.

Nenhuma dessas comparações estatísticas é feita por Keynes ou ao menos sugeridas. Contudo, essas estatísticas são todas de fácil acesso, pelo menos em uma escala nacional; e algumas delas são diretamente opostas à teoria. O valor monetário total de uma safra (e não há outra forma aplicável de medir o valor que não monetariamente) não possui nenhuma ligação direta com o tamanho da safra. Dessa forma na década de 1876-1885 (para utilizar valores da época do próprio Jevons), a produção anual de trigo nos Estados Unidos era em média de 448.337.000 alqueires, e o valor anual da fazenda era em média de US $413.730.000. Mas na década de 1886-1895 a produção de trigo anual média nos Estados Unidos subiu para 526.076.000 alqueires, enquanto o valor médio da fazenda caiu para US $356.288.000[3]. Eu poderia citar qualquer número de quedas similares do valor total das safras da fazenda enquanto as próprias colheitas aumentavam. Falando mais amplamente, na verdade, o lucro total dos fazendeiros derivado das safras, não varia nem diretamente, nem inversamente com a quantidade total das safras. As condições de demanda em qualquer ano, e   mudanças no valor da própria unidade monetária, são tão importantes quanto mudanças na oferta de safra.

Segundamente, não há uma relação exata entre a quantidade total da colheita e seu excesso. Desta forma em cinco anos 1941-1945 a quantidade média da nova safra de trigo americano foi de 984.580.000 alqueires, e a quantidade média do excesso foi de 389,099,000 alqueires; enquanto nos cinco anos 1946-1950 a quantidade média da nova safra de trigo Americana subiu para 1.184.749.000 alqueires e a quantidade média do excesso caiu para 281.603.000 alqueires. Em 1948 a nova safra de trigo foi de 1.294.911.000 alqueires e o excesso foi de 307.285.000 alqueires; em 1949 a nova safra caiu para 1.098.415.000 alqueires, mas o excesso subiu para 424.714.000 alqueires.[4]

Não preciso mostrar a falta de relação entre a quantidade total das safras ou excessos com os empréstimos bancários, ano por ano. Afinal de contas, é responsabilidade do proponente da teoria apresentar ao menos as razões prima facie que a faz parecer plausível antes que se torne propenso para alguém apresentar uma refutação elaborada.

O argumento dedutivo de Keynes para sua versão “modernizada” da teoria Jevoniana do ciclo econômico é implausível, mesmo na ausência de refutação estatística. É baseado nas premissas tácitas (nunca justificadas) de que safras grandes levam a um aumento correspondente automático na quantidade de empréstimos bancários; que esse aumento adiciona à quantidade de poder de compra monetário; e que também, por algum motivo misterioso, nenhuma parcela desse poder de compra é limitada pela preservação das safras em si. Na verdade, Keynes argumenta que “a redução de ações redundantes para um nível normal” possui, na verdade um “efeito deflacionário”! (p. 331).

É, pelo contrário, ações em excesso espalhadas pelo mercado que possuem efeito deflacionário. Preços de qualquer mercadoria tende a crescer assim como ações em excesso. Esses são fatos conhecidos por qualquer especulador informado ou empresário, mas eles aparentemente nunca foram levados à atenção de Lord Keynes.

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Notas

[1] Cf. B. M. Anderson, Economics and the Public Welfare, p. 403 “Ele passa por mais metamorfoses do que até mesmo Ovid sabia!”

[2] Arthur F. Burns e Wesley C. Mitchell, Measuring Business Cycles, (Nova Iorque: National Bureau of Economic Research, 1946) pp. 27, 119.

[3] Statistical Abstract of the United States, 1953, p. 650.

[4]  Ibid., p. 655.