Democracia — O degradante deus moderno

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Defender a democracia parece ser a grande especialidade da maioria dos políticos atuais. Quando eles querem passar para o público, para os seus eleitores e para a imprensa a impressão de que eles são pessoas puras, justas, benévolas e generosas legítimos guardiões da vontade popular e do bem comum , eles fazem sentimentais, retumbantes e honoríficas apologias à democracia.

Fernando Haddad já fez isso, Marcelo Freixo já fez isso, Lindbergh Farias já fez isso, até mesmo Emomali Rahmon, que é ditador do Tajiquistão desde 1992 portanto há quase 30 anos já defendeu a democracia com inigualável fervor, paixão e veemência. Hoje, o que não falta no ambiente político de qualquer país são dirigentes governamentais, militantes e indivíduos politizados das mais variadas vertentes defendendo a democracia. Isso ajuda muito a dar uma imagem de confiança e respeitabilidade a essas pessoas.

Mas a democracia é tão formidável quanto dizem?

Evidentemente, ao falar de democracia, é fundamental apresentar as pequenas diferenças existentes entre os seus dois desdobramentos a democracia representativa e a democracia direta. Ambas são contraproducentes; no entanto, a democracia representativa é a pior delas, pois ela tira efetivamente todos os poderes do cidadão e os transfere para os burocratas do sistema político, enquanto a democracia direta praticada em alguns poucos países como a Suíça mantém o cidadão com um grau moderado de poder, ainda que isso não represente muita coisa, pois ele permanecerá suscetível a tirania da maioria.

Para a democracia se sustentar, no entanto assim como uma ditadura populista , ela dependerá muito mais da propaganda institucionalizada do sistema do que da suposta competência dinâmica funcional de sua estrutura organizacional e de seus dirigentes. Como a vontade de uma expressiva leva de cidadãos será amplamente ignorada em uma democracia, assim como também o é em uma ditadura, o sistema naturalmente se organizará para fazer as vontades dos grupos que tem maior poder e representatividade, como sindicatos, oligarquias políticas e corporativistas com conexões no governo. A vontade, os desejos e necessidades do cidadão comum serão sempre ostensivamente ignoradas em uma democracia, assim como o são de forma explícita em uma ditadura.

E verdade seja dita, as diferenças existentes entre uma ditadura e uma democracia são relativamente insignificantes.

Em uma ditadura, o cidadão será compulsiva e compulsoriamente roubado pelo estado. Na democracia também. A diferença é que na democracia ao menos a burocracia estatal, como uma concessão e um favor da parte dela, dá ao cidadão licença para reclamar do sistema. Como em uma democracia as pessoas tem plena liberdade para falarem mal de políticos nas redes sociais, por exemplo, isso faz elas acreditarem que são livres. Não obstante, elas foram, são e continuarão sendo ostensivamente depauperadas pela burocracia estatal, como são em qualquer ditadura. A diferença é que em uma ditadura você não pode reclamar da sua condição de escravo do estado nas redes sociais, ou em qualquer outro lugar. Se você o fizer, o fará por sua própria conta e risco.

Adicionalmente, em uma democracia representativa, o sistema dá à população a ilusão de que ela possui poder de decisão, por permitir que ela faça parte do processo eleitoral. Como o povo pode escolher quem serão os parasitas que irão roubá-los, os cidadãos criam a ilusão de que quem governa são eles, através dos representantes eleitos ainda que os eleitores não recebam nenhuma parte do espólio de tudo aquilo que é confiscado da sociedade produtiva, tampouco nenhum dos benefícios ou privilégios que são usufruídos unicamente pelos marajás do estado.

Uma pequena parcela de cidadãos esclarecidos sabe perfeitamente que apertar um botão em uma maquininha não irá mudar absolutamente nada, mas a grande maioria do populacho em virtude de doutrinação sistemática , realmente acredita fazer parte de um sistema participativo, inclusivo e eficiente, que luta a favor de uma abstração coletivamente conhecida como povo.

Como consequência do processo de doutrinação, o populacho acredita até mesmo com uma certa convicção nas delirantes frases de efeito da propaganda política, do tipo “o voto é a arma do povo”. No entanto, quando um político é flagrado desviando recursos em seu próprio benefício algo extremamente comum e corriqueiro dentro da burocracia estatal , a culpa é do eleitor que não soube votar, como se a culpa pelas iniquidades e maledicências de uma pessoa pudesse ser transferida para outra. Aí, os eleitores são condicionados a praticar o “voto consciente” nas próximas eleições e “renovar a política através do voto”. E assim, a letargia, a apatia e a fé irracional das massas em um sistema que nunca deu certo, nem jamais dará, é perenemente fortalecida por meio de doutrinação sistemática, em muito agravada pela repetição de frases e slogans que não fazem sentido algum para uma pessoa racional.

