Corrompa ou obedeça

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CircoBrasilVai terminando janeiro e, se você for como eu, já está se preocupando com o que deixou de fazer neste ano.  Em especial em matéria de burocracia automotiva: IPVA, multas, licenciamentos e revisões.  Digo isso porque, até agora, nada fiz no tocante à inspeção veicular do meu velho Astra, já veterano nessa espécie de Enem sobre quatro rodas.

Procurar novamente no mapa o lugar (inexistente, inacessível) onde há “agendamento disponível” para “efetuar” o “controle do meu veículo”?  Como assim?  Já não fiz isso no ano passado?  Ou melhor, não fiz isso há coisa de um ou dois meses, nada mais?  Sim, responde, grave, a voz da consciência.  Fizeste a inspeção em dezembro, porque consentiste com meses e meses de atraso descomunal.  Viraste o ano, renasce o teu desleixo.  Janeiro já faz a conta dos teus pecados.

Eis, entretanto, a boa notícia.  Surgem na cidade mecânicas especializadas na inspeção veicular.  Ou seja, previnem surpresas desagradáveis na hora da medição das emissões do seu veículo.  Fazem mais: agendam a inspeção, levam o carro, devolvem-no perfeito e aprovado.

Não duvido da existência de profissionais honestos nessa nova área de atividade, como os há nas auto-escolas, nos exames psicotécnicos e em coisas do gênero.

Disseram-me, entretanto, que muitas oficinas sabem o truque para passar na inspeção.  Desregulam o carro antes de levá-lo aos técnicos da Controlar, que aprovam tudo, e depois o cliente recebe o carro com a desregulagem desfeita, isto é, poluindo tanto quanto devia desde o início.

Muito trabalhoso e inverossímil, penso eu, quando, num bom sistema de agendamento terceirizado, a burla poderá ser feita de comum acordo entre a oficina e algum técnico mais camarada.

Honestas ou não, vejo que pipocam oficinas na própria vizinhança dos estabelecimentos de controle.  Vejo também que, com isso, surgem dois tipos de cidadãos.

O primeiro tipo é aquele que entra de cara amarrada na inspeção, pronto a liderar algum movimento contra o sistema.  Depois de dez minutos no máximo, recebe o laudo: foi aprovado.

Pude ver, esperando na fila, o sorriso de felicidade desse cidadão; sente-se limpo, cumpriu sua parte, não terá nova chatice antes do ano que vem, seu problema pessoal foi resolvido — e o escândalo, se escândalo havia, já não é mais da sua conta.

O segundo tipo de cidadão é aquele que já recorre direto à oficina especializada e não se incomoda se estiver acontecendo alguma coisa errada por baixo do pano.

Por mais opostos que pareçam, os dois se complementam.  Quem paga propina está na verdade se vingando de um estado que impôs, certamente com fins arrecadatórios, uma fiscalização nova, uma exigência a mais sobre os cidadãos.

Já tentaram tornar obrigatório o estojo de primeiros socorros, como o seguro contra terceiros, a cadeirinha das crianças, e não esqueçamos do próprio pedágio… O cidadão corrompe no varejo em reação ao que vê como corrupção no atacado — as grandes licitações e negociatas para impor legislações desse tipo.

Por sua vez, o sujeito que não paga propina e sai feliz com seu pequeno certificado de plástico padece de mentalidade parecida. Os assuntos públicos não lhe dizem respeito se consegue safar-se deles.

Nos dois casos, o estado surge como uma entidade alienada, estrangeira, que não está sob nosso controle nem nasceu de nós.

Há outros exemplos disso: a nova tomada de três pontas, que ninguém sabe como foi imposta, e que temos agora de adotar ou de adaptar, para lucro de quem inventou a nova moda. E a nova ortografia, que, uma vez em vigor, todo cidadão de bem se preocupou em obedecer, gastando mais dinheiro e tempo em aprendê-la do que em protestar contra sua criação.

Quase 200 anos depois da Independência, ainda temos do estado uma visão colonial. Trata-se de uma entidade arrecadatória, nascida de algum reino estrangeiro que inventa novas coisas para nos infernizar e que cumpre enganar do mesmo modo com que nos tapeia.

A corrosão ética da coisa toda nasce, a rigor, da política, e não o contrário: por se tratar de uma cidadania imperfeita, de um autoritarismo latente, de uma democracia sem participação e de um estado, afinal, sem dono, mas com muitos gerentes e coronéis, é que corromper ou obedecer são as saídas que conhecemos. Não adianta reclamar depois.