Como se deve viver?

3
Tempo estimado de leitura: 5 minutos

[Assista ao vídeo deste artigo narrado pelo autor aqui.]

Estás na iminência de morrer e não és nem simples, nem imperturbável, nem livre de suspeitas capazes de te prejudicar o que é exterior, nem favorável com todos, nem dado a instalar a sabedoria na prática exclusiva da justiça. Marco Aurélio – Meditações.

O alvorecer da modernidade trouxe à tona um novo homem, ansioso por liberdades de todos os tipos e desejoso por descobrir todo o potencial de sua individualidade. Mas foi ele, o individualismo, que o traiu.

O processo de modernização do pensamento humano foi, sobretudo, individualizante, elevando o homem acima de toda a ordem naturalmente estabelecida e, garantindo-lhe poderes positivos para modificá-la sem qualquer remorso por desobediência aos dogmas que agrilhoavam os escolásticos.

O individualismo moderno foi peça fundamental no triunfo da Democracia, a ideia de que dentro de cada homem há um pequeno governante e que, por isso, todos estariam aptos a participar da constituição de um governo civil é fruto do pensamento liberal com foco no indivíduo.

Ocorre que a negação de qualquer princípio superior à individualidade, leva-nos, necessariamente à um caminho de subjetividades, pois verdades universais não podem mais ser impostas a indivíduos com pensamentos e interpretações diversas. O individualismo, por assim dizer, tem como subproduto a profanação de qualquer verdade absoluta ou princípio universal, deslocando a busca da verdade para aquilo que pode ser mais facilmente admitido por todos, a matéria.

Uma vida teorética plena, segundo Aristóteles é aquela do filósofo que ama a verdade e que, por amá-la, persegue-a até a encontrar. Tal busca difere-se daquela empreitada por um médico que deseja curar uma doença ou da de um engenheiro que deseja construir uma edificação. A vida teorética plena quer a verdade somente por reconhecer que é da natureza do homem, conhece-la, assim como é da natureza dos cavalos, correr.

Quem encontra dentro de si mesmo um dom, mas prefere o comodismo ou o prazer ao desenvolvimento de suas disposições, comete infração moral. Immanuel Kant

Uma vez imerso na sociedade individualista, a vida teorética e a consequente busca pela verdade transcendental passa a não estar entre as principais prioridades do homem, pelo contrário, a modificação da natureza material e a busca pela apropriação da matéria passa a ser seu objetivo maior. Assim, temos uma sociedade de infratores morais, segundo o conceito kantiano, pois ao mesmo tempo em que direcionamos recursos às atividades humanas que possuem resultados utilitários, como a ciência, a medicina e a tecnologia, retiramos recursos das atividades desinteressadas, as quais buscam unicamente a realização plena do potencial racional humano.

Imersos no individualismo, os homens tornaram-se presas fáceis para doutrinas coletivistas que cobram o preço do abandono das virtudes em troca da promessa de prosperidade material. A ideia de uma glória terrena e futura, com provisão e abundância de bens para todos os membros da coletividade foi facilmente vendida, embalada em diversos pacotes com nomes distintos, mas com uma promessa de conteúdo única: livrar o homem do sofrer.

Uma nova dor nasce da própria dor. Sêneca, brilhantemente descreve o princípio estoico da valorização da virtude em detrimento da satisfação material. Mas em detrimento da virtude individual, o homem, individualista e materialista, teme a toda e qualquer possibilidade de sentir dores em seus bens, sua casa, seu corpo. A dor moderna nasce antes da própria dor.

Aquele que abandona a razão, a qual infunde a natureza de comunidade e dela se distancia porque está descontente com os acontecimentos que o atingem constitui um abscesso do mundo, pois a natureza que produz os acontecimentos é a mesma que te produziu. Marco Aurélio – Meditações.

Uma vez escravizado por sua própria carne, o temor pela possibilidade do dano inunda a consciência do homem, como um abscesso no mundo, nas palavras de Marco Aurélio, ele segue sua trajetória de abandono da razão e perda da capacidade de enfrentamento dos problemas que a natureza lhe apresenta, como se ele mesmo não fizesse parte da natureza. O individualismo levou o homem ao ponto máximo do humanismo, a exaltação de si mesmo, a consideração de que nada há de mais importante dentre as coisas criadas que sua preservação, o senso de importância que ele mesmo se atribui diante do universo e da humanidade como um todo. Uma vez no topo, não resta outro caminho, que não a descida, daí, tudo o que resta é o sofrer. Afinal, você é uma pessoa importante, Por quê você está sofrendo tanto assim? É o senso de grande importância que torna o sofrimento tão temível.

Sempre que te dominar a cólera ou a impaciência, lembre-se de que a vida humana é um instante e que em breve, estaremos todos debaixo da terraMarco Aurélio – Meditações.

A certeza da morte deveria nos ser causa de constante prática de virtudes e não de preocupações constantes que se abatem sobre nós, a humanidade é muito maior que um só homem. Por quê a ideia da morte e do sofrimento nos é tão penosa, a ponto de abrirmos mão de nossas liberdades apenas pela promessa de conservação da matéria por um instante a mais de tempo?

Contemple a morte. É seu próprio senso de importância que te torna mais fraco, te torna dependente, dependente das pessoas e dos eventos, eventos que te escravizam, fazem-te um escravo por se achar melhor que seu próximo. Você é apenas um servo das consequências que você mesmo plantou e adubou em sua mente. Tudo é efêmero e o tempo te dirá que tudo não passou de desperdício, um desperdício de sua vida, um desperdício com coisas que nunca tiveram real valor.