O povo, de fato, pode ser efetivamente reconhecido como o rebanho bovino que habita dentro de um curral, que por puro instinto e condicionamento obedece cegamente as ordens do fazendeiro. Por não cultivarem suas faculdades de raciocínio, tampouco suas capacidades intelectuais, os integrantes do rebanho não se atrevem a questionar seus dirigentes, tampouco o sistema que os aprisiona.

E assim o processo se repete indefinidamente. Como as pessoas não pensam, nem raciocinam, elas se prestam a simplesmente agir de acordo com o seu condicionamento, fazendo exatamente aquilo que os mandatários do sistema exigem delas. Portanto, nas próximas eleições, lá vão as pessoas votar novamente, ingenuamente acreditando que podem fazer a diferença através do voto. Esse tipo de complacência irracional é excelente para aqueles que estão no poder; como não querem nem desejam ser questionados ou contestados, a obediência automática e subserviente da população permite que os oligarcas e mandatários do sistema político se perpetuem como poderosos e onipotentes consignatários da escravidão alheia.

Ou seja, em uma comparação tácita com qualquer ditadura, os benefícios da democracia são bastante insignificantes na democracia, você pode escolher quem serão os políticos que irão roubá-lo, enriquecer substancialmente e mandar na sua vida, e terá plena licença para reclamar com seus vizinhos, amigos e colegas de trabalho da incompetência, das maledicências, ingerências e crimes do estado.

Sinceramente, não me parecem benefícios tão formidáveis assim a ponto de me transformar em um ardoroso e apaixonado entusiasta da democracia. Até porque agora vem a pior parte.

Na democracia, uma das primeiras coisas a desaparecer completamente é a liberdade econômica. A democracia é um sistema que dá prerrogativas contraditórias para quem está no poder, como liberdade para acabar com a liberdade. Para um regime que afirma ser um aguerrido defensor da liberdade, essa contradição é tão nefasta quanto trágica, embora bastante óbvia para quem compreende quais são os interesses que realmente movem o sistema democrático.

Portanto, além de roubá-lo através de taxas, tarifas, contribuições compulsórias, inflação e uma miríade efusiva de impostos diretos e indiretos, a democracia cria enormes obstáculos para o exercício de atividades econômicas livres, independentes e desimpedidas, o que dificultará de forma substancial a aquisição de prosperidade para a sociedade produtiva.

Na democracia, quem tem conexões governamentais geralmente se dá muito bem. Pelas vantagens que conseguem alcançar em decorrência do enorme poder econômico que usufruem, oligarcas e corporativistas conquistam inúmeros benefícios em um regime democrático. Por conta de inúmeros interesses distintos, aos poucos a economia vai sendo totalmente cartelizada, sendo fatiada em monopólios, oligopólios, agências reguladoras e reservas de mercado, que passam a ser totalmente dominadas por algumas poucas corporações, que possuem recursos para comprar favores, proteção e privilégios do estado.

Por essa razão, criam-se inúmeras regulações assim como barreiras tarifárias e protecionistas , que invariavelmente acabam arregimentando um considerável poder econômico para as oligarquias que possuem conexões políticas, da mesma forma que criam imensuráveis dificuldades para a manutenção da liberdade no mercado, que gradualmente vai desaparecendo até invariavelmente se comprimir nos abcessos de uma estagnação estarrecedora, o que fatalmente compromete as possibilidades de êxito de pequenos empresários e empreendedores comuns, aqueles que não possuem contatos ou conexões com o governo, e consequentemente não terão formas de conquistar quaisquer privilégios ou benefícios dos burocratas do estado.

Ou seja, paradoxalmente, a democracia é um sistema onde existe total liberdade para se dilacerar e enterrar completamente a liberdade, sobretudo a econômica, que aos poucos vai desaparecendo em meio ao pântano de interesses escusos que tomam conta do estado. O Brasil nessa questão é um excelente exemplo o que não falta aqui é um mercado ostensivamente regulado, saturado de monopólios, oligopólios, autarquias, agências reguladoras, reservas de mercado, intervenções discricionárias do estado na economia e centenas de empresas estatais para resguardar os recursos “estratégicos”, tudo isso deliberadamente arregimentado para beneficiar alguns seletos e privilegiados grupos de interesse que possuem fortes conexões com a burocracia estatal.

Isso, além de criar dificuldades imensuráveis para a produtividade e a geração de riquezas da sociedade como um todo, produz um ambiente de mercado totalmente estagnado, onde a ousadia e a inovação não apenas são totalmente desencorajadas, como tornam-se verdadeiras impossibilidades, em virtude dos lobbies dos cartéis que lutam pela manutenção dos seus privilégios protecionistas e também pelos elevados custos proibitivos que a emancipação dos agentes inovadores traz consigo.

