Como a esquerda se transformou de uma força de rebelião e intransigência para uma de opressão e conformidade?

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Se há mais ou menos uns 70 anos atrás, você tentasse convencer um socialista clássico a usar uma máscara no rosto sempre que saísse de casa, o exortasse a obedecer o governo em absolutamente tudo — sem qualquer hesitação — e exigisse dele total submissão aos interesses da indústria farmacêutica, você estaria desperdiçando seu tempo em uma tarefa inútil e completamente vã.

Isso porque ele não apenas iria desobedecer todas essas exigências estapafúrdias — e com toda a razão —, como esfregaria a desobediência civil dele na cara de toda a sociedade; e faria isso com um grau inenarrável de satisfação e orgulho. Se questionassem os motivos de sua desobediência inflexível e intransigente, ele provavelmente alegaria preferir morrer do que se submeter aos deploráveis interesses do “grande capital”.

Essa atitude, no entanto, entra em radical contraste com a da esquerda contemporânea, que exige obediência incondicional de todos os cidadãos ao governo, em todos os aspectos e sentidos possíveis: sociais, civis, políticos e culturais. Se você desobedecer o estado, o governo ou as ordens explicitamente proferidas pelos dirigentes governamentais, a esquerda atual vai considerá-lo um indivíduo radicalmente subversivo — aquilo que, ironicamente, os socialistas clássicos eram —, que deve ser corrigido urgentemente, se necessário através de métodos brutais de coerção estatal.

Mas o que provocou alterações tão drásticas nas atitudes e nos comportamentos da esquerda política com o passar das décadas? Por que ela mudou tanto? Por que atualmente ela luta para oprimir ao invés de libertar? Se ela afirmava defender os oprimidos — e não os opressores — por que hoje ela faz o papel inverso e se esforça ativamente em aplicar, se necessário de forma agressiva e violenta, tudo aquilo que ela anteriormente condenava e combatia? Por que a esquerda política se transformou no monstro contra o qual ela jurou, supostamente, lutar?

A história mostra que as atitudes da esquerda mudaram radicalmente quando ela deixou de ser uma causa política de estudantes, militantes, ativistas e guerrilheiros revolucionários, para se tornar a ideologia favorita das elites ricas e abastadas. Invariavelmente, isso contribuiu para um drástica mudança em sua fisiologia estrutural, e acima de tudo, em sua dinâmica de poder, de maneira que a esquerda eventualmente deixou de ser um movimento anti-establishment para se tornar o establishment. E por isso sua abordagem social e política com relação as massas mudou tão drasticamente nas décadas recentes.

Mas vamos entender como tudo isso aconteceu.

Esquerda — vítima de vigorosa repressão política e oposição sistemática

Ao contrário da direita política, a esquerda realmente começou os seus dias como um movimento de vanguarda anti-establishment. E teve que lutar muito para conseguir difundir sua doutrina e encontrar aceitação para as suas ideias e convicções.

Até o final da década de 1970, a esquerda política era brutalmente reprimida em todos os cantos, sendo legalmente tolerada apenas em algumas dezenas de países do mundo. E mesmo assim, essa tolerância era bastante limitada, sendo apenas — em muitos casos — uma mera formalidade. Para ter um grau mínimo de exposição e aceitação das suas ideias, militantes e ativistas políticos de esquerda enfrentavam enormes perigos. Esses perigos não se restringiam apenas a guerrilheiros comunistas que andavam armados e pretendiam implementar o comunismo por meio de revoluções violentas, mas era igualmente estendido a jornalistas, intelectuais e estudantes que difundiam e veiculavam suas ideias de forma mais pacífica, através de textos, panfletos e livros.

Na verdade, qualquer indivíduo que fosse minimamente simpatizante das ideias de esquerda corria sérios perigos. O simples fato de possuir um livro de Karl Marx ou de Vladimir Lênin poderia colocar qualquer cidadão em sérios problemas com as autoridades e até mesmo com a sua própria família. Naquela época, o conservadorismo tradicionalista era o padrão cultural vigente na sociedade, e o socialismo era a vanguarda marginalizada da contracultura. O primeiro se esforçava vigorosamente em asfixiar e eliminar o segundo, por considerar suas normas sociais subversivas e degradantes, e seus objetivos políticos, perigosos e ameaçadores.

