Dinheiro versus Moeda. Como os governos roubam riqueza

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A  maioria das moedas de mercados emergentes e desenvolvidos se desvalorizou significativamente em relação ao dólar americano em 2021, apesar da política monetária agressiva do Federal Reserve, o banco central dos EUA. Além disto, as economias emergentes que se beneficiaram da alta dos preços das commodities também viram suas moedas enfraquecerem, apesar das fortes exportações. Assim, a inflação de preços nas economias em desenvolvimento é muito maior do que os números já elevados registrados nos Estados Unidos e na zona euro [Nota do editor: no Brasil, por exemplo, a inflação de preços anual atingiu 10.25% em setembro deste ano e, em outubro, atingiu 10.67%].

A principal razão por trás disto é um problema de desvalorização da moeda global, que está tornando os cidadãos mais pobres.

A maioria dos bancos centrais em todo o mundo está implementando as mesmas políticas expansionistas do Banco Central Europeu e do Federal Reserve, mas os resultados estão afetando desproporcionalmente os pobres à medida que a inflação de preços aumenta (especialmente em bens e serviços essenciais), enquanto os desequilíbrios fiscais e monetários estão aumentando.

Muitas economias emergentes implementaram uma política muito perigosa de aumentar os twin deficits (déficits gêmeos: déficit fiscal e comercial) sob a ideia equivocada de que isto aceleraria o crescimento. Agora, as estimativas de crescimento e recuperação estão diminuindo, mas os desequilíbrios monetários permanecem.

Portanto, a maioria das moedas está caindo em relação ao dólar americano. As políticas implementadas pelos bancos centrais ao redor do globo são tão agressivas ou até mais do que as do Federal Reserve, mas sem a demanda global de que o dólar americano desfruta. Se as nações globais com moedas soberanas continuarem a jogar este jogo perigoso, a demanda local e internacional por sua moeda evaporará e a dependência do dólar americano aumentará. Mais importante ainda, se o Federal Reserve continuar a colocar seu status de reserva global em teste, todas as moedas fiduciárias podem sofrer uma perda de confiança e uma mudança para outras alternativas.

Os estados emitem moeda, que é uma promessa de pagamento.

Se o setor privado não aceita esta moeda como unidade de medida, meio de pagamento generalizado e reserva de valor, respaldada por reservas e demandas do referido setor privado, a moeda não tem valor e não é dinheiro. Em última análise, seria papel inútil.

São muitos os exemplos de moedas estatais que não são reserva de valor nem meio de pagamento geralmente aceito. Do sucre no Equador (que desapareceu) ao peso argentino ou ao bolívar da Venezuela, os exemplos na história são inúmeros.

Em Cuba, a inflação de preços está estimada em 6900% devido à falta de demanda de uma moeda sem valor, sem demanda real ou reservas para sustentá-la.

O Estado não cria dinheiro. Ele simplesmente emite um meio de pagamento (a moeda) usando a credibilidade da demanda do setor privado para emitir sua nota promissória. Como um emissor de dívida que perde credibilidade de pagamento, o valor desta promessa desaparece se a moeda não tiver garantia privada.

O Estado, portanto, não “cria dinheiro”. Ele cria um meio de pagamento que pode ou não ser aceito.

Mais importante ainda, o valor da moeda e seu uso não são decididos pelo governo. É decidido pelo último agente do setor privado que aceita a promessa de pagamento por assumir que a mesma manterá seu valor e sua aceitação como meio de pagamento.

Desta forma, quando um governo cria muito mais notas promissórias do que a real demanda local e internacional, o efeito é o mesmo que um default [Nota do editor: default se refere ao não pagamento, por exemplo, de um título de dívida do governo ou de uma empresa. O autor, portanto, afirma que a emissão de moeda acima da real demanda que a mesma possui seria o mesmo que um default, pois o governo estaria pagando os títulos com moeda desvalorizada. Os credores receberam o dinheiro de volta, mas este vale muito menos do que antes, possuindo um poder de compra menor.] massivo. O governo está simplesmente empobrecendo os cidadãos (que são forçados a usar a moeda) e destruindo a credibilidade do valor das notas promissórias.

Quando um Estado cria uma moeda sem um lastro (uma reserva) ou demanda real, ele destrói o dinheiro.

Quando o governo emite moeda (promessas de pagamento) que não são uma reserva de valor, nem um meio de pagamento geralmente aceito, nem unidades de medida, ele não apenas NÃO cria dinheiro, mas o destrói ao afundar o poder de compra dos cidadãos cativos pobres que são forçados a aceitar suas notas e pequenos pedaços de papel.

Quando o governo destrói o poder de compra de sua moeda, ele está roubando cidadãos cativos, pagando-os em uma moeda que vale menos a cada dia. É um corte massivo de salário para os desfavorecidos.

Isto é o que estamos vendo em muitas nações em todo o mundo: uma enorme redução de salários e poupança criada pela intervenção do governo através da política monetária para seu próprio benefício. Os governos se beneficiam da inflação porque pagam suas dívidas em uma moeda de valor decrescente. Mesmo em países desenvolvidos com moedas relativamente estáveis, a inflação é um grande benefício para os governos que arrecadam receitas mais altas de impostos monetários (salários, lucros e impostos sobre vendas) … e um grande prejuízo para poupadores e para salários reais.

Alguns dizem que os trabalhadores podem se beneficiar porque o crescimento dos salários aumentará junto com a inflação. Isto é simplesmente incorreto. Os salários, na melhor das hipóteses, podem aumentar com o IPC (Índice de Preços ao Consumidor), que é uma medida muito ruim de inflação de preços e é criada por órgãos do governo para reduzir a inflação real em uma média de bens e serviços. No entanto, mesmo se você considerar o IPC, a maioria dos trabalhadores nem mesmo vê um aumento de salários que compense este aumento. É por isto que os salários reais médio estão caindo nos Estados Unidos.

Aqueles que dizem que o Estado “cria dinheiro e gasta” e que, para financiar o setor público, só tem de criar o dinheiro necessário (porque será aceito pelo resto dos agentes econômicos) deveriam ser obrigados a receber seu salário em pesos argentinos para ver o que é bom.

 

 

Artigo original aqui

Tradução e edição de André Marques.

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente artigo!
    Uma história curiosa sobre a moeda de curso forçado da máfia estatal.
    No jogo River X Fortaleza, houve um suposto caso de racismo de um torcedor argentino. Mas o que eu li em um forum dos hinchas del River foi sensacional e notadamente austro-libertária. Alguns argentinos reclamaram que a torcida do Fortaleza pegou notas de peso e fez de papel picado para atirar nos argentinos, já que os visitantes ficam na arquibancada superior do Monumental de Nuñes – hoje em dia acho que todos são assim, mas eu sou do tempo que visitante ficava embaixo também. Este fato em si já demonstra que a moeda estatal é mesmo papel pintado. Mas eu achei antológica uma resposta de um torcedor do River:

    “Parem de ser cínicos, o banco central faz a mesma coisa com a nossa moeda e ninguém reclama….”

    Para quem acha que futebol é coisa de alienado hahahaha