Além do mais, esse tipo de situação sempre contribuirá para concentrar renda nas mãos das poucas abastadas oligarquias que controlam o sistema; para o restante da população, restará apenas estagnação, miséria e pobreza. Essa é uma consequência inevitável da centralização e da concentração de poder. Inevitavelmente, como Mises corretamente declarou, “o resultado do protecionismo será sempre a redução da produtividade do trabalho humano”. As poucas riquezas que são geradas, são geradas através de um ambiente artificialmente regulado, totalmente cartelizado para favorecer as oligarquias que usufruem dos benefícios de possuir conexões diretas com o estado.

Como em qualquer ditadura, a democracia só será boa para aqueles que estiverem no poder ou que possuam conexões com os poderosos para comprar favores. Para todo o restante da população, ela não terá serventia alguma. A democracia de fato não é uma opção salutar para qualquer pessoa que pareça minimamente inteligente. Para parecer uma opção minimamente razoável, a democracia precisa ser necessariamente comparada a uma ditadura. E preferencialmente, a uma ditadura socialista, onde a miséria e a inanição da população são explícitas.

Se compararmos a democracia a uma ditadura de livre mercado, por exemplo como a ditadura chilena pinochetista , a democracia não consegue parecer boa, sob nenhum ângulo analisado, visto que as possibilidades de trabalho, empreendimento e produtividade, e consequentemente de prosperidade e qualidade de vida, serão sempre muito superiores as que são oferecidas em uma democracia, onde tudo será ostensivamente controlado e regulamentado pelo estado, sob a falaciosa justificativa de que os interesses, o bem-comum e o bem-estar geral da população estão sendo resguardados.

Em um ambiente onde existe livre mercado, não faltarão oportunidades para todos aqueles que desejam trabalhar, construir e empreender. A aquisição de prosperidade se torna uma possibilidade real. Você pode até discordar, mas faço das palavras de Hayek as minhas, quando ele disse: “Minha preferência vai na direção de uma ditadura de livre mercado, ao invés de um governo democrático sem liberdade econômica”. As possibilidades do livre mercado são reais, ao passo que a suposta liberdade existente em uma democracia é meramente ilusória. Ela serve como um vulgar e deplorável recurso retórico que se presta unicamente a servir como uma engrenagem ideológica que contribui para a manutenção perene do status quo, o que vai manter a população permanentemente presa a um sistema pérfido, insidioso e acima de tudo, altamente escravagista.

A verdade é que na democracia o sistema periodicamente muda tudo para que todas as coisas permaneçam exatamente como estão. Na democracia, tudo muda para nada mudar. Podemos trocar através do voto os políticos que fazem parte do estado visível. Mas quem manda de verdade é o estado oculto. Os interesses, as oligarquias, as corporações e os grupos que fazem parte do estado oculto não vão embora nem desaparecem por meio do voto. Pelo contrário, os políticos vem e vão, mas o estado oculto com toda as quadrilhas que o compõem permanecerá exatamente como está, sempre intocável.

Os políticos e os burocratas do estado na verdade não passam de meros lobistas de interesses muito maiores do que a vontade popular, para a qual eles são totalmente indiferentes; de uma forma ou de outra, eles sempre serão manipulados e coagidos a trabalhar a favor dos interesses do estado oculto, quer você aceite isso ou não. Em uma democracia, as considerações, opiniões, necessidades ou sentimentos da população não fazem a menor diferença.

A democracia, para todos os efeitos, não passa de um teatrinho vulgar e falacioso, que tenta fazer a servidão e a escravidão parecerem coisas boas. Os incautos, os desavisados e as pessoas sem discernimento infelizmente acreditam em todo esse teatrinho ignóbil e retumbante, sendo incapazes de perceber que são manipuladas como legítimos idiotas úteis por candidatos desesperados por triunfar na política, visto que esta é uma carreira que oferece aos parasitas fácil acesso a um caminho cheio de riquezas, poder, vantagens e inúmeros privilégios e benefícios. Algo que eles jamais conseguiriam conquistar através de árduo e edificante trabalho honesto.

Não devemos nos impressionar quando políticos defendem a democracia. Eles tem tudo a ganhar com isso, caso sejam eleitos. Políticos sempre ficaram extremamente ricos graças a democracia. Até mesmo o ditador do STF, Alexandre de Moraes, já defendeu arduamente a democracia. Não é para menos; na democracia onde ele é um ditador do poder judiciário com poderes plenipotencários para perseguir aqueles que o desagradam e discordam dele, ele ganha um salário de 39 mil por mês além de muitos outros privilégios e benefícios , totalmente custeado por você, cidadão assaltado honorificamente chamado de “contribuinte”. Por ser conveniente para ele, é evidente que Alexandre de Moraes sempre defenderá a democracia, pois, como a todos os políticos e demais integrantes da burocracia estatal, esse é um sistema que permite a ele ser excepcionalmente rico e poderoso.