Se você fosse um jovem de esquerda nas décadas de 1960 ou 1970, sua família poderia até mesmo expulsá-lo de casa como punição pela sua subversão, e você teria que dormir na rua ou na casa de um amigo. O esquerdismo — e todas as ideologias a ele associadas, como o marxismo, o socialismo e o comunismo — era um verdadeiro tabu político e social, do qual a grande maioria das pessoas queria distância, por várias razões. De fato, o esquerdismo levou um tempo considerável para conseguir encontrar tolerância e aceitação na sociedade e na política. Há várias décadas atrás, militantes e ativistas de esquerda jamais conseguiriam imaginar que algum dia a esquerda governaria nações, teria partidos políticos legalizados, usufruiria de hegemonia cultural nas escolas, nas universidades, nas redações dos jornais e seria majoritária em determinados países.

É fundamental compreender, no entanto — dentro do seu contexto —  a mentalidade cultural predominante na época em que a esquerda era um movimento político marginal e vanguardista.

No final do ano de 1970, Salvador Allende foi eleito presidente do Chile, se tornando o primeiro marxista a ganhar a presidência de um país na América Latina através de eleições. Isso deu aos socialistas latino-americanos a esperança de que sua doutrina estivesse finalmente encontrando aceitação social e conquistando território legítimo no anfiteatro político internacional. Lutar pela causa usando as formalidades da arena política começou a parecer um sonho possível; o que antes era uma realidade distante começou a se tornar uma possibilidade plausível. Finalmente, militantes e ativistas de esquerda começavam a ser tratados como gente, e não precisavam mais se esconder como animais subversivos e desprezíveis, tratados como párias pelo sistema político vigente.

Mas todo esse entusiasmo durou pouco tempo. Em 11 de setembro de 1973, o presidente socialista Salvador Allende foi deposto através de um golpe de estado executado pelas forças armadas. Isso porque o “caminho chileno para o socialismo” — como Salvador Allende descrevia o seu governo — foi um verdadeiro desastre econômico, que destroçou o Chile de norte a sul, provocando inflação, desemprego, desabastecimento, carestia, privações, instabilidade política e turbulências civis; catástrofes diretamente responsáveis por arruinar dramaticamente a vida dos chilenos e causar enorme desestabilização social no país inteiro.

Com o país a beira de um colapso dramático, as forças armadas entraram em cena para tentar arrumar a confusão causada pelos socialistas.

Por mais que em 1973 o Chile tenha se tornado uma autoritária e opressiva ditadura militar — que só acabaria em 1990 —, o golpe executado em conjunto pelo exército, pela marinha, pela aeronáutica e pelos carabineros (a polícia nacional chilena) foi fundamental para impedir o Chile de se tornar uma versão sul-americana de Cuba; ou seja, um país estagnado, miserável e pobre, com milhares de pessoas condenadas a morrer de inanição. Embora o Chile tenha se transformado em um regime autoritário, ao menos foi uma ditadura de livre mercado, e não um regime totalitário socialista, onde a população não tem opções a não ser fugir ou morrer de fome.

Apesar de uma sucessão contínua de desastres, é fundamental entender que naquela época, o socialismo não era visto como a depravação imoral, totalitária e opressiva que é hoje. A Cortina de Ferro se mantinha firme com a Guerra Fria e o conhecimento de todas as atrocidades perpetradas pelas ditaduras stalinista e maoísta — além dos demais estados-fantoche da URSS no leste europeu — eram segredos de estado muito bem guardados. A grande maioria das pessoas no ocidente era terrivelmente ignorante à respeito de tudo o que acontecia nos regimes socialistas totalitários, o que incluía os próprios militantes, ativistas, professores e estudantes de esquerda na América Latina. No ocidente, a imagem que se cultivava à respeito da ideologia socialista era exageradamente romântica, utópica e idealista. Ativistas e militantes acreditavam na causa, e realmente achavam que ela poderia mudar o mundo.

 A esquerda e o regime militar

No Brasil, o regime militar instaurado em 1964 se limitou a combater guerrilheiros armados, que pertenciam a grupos revolucionários como a Ação Libertadora Nacional (ALN), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR, que depois se tornou a VAR-Palmares), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e o Comando de Libertação Nacional (COLINA), entre muitos outros. A esquerda cultural, no entanto — embora tenha enfrentado um grau moderado de repressão — em grande parte ficou livre para agir, de maneira que pôde disseminar amplamente as suas ideias e a sua doutrina. Essa liberdade cultural concedida à esquerda se deu, majoritariamente, por influência do general Golbery do Couto e Silva e sua “teoria da panela de pressão”.

O regime militar brasileiro teve seu panorama político marcado por uma disputa constante entre duas alas divergentes e conflitantes do exército brasileiro, a Linha-dura e os castelistas — assim chamados por causa do primeiro presidente do regime militar, Humberto de Alencar Castelo Branco —, também conhecido como grupo de Sorbonne. Os militares da Linha-dura eram favoráveis à exacerbação de medidas repressivas do estado contra comunistas, militantes de esquerda e quaisquer indivíduos suspeitos de estarem envolvidos em atividades subversivas.

Os castelistas, por outro lado, eram mais moderados, e não queriam prolongar a permanência dos militares no poder. Antes o contrário, defendiam um retorno à democracia o mais rápido possível. Essa atitude exacerbou as tensões entre os dois grupos, visto que os militares da Linha-dura pretendiam se perpetuar no comando do país, ao menos até o momento que julgassem “seguro” devolver o poder político aos civis. Essa segurança estava associada às pretensões militares de erradicar completamente tudo o que estivesse relacionado a uma provável sublevação comunista em território nacional; o que era uma possibilidade real, como a Guerrilha do Araguaia —  conflito até então mantido como um segredo de estado, amplamente ignorado pela população — posteriormente veio a comprovar.

Sendo um dos castelistas, portanto um militar que pertencia a ala dos moderados, Golbery do Couto e Silva não julgava pertinente reprimir a esquerda de forma agressiva por todos os lados. Pelo contrário, ele considerava perigoso uma exacerbação da repressão do estado militar contra todos os segmentos da esquerda — sobretudo a revolucionária e a urbana —, afirmando que isso poderia fazer com que os insurgentes se tornassem mais violentos e agressivos, e fatalmente respondessem com mais brutalidade aos ataques desferidos. Isso poderia resultar em mais atentados, mais sequestros e mais violência por parte dos grupos revolucionários, o que colocaria a população civil em risco.

Naquela época, a esquerda revolucionária causava enormes problemas ao governo e a população em geral, com frequentes assaltos à bancos, atentados e sequestros, que deflagraram uma situação de pânico social e insegurança crônicas em determinadas regiões do país. Ainda que o Brasil não tenha desandado para uma guerra civil, tal situação exacerbava drasticamente as tensões, em um país que até então tinha níveis de violência urbana relativamente irrisórios, sendo considerado um país relativamente seguro (e de fato era, visto que encontrava-se muito distante de se tornar o que é hoje — o 9º país mais violento do mundo).

Com a sua “teoria da panela de pressão”, o general Golbery do Couto e Silva afirmava que — se tivesse uma válvula de escape —, a esquerda não se tornaria tão brutal ou violenta. Assim, a proposta de Golbery do Couto e Silva era dar liberdade para a esquerda estudantil e cultural, sugerindo ao alto comando militar que dirigisse os esforços de repressão unicamente contra a esquerda comunista revolucionária. E assim foi feito.

Com liberdade para agir, a esquerda cultural aproveitou a licença concedida — era vigiada, porém mais em caráter meramente formal do que propriamente repressivo — para ocupar espaços, algo que foi aperfeiçoado com a teoria da ocupação dos espaços de Antonio Gramsci, à respeito da qual os segmentos mais sofisticados da esquerda já tinham conhecimento, e haviam começado a colocar em prática.

Com o recrudescimento e o eventual fim dos atentados terroristas — que coincidiu com o fim dos movimentos revolucionários de guerrilheiros armados no término da década de 1970 e início da década de 1980 —, o regime militar não via benefício algum em impor quaisquer restrições à agenda marxista da esquerda cultural, julgando ser contraproducente provocar novos atritos que poderiam comprometer uma paz social ainda frágil, tão duramente conquistada depois de anos lutando contra terroristas comunistas.

Em 30 de abril de 1981, no entanto, ocorreu um último atentado, o famoso atentado do Riocentro, no Rio de Janeiro, que matou uma pessoa e deixou outra ferida. Embora ele nunca tenha sido efetivamente esclarecido ou solucionado, todos os seus apontamentos investigativos indicaram — o que foi amplamente corroborado até mesmo por João Figueiredo, o último presidente do regime militar — que ele foi executado, não por comunistas, mas por militares que não queriam o fim do governo militar, visto que temiam uma eventual retaliação da esquerda, caso ela chegasse ao poder. Algo que muitos militares consideravam inevitável, se o poder retornasse aos civis. E por essa razão, houve enorme resistência de determinados escalões do exército brasileiro em deixar o poder e entregá-lo as autoridades civis.

Da marginalização para o mainstream

Como a esquerda eventualmente abandonou a violência como método para chegar ao poder, passou a ser ainda mais fácil para ela disseminar as suas ideias (e a esquerda percebeu isso, adotando essa estratégia de forma consciente). De qualquer maneira, a esquerda cultural — que preparou o caminho para a esquerda política e para a instrumentalização do sindicalismo como uma ferramenta para organização das massas trabalhadoras — passou a usufruir de níveis cada vez mais expressivos de liberdade para difundir as suas ideias.

Com a redemocratização — cujo processo de consolidação teve início na segunda metade da década de 1980 — a esquerda conquistou definitivamente ampla liberdade para dominar ambientes. Já não havia mais repressão alguma ou resistência às suas ideias. A partir de então, sem nenhuma restrição, a esquerda foi gradualmente ocupando espaço nos ambientes acadêmicos, nas escolas, nas universidades e nas redações dos jornais. Sem absolutamente nenhum contraponto para oferecer resistência à sua doutrina, a esquerda foi aos poucos conquistando uma hegemonia que se tornou progressivamente maior com o passar do tempo.

Depois de dominar os ambientes culturais de maneira horizontal e orgânica, a esquerda passou a dominar o mercado. Primeiro, foram as editoras e as livrarias — negócios que em grande parte foram estabelecidos por indivíduos recém saídos das universidades, portanto, tinham uma formação acadêmica completamente marxista — e depois foi o cinema. Com ampla liberdade política, diversas variações da esquerda foram importadas para o Brasil. Todas elas já existiam, mas foram ampliadas com a importação, a tradução e a publicação de inúmeros livros de teóricos e pensadores de esquerda, que passaram a ser difundidos de forma ampla e irrestrita nas livrarias e bibliotecas do país inteiro, visto que a essa altura já não existiam quaisquer barreiras ou restrições para a doutrina esquerdista.

Com a plena liberdade adquirida na Nova República, inúmeros partidos políticos foram fundados, a maioria de esquerda, visto que ela eventualmente se tornou a ideologia dominante, em virtude da vasta difusão cultural da qual usufruiu nas décadas após o fim do regime militar; o que foi invariavelmente um produto da disseminação orgânica de sua doutrina em todos os âmbitos, principalmente nos meios sociais e culturais. Todos os partidos políticos de esquerda, invariavelmente, incorporaram as mais diferentes variações da doutrina, que vão das suas versões mais moderadas às mais radicais.

Similaridades da ascensão da esquerda nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, o processo de ascensão da esquerda foi relativamente similar ao do Brasil, embora todas as etapas tenham ocorrido com algumas décadas de antecedência. Nos Estados Unidos, a difusão de doutrinas relacionadas à esquerda política, no entanto, começou a se projetar com proeminência primeiramente entre as celebridades de Hollywood, a indústria cinematográfica americana.

No final da década de 1930, o governo americano estabeleceu o House Un-American Activities Committee como uma instituição dedicada a reprimir e erradicar a disseminação do comunismo no país. No auge desse período, na década de 1950 — também como consequência da exacerbação do macarthismo —, inúmeros atores, celebridades e personalidades que eram simpatizantes do comunismo foram interrogados e exortados a dar declarações de suas convicções políticas ao comitê. Muitas delas tiveram suas carreiras arruinadas ao terem seus nomes incluídos em uma lista negra, e tantas outras tiveram que sair do país.

Ronald Reagan — que foi governador da Califórnia de 1967 a 1975 e presidente dos Estados Unidos de 1981 a 1989 — foi um famoso ator entre 1937 e 1965, tendo participado de aproximadamente 70 filmes. Anticomunista convicto, em Hollywood ele atuou como informante do FBI, tendo sido encarregado de passar informações periodicamente às autoridades sobre atores e celebridades suspeitos de serem ativistas ou simpatizantes do comunismo.

O governo americano, a partir da década de 1940, iniciou uma grande campanha de repressão ao comunismo, determinado a erradicar tudo aquilo que pudesse ser visto como uma séria ameaça à liberdade e ao estilo de vida genuinamente americano. A dura repressão do governo federal contra a esquerda se estendeu até o final da década de 1970, embora nesse período posterior de forma bem mais discreta. Através de um amplo e repressivo programa de operações conhecido como COINTELPRO — abreviação de Programa de Contrainteligência —, o FBI passou a vigiar, monitorar e espionar ativamente todos os indivíduos, artistas e celebridades que manifestavam algum tipo de simpatia pela esquerda política.

Para citar um exemplo do quão brutal e truculenta poderia ser a perseguição liderada pelo FBI, é interessante citar o caso de Jean Seberg, famosa atriz de Hollywood. Ela acabou indo parar no radar da agência federal de investigação depois que se envolveu com o famoso grupo revolucionário conhecido como Panteras Negras.

Em 30 de agosto de 1979, ela foi encontrada morta em Paris, enrolada em um cobertor, dentro do seu carro. Ela tinha apenas 40 anos. Sua morte foi considerada suicídio. No entanto — contestando essa hipótese —, seu segundo marido, Romain Gary, afirmou que o FBI foi o responsável direto pela morte dela. Durante o tempo em que o COINTELPRO permaneceu ativo, o FBI aterrorizou de forma sistemática diversos artistas, celebridades e indivíduos simpatizantes da esquerda política.

Como é possível constatar, portanto, até mesmo nos Estados Unidos a esquerda foi alvo de uma severa e ostensiva campanha de repressão — de maneira que levou um tempo considerável para ela ser aceita, conquistar algum grau legítimo de liberdade e se tornar uma força socialmente ativa e politicamente dominante no país. Depois de décadas sendo duramente reprimida, a esquerda finalmente conseguiu se estabelecer como uma força política legítima, com direito a se expressar, participar de eleições e até mesmo exercer o poder.

Como a história demonstrou, no entanto, isso não causou benefício algum aos Estados Unidos, em parte alguma, o que mostra que toda a repressão dirigida contra a esquerda — embora tenha sido frequentemente cruel, excessiva e ostensivamente desumana em diversos casos — foi até certo ponto justificável, visto que muitas das pessoas direta ou indiretamente envolvidas tinham pleno conhecimento do grau de ruína e destruição que a esquerda é capaz de infligir quando chega ao poder. Toda a repressão dirigida contra ela sempre teve a intenção de evitar que a esquerda adquirisse aceitação popular e assumisse o controle, para fazer aquilo que ela invariavelmente faz quando conquista o poder político: ser um vetor irremediável de caos, destruição, degradação, morte, miséria, opressão e totalitarismo, em escalas desproporcionalmente dramáticas e monumentais.

Eventualmente vencendo seus adversários pelo cansaço — com a ampla tolerância promovida pela democratização do sistema político —, tanto no Brasil como nos Estados o esquerdismo encontrou passe livre para se disseminar de forma ampla e irrestrita, conforme as barreiras e limites que antes o restringiam foram sendo paulatinamente suprimidas. Invarialmente, nos meios culturais, acadêmicos, artísticos e jornalísticos, a esquerda acabou conquistando total hegemonia, visto que nestes ambientes toda e qualquer resistência à sua doutrina acabou sendo totalmente eliminada.

Em virtude de limites e restrições muito mais frágeis, a esquerda conseguiu dominar primeiramente os meios culturais, e apenas algum tempo depois conseguiu se impor no sistema político, visto que este, por ser majoritariamente conservador (ou neoconservador, para ser mais preciso), sempre ofereceu um grau de resistência muito maior. Quando a esquerda conseguiu proeminência na política, no entanto, seu grande triunfo foi ter à sua disposição uma monumental e relevante base eleitoral, que — depois de décadas de doutrinação através dos meios culturais, acadêmicos e universitários — já estava praticamente pronta.

De doutrina marginal para a ideologia favorita das elites

Outro fator que acabou favorecendo e dando ampla visibilidade a esquerda — deixando-a cada vez mais poderosa —, foi o fato de que, conforme foi usufruindo de considerável liberdade política para se disseminar, ela acabou sendo gradualmente cooptada pelos ricos, e eventualmente se transformou na ideologia favorita das elites. Há muito tempo, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, celebridades, atores famosos, diretores conceituados, magnatas, bilionários e executivos de grandes corporações são assumidamente ativistas de esquerda. O esquerdismo deixou de ser uma doutrina das classes oprimidas e desfavorecidas para se tornar um fetiche da aristocracia.

Essa apropriação contribuiu enormemente para uma transformação radical da esquerda política, que, de uma ideologia marginal, passou a ser um passatempo chique de celebridades ricas e famosas. Dessa maneira, a esquerda se tornou uma ideologia que está rotineiramente debaixo dos holofotes, muito distante das periferias pobres e mal-iluminadas que ela afirma desejar ardentemente socorrer e auxiliar.

No Brasil, sabemos perfeitamente que as celebridades do entretenimento são, em sua vasta maioria, de esquerda. Como exemplos, poderíamos citar Caetano Veloso, Chico Buarque, Fábio Porchat, Wagner Moura e Gregório Duvivier, apenas para ficarmos em artistas que também são muito conhecidos pela sua militância. Da mesma forma, nos Estados Unidos, atores famosos e multimilionários, como George Clooney, Ben Affleck, Joaquin Phoenix, Chris Evans, Mark Ruffalo e Leonardo DiCaprio — entre centenas de outros — são inveterados e ativos militantes de esquerda.

Desde que a sua doutrina de estimação tornou-se mainstream, celebridades passaram a divulgar abertamente o seu esquerdismo como uma gloriosa e gratificante sinalização de virtude, e também como uma forma adicional de se promover tanto pessoal quanto profissionalmente. Faz parte da sua estratégia pessoal de publicidade promocional gratuita. Todos querem para si a imagem de almas puras, generosas, graciosas e benevolentes, que amam o mundo e a humanidade. E a esquerda chique sabe perfeitamente como monopolizar as virtudes para se promover.

Afinal, todos irão amá-lo se você diz que é do bem, se preocupa com os pobres, uma vez por ano visita crianças carentes no Nepal, e serve sopas fumegantes para mendigos no Quênia, com dezenas de fotógrafos registrando o acontecimento — para divulgar ao mundo inteiro o glorioso ato de ativismo caridoso e benevolente praticado pela sacrossanta celebridade.

Além do mais, celebridades vivem e transitam majoritariamente em ambientes elitistas, onde todos são de esquerda. Nos altos círculos sociais, ser de esquerda é basicamente uma unanimidade. Consequentemente — em um ambiente tão monolítico —, aqueles poucos que não são militantes tem de ser muito corajosos para verbalizar sua oposição ao esquerdismo. Muitos não se arriscam a fazê-lo porque tem consciência de que isso pode lhes custar inúmeras oportunidades profissionais, e muitas vezes, a própria carreira.

De fato, há um tempo considerável Hollywood — a indústria cinematográfica americana — é basicamente uma ditadura progressista. Nesse ramo, profissionais que não são de esquerda tem enorme dificuldade para conseguir trabalho, e suas carreiras em muitos casos são deliberadamente sabotadas; isso quando os indivíduos não são explicitamente perseguidos, como mostram os casos de atores como Kevin Sorbo e Antonio Sabàto Jr., e mais recentemente, o da atriz Gina Carano.

Kevin Sorbo passou a ser perseguido depois que declarou sua fé em Cristo — algo que a indústria progressista hollywoodiana odeia. Em uma entrevista, ele questionou francamente: “por que Hollywood tem tanto medo de Deus?” — E falou abertamente sobre como tentaram censurá-lo e proibi-lo ativamente de falar sobre a sua fé. Gradualmente, Kevin Sorbo foi perdendo oportunidades de trabalho, até que elas se tornaram completamente escassas. Eventualmente, ele acabou encontrando oportunidades de trabalho em filmes cristãos produzidos para a televisão.

Antonio Sabàto Jr. começou a ter sérios problemas depois que declarou seu apoio ao presidente Donald Trump. A partir desse momento, sua carreira profissional passou a ser terrivelmente sabotada. Em 2020, ele afirmou ter a intenção de inaugurar um estúdio independente, destinado a financiar e produzir filmes de atores, diretores e produtores que são boicotados pela elite socialista de Hollywood, por causa de suas crenças religiosas ou por conta de suas convicções políticas.

Uma das controvérsias mais recentes que pulularam na mídia envolveram a atriz Gina Carano, que foi demitida do seriado da Disney Plus The Mandalorian, depois que ela fez uma publicação em suas redes sociais comparando a perseguição e a hostilidade que os conservadores americanos sofrem nas mãos dos progressistas à perseguição de judeus por nazistas no III Reich.

No século XXI, a esquerda é o establishment

Você pode até argumentar que, no presente momento, por termos um presidente de direita no poder, tecnicamente, deveríamos estar vivendo uma situação diferente. Mas a realidade mostra explicitamente que — para virar o jogo — isso é insuficiente. Nas últimas décadas, a esquerda se tornou uma força tão poderosa e influente que, atualmente, não basta colocar na presidência um político de direita para comprometer a capacidade de atuação da elite progressista.

Ter na presidência um político de direita pode até abalar de forma relativa a esquerda contemporânea, mas isso não muda o fato de que — em virtude de sua onisciente presença cultural, ideológica e política, que se faz sentir em praticamente todas as áreas e segmentos da sociedade humana — a esquerda ainda é o establishment, e a facilidade com que a ditadura do coronavírus foi implementada no Brasil mostra isso de forma incontestável.

A esquerda ainda é majoritária na cultura, na mídia, nas universidades, nas redações dos jornais, nas câmaras municipais, nos diversos departamentos de estado, na televisão, nas redes sociais e nos meios de comunicação em geral. Ter um presidente de direita desagrada muito a militância, mas isso não é suficiente para provocar alterações relevantes no status quo, que é majoritariamente dominado pela elite política e cultural progressista.

Uma vez que a esquerda conquistou ampla hegemonia em todas as áreas importantes e fundamentais, não será fácil derrubar sua influência. Ter um presidente de direita de pouco ou nada adiantará para mitigar o enorme poder que a esquerda acumulou ao longo de décadas. Isso fica muito evidente ao analisarmos o caso americano, onde a força de um establishment progressista perverso e imponente conseguiu derrubar Donald Trump. Ao que parece, sua reeleição foi comprometida por meio de uma fraude eleitoral histórica — executada em uma escala sem precedentes —, até então inédita nos Estados Unidos. A esquerda é e continua sendo muito forte e subestimar o seu poder e a sua influência é um grave equívoco.