Mesmo que vivesses 3 mil anos e tantas vezes quanto 10 mil anos, lembra, todavia, que ninguém perde uma vida distinta da vida presente, tampouco vive uma vida diferente desta que presentemente perde. Assim, a vida mais longa e a mais curta se tornam algo idêntico. Com efeito, o presente é igual para todos e, portanto, o que se perde também é igual; e aquilo que se perde, consequentemente, revela-se como sendo de curtíssima duração, como se fosse instantâneo. De fato, não se perde o que passou nem o futuro, pois como tirar de uma pessoa aquilo que ela não possui? Necessitas lembrar, portanto, estas duas coisas: uma é que tudo o que é egresso da eternidade é de espécie idêntica e tem caráter cíclico, em contemplação das coisas apenas por um século ou dois ou por um tempo infinito; a outra coisa é que, quando morrem, a perda é igual para pessoas que viveram o máximo de tempo e para aquelas que viveram o mínimo. Com efeito, o presente é tudo de que se pode ser privado: afinal, tudo o que se tem é o presente, e a perda daquilo que não se possui não é possível. Marco Aurélio – Meditações.

Por quê entregar sua vida, sua liberdade, suas decisões, sua humanidade nas mãos da burocracia, em nome de um futuro material incerto? A única certeza que temos é a de que em breve, estes nossos corpos pelos quais tanto lutamos e sofremos serão reintegrados à terra, assim como os dos animais que não se preocupam e nem molestam uns aos outros por causa do futuro.

Tudo o que se tem é o presente. Vivamos como homens e, se tivermos que morrer, que morramos como homens, não como androids assemelhados a ratos de laboratório cujas ações são determinadas pela mão do cientista que libera a porta da comida ou do choque.

A verdadeira liberdade não é estar livre de amarras, mas desejar aquilo que se já tem, o amor fati, o amor aos fatos, a vida da apateia. Marco Aurélio – Meditações.

3 COMENTÁRIOS

  1. Esse artigo me deixou confuso! Pelo o que entendi ele é um ataque ao individualismo, mostrando que o individualismo leva ao relativismo e ao coletivismo, mas eu não acho que esses argumentos procedam.

    Primeiro, no tocante ao relativismo. O texto diz:
    “Ocorre que a negação de qualquer princípio superior à individualidade, leva-nos, necessariamente à um caminho de subjetividades, pois verdades universais não podem mais ser impostas a indivíduos com pensamentos e interpretações diversas.”
    Esse argumento me parece correto, porém ele distorce o conceito de individualismo. Individualismo não é a negação de qualquer princípio superior a individualidade, individualismo em filosofia política é a ideia de que liberdade individual deveria prevalecer sobre o autoritarismo estatal (ou de qualquer outro grupo).
    Isso não quer dizer que NADA (conhecimento, natureza, Deus etc) é superior ao indivíduo, e sim que um grupo de indivíduos não tem autoridade sobre ele. A “prova” disso é que na prática podemos ver que existem inúmeros individualistas que acreditam em verdades objetivas, ou em um Deus superior ao seu ser individual e diversos outros princípios superiores a sua próprio individualidade. Em resumo, ser individualista não significa, necessariamente, se achar superior a toda e qualquer outra coisa no universo.

    Segundo, no tocante ao coletivismo, como por exemplo o individualismo levar a democracia e outras formas de coletivismo, creio também ser o contrário! A democracia nasce justamente da ideia de que a decisão coletiva é superior a decisão individual, uma sociedade individualista ao extremo nunca seria compatível com uma democracia….

    Por fim o autor se mostra contra o “materialismo” e a busca pelo conhecimento utilitário. Ora, mas sendo humanos é importante que tenhamos sempre o os meios materiais para nos sustentar e aumentar nosso expectativa de vida. Coisas como aumento da produtividade, melhoras na ciência (ciência de verdade, não a do covid), construção de pontes e etc são uma aplicação ótima do conhecimento para trazer mais conforto a vida humana. O que pode estar de errado com isso??

  2. Artigo surpreendente.

    “Ocorre que a negação de qualquer princípio superior à individualidade, leva-nos, necessariamente à um caminho de subjetividades”

    Isso é o que acaba tornando os indivíduos no seu conjunto uns fracos, que tem medo de enfrentar uma gangue de criminosos que estão em inferioridade numérica na proporção de 1000 por 1. Ainda que isoladamente seria pedir demais um sacrifício à um indivíduo específico, nem mesmo as manifestações contra o uso de focinheiras, distanciamento social e quarentenas do demônio conseguem a adesão de um volume de pessoas capaz de meter medo nos criminosos do governo.

    É só olhar a história: qualquer governo que apelou à violência em larga escala contra o povo não durou muito tempo.

    • A inferioridade numérica de uma gangue de criminosos, ainda que seja na proporção 1000 para 1, não é fator determinante. O fator determinante é a proporção do poder bélico. Se 1000 pessoas estiverem em campo aberto contra APENAS 1 criminoso que possui um avião de guerra ou um tanque de guerra a vantagem numérica delas pouco importa, pois a vantagem bélica do adversário é absurdamente maior.

      “Qualquer governo que apelou à violência em larga escala contra o povo não durou muito tempo.”
      Sim, mas não porque o povo reagiu ou qualquer coisa desse tipo e sim por um problema econômico. O estado não produz nada de valor e apenas parasita a sociedade, assim como qualquer parasita se a agressão ao corpo do hospedeiro é muito intensa isso tende a prejudicar o ente parasita e em último caso levá-lo a morte. Os estados modernos já perceberam isso e por esse motivo permitem uma mínima liberdade ao povo (bem mínima eu diria kkk) e por isso não vão cair tão cedo…