Quando essa gente defende a democracia, na verdade eles estão defendendo o “direito” deles de roubarem, assaltarem e expropriarem você. Absolutamente nada além disso. Democracia não tem relação nenhuma com liberdade, livre mercado, direitos naturais, livre iniciativa, propriedade privada, autonomia, liberdade, independência ou soberania individual. É exatamente o contrário de tudo isso. A democracia é uma ditadura onde a opressão e a tirania do estado ficam disfarçadas sob o frágil e delicado verniz de civilidade do positivismo, que rapidamente desmorona quando você começa a analisar o sistema exatamente da forma como ele se apresenta. O Leviatã é um insaciável e titânico predador implacável; a democracia simplesmente faz esse monstro hostil e sanguinário parecer um dos ursinhos carinhosos.

A adoração pelo estado, pela democracia, pela constituição, faz parte de um teatrinho criado para iludir, ludibriar e doutrinar as massas. Nossa constituição, por exemplo, pode ser jogada no lixo. Ela é o documento que garante e legitima a escravidão da população. Quanto a democracia, é um sistema que deve ser exposto pelo que realmente é. Nada além de nefasta e degradante tirania, um circo dos horrores onde poucos (a classe política e a elite de marajás poderosos) podem dominar, explorar e expropriar a muitos (a população), tudo de forma legítima, legal, constitucional e dentro da lei.

Democracia nada mais é do que uma forma dissimulada de escravidão, uma forma mais civilizada e menos implacável de totalitarismo, onde a tirania do estado onipotente usa prerrogativas positivistas como a constituição e o legalismo burocrático para subjugar o indivíduo e dilacerar a liberdade do cidadão comum. Não obstante, é uma prisão perniciosa e nefasta, como qualquer ditadura.

Sem dúvida nenhuma, a democracia moderna é a mais eficiente forma de escravidão já criada na história humana, sendo totalmente respaldada pelo sistema político. É tão sutil, dissimulada e evasiva que impede as pessoas de perceberem como estão aprisionadas. E muitas delas de tão doutrinadas que estão , recusam-se ostensivamente a serem libertadas. Com a democracia moderna, aprendemos que a forma mais eficiente de tirania é aquela que faz as pessoas desejarem arduamente o cárcere que as aprisiona.

6 COMENTÁRIOS

  1. Excelente texto. Permita me acrescentar algo relevante.

    A Democracia INEVITAVELMENTE leva ao Fascismo.

    A demanda (vontade popular) é INFINITA e os recursos (produção) são LIMITADOS. Na Democracia ganha quem suprir mais demandas. Demanda suprida leva à novas demandas e para atender tais demandas o estado DEMOCRÁTICO precisa de mais recursos (do SEU dinheiro).

    Num ciclo vicioso, o estado avança sobre qualquer riqueza existente, aumentando os seus tentáculos para nos “abraçar” cada vez mais e mais forte. Até que se cumpra a promessa de Benito Mussolini:

    “O Estado é absoluto, o individuo é relativo.” (A Doutrina do Fascismo, 1932, Mussolini).

    “Fascismo é governo, governo, governo.” (A Doutrina do Fascusmo, 1932, Mussolini).

  2. Esse artigo poderia ser uma nova introdução a uma próxima edição do livro “Além da Democracia”. Vou imprimir e decorar por que às vezes é difícil articular argumentos contra o “governo do povo”. As pessoas confundem democracia com liberdade.

    É aquela coisa, “as pessoas são más, por isso precisamos de um governo com pessoas boas”.

  3. O problema do Rothbard, do Hoppe, entre outros que se intitulam libertários, é que camuflam sua intolerância com posições liberais. O livro de Hoppe, A democracia o deus que falhou (mal traduzido, pois em alemão o substantivo também é feminino), é uma tentativa de pregar a intolerância, promover o racismo e a xenofobia deturpando Jouvenel, de la Boetie, e tantos outros mestres do libralismo clássico.

    • Pra começar o Hoppe escreveu e publicou o livro em inglês e ele foi traduzido do inglês, ou seja, já começou falando merda. E continuou…. Rothbard foi o criador do libertarianismo, unindo a tradição anarquista individualista com a economia austríaca, ou seja, é de uma imbecilidade sem tamanho dizer que ele meramente se “intitula” libertário. E por último, Rothbard, Hoppe, entre outros, são francos opositores do liberalismo, que é uma ideologia fracassada em suas próprias contradições. …. É amiguinho, falou pouco, mas falou muita bosta.