Infelizmente, hoje a esquerda é uma opressiva e tirânica coalizão de movimentos e entidades politicamente dominantes, sendo muito diferente do movimento vanguardista marginal e quase irrelevante de um século atrás. Hoje, ela domina uma parte considerável do cenário político nacional e internacional, sendo uma força igualmente expressiva e substancial em diversos segmentos, como a cultura, as artes visuais, a imprensa, o cinema, e é majoritária em determinados núcleos e setores da sociedade, sendo influente até mesmo nos ambientes corporativos. De qualquer maneira, a esquerda não pode ser facilmente sobrepujada. No entanto — para que a liberdade prevaleça e a tirania não predomine —, a esquerda política precisa ser sistematicamente exposta e combatida.

Conclusão

A história da esquerda mostra, portanto, de forma incontestável, que, na prática, ela nunca quis emancipar os indivíduos. No decorrer de toda a sua trajetória, a esquerda — como grupo —, esteve em uma busca desenfreada e ensadecida por controle, dominação e poder político. Ela é rebelde e insurgente apenas quando isso lhe convém; ou seja, apenas quando ela é a oposição e não está no poder. Quando ela está no poder, ela exige de todos os seus súditos total sujeição e completa submissão, de forma irrevogável e absoluta. A esquerda política trabalha a favor do despotismo e da tirania e seu grande objetivo é consolidar os seus projetos de poder.

Agora que a esquerda política é, para todos os efeitos, o establishment, ela vai tentar dominar a todos pela força, porque — além de não ter nada a perder — ela jamais irá desistir do seu objetivo de se tornar suprema e absoluta, soberana sobre tudo e sobre todos. Esse sempre foi o seu objetivo como força política desde o princípio.

A história nos ensinou que — durante todo o tempo em que foi oprimida — o verdadeiro objetivo da esquerda sempre foi ser o opressor. Seu desejo nunca foi combater o monstro, mas tornar-se ele, assumir o seu lugar, ser o derradeiro protagonista na tragédia da tirania das massas; de maneira que sua função real nunca foi emancipar ou libertar os indivíduos.

Desde o princípio, o seu objetivo primordial sempre foi conquistar poder político total, supremo e absoluto, tendo plena disposição para eliminar sumariamente quem ousasse permanecer no seu caminho. Seus antecedentes falam por si só. Por mais que tente negar, a história fornece um incontestável testemunho da trágica e nefasta trajetória da esquerda política.

3 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom artigo. Faz falta na bibliografia nacional livros de historiadores não-militares sobre o período pré-revolução de 64. Sabemos que os militares estavam preocupados com a indisciplina nos quartéis e o quadro geral de anti-comunismo em vários setores. Mas mais pela boca dos aloprados da esquerda. E esse gente não se pode confiar nem por um segundo. Antes era ditadura militar, depois virou ditadura civil-militar. E ultimamente andam dizendo que não tinha comunista nenhum no Brasil, que foi uma invenção…

    Esse Golbery do Couto e Silva por exemplo, era um canalha e assim como o Roberto Campos idolatrado pelos liberalecos do estado mínimo. Deveriam ter suas carreiras bem avaliadas: socialistas do caralho. O Golba era conhecido como “o bruxo”, um elogio rasgado à sua inteligência de parte da esquerda. Não se pode confiar em alguém cuja biblioteca tinha 15.000 exemplares. Nos anos 60/70 nenhuma isso era sinal claro de progressismo. Não é por menos que vários autores consagrados de esquerda mandavam seus livros com dedicatórias para o militar melancia.

  2. Uma verdadeira aula de história esse artigo! Vários fatos que não fazia ideia. Parabéns ao instituto e ao autor.

    Deixo apenas como sugestão modificar a parte:
    “Embora o Chile tenha se transformado em um regime autoritário, ao menos foi uma ditadura de livre mercado, e não um regime totalitário socialista, onde a população não tem opções a não ser fugir ou morrer de fome.” Para

    Embora o Chile tenha se transformado em um regime autoritário, o estado era muito menos intervencionista na economia do que um regime totalitário socialista, onde a população não tem opções a não ser fugir ou morrer de fome de tão nocivas que são as intervenções estatais na economia.

    Sugiro essa alteração pois o termo “ditadura de livre mercado” é paradoxal.