Descentralizado e neutro

5
Tempo estimado de leitura: 6 minutos

Os Estados, independentemente de sua constituição, não são organizações econômicas. Em contraste com estas organizações, os estados não se financiam vendendo produtos e serviços a clientes que pagam voluntariamente, mas por taxas compulsórias: impostos cobrados através da ameaça e uso da violência (e através do papel-moeda que eles literalmente criam do nada). Significativamente, os economistas têm, portanto, se referido aos governos, ou seja, os detentores do poder estatal, como bandidos estacionários. Os governos e todos em sua folha de pagamento vivem do saque roubado de outras pessoas. Eles levam uma existência parasitária às custas de uma população subjugada e ‘hospedeira’.

Uma série de outras percepções emergem disso.

Naturalmente, bandidos estacionários preferem saques maiores aos menores. Isso significa que os estados sempre tentarão aumentar sua receita tributária e aumentar ainda mais seus gastos aumentando o número de papel-moeda. Quanto maior o saque, mais benefícios eles podem trazer para si mesmos, seus funcionários e seus apoiadores. Mas há limites naturais para essa atividade.

Por um lado, os bandidos devem tomar cuidado para não sobrecarregar seu “hospedeiro”, cujo trabalho e atuação possibilitam sua existência parasitária, tanto que este deixa de funcionar. Por outro lado, eles têm que temer que seus ” hospedeiros” – e especialmente os mais produtivos entre eles – migrem de seu domínio e morem em outro lugar.

Neste contexto, uma série de tendências e processos históricos tornam-se compreensíveis.

Em primeiro lugar, entende-se por que há uma tendência à expansão territorial e à centralização política: com isso, os Estados conseguem trazer cada vez mais “hospedeiros” sob seu controle e dificultar a emigração para territórios estrangeiros. Espera-se que isso resulte em uma quantidade maior de saque. E fica claro por que o ponto final desse processo, o estabelecimento de um estado mundial, não seria de forma alguma uma bênção para toda a humanidade, como muitas vezes se afirma. Porque não se pode emigrar de um estado mundial e, a esse respeito, não há possibilidade de escapar das incursões estatais através da emigração. É, portanto, de se esperar que com o estabelecimento de um estado mundial, o alcance e extensão da exploração estatal – indicado, entre outras coisas, pelo nível de receitas e despesas do estado, inflação monetária, o número e o alcance dos chamados ” bens públicos” e pessoas empregadas no “serviço público” – continuará a aumentar além de qualquer nível já visto. E isso certamente não é uma bênção para a “população hospedeira” que tem que gerar essa superestrutura estatal!

Em segundo lugar, uma razão central da ascensão do “Ocidente” até se tornar a principal região econômica, científica e cultural do mundo torna-se compreensível. Em contraste com a China em particular, a Europa foi caracterizada por um alto grau de descentralização política com centenas ou mesmo milhares de domínios independentes desde o início da Idade Média até o passado recente. Alguns historiadores descreveram esse estado de coisas como “anarquia política ordenada”. E agora é comum entre os historiadores econômicos ver nesse estado quase anárquico uma razão fundamental para o chamado “milagre europeu”. Porque em um ambiente com uma grande variedade de domínios independentes e de pequena escala nas imediações uns dos outros, é comparativamente fácil votar com os pés e escapar dos roubos dos governantes estatais pela emigração. Para evitar esse perigo e manter os produtores locais sob controle, esses senhores estão constantemente sob grande pressão para moderar sua exploração. E essa moderação, por sua vez, promove o empreendedorismo econômico, a curiosidade científica e a criatividade cultural.

Finalmente, à luz das considerações anteriores, é possível uma classificação e avaliação histórica bem fundamentada da União Europeia (UE).

A UE é um excelente exemplo da já mencionada tendência de expansão territorial e centralização política, com as consequências resultantes: um aumento das medidas estatais exploradoras e um crescimento correspondente na superestrutura estatal parasitária (palavra-chave: Bruxelas).

Mais concretamente: a UE e o Banco Central Europeu (BCE) são o primeiro passo para o estabelecimento de um superestado europeu, que deve eventualmente se fundir em um governo mundial dominado pelos EUA e seu banco central, o FED. Contrariamente aos eufônicos pronunciamentos políticos, a UE e o BCE nunca falaram sobre livre comércio internacional e concorrência. Você não precisa de milhares e milhares de páginas para isso cheias de ordenanças e regulamentos! Pelo contrário, a EU tratou-se sempre e sobretudo de uma harmonização vertical das disposições fiscais, legais e regulamentares de todos os Estados-Membros, a fim de reduzir ou eliminar toda a concorrência econômica local desta forma. Porque se as alíquotas de impostos e as regulamentações estatais são as mesmas em todos os lugares ou estão cada vez mais alinhadas, então há cada vez menos razões econômicas para as pessoas produtivas – os “proprietários” – transferirem suas atividades para outro local, e os bandidos estacionários podem, portanto, continuar em sua atividade de saque e distribuição ainda mais imperturbáveis.  – Além disso, a atual UE, como cartel de vários governos, só se mantém unida enquanto os bandidos mais ricos que podem recorrer a uma “população hospedeira” mais produtiva, sobretudo os governos alemães, estiverem dispostos e capazes de apoiar suas contrapartes mais carentes do Sul e do Leste, com seus “hospedeiros” menos produtivos em escala grande e permanente escala. À custa dos produtores locais!

Em conclusão, a UE e o BCE são monstruosidades morais e econômicas. Você não pode penalizar consistentemente a produtividade e o sucesso econômico enquanto recompensa o parasitismo, o desperdício e o fracasso econômico sem causar um desastre. A UE vai passar de uma crise econômica para outra e, eventualmente, desmoronar.

Diante disso, parece urgente ter uma ideia clara de possíveis alternativas ao atual curso de crescente centralização política. E a memória do mencionado “milagre europeu” deve ser decisiva. A descentralização radical é necessária para que a Europa prospere. Em vez da UE e do BCE, o que é necessário é uma Europa composta por milhares de Liechtensteins e cantões suíços, ligados pelo livre comércio e um padrão ouro internacional, e competindo para manter e atrair pessoas produtivas com condições locais atraentes.

No entanto: para tornar essa situação não apenas concebível, mas viável, é necessário que os Estados e os políticos não sejam mais vistos como o que afirmam ser, mas como o que realmente são: bandidos estacionários, gângsteres e vigaristas. Até recentemente, essa percepção era impensável para a esmagadora maioria da população. Mas o regime Corona nos últimos dois anos, com suas proibições arbitrárias e absurdas de sair, de contato e de reunião e seus regulamentos de teste, certificado e vacinação em constante mudança, incluindo vacinas compulsórias, fizeram com que muitos políticos fossem corretamente vistos como criminosos violentos armados e sem escrúpulos.

PS: Os atuais eventos militares na Ucrânia exigem uma revisão ou correção das análises acima?

Pelo contrário.

Em primeiro lugar: não são os russos, os ucranianos, os alemães ou os americanos que causam as guerras, mas os bandos de bandidos que governam a Rússia, a Ucrânia, a Alemanha ou a América e que podem repassar os custos de uma guerra à população civil em questão.

Então: Pequenos estados ou gangues de bandidos apenas travam pequenas guerras contra pequenos oponentes. Os grandes estados, por outro lado, que surgiram de pequenas guerras anteriores bem-sucedidas, são geralmente mais belicosos e travam não apenas pequenas, mas também guerras maiores contra grandes oponentes. E o maior e mais poderoso de todos os estados, os EUA e seus estados vassalos reunidos na OTAN, é o mais interessado em guerra e expansão. Isso por si só é uma razão para termos pequenos estados e descentralização.

Finalmente, quando um estado menor se depara com o ímpeto expansionista e a ameaça de um maior, ele basicamente tem duas opções: pode se submeter ou tentar manter sua independência. E para atingir esse objetivo e, assim, evitar a guerra ou minimizar o risco de guerra, há apenas uma receita promissora para ele: neutralidade. Não se interfere nos assuntos internos da grande potência e não a ameaça ou provoca. Mesmo uma grande potência não pode simplesmente invadir outro país. Para isso, sempre exige justificativa para sua própria população, que tem que arcar com o ônus de uma guerra. E quanto menor um estado, mais difícil é retratar seu comportamento como uma ameaça ou uma provocação. (Quem se sente ameaçado pelo Liechtenstein?!)

E esse imperativo de neutralidade se aplica ainda mais quando, como no caso da Ucrânia, você se depara com duas grandes potências com reivindicações rivais ao mesmo tempo e tomar partido de um lado significa uma ameaça adicional para o outro. A guerra atual é o resultado de múltiplas violações desta regra pelo governo da Ucrânia. Se o governo que chegou ao poder em um golpe orquestrado pelos EUA em 2014 tivesse se abstido expressamente de ingressar na OTAN e na UE, como a Suíça fez, e se tivessem permitido que as duas províncias de língua russa separatistas no leste do país pudessem se separar deles ao invés de terem sido intimidadas e aterrorizadas, e fosse reduzida a ameaça potencial para a Rússia, a catástrofe atual quase certamente não teria ocorrido.

Sob pressão constante dos EUA, combinada com sua própria audácia, a camarilha governante ucraniana não fez nada disso e continuou a exigir a adesão à OTAN. Isso teria estendido a presença militar dos EUA até as fronteiras da Grande Rússia, que havia sido declarada um estado inimigo. Portanto, ninguém poderia duvidar que o comportamento do governo ucraniano seria percebido pelo lado russo como uma tremenda provocação e uma séria ameaça. Não poderíamos saber exatamente qual seria o resultado real dessa provocação, que agora ocorre, mas poderíamos facilmente saber que o próprio comportamento ucraniano também tornaria mais provável uma reação russa como a que realmente ocorreu. A guerra na Ucrânia, como tantas vezes na história, não tem apenas um pai, Putin, mas vários. A histeria e a agitação anti-Rússia completamente unilaterais que atualmente se espalham no Ocidente são, portanto, não apenas factualmente incorretas, mas visam principalmente distrair seu próprio papel no drama atual. E pretende nos fazer esquecer que os Estados Unidos e seus vassalos da OTAN foram responsáveis ​​por muito mais baixas e danos de guerra nos últimos 30 anos do que a Rússia desde o colapso da União Soviética e atualmente na Ucrânia.

 

 

Artigo original aqui

5 COMENTÁRIOS

  1. agora o Peter Turgniev talvez faça um video refrutando o Hoppe e falando como ele defende o Putin e a Rússia e que é um falso libertário, libertário de verdade é o Peter que vive mamando políticos e comprando a narrativa da mídia mainstream e depois quer pagar de redpillizado.

    • Excelente comentário…

      Autor austríaco com diversas citações e seguidor de Mises >>>>>>>> YouTuber que fala sem dar qq referência…..

      Aprenda sempre a checar referências e mantenha sempre um algorítimo mental ponderando quais são as referências de cada afirmação e o que você lembra de bom e ruim de cada referência!

  2. Excelente Herr Hoppe!

    É interessante como até mesmo um libertário como Herr Hoppe, com todos os motivos – e legitimidade, para ficar de fora de um assunto concreto, tem uma posição clara e precisa sobre o conflito na Ucrânia. E muito parecida com vários autores que já foram publicados aqui – a maioria de não-libertários. Enquanto isso o Peter do visão libertária acha “compreensível” que a Ucrânia proiba o comércio de bitcoin, já que seu território foi invadido pela Rússia. Sera que o Peter não lê os artigos do Rothbard Brasil?

    “Pequenos estados ou gangues de bandidos apenas travam pequenas guerras contra pequenos oponentes”

    O sistema estatista e seus lacaios da imprensa exageram o poder de qualquer gangue de segunda categoria como se o seu poder pudesse ser comparado ao do estado. Uma casa na favela com piscina e algum conforto já torna-se uma vida luxuosa que leva o rei do crime de alguma coisa. Gangues que costumam aterrorizar uma pequena região da cidade fazem de reféns toda a população… é patético, considerando que o estado faz coisas milhões de vezes